09 março 2012

68/365
Valeriana

Depois da novena, escrevi ao meu menino. Espero que lhe entreguem a carta. As pessoas que circulam por aqui não parecem confiáveis. Prezo muito pela confiança. "Filho, leia sozinho. Tire-me daqui, por favor. Há vermes por todos os lados. Aqui é bem sujo. Te amo, se cuide, te espero. Mamãe". Sim, sim, imagino que vão entregar. Hão de ser honestos. Conto os dias pra voltar pra casa.

08 março 2012

67/365
Xantipa

Substituta de trapezista? Eu merecia mais. Pratico trapézio desde os cinco anos de idade, todo mundo sabe. Tenho mais técnica, mais desenvoltura e até mais simpatia. Meu corpo é mais bonito, inclusive. Mereço continuar no apoio, com pequenas aparições coadjuvantes? Da bilheteria eu até gosto, mas odeio organizar filas, orientar os artistas nos bastidores – “Crezia, mudar a maquiagem. Dalto, falta o colete” – e também já não tolero auxiliar o acrobata, principalmente quando tenho que ajudá-lo a se vestir. Seu corpo fede. Substituta!? Vão pro inferno. Continuo nas minhas múltiplas subfunções. Porque eu não vou dar pro palhaço, pro mágico, pro domador, pro motoqueiro do globo da morte.

07 março 2012

66/365
Hélia

A mão gelada e dura, que muitas vezes foi algoz de mímicas ameaçadoras e até de tapas, agora deslizava suavemente por dentro da minha blusa, até o bico do meu seio esquerdo. Não dissemos nada. Confusa, me deixei arrepiar enquanto assinava veementemente os papéis do divórcio. Estávamos no fórum. Os dois advogados, depois das discussões calorosas e, finalmente, do acordo, nos deixaram a sós. E o filho da puta do Rafael se levantou e veio tocar o meu corpo. Como se fosse meu dono. Como se ainda quisesse me mostrar que me conhece inteira e sabe me amolecer. Deixei.

06 março 2012

65/365
Sueli

Minha mãe morreu ontem. Deixou três irmãos muito mais novos para eu criar: Cássio, Acácio e Verônica. Ao sair do hospital com essa notícia, não sabia o que fazer. Não sabia o que providenciar para o enterro dela. Não tinha dinheiro suficiente para ir à casa da minha amiga buscar os meninos e voltar para casa. Ou deveria voltar ao hospital? Que papéis eu deveria levar e para onde? Não tenho crédito no celular. Além dessa amiga, que nem é tão próxima assim, não tenho para quem ligar. Aos dezoito, três filhos para banhar, dar de comer, acompanhar o desempenho na escola. Uma mãe para enterrar, pagar um enterro. Ganhar dinheiro pra tudo isso. Mas o cemitério não espera. Quem me emprestaria dinheiro pra isso? Que pessoa ou que banco? Eu não tenho emprego. Estudo em escola pública, moro na periferia, ando de transporte público, não tenho bens, minha casa é alugada. Só minha geladeira é nova, que o governo deu. E minha mãe morreu. E eu tenho Cássio, Acácio e Verônica pra criar. Tenho que ser a mãe agora. Será que vou ser despejada?

05 março 2012

64/365
Magda

Tenho poucas decisões a tomar, não me faltam dinheiro e amor. Minha família é estável. Nunca usei e nunca tive amigos que usaram ou usam drogas. Não há alcoólatras em meu raio de relacionamentos. Meus colegas de trabalho são bacanas, minhas contas estão em dia, meus filhos vão bem na escola. Meu marido é amoroso, mesmo depois de doze anos juntos, e meus amigos são fiéis e compreensivos. Vou à igreja regularmente. Comungo. Não tenho muitas rugas, não sou gorda, não sou feia, não cheiro mal, não tenho traumas. Mas existe algo que eu não tenho. E eu não sei o que é. E procuro não procurar saber, mas essa ausência me incomoda. E me faz chorar convulsivamente todas as noites.

04 março 2012

63/365
Edna

Vestiu roupas pesadas, apesar do calor, para economizar espaço na mala. Certa vez, ouviu como uma espécie de conselho que nós só devemos possuir o que podemos carregar. Não conseguia parar de pensar que possuía um lar e não conseguiu encaixar essa conclusão no conselho. Debruçou-se numa mureta com boa vista em Santa Tereza. Talvez calculava para onde iria. Talvez dava a si um momento para ter pena dela mesma ou para lamentar qualquer coisa. Agradeceu por não sentir dores, por estar saudável, por ter um pouco de dinheiro e por ter um celular com fones de ouvido. E partiu.

03 março 2012

62/365
Germana

É uma harpia. Mede 93cm, pesa 7,3kg, tem penas brancas na cabeça e cinzentas no corpo. Gola escura e imponente. Elegante. Está há muitos minutos à espreita. Um macaco se aproxima. É esperta, inteligente. Prepara o bote. Visualiza o sucesso, com paciência e malícia. Belo banquete. O pobre primata, inocente, chega, galho por galho. Belisca sementes, se admira com a paisagem, saltita. O calor é insuportável. Sorrateira e aguda, ela o surpreende e - zap - agarra-lhe as orelhas como um macho safado merece. Unhas enormes. Ele enlouquece, mas ela parece piedosa - é rápida. Devora-o.

02 março 2012

61/365
Liana

Um dia a minha bunda vai cair. Minhas coxas e braços serão ossos e pelancas. No meu pescoço, papada mole. Minha pele, sem viço, não vai exalar um cheiro natural bom. Rugas vão esconder a juventude que talvez ainda vá existir nos olhos, nos sonhos, na imaturidade de decisões, na inquietude. Só vou despertar o interesse de uma ou duas crianças curiosas, que quererão ouvir histórias e tocar meu corpo em predecomposição. E é possível que eu morra sem mesmo me lembrar dos nomes das pessoas - num autismo senil -, sem ser capaz de sentar e rebolar no pau do amor da minha vida ou sem conseguir fritar um ovo para o meu filho ou rir da piada de uma amiga tão espirituosa.

01 março 2012

60/365
Mônica

situação 1
M - Paulo, hoje ouvi na Band News um certo "Paulo Bittar" opinando sobre o trânsito na saída da Candangolândia. Às 8h30. Era você?
P - Claro que não, chefa. Foi coincidência.

situação 2
M - Gente, eu adoro a Band News. Escuto todo dia. Queria participar dessas dicas que os ouvintes dão sobre trânsito.
P - Também adoro. Todo dia escrevo um e-mail falando como está o trânsito na saída da Candanga, onde moro. Sempre lento... terrível.

29 fevereiro 2012

+1
Cândida

Acordou às quatro. Um dia desafiador. Fritou coxinhas, risoles e quibes. Poucos, para começar. Andou até o espaço do seu Caetano. Recebeu olhares furiosos: vasilha, cara dela, vasilha, cara dela, vasilha. Recuou cerca de um metro. Abriu a banqueta e pôs a vasilha sobre as coxas. Seu Caetano contrariado - mocinha insolente, safada, quer melar o meu negócio. O primeiro freguês - bom dia, seu Caetano; cafezinho. E, hmm, ele olhou para a esquerda. Ela abriu a vasilha. Ótimo. Escolheu um quibe. Voltou para perto do seu Caetano para jogar conversa fora. Mais um freguês; mais um; e outro; e outro.

Alguns pediam mais café para acompanhar o salgado. Ou café com leite, mais caro. E, aos olhos do seu Caetano, a moça insolente passou a ousada, corajosa e, ele estava rendido, parceira. Avaliou a alegria dos fregueses - é sua filha? E ele tendia a responder que sim porque seria um gênio se, sozinho, tivesse tido essa ideia: complementar o seu cafezinho com algo de comer. Mas, às nove e meia, recolheu seu banco e a mesinha e apenas deu um meio sorriso para a moça. Era talvez o seu modo tacanho de dizer obrigado. Amanhã perguntará o seu nome.

28 fevereiro 2012

59/365
Alice

No buço, pequenas gotas. Quando dava uma pausa no falatório, soprava na direção dos seios e me ouvia com toda a sua atenção. Prendeu os longos cabelos, molhados de suor, com dois grampos. As axilas também estavam úmidas. Era apaixonante vê-la falar de si e de sua vida natureba, coisa que nunca me interessou. Perto dela, eu esquecia carne e refrigerante e chegava a ter desejo de provar aveia, leite de soja, biscoitos de chuchu. Virava o rosto, alongava o pescoço. Esguia, iogue. Senti vontade de tocar aquela nuca. Beijar. Lamber o suor. Mas Alice não era uma mulher. Era uma fonte, uma entrevistada, um ícone. Em casa, demorei a conseguir escrever de modo isento, neutro. E passei a sonhar com aquela tarde todas as noites. E para sempre.

27 fevereiro 2012

58/365
Joana

E eu sou besta? Dei a mão assim e vi que ele não ia parar. Acelerou, menina. Eu fiz que ia me jogar na frente e ele pisou no freio, um barulhão. Aí eu atravessei bem devagar. E ele ficou puto, foi me xingando. "Velha louca". E eu sorri. "Velha louca, vai pro asilo". "Vou, mas você vai comigo", eu respondi. A lei não existe? Não é clara? Os carros têm as prioridades deles. Na faixa de pedestres, é dos pedestres. Se eu balancei a mão, era a minha vez, ou não era? Pois ele não queria parar. Aí eu pulei assim, sabe como é? Fiz que ia, mas não fui, porque eu também não sou louca de me jogar na frente de um carro. Mas foi bom pra ele se assustar. Aí ele parou, menina, mas puto. E gritou "Velha louca, vai pro asilo". E eu: "Vou, mas tu vai comigo". Porque a gente não pode deixar eles pensarem que podem tudo. Não. Nesse país tem lei, minha filha. O pedestre tem prioridade. Fiz o sinal e ele acelerou. Como é que pode? Aí eu avancei. E ele pá - freou. Mas foi com tudo. Cantou pneu. "Velha louca". E eu sorrindo.

26 fevereiro 2012

57/365
Gabrielle

Não me lembro de ter existido um tempo sem balé. Pendurada num dos peitos de minha mãe, acompanhava atenta os movimentos unilaterais dela, ensinando crianças e moças. Suavidade, doçura, beleza. Não tive oportunidade de me apaixonar por essas coisas - um balé para espectadores. Minha vida era a de bastidores, de coletes costurados no corpo, de maquiagem em andamento para cobrir espinhas enormes, de toucas de meia de seda, de pés feridos e calejados. Gente ensaiando dia e noite, gente chorando de dor ou de desespero, gente brigando - geralmente minha mãe, distribuindo ordens. Antes de saber andar, correr, brincar, eu já sabia dançar. E com sapatilha de ponta. O pescoço sempre alongado, peso controlado, cada mudança de braço, rodopio, estiramento de perna devidamente controlados e cronometrados. Contabilizo pouquíssimas vezes que me permiram comer chocolate ou brincar num parquinho de praça. Além disso, não sei o que faria se precisasse depositar um cheque no banco ou comprar uma passagem aérea. Sempre existiram assessores pra isso. Não acredito em deus, nunca fui a igreja alguma; sei fazer coques perfeitos, me maquiar e chorar sozinha, depois de cada apresentação e antes dos aplausos finais.

25 fevereiro 2012

56/365
Maria Ruth

Fará vestibular para pedagogia e será aprovada. Aluna dedicada, será convidada a participar de um grupo de pesquisa sobre educação inclusiva. Apresentará trabalhos em congressos, escreverá artigos, terá reconhecimento. Mas não se casará. Conhecerá um rapaz e terá um namoro de duração mediana, que acabará em um outono. Sofrerá, mas se dará conta de que nunca gostou dele. Será professora e pesquisadora requisitada. Descobrirá uma forma de inclusão inovadora, com bons resultados. Dará palestras no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos. Em paralelo, esperará e procurará o amor da sua vida. Pro resto da sua vida. E ele não virá.

24 fevereiro 2012

55/365
Virgínia

Acordou mudada porque dormiu dizendo para si que ia mudar. Disposta, separou calças largas, tênis e grandes vestidos ou blusões, dentro dos quais escondiam-se bunda, coxas, seios parisienses. Tudo muito exuberante. Experimentou o único - e quase novo - sapato de salto em verniz preto. Andou um andar vegetal. Sorriu de si, sem espelho. Quanto às bijuterias, resolveu que precisava de algumas novas. Jogou fora minibrincos, colares coloridos, prendedores de cabelo, bolsas, meias infantilizadas, discos, fotos e livros, livros, livros. Comeu uma maçã, catou uma carteira charmosa; uma camisa masculina ganhou um cinto rude e virou um vestido curto. Calçou o sapato de verniz. Soltou os cabelos. Foi andando - até que se acostumasse lidaria bem com olhares incrédulos - ao trabalho para pedir demissão. No caminho, uma loja de acessórios e uma cafeteria. Eis a nova Virgínia.

23 fevereiro 2012

54/365
Amanda

"A senhora não vai contar pra ninguém", mas a paciente ao lado já tinha ouvido tudo e a velha pintada fez um sinal para a atendente. Viu que não adiantou e começou a se justificar. "Eu preciso, Amanda, eu preciso. A sua colega ali foi que errou da outra vez". Em seguida, pediu duas folhas em branco. Amassou uma em volta do que parecia uma calcinha úmida, reforçou com um elástico e pôs na bolsa. Pegou e guardou algumas vezes os documentos, mostrou pra Amanda. "Olha aqui a minha idade. Coloque aí 'uso contínuo', senão vou ter que voltar aqui de novo". Mostrou também o cartão da Unimed. A moça obedecia e tentava ser discreta. Imprimiu o novo receituário. Forjou uma assinatura qualquer acima do nome de um médico com CRM, que talvez até exista. "Agora vá embora e não volte mais", sussurrou. A paciente ao lado com os olhos vidrados. A velha enrubesceu-se: "Amanda, eu também fico muito contente em revê-la. Obrigada, viu, querida. Por isso que eu gosto de ser atendida só por você". Foi. Deixou a segunda folha em branco intacta sobre a mesa.

22 fevereiro 2012

53/365
Milena

Tudo tem explicação. Ele queria dinheiro - pensão, seguro - e paz. Talvez. Agora, nem um, nem a outra. Nem a mulher que escolheu como companheira, nem a amante-motivadora, nem o irmão-cúmplice. Vigias. Ele se tornou perigoso, psicopata, assassino cruel. Uma vida amena, batalhada. Tínhamos nós dois, um podia contar com o outro. Brigávamos, mas quem não briga? Tomei banho, me vesti. Ele sempre fazia o café muito cedo. Voltou para o quarto e eu chamei por ele, já abrindo o portão. Não consegui entrar no carro. Me atingiram e eu nem tive tempo de olhar a cara do criminoso. Mas escutei - ele pediu, orientou, sussurrando: "aqui no ombro, ó, aqui". Depois os gritos, a encenação. A dor que eu senti se transformou em nada. Nem pena, nem ódio. Tudo tem explicação.

21 fevereiro 2012

52/365
Giovanna

Cansei de ver meus pais brigando. Mas isso não me atinge, sou indiferente. Sou simpática, cumprimento as pessoas educadamente. Me concentro na minha vida, nos meus cadernos novos, escola nova, colegas novos. Meus pais me dão o que eu quero e até o que eu nem sonhei em pedir. Não preciso ter desejos. Mal o ano começou, já ganhei todas as atenções, professor particular de matemática e física e promessas de ir a Gramado em julho e Disney em janeiro. De novo. Falo inglês. Ainda não menstruei, não me interesso por namoros. Converso com meus amigos sobre adesivos, desenhos animados e coisas de escola. Ouço músicas que tocam, não escolho, não tenho um estilo preferido, nunca comprei nada no itunes. Em casa, nada faz sentido. Durmo e como. Durmo muito e como muito. Meus pais sorriem muito. E, por mais que eu erre - se é que eu erro -, o amor que recebo não muda.

20 fevereiro 2012

51/365

Maristela


Num programa de TV, desses que promovem encontros, foi dispensada. Saiu sem pretendente. Em festas, shows, ensaios, volta para casa acompanhada ou sozinha, meio a meio. Viveu com Jander no Alto do Cabrito até dois anos atrás, mas terminou o namoro e, desde então, nada. Só pequenos encontros com homens decadentes e feios. Os búzios não se pronunciam. Uma justificativa que usa para si não tem a ver com beleza, mas com idade. As rugas e manchas impressas na face combinam com a flacidez de pescoço, braços, barriga, bunda, pernas. O mundo anda muito focado na juventude, conclui. Mas no carnaval, na sua cidade natal, acompanha maquiada, enfeitada, alegre e confiante os Filhos de Gandhy. Ganha colares e beija de língua homens enormes, bonitos e cheirosos, com todo o amor que guarda dentro de si.

19 fevereiro 2012

50/365
Ariadne

Passou no concurso dos Correios. Passou a entregar cartas, uniformizada, e a ter dignidade, tíquete, plano de saúde. Mas o que adiantou? Passou por uma quadra e torceu o pé, rompeu tendões. Passou pelo Santa Lúcia, Santa Luzia, Santa Helena. Passou horas e horas na espera. Procedimentos que precisam ser autorizados. Calção. Passou cheque sem fundo. Tenho dor. Cruzou os braços e foi entrevistada, com o pé inchado. Passou no DFTV.

49/365
Marcela

Estreou na Mocidade do Gama, na bateria. Dedicada, filha da cidade, era respeitada e admirada na comunidade. Criava dois meninos sozinha, dona de casa, rainha do lar. E era envolventemente carnaválica. Preparava-se o ano inteiro, costurava fantasias. Tocava surdo, repique e bumbo. Mas descobriram a moça. Roupas grandes, largas pra quê? Bumbum. E, em 2012, de sandálias novas, virou rainha da bateria.

17 fevereiro 2012

48/365
Dália

Era lindo – duas covinhas no rosto, ao sorrir. E eu sorria. Gargalhava. Duas covas. Eu e meu amor. Tudo pago, porque a família, apesar de ser família, não tem nada com isso. Canto direito do cemitério sem canto, espiralado. Onde se vê o pôr do sol. Sou romântica, sempre fui. Por isso vacilo. Parece que careço de coragem pra apertar o gatilho. O filho da puta eu já matei. Sobra apreço, medo, autoestima. Falta dar cabo de mim.


47/365
Cristina
 
Anunciava pelo megafone: “este carnaval será diferente, pessoal. Vamos ajudar a salvar as nossas crianças!” Era o mesmo anúncio de todo ano e a comunidade se perguntava o que seria diferente, afinal. Mas ajudava. Um doava chuchus, outro cenouras, macarrão, costelinha, batata, couve. A sopa das crianças que vagavam pela Sé era o que dava sentido ao carnaval de Cristina. Ela mesma mexia o panelão, arrumava tudo, dirigia a kombi e a equipe de distribuição. Na madrugada, enquanto se viam foliões bêbados e desorganizados voltando dos barracões para casa, ela abordava meninos e meninas na praça. Oferecia sopa e amor.

15 fevereiro 2012


46/365
Eugênia

Ele sai antes de mim, deixa o café pronto às 4h. Vai treinar. O time está na série A2 do campeonato pernambucano. Atrasa salários, não fornece alimentação durante os treinos nem dinheiro pro ônibus, nada de massagista, médico, equipe técnica. Mas ele está lá, firme, por paixão e compromisso. Chega por volta de meio dia, dá o almoço dos meninos e leva pra escola. Volta, come e dorme. E eu, o dia todo na rua. Vendo picolé. Às 7h pego o carrinho e vou pra Boa Viagem. Já não agüento minha própria voz, ritmada: “olha o picolé. Tem de uva, coco, morango, graviola, castanha, nata, chocolate e limão”. Quando chego, ele está me esperando, banhado, cheiroso. As crianças limpas, jantando e assistindo à novela das sete, o dever feito, prontas pra dormir. Enquanto eu janto, ele me conta como foi o treino, cheio de esperança de que, este ano, eles sobem para a A1. Sorrio e confirmo, sem acreditar.

14 fevereiro 2012


45/365
Rafaela

Custava a dormir. Pela TV a cabo, assistia a programas bizarros sobre gente bizarra que faz coisas bizarras, como colecionar unhas, arrancar tufos de cabelo, lixar os pés até ferí-los, mascar embalagens de balas ou chicletes. Suas pequenas manias de limpeza, o tique de passar os dedos pelas axilas e cheirá-los constantemente, o fato de gostar de guardar tampas de garrafa pet, de cheirar gás de cozinha e de telefonar para pessoas que já passaram pela sua vida, fingindo ser vendedora de algum produto, eram irrisórios diante do que se apresentava nos programas. Essa conclusão lhe proporcionava alegria e alívio. Por isso era a maior espectadora dessas produções. Por isso não dormia. Por isso era normal.

13 fevereiro 2012


44/365
Tathyanne

Era panela batendo, vizinha cantarolando (até afinada) e esfregando laje. Dez e meia da manhã. Segunda-feira. Lavou o rosto, ajeitou o mega hair. Chupou uma manga. De shortinho e top, sentou no batente da porta com acetona, algodão e esmalte pra retocar as unhas vermelhas. Cabeça longe. Respondeu com cara de nojo pra um ou dois “aêê, gata, que saúde” e entrou pra esquentar o almoço. Tomou banho, comeu, escolheu a calça clara com glitter, juntou as pulseiras do mesmo tom da camisa do uniforme, plataforma branca, rímel, gloss. Revirou-se na frente do espelho. Ajeitou o piercing. Gostou do resultado. Pegou a bolsa e desceu. “Copa/Leme/Botafogooo. Entra aí, princesa”. A mesma cara de nojo. Tirou o chiclete da boca, com um cuidado sensualizado. Cruzou as pernas. Encostou a cabeça na janela e lembrou do baile com o Maicon ontem. Fechou os olhos pintados de azul, sorriu e passou as mãos pelas coxas, lembrando das mãos dele. Até esqueceu o calor.

43/365
Otília

São quarenta e nove anos juntos. Ele já me aprontou tanta coisa, mas eu não guardo mágoa. Certa vez, achando que podia tudo, me arrumei e, antes de ele chegar do serviço, levei as crianças ao parquinho de diversões, ao lado da igreja. Ele foi atrás de mim. Me levou de volta para casa, sem violência. No caminho, apenas disse: parece uma puta com esse batom. Ao chegar em casa, pus os meninos na cama e chorei. Demorei anos para digerir essa culpa. Tive dificuldades para trabalhar fora, pagar meus bordados, minhas coisas. Agora ele está aqui deitado ao meu lado, entubado, mas consciente. Eu lhe conto histórias, falo do passado. O tumor, na próstata, está quase do tamanho de uma laranja, mas não faz parte dos nossos assuntos. Quando narro algo engraçado, como no dia em que ele despejou um balde de água suja e pano de chão na própria cabeça, ele sorri com a boca imóvel e os olhos brilhantes. E me retribui as memórias, as preces e a dedicação com uma lágrima.

42/365
Kátia

Quero anunciar que estou de partida para a Alemanha. Ensaiei. Metade deles sequer sabe que língua se fala por lá. São meus dezesseis primos, nove tios, três sobrinhos, pai, vó. Todos reunidos de novo, com duas panelas de galinha caipira, polenta, arroz, pão de queijo, farinha. Em uma primeira tentativa, elevei a voz, mas foi impossível. Só vovó me olhou e duas primas. Uma delas já sabe da novidade. Não vão entender. Sempre estudei música, mas ninguém foi muito de me apoiar. Com razão. Desde criança, participo de projeto social e toco violino. Mas sempre tive que estudar seriamente e cheguei a fazer cursos de auxiliar de enfermagem e recepcionista para garantir o sustento. Música é coisa de desocupado. Meu pai tentou viver de música na juventude, e até hoje canta muito bem, mas virou exemplo de fracasso. E eu uma reles iludida com esse universo. Mas ontem recebi a notícia de que fui aprovada num teste de bolsa para estudar lá fora. Alegria e aflição. Acho que vou esperar a prece antes do almoço. Vó há de me abençoar.

10 fevereiro 2012

41/365
Rebeca

Cabelos cheios e homogeneamente cacheados. Seriam considerados bonitos e sensuais se não fossem completamente brancos ou se não emoldurassem um rosto sujo e inexpressivo. Vaga pela Asa Sul inteira, mas é vista também no Setor Bancário, na Rodoviária, na Esplanada. Nada diz. É completa e saudável: tem mãos, pés – os dois. O tempo inteiro descalços e com unhas enormes, dando um aspecto de garras. Mas não anda, flutua. Sem pressa. Uma saia de tapete, amarada com um pedaço de cortina, uma camisa de botão amarela clara, uma ou duas sacolas de supermercado penduradas na mão. Elegante. Não fala sozinha, não xinga, não se envolve com outros, não rouba, evita pedir moedas. Apenas existe. E impõe à cidade limpa e planejada sua imagem aterrorizadora.

09 fevereiro 2012

40/365 
Lívia

- Perguntas fáceis, básicas: cores e estádio.
- Vermelho, branco e preto. Elzir Cabral.
- Duas alcunhas.
- Ferrim e Tricolário, entre várias outras.
- Uma torcida organizada.
- A minha: Falange Coral.
- Tranqüilo, né? Agora é pra valer, moça. Quantas vezes campeão cearense?
- Nove. E vinte vezes vice-campeão.
- Ídolo dos anos 80.
- Gesiel.
- Já participou do Brasileirão?
- Sim, seis vezes na primeira divisão; oito na segunda; doze na terceira. Melhor colocação em 1981, em 27°.
- Admitida.
Os gritos dos amigos, também torcedores, pareciam de gol. Levantaram Lívia, que sorria e chorava. Abraçou o marido, beijou os filhos. Que vitória! Conseguira ser admitida no Conselho Consultivo do Ferroviário, seu time. Em entrevista, declarou que trabalharia para realizar o seu maior sonho, com conhecimento, paixão e simpatia: chegar à presidência do clube. Primeiro passo dado.

08 fevereiro 2012


39/365 
Telma

Aos 24 anos, quando se preparava para engravidar, descobrira um câncer de colo de útero. Sempre cuidou da saúde, praticava vôlei, consultava periodicamente os médicos, menstruação regular e pouquíssimas gripes registradas ao longo da vida. Quimioterapia, retirada do útero. Curou-se. Programas de TV a procuraram, jornais, revistas. Em todos, recuperada, aparecia feliz e otimista – era o “exemplo” tão cobiçado como matéria prima para reportagens longas e positivas. Muito bonita e jovem, teve, com a tragédia, seus minutos de fama. Dois anos depois, fizeram questão de esquecê-la. Separou-se do marido, que queria ser pai, os cabelos cresceram fracos e opacos, engordou 64 quilos. Tem a certeza de que o câncer veio para matá-la, mas não foi capaz. Ela mesma pretende resolver isso. Em algumas horas.

07 fevereiro 2012

38/365
Leila
 
Ir à escola não era prazeroso como diziam que deveria ser. Xingava baixinho para que a tia, deitada na cama ao lado, não ouvisse: caralho. Lavava o rosto, reforçava o desodorante, escovava os dentes, ajeitava o cabelo duro como podia. Já de uniforme, preparava o café, cortava o pão, passava manteiga e sentava-se à mesa. A tia, ao acabar de rezar o terço, unia-se a ela. “Que aulas vais ter hoje?”. Matemática, física, português e geografia. Odiava todas essas e mais as outras. Odiava ir à escola. “Vamos ver se este ano não reprovas”. Consentia. Pegava os livros e cadernos e saía. No ônibus, lamentava. A ela bastava continuar a limpar a casa da tia, lavar as roupas, regar as plantas, ir à missa aos domingos. Não precisava de estudo para isso, mas a velha fazia questão. Um vestido novo costurado por ela mesma por mês e alguns trocados para picolés e, eventualmente, uma revista adolescente eram os luxos que preenchiam seus planos futuros. E só.

06 fevereiro 2012


37/365 
Susana

Exibia um vestido de colorido antigo. Piaçava e sabão caseiro. Esfregar o chão cimentado da casa era a sua maior alegria, aliviava tensões. Mas já não havia tensões. Ao longo dos anos, fora se tornando a única dona do apartamento térreo de dois dormitórios, banheiro, sala, cozinha e esse quintalzinho de lambuja, em La Habana Vieja. Amava o quintalzinho – ali fizera uma pequena horta. Desligava a mangueira e cantarolava, mal podendo esconder – de si – o sorriso. És mi casa, mi casa. O peso dessas palavras fazia uma vibração forte no peito, como se tambores fossem surrados ali mesmo. Conseguira um pouco de tinta para o quarto das crianças, ganhara de uma vizinha dois jarros pesados, onde plantaria rosas. O velho rádio ligado competia com o “tcha tcha tcha” da vassoura. E Susana misturava os movimentos de limpeza com o rebolado suave da nueva trova que escutava.

36/365 
Odete

O seu ídolo da juventude estava em estado grave num hospital de Nova Lima. Ela, uma barata tonta pela casa. Bebia água, ligava a TV, desligava. Ora queria notícias, ora queria evitar o pânico. Respirava, conseguia sentar-se. E logo recomeçava o vai-e-vem. Precisava fazer alguma coisa. Internet, notícias, traqueostomia, infarto. Telefonou para várias empresas de ônibus, fora do horário de atendimento. Queria ir até onde ele está, mas pra quê? Levaria flores? Calcinhas? Chorava. Uma voz lhe dizia “as pessoas morrem um dia”. Mas não ele, não o melhor cantor romântico de todos os tempos, o homem mais feio e sensual que já lhe cruzara o caminho, ainda que ela nunca tenha conseguido ir a um show (quando ele esteve em Cuiabá, ela caíra de cama. Teve dengue). Não conseguia dormir nem conter as lágrimas. Resolveu masturbar-se. Esperaria amanhecer para tentar comprar as passagens.


35/365 
Luzia

Enquanto dormia, sentiu uma dor terrível. Talvez no peito, talvez no baixo ventre – não conseguia identificar. Era sonho. Remexia-se. Acordou Jonas, que a viu suar e voltou a dormir. Via-se deitada numa maca, com médicos em torno de uma lâmpada tão aguda quanto a dor. Parou de se sacudir, experimentando uma espécie de alívio por estar nas mãos de profissionais. Mas essa sensação logo se dissipou. Abriu os olhos e viu-se no próprio quarto. Identificou o local da dor quando sentiu que sangrava muito entre as pernas. Pálida, lembrou-se que estava grávida e concluiu que perdia o bebê. Olhou para Jonas. Não conseguiu chamá-lo.

03 fevereiro 2012

34/365
Bruna

De repente, passou. Até ontem, durante muitos anos, já chegava ao cabeleireiro chorando, certa de que não iria gostar de alguma coisa. “O que aconteceu, minha linda?”, ele perguntava. E eu respondia “nada, querido, tpm”. E era tiro e queda: um lado ficava mais curto, a franja enrolava, as camadas davam um volume exagerado e eu saía aos prantos. Algo inconsciente saiu ou algo consciente entrou. Ou ambos. Ou ainda algum planeta se alinhou com outro e, cosmicamente, me lançaram influências. Boas influências. Hoje, cheguei ressabiada a um novo salão. Fui muito bem atendida, me ofereceram café e suco. “Essa moça aqui vai fazer as suas unhas”. Nunca vi. Em outros tempos, eu já anteveria cutículas feridas, bolinhas de ar no esmalte. Mas não. Sorri durante todo o serviço, conversei com a moça. Agora, vejo uma única unha lixada em diagonal. E acho graça.

02 fevereiro 2012

33/365 
Iara

Não me conformo com tanta gente reclamando da vida. Difícil é ser sereia nos dias atuais. Sair cedo do mar, pra não ser vista, apesar de querer dormir mais ou fazer hora na cama, ver um programa educativo às 6h da manhã. Esperar o rabo desaparecer, tomar banho de água doce pra tirar o cheiro de mar, passar muitos cremes, vestir uniforme, meia calça, sapato, escovar os longos cabelos e os dentes, usar perfume. Pegar ônibus, enfrentar um trânsito infernal até o Centro, caminhar rumo ao escritório. Às vezes, os colegas fazem questão de não responder ao meu “bom dia” – eu chego cheia de alegria, apesar de tudo. É terrível. E não é exatamente prazeroso receber representantes de empresas, arquivar documentos, atender telefone, ir ao banco, almoçar, voltar, trabalhar mais um pouco. Mas chega o fim da tarde. Recuso eventuais convites para um chope. Troco de roupa, dou uma corridinha na praia. Me dispo, coloco meu colar de pérolas e me despeço do sol, da areia. De joelhos, agradeço: odoyá, minha mãe. Olho em volta, não vem ninguém, mergulho. A caminho de minha casa, nado feliz e rapidamente para não perder a novela.

01 fevereiro 2012

32/365
Cecília

Pedante e orgulhosa. Lançava suas ordens à rua, porque empregados não tinha há muito tempo. Ela mesma lavava as camisolas de seda à mão. Usava as peças o dia inteiro. O mato à frente do casarão crescia e a pintura da fachada descascava. Rude, fingia para si que relia os clássicos. Um a um, retirava-os da biblioteca, soprava o pó e folheava. Enchia de água da torneira uma taça de champanhe. Quando aparecia algum dinheiro, comprava uvas, cerejas. Os parentes ajudavam como podiam. Almas boas que eram, relevaram rapidamente os coices que Cecília distribuiu por anos e anos e levavam frutas, pães, material de limpeza e higiene. Ela os recebia com indiferença. Vez por outra, pagavam uma conta. Puxavam assunto e eram brindados com a ausência da austera falida. Cecília definhava. Logo morreria, certamente. Mas, orgulhosa e pedante, jamais sairia de seu palacete decadente ou de seu imaginário pedestal.

31 janeiro 2012

31/365
Adelaide

Acha que deveria ser indenizada pela quantidade de gordura que inala, na padaria. Já às sete da manhã, são inúmeros os trabalhadores e vagabundos que pedem coxinhas, risoles, quibes, enroladinhos de salsicha, pastéis de queijo e de carne, cachorro quente. E muito açúcar: coca cola, refresco artificial. Enjoa. Algumas vezes teve que correr ao banheiro, mas não chegou a vomitar. Por enquanto. Quando tira o uniforme, à tarde, sente nojo. E o pior é que tem que usá-lo no dia seguinte sem lavar. A gerência autoriza apenas duas lavagens por semana, para não danificar a aparência do tecido. Tudo deve estar impecável. A imagem que o cliente tem do lugar tem que ser a melhor. Em reunião, sugeriu que fizessem salada de frutas. Foi ignorada: agora, anunciou a gerência, vão começar a oferecer bolinhos de chuva e batatas fritas. Adelaide desmaiou.

30 janeiro 2012

Mais um fim de semana sem internet. Resultado: três pequenos contos nesta segunda-feira, praticamente escritos à mão.

30/365
Úrsula

Melancólica. Acordava às 5h para tomar antidepressivos, sem nunca acreditar que teria um dia bom. Voltava para a cama e assistia a um programa aborrecido de TV – doenças incuráveis, problemas incríveis, paranormalidade. Entediava-se. Desligava. Em um horário aprazível, telefonava a uma amiga (trabalhando, Úrsula, depois ligo); tentava a mãe (de novo, filha? Olha só, você deve fazer assim), entediava-se, desligava. Não tinha mais o César para ligar, para chutar o pé, sentir o cheiro, combinar de ir ao supermercado à noite. Mas já fazia tanto tempo. Por que ainda lembrava-se dele? Não tinha mais o escritório, cheio de clientes, cheio de funcionários incompetentes, cheio de problemas. Convidou o Marcelo, ex-sócio, para almoçar (claro, que horas?). O receio de que o babaca esperasse que ela pagasse – já que o convidou – a fez desistir. Ligou de novo (mas por que mudou de ideia, Úrsula? Eu hein...). Almoçou sozinha no restaurante mais caro que pôde encontrar. Fez planos para a viagem de março – Belém do Pará. Quem convidaria? Entediou-se de todos. Voltou para casa. Desligou-se.

29/365
Juliana

Livros, apostilas. Cursinho. Domingo. Sol. Nuvens. Sol. Notebook, cabos, caneta, caderno. Internet. Inscrição. Banco, conta, dinheiro, saldo. Livro. Caderno. Sala de aula, professor, pincel, quadro. Colegas. Concorrência. Bolsa, barra de cereal, água. Apostila. Espirro. Óculos. Saudade. Foco – quadro. Matemática financeira. Direito Penal. Inglês. Alarme, pílulas. Notebook, apostila. Intervalo, água, café, banheiro. Sol, tédio, raiva. Resignação. Sala de aula, professor, pincel, quadro. Colegas. Concorrência. Apostila, livros. Caderno, caneta. Repetição. Exercícios. Interpretação. Erros, acertos. Pontos. Calculadora. Decepção. Otimismo, perseverança. Almoço. Descanso. Livros. Sol. Nuvens. Sol. Notebook. Celular. Rapidez, pressa. Sala de aula, caderno, caneta. Direito Administrativo. Óculos. Água. Exercícios. Rabisco – saudade. Renan. Pôr do sol. Alarme. Carro. Casa. Banho. Livro. Cama. Foco.

28/365
Priscila
 
É fim de janeiro. Aniversário do Joseph, capricorniano. Acordei cedo, ajudei minha mãe com a louça de ontem, tomei café com ela. Fui à feira, comprei cheiro verde e pimentão. Fiz as unhas, depilei pernas, axila e virilha, alisei os cabelos, peguei uma blusa na costureira. Peguei com a Luciana os ingressos pro pagode hoje. Banho de lua na laje de casa. Desliguei o celular pro Joseph nem sonhar em me telefonar. Sem explicações. Tudo surpresa. Sete da noite. Comecei a me arrumar – banho, desodorante, perfume. Ensaiei uns passinhos na frente do espelho. Liguei o celular para ver quantos recados tinha recebido do Joseph. Nenhum. Procurei o número dele, liguei, fora da área de cobertura. Surpresa?

27 janeiro 2012

27/365 
Yasmim

Chegou do futebol. Tomou banho, comeu miojo com requeijão e ouviu as perguntas do pai sobre o jogo, respondendo "ã-hã" e variações com a cabeça. Diante do espelho, arrumou mais uma vez as trancinhas. Sorriu para si. Computador. Hora marcada com um garoto, o Daniel. Não o conhecia pessoalmente, ainda, mas ele fora uma espécie de indicação da Ana, super amigo do ficante da super amiga. Nunca se interessou por garotos daquele jeito. Sempre jogou bola com eles, brincou de esconde-esconde na rua, brigou. O Daniel era tão lindo. "Filha, vem ver o jornal com o papai". Não, não queria saber de jornal, de prédio que caiu, de ministro que vai cair. Daniel. Daniel. Daniel. Tinha que chamar de alguma coisa aquilo que sentia e que não tinha nome. Daniel. Daniel. Daniel.

26 janeiro 2012

26/365 
Elisângela 

Cumbuca e produto pra relaxar cachos na mão. Mistura com o pincel macio e passa com cuidado na raiz do cabelo da cliente.
- Eu adoro ela. Foi assim: ela era minha cliente e, com o tempo, fomos ficando amigas. Ela me chama pra sair, visita minha casa, me conta as coisas dela...
- Então tá tudo ótimo.
- Não, mulher, escuta. Ela me enche o saco. No dia que eu me embucetar aí vocês vão ver.
(risos de todo o salão)
- O que ela te fez?
- Ela vive emburrada comigo. Se me liga e me chama pra sair e eu não vou, pronto, emburra. Se vem aqui no salão e eu não atendo ela na frente de todo mundo, emburra.
- Mas ela teria que entender, né? Você está trabalhando, tem outras clientes.
- Mulher, ela nem marca. Ela quer ser atendida na hora.
- Isso é amiga?
- Já tá quase pronta, viu? Mais dois minutos. Vamos já lavar.
- Tá.
- Outro dia me chamou pro cinema e eu disse que não tinha dinheiro. E ela fechou a cara. Ave Maria, só se eu der minha periquita (risos).
A cliente olha o cabelo cheio de química pelo espelho. O cheiro é forte.
- E quando ela chega eu tenho que sorrir, nem que eu tenha brigado com o Anderson ou qualquer outra pessoa. Eu tenho que tratar ela bem.
Chega a fulana.
- Amiga linda, eu tava te esperando! Vai querer depilar, né?
O couro cabeludo da cliente ardendo com a progressiva.

25 janeiro 2012

25/365
Maria Inês

Meu muro e meu portão são baixos. Minha fachada é meio velha, descascada. Vejo a rua, vejo o povo passeando, dou bom dia.  Me trazem leite, pão e jornal na porta de casa. Vou à bodega. Conheço todo mundo. Estou na Lapa há mais de 40 anos. Só nesta rua, mais de 25. Hoje é um dia especial - o aniversário da cidade que me oprime e me acolhe. Tem corrida de rua, show, festa na Paulista. Eu não vou. Mas fiz um bolo especial. E comprei velas. À noite, depois de ver tudo pela televisão, e depois de passar as pomadas nas pernas, e tomar o remédio da pressão, e ver se o Pingo, meu vira-lata, já dormiu, eu vou cantar parabéns pra minha cidade. Sozinha.

24 janeiro 2012


24/365

Katrinna

Em plena terça-feira de janeiro e ela em casa, sem dinheiro, sem trabalho. Por orientação de seu advogado, aguarda o fim do seguro desemprego. Talvez espere até o fim do processo; poderá receber alguma indenização. Assistiu a dois filmes ontem. Acordou às 9h. Escolheu a conta de luz para pagar. Sem internet, o passeio do dia foi até a lotérica da esquina. Comprou dois pães. Evitou gastar com cuscuz. Pouca margarina. Está magra - não tem academia, gelatina diet, leite desnatado. Anteontem ligou para a mãe. Velha insensível. Se vire, pague suas contas e me deixe em paz. Do pai e do irmão não tinha notícias. O namorado? Nos fins de semana em que os dois conseguem juntar algum dinheiro, saem, dançam, trepam num motelzinho. Mas é só o dinheiro acabar e cada um volta para a sua rotina. Desde a semana passada não tinha notícias dele. Cachorro. Ana Maria Braga. Eu quero trabalhar. Vai lavar roupa, arrumar a cama, limpar a casa. De novo. À tarde, ligará para o advogado.

23 janeiro 2012

Fui vencida. O meu desfio de 2012 não foi cumprido. Mas não quero mais essa culpa para a minha coleção. Não foi por preguiça, falta de inspiração ou bloqueio criativo. Não publiquei nos dias 21 e 22 porque o meu acesso à internet está limitado ao trabalho. Mas escrevi, apesar da trabalheira com mudança de endereço.

E, para provar, eis os contos de hoje, ontem e anteontem.



23/365

Graça

Meu ano está maravilhoso. Me botaram pra servir este andar agora, com menos pessoas e todas educadas. Chamaram a Camilinha no Extra. Ela vai ser caixa. E a Duda começou em dezembro como adolescente aprendiz na Caixa Econômica do Gama. Eu passei no Enem. Agora vou ter que procurar em qual faculdade eu consigo entrar com bolsa do Prouni. Você vê aí pra mim na internet? Não precisa ser agora não, mais tarde, quando eu trouxer o seu café. Mas, menina, você não vai acreditar, meu coração está uma bagunça. Cansei do açougueiro. Mas foi porque eu me apaixonei. Nunca acreditei nesse negócio de amor à primeira vista, mas existe. Fui numa festa com minhas amigas e me apaixonei. Fiquei com o rapaz. Traí meu namorado. Ele estava viajando. Mas agora voltou e já percebeu que eu estou fria com ele. Vou ficar assim até ele se tocar e cair fora. Não tenho coragem de dizer que eu tenho outro. Ele não ia fazer nada, não ia matar ninguém, mas é chato, né? São três anos de namoro. Ele me ligou ontem e disse que ia lá pra casa. Eu falei que estava passando mal, pra ele não ir. E saí com o outro. Minhas meninas não sabem. Anselmo o nome dele. Não, não é muito bonito não. Mas os olhos dele são lindos, cor de mel. Não vou reclamar não, meu ano começou bem. Graças a deus. Deixa eu servir a outra menina ali.


22/365
Renata

Contou e recontou os dólares. Não batia. Era a primeira vez em Miami. Conferiu cada compra, forçou a memória para visualizar cada lanchinho, sorvetinho, chicletinho. Gastou com algo que não lembrava ou foi roubada. Mas quem roubaria vinte dólares? Droga. Devia ter reservado a bosta do dinheiro. Agora, por causa de vinte dólares, estava prestes a perder o voo. Seria possível ir até o aeroporto correndo? Pegou o mapa. Muito muito muito muito longe. E ainda teria que carregar malas, sacolas, bolsas. Droga. Pensou em pegar emprestado com alguém, mas quem? E com esse inglês péssimo? What you... Do you... Vinte. Two, zero. Money?, ensaiava. E como ia devolver? Sedex? Quem ia confiar nela assim? Era outro país, sei lá. Ou podia vender o tênis, as garrafinhas? Droga. 6h da manhã. Incomodaria algum hóspede? Haveria brasileiros alí? Droga. Batia a cabeça na mala, desejando que alguma ideia lhe escapasse por um buraco qualquer.

21/365
Maria do Rosário

- Não trabalhamos com intuição, senhora.
- E como é que a gente faz, moço? Meu filho ainda não voltou pra casa e eu sei que aconteceu algo ruim.
- Qual a idade do rapaz?
- 17. Não, 18. Acabou de completar... Hoje é o aniversário dele, já passa da uma da manhã.
- Aí é que eu não posso fazer nada, senhora.
- Que porra é essa, seu delegado?
- Eu não sou delegado, senhora. Sou agente. E, infelizmente, não posso fazer nada. A senhora pode apresentar queixa de desaparecimento 48 horas depois do sumiço do rapaz. Então, vai ter que esperar.
- Eu estou lhe dizendo, seu agente, que algo ruim aconteceu. Eu sinto isso. A informação está aqui, ó (batia com a mão fechada no peito), mas eu não consigo decifrar. Sei que foi sério. Talvez uma tragédia.
- Já disse que não há o que fazer, senhora.
- Eu estou desesperada, meu filho precisa de ajuda.
- Se ele precisasse mesmo de ajuda, ele ligaria.
- O senhor não está entendendo.
- Senhora, eu devo cumprir a lei.
- (Exaltada) o senhor enfia essa lei no seu cu. Porra, já faz meia hora que eu estou lhe dizendo que...
- (Para outro agente) algema a velha. Desacato.

Rosário calou-se.

20 janeiro 2012


20/365
Ava Eugênia

Deixara de comer carne, inclusive frango. Tudo para agradar o namorado estrangeiro, que considerava a prática de devorar animais deplorável. A data do casamento marcada: 21 próximo. Falta muito pouco. E ela tem dúvidas, medos, receios. Não seria simples desistir, fugir, simular um chilique. Afinal, o casamento vai legalizar a situação do noivo excêntrico no Brasil. Será o mesmo que atestar que o ama para sempre e que, de um modo ou de outro, ela estará ligada a ele a perder de vista. Se sentia antecipadamente culpada, responsável por proporcionar a ele uma nova vida: possibilidade de ter uma carreira, de ganhar dinheiro, de prosperar. Largar hábitos ruins é fácil; organizar uma festa simples mas com detalhes de muito bom gosto é fácil. E aguentar um desconhecido para o resto da vida? Respira, acessa o iphone e tuíta, fingidamente entusiasmada: “Amanhã a festa mais animada do ano, meu casamento com o Philip. Espero todo mundo lá. Até a Luiza que voltou do Canadá. hahaha”.

19 janeiro 2012


19/365
Tereza

Ainda choro se algo me surpreende. Acredito em algumas instituições-conceitos, como amizade, família, mas com alguma desconfiança. Não sigo com rigor os meus ritos. Não respeito meu corpo. Os limites se impõem, mas contra a minha vontade. Ponho à prova a minha intuição. Não aprendi a perdoar, sou rancorosa. Cumpro minhas obrigações, às vezes com um entusiasmo genuíno, às vezes com apatia e até desprezo. Sinto raiva quase todos os dias. Não sorrio a nenhuma criança que não seja filha minha. E o sorriso de ninguém me comove. Retraio minha espontaneidade. Tento regularmente manter o desvínculo com alguns familiares e amigos. Até rezo. Planejo – e executo – meu lazer quase mecanicamente, para cumprir uma receita de vida boa. O tempo passa e eu cresço. E me torno, cada vez mais, uma pessoa pior.

18 janeiro 2012


18/365
Claudia

Não tinha papas na língua. E queria parecer não ter. Queria ser respeitada, temida. Desafiava. Apostava seu cargo de confiança, seu status. Falava mal da empresa e de seus superiores. “Você viu, Lu, que o chefe conversou por horas com a Vick ontem, na confraternização?” – alfinetava. “Vi, Claudia, mas não enxergo mal nenhum nisso”. Balançava a cabeça: “ai, Lu, como você é ingênua. A prova é cabal, querida: hoje ele chegou sério, sisudo. E sabe o que é isso?”. Lu esperava a resposta maliciosa, quase incrédula. “Ressaca moral” – e aguardava os olhos arregalados de Lu –. “É um filho da puta como outro qualquer”. Sabia que a Lu se mordia de ódio. Não pelos impropérios lançados a um homem aparentemente honesto, mas porque ela, Claudia, pra arrematar, agia como se fosse a dona do setor. “E, Lu, antes que eu esqueça, querida, estou esperando o relatório”.

17 janeiro 2012


17/365
Selma

Aprendi que a gente tem que agradecer até o que é ruim. Que o ruim é sempre supostamente ruim. Apenas. Estou diante do ponto dos exus de minha casa. Já conversei com meus guias, já chorei minhas pitangas, me descabelei – fiquei com os olhos inchados e o corpo dolorido. Agora acendo velas, bato cabeça. Não é fácil a gente se concentrar de verdade quando está magoada. As feridas não cicatrizam por magia. Difícil rezar. O Jonas é um bandido, pilantrinha, covarde. E não me quer mais. As pombas giras riem porque compreendem a bobagem que é lamentar amor perdido. Isso passa, garantem. Até passar, peço que prendam minhas pernas. Pra eu não correr atrás dele.

16 janeiro 2012


16/365
Iolanda

Meu filho, eu estava saindo do Comper e o rapaz gentilmente se prontificou a me ajudar. Porque eu comprei muita, muita coisa e tinha muitas sacolas. Eu vejo esse rapaz quase todo dia, ele olha os carros. Ele deve saber onde eu moro, pois fomos andando enganchados até perto do meu prédio. Ele tentou tirar as sacolas pra me ajudar, mas elas se emaranharam nos meus braços. Bastou isso. Seu Pereira, porteiro do meu prédio, veio correndo. E mais uns dois ou três que eu não conheço se amontoaram à nossa volta. E bateram no rapaz. Bateram na cabeça dele, chutaram a barriga, as costas. Ele não disse nada. Nem todo mundo é marginal, meu filho. E foi tudo tão rápido, que eu tentava explicar pra eles e não conseguia. Fiquei assustada. Se o rapaz não morreu, deve estar bem machucado, porque a última vez que o vi – me arrastaram pro outro lado e, aí sim, perdi algumas sacolas – ele estava ensanguentado no chão. Eu mesma subi pelo elevador e chamei a polícia.

15 janeiro 2012


15/365
Rita

No Pier 21.
- Pronto, perguntei se a gente podia pagar depois de comer.
- Imbecil. Idiota. Por que foi perguntar?
Não entendia a reação grosseira. A mãe era tudo pra ela. Mesmo sendo adolescente, não dava trabalho. Ajudava a cuidar da irmã temporã. Há pouco, a menina tentava tirar a fralda, na frente de todo mundo, e a mãe se servia.
- Hein, imbecil, responde. Burra!
(Rita calada)
- Idiota... não sei por que ainda saio com vocês duas. Perguntar coisas pra uma mulher. Uma mulher desconhecida. Eu mandei você perguntar? Mandei, hein?
(Rita calada)
- Trouxa, babaca. Eu perdi a fome. Vou pro carro.
(Rita olha assustada)
- Imbecil.
Não chora. Termina o prato calada. Não sabe como vai pagar a conta. Ou como vai levantar e ir embora sem ser percebida. Come toda a salada.

14 janeiro 2012


14/365
Elisabeth

Acorda. Escova os dentes. Banho rápido; café com toalha. A roupa foi escolhida na noite anterior. Creme, maquiagem, desodorante. Tudo cronometrado. Ao entrar no carro, as ligações começam: secretária, banco, filha, mãe, namorado. O amor não é prioridade. Chega ao banco, lê todos os jornais, analisa as taxas do Bacen, especula, sugere, opina. A secretária lembra que tem dentista às 11h. Manda cancelar, adiar. Café. A secretária telefona na hora do lanche. Na hora do almoço. Na hora do outro lanche. Jantarão juntas. O namorado telefona. Não atende. Taxas, investimentos, câmbio. Retorna a ligação e – sem ouvi-lo – pede que ele escolha o destino das férias. Tem que desligar. Entrevista um candidato à sua equipe. Café. Não tem tempo de imaginar praia. Delega. Filha, não posso falar agora, amor. Continue amamentando, sempre que ele chorar. Ouve o neto ao fundo. Desliga. Volta para casa. Jantar com a secretária, passar a agenda de amanhã. A mãe telefona, aconselha: diminua o ritmo. A roupa do outro dia já está escolhida. Demaquilante, banho, dentes. Duas pílulas milagrosas. Dorme.

13 janeiro 2012

13/365
Dorinha Landir

Por um rápido instante, se permitiu imaginar-se no lugar de Sheila, que lhe arrancava as cutículas. Atenderia mais duas ou três clientes. Na volta para casa, saltaria do ônibus sujo e lotado, passaria na padaria e compraria – fiado – um pacote de pão. O marido seria um desempregado barrigudo e nojento, os filhos catarrentos? Chega. Melhor voltar ao pensamento das joias que pretendia comprar, do novo carro, dos vestidos. O marido cheiroso, os filhos educados e brilhantes. Pediu champanhe à gerente do lugar – o nome lhe fugiu – e foi prontamente atendida. Melhor levantar o queixo, evitar olhar os olhos de Sheila, imaginar um pagode de laje. Isso nem deve existir, apostava. Já com os cabelos no lavatório, telefonou para Araci e, ao instruí-la sobre o jantar, ouviu um verbo mal conjugado. De onde vinha essa pobreza de espírito? Essa falta de noção? Nunca deve ter estudado, coitada. Ainda hoje, com seu salário irrisório, deve ter dificuldades para fechar o mês com as contas em dia. Era viúva e sustentava dois filhos e um neto. Pegava quatro ônibus todo dia. Chega. Saiu do salão. Só restava se certificar de que deveria reservar-se calada, desde o entrar no carro até chegar aos jardins da mansão. E subir o vidro rapidamente para evitar qualquer conversinha sem propósito do Jair, que começaria com um “boa tarde, madame”.

12 janeiro 2012


12/365
Flaviane

A analista queria inovar. Queria ir além de Freud e seus sucessores. Botou duas pacientes, desconhecidas entre si, para conversar. “Coisa estranha, o que ela quer com isso?”, e a outra respondia “e eu que sei? Essa mulher é louca”. Ela observava primeiro sem ser vista. Depois, passou a ficar na sala, postada atrás dos dois divãs paralelos. Era interessante, mas ela ainda não conseguia concluir nada – um experimento sem objetivo e sem hipóteses. E as duas passaram a sair de si, deixaram de falar dos seus próprios problemas ao léu, para ouvir e aconselhar a outra. Mais adiante, perderam o interesse por essa conversa solidária. E foi surpreendente para Flaviane ouvir especulações/suposições/verdades sobre si. “Hum, não te contei. Ela tem um namorado lindo, mas nem liga pra ele. Esnoba, sabe?” e a outra comentava “não consigo entender como alguém poderia tratar uma pessoa próxima com descaso. E nem bonita ela é. Deve ser doente”. E as sessões duravam mais, muito mais do que um bom filme.

11 janeiro 2012


11/365
Laura

Tinha pezinhos de anjo, menores que os da maioria das crianças da mesma idade. Mas era geniosa. Cada birra resultava em valiosos olhares permissivos e, às vezes, doces (além do pedido objeto do show). Não se tratava de falta de educação, diziam os pais e atestava a psicopedagoga, mas de personalidade. Um grito no supermercado, um escândalo na casa dos parentes, um choro desnecessário por uma boneca nova – tudo seria pouco, quase nada, diante do dinheiro que a pequena renderia. Os sonhos do casal – primeiro era casar, ter dinheiro para alugar um apartamento na Asa Sul, comprar um carro semi novo e planejar a chegada da princesa – agora se resumiam em quitar dívidas, equilibrar os gastos, sair do vermelho. Com um comercial de TV feito e já matriculada em teatro e sapateado, mal sabia a ordem do alfabeto. Investimento. Os olhos dos pais brilhavam de orgulho.

10 janeiro 2012


10/365
Wanda

Gostou do primeiro capítulo da novela com a Marília Pera. Era fã. Mas era raro isso acontecer, uma novela ser boa logo no início. O jornal começou e ela foi esquentar o arroz, fritar o ovo – o último – para o Juarez. Achava ele um filho da puta de marca maior, mas acreditava que mãe e mulher sempre ficam em segundo, terceiro, quarto lugar. Se tem um ovo só, é do homem da casa. Se são dois, era um dele e um do menino. O terceiro é que seria o dela. Ontem, o vizinho caminhoneiro entrara num buraco que quase cobriu todo o veículo. A esposa ficara louca, puxando os cabelos, mas ele saiu nadando. Um buraco sem sentido. Ela consolou a vizinha. Também ontem, tentou pela terceira vez confirmar a matrícula do menino, sem sucesso. Só vai ter outro dia útil de folga semana que vem. Hoje fez faxina na casa da dona Liduína, no Guará. Machucara o joelho, de novo. Não sabe como será amanhã, na casa da dona Viviane. O ovo frito, voltou à geladeira. Resto de arroz e cenoura. Aproveitou o óleo do ovo do Juarez. Fez um mexido pra ela e pro menino. Estranho a prioridade ser de um filho da puta desses. Mas não ia reclamar, estava feliz com a novela. Se o primeiro capítulo já foi bom, imagine os próximos.

09 janeiro 2012


9/365
Rosa

Já contabilizava oito anos na profissão. Muitas aulas dadas e especializações com os profissionais mais renomados de todo o mundo. E agora, depois de vender seu curso em um site de compras coletivas, batera todos os recordes: três a quatro aulas diárias, cada uma com três horas de duração. Mas ela nunca havia passado por uma situação assim. Nunca, nunquinha. Nada perto disso. Explicações demais. Enquanto ensinava pacientemente as alunas a delinear os olhos, deixou escapar o pior e mais estarrecedor peido de sua vida. As que estavam próximas notaram, chegaram a contorcer o rosto ou sorrir. Iam borrar a maquiagem, essas ridículas. Sentiu ódio delas e anunciou: vou lavar as mãos, caiu base e sombra líquida aqui, posso manchar o rosto. Explicações demais. Foi ao banheiro e lá ficou por mais de dez minutos. Ao retornar, observou o olhar das alunas. Claro que elas sabiam. Fez outro anúncio: o cano da torneira soltou, está tudo molhado, não vão lá, ok? Explicações demais. Seguiu com o curso, rubra, sem blush.

08 janeiro 2012


8/365
Danila

Deprimida, Danila assistia ao Fabuloso Destino de Amélie Poulain e chorava em bicas. Queria ser inocente. Ao menos na relação com a Natália, que era a mais desencanada das meninas de sua vida. Queria também que a Natália fosse inocente. Danila queria ser pura também no seu empreguinho de bosta – apesar de ser muito capaz e ambiciosa. Queria não ser mais ambiciosa; queria que ninguém mais tivesse ambição. Queria ter uma mobilete e até uma amiga aeromoça pra reavivar a fantasia do seu paizinho, que sofria a morte de sua última esposa há mais de seis anos. Queria morar na europa, que todos conhecessem Paris, e ser garçonete e escrever o cardápio ao contrário no vidro, sem ter medo, raiva, receio ou rancor de nada. Queria armar situações para a alegria dos outros, só pra deixar de ver gente tão deprimida. Mas desejava copiosamente que alguém se ocupasse da alegria dela, inocentemente.

07 janeiro 2012


7/365
Márcia Carolina

Márcia Carolina Coutinho Lima. Nascimento: 12 de janeiro de 1986. Natural de São José do Ribamar-MA. Solteira, sem filhos. Reside em São Luís. Disponibilidade para viagens. Experiências profissionais: parte administrativa de corretora de seguros – 4 meses; secretária de cirurgião dentista – 2 meses; assistente de limpeza na prefeitura de São Luís – 1 ano e 7 meses; estágio no SENAC – 6 meses. Cursos: Inglês – básico; Informática – básico (word e excel); Curso de brigadista – trancado; Curso de cabeleireira e manicure; Curso de camareira. Comunicativa, escreve bem, lê à noite antes de dormir. Esperta. Pretende ingressar no curso de Gestão Empresarial – noturno ainda em 2012 e tirar carteira de motorista. Não tem medo de trabalho. Boa aparência. Gosta de viajar e conhecer pessoas. Precisa pagar o aluguel.

06 janeiro 2012


6/365
Tânia

“Tudo certo”. Depois de conferir quatro vezes a autenticidade das cédulas, Tânia as enrolou e enfiou no sutiã. Entre o suspiro de alívio pelo ateste e o movimento automático de acesso ao seu cofre orgânico suado, pegou a bic e o boleto. Era muito dinâmica, apesar do alto percentual adiposo. “Vai ser o quê?” O cabra não sabia. Nunca vira homem tão enrolado; os olhos dele corriam pelo entorno dela – a banqueta, os azulejos antigos do comércio fechado, os restos de cartazes na parede, o vira-lata. “Cachorro”. De repente deu pra falar firme. “Cadela”. E Tânia estranhou, mas nem teve tempo de raciocinar e, até antes de ouvir a ordem de pôr as mãos na cabeça, já deixava à mostra os sovacos. Sensação de água gelada pelo corpo, de cérebro raciocinando rápido, trazendo opções e decisões, ao mesmo tempo. Ficaria calada – por direito – até a presença do advogado (que advogado ela conhecia, meu deus?). Mas quando abrisse o bico ia levar até os famosos mais honrados com ela. Os PF tinham algo de inocentes, pensou, pois comemoram feito crianças a prisão de uma pobre coitada. Até ouviu um deles dizer: “o jogo perdeu uma leoa das grandes”. Coitados, e não conteve o riso, ela não passara de hiena.

05 janeiro 2012


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Luísa


Ouvia o seu velho tagarelar por todo o caminho da casa dos tios. Os fones ele já tinha puxado. Os pais perdem tempo demais com bla bla blá, pensava. Antes mesmo que ele se desse conta, ela já tinha aprendido a lição: não é legal bater boca com a avó. O seu nome completo ela ouvira vinte mil vezes até ali. “Você tem que ter consciência, tá ouvindo, mocinha?, que a sua avó não está conosco, nós é que estamos na casa dela; se ela disser que você não vai tomar o suco especial dos infernos que ela comprou, você não vai tomar, entendeu?”. Tudo por causa de uma caixa de suco artificial, com substâncias bioativadoras para fortalecer os ossos. Recomendação médica. Queria responder ao pai que tem achado seus ossos meio moles, ultimamente, o que tem até dificultado a educação física. Mas tinha medo de levar uma chapuletada na boca. Respondona, ele diria. Maleducada, ele diria. Devia elevar seus pensamentos, exercitar a paciência – com o pai e com a avó –, a compreensão, a solicitude, a compaixão, o amor. Lembrou do Gustavo Peixoto. E sorriu – o pai estranhou – ao pensar no seu cenário futuro favorito: os dois velhinhos (mas Gustavo com o mesmo penteado de hoje), com aliança grossa no dedo, provavelmente tomando suco especial para os ossos e repreendendo um ou outro neto.

04 janeiro 2012


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Carmem

Voltou ao trabalho. Fazia – por gentileza – o levantamento de alguns dados para o relatório da colega, porque obviamente não tinha nada para fazer. Muito correta, muito séria, muito comprometida, logo arrumou memorandos e avisos a fazer. Milena, você está muito ocupada? Desculpe, é que não posso mais tratar dos seus números para o relatório – com um sorriso entredentes. Não haveria problema. Milena retomaria o trabalho. Mas, antes que ela se esquecesse: Milena, querida, amanhã você poderia revisar meus memorandos e avisos, quando eu acabar? É que o chefe vai querer ver e sabe-se lá, não é? Milena piscou marotamente para Carmem, pegou a bolsa e foi embora. Aquele código todos bem conheciam. Carmem chegou a sentir vergonha, mas depois relaxou. Relatórios, memorandos, avisos. Quem saberá quando e como ficam prontos?

03 janeiro 2012

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Isabel

Como alguém poderia saber? Meu vizinho, seu Júlio da padaria, Márcia do sacolão. Mas hoje todos me olharam diferente. A cada “Bom dia, dona Isabel” pelo caminho eu me sentia denunciada. A roupa era a mesma – da caminhada diária. Quando cheguei à porta do prédio, parei antes de entrar. Olhei em volta. Nenhum conhecido. Cronometrei o tempo. Não poderia demorar mais que o regulamentar da caminhada. Os rapazes muito simpáticos me receberam, preenchi a ficha, conheci as instalações. “A senhora já começa hoje?”. Olhei para o relógio. “Sim, acho que dá tempo. Quinze minutinhos, tá?”. Ele me colocou num aparelho enorme, com luzes piscando, números. Comecei minha caminhada artificial. Hoje, excepcionalmente, mais curta. Blindada do cheiro da rua, do sol e da chuva, dos “Bom dia, dona Isabel”, dos vigias incansáveis. Evitei o espelho, certa de que me sentiria como uma daquelas moças dali: finas, magras, com longos cabelos e roupas de grife. E me senti. Era ali que eu queria ficar todas as minhas manhãs. Sem que ninguém soubesse.

02 janeiro 2012


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Vinólia

Na avaliação de Joel, Sandro e Inácio, dona Vinólia começou cedo. Em plena segunda-feira, às 11h, ela estava na terceira garrafa e já revirava os olhos e a língua. Na cozinha, frango cru semi temperado, uma cebola cortada ao meio, faca suja, arroz lavado na peneira. Resquícios interminados de um dia que aparentemente se iniciara certo, cotidiano.

Os rapazes aportavam na casa da mãe diariamente para filar o almoço antes do serviço. Mas hoje não haveria o que comer. Dona Vinólia já não respondia pelos quitutes que planejara preparar. Surrupiava a atenção dos três, atônitos, quando tentava pronunciar qualquer coisa ou ensaiava assoviar. Que fossem ao inferno os filhos imbecis. Que a deixassem ali, aposentada deles, desquitada do trabalho e viúva de sua razão. Hoje, Vinólia se escondeu da saudade, com cerveja.

01 janeiro 2012


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Nair

Nair prepara o jantar. Pela manhã, levou as meninas para brincar no foguete do Parque. As duas bonitinhas descansavam as pernas grossas no sono vespertino. O cheiro de bisteca invade o apartamento recém-comprado. Nair se pega divagando se cheiros fortes assim entram no taco da sala e ali se instalam para sempre. Passam a fazer parte da história do lugar. Aqui deve haver registro de frangos, carnes, doces de tacho – alguém faria doce de tacho em um apartamento tão pequeno? – e também de produtos de limpeza inadequados. Aqui e ali se vê uma pequena mancha.

As meninas acordam. A mãe tem que banhá-las, banhar-se e vigiar o fogo. São poucas horas até o primeiro jantar do ano. Nair desperta do pensamento sobre os tacos. A caminho do varal, para pegar as toalhas, faz uma resolução que considera genial: preparará um doce de abóbora este ano. No tacho.

31 dezembro 2011

Desafio 2012

É agora ou nunca. E pode ser mesmo que seja nunca.

Começa amanhã o meu desafio: escrever um "conteto" por dia. Projeto: 365 mulheres + 1 (afinal 2012 é bissexto).

Será que consigo?

21 dezembro 2011

O bebê da foto já mudou tanto.

Promessa de fim de ano: retomar o blog com um desafio. Aguardem.

14 dezembro 2010

Princesa

O que há de beleza em uma princesa com o fiofó tomado por hemorróidas? Os longos cabelos louros, esvoaçando numa ventania ritmada pelo vai-e-vem do ventilador, são o contraste com o rosto triste e contrariado pela fisgada interna. Quase prazerosa de tão dolorida.

Revista Alfa

Interessante a recém lançada revista Alfa, da editora Abril. Segundo uma amiga, uma "Marie Claire para homens", mas eu acho até menos que isso. Interessante e só, sem grandes novidades. Mas terríveis foram duas colunas que li na edição de novembro, em 'Confissões': "Não seja uma vítima da mulher-vítima", de Tati Bernardi, e "Sinfonia no colchão", de Kika Salvi. A primeira é uma ridícula tentativa de ser solidária aos homens, na sua tortuosa relação com esses seres tão difíceis, as mulheres. Oh! A segunda é fantástica: um NÃO aos gritos na hora do gozo. A (pudica) autora chega a confessar: "eu não sou do tipo barulhenta". E, especialista em sexo/corpo/tesão/etc., diagnostica: "não há relação entre prazer e sonoridade. Muita gritaria indica justamente o contrário". E não conseguiu sustentar esse "contrário" no texto. Fiquei de cara. Aí eu pergunto pra minha amiga lá de cima: "Marie Claire ou Nova???".

20 agosto 2010

Quase esqueci...




...caso dia 18 de setembro.
Um oi lerdo, lento, de ré

Nenhum elogio à preguiça, já mais que homenageada pela minha ausência. Apenas algumas boas notícias:

Li Comer rezar amar, de Elizabeth Gilbert. E não me interessam as opiniões daqueles que usam loção anti-best seller: adorei.

Na próxima terça, 24/8, às 19h, Marcelo Sahea lança Nada a dizer, com direito a performance. Será na galeria Objeto Encontrado (102 Norte).

Estão abertas as inscrições para o 1° Concurso Literário de Crônicas, Cartas e Trovas, da editora Guemanisse. Informações em http://www.guemanisse.com.br/.

Neste momento (21h do dia 20/8), está sendo lançado no Carpe Diem (104 Sul) o livro Gênero e feminismos: convergências (in)disciplinares, organizado por Valeska Zanello, Cristina Stevens, Tânia Almeida e Kátia Brasil. Nele, texto da amiga e ídola Gislene Barral, além de outras pesquisadoras phodas.

Um conto meu foi selecinado num concurso interno da Caixa Econômica, para ser publicado em livro. Chama-se "Tempo".

Li Alameda Santos, da Ivana Arruda Leite. Ela continua phoda e eu continuo adorando o que ela escreve.

Estou lendo dois livros do psicanalista Flávio Gikovate.

05 abril 2010

Invictus - humilde comentário

Semana passada, assisti à quase derradeira sessão de Invictus, uma da tarde numa das salas menos badaladas da cidade. É um lindo extrato da biografia de um dos maiores homens que a humanidade já conheceu. Um exemplo de compaixão, de perdão, de amor incondicional. O cara é um iluminado. Não à toa recebeu o Nobel da Paz em 1993 (mas depois de Obama também ter ganho eu já não sei se o prêmio é referência). A atuação de Morgan Freeman é impecável e Matt Damon não está nada mal. Lindo filme. Pra finalizar, a parte final do poema Invictus, de William Henley, inspirador de Mandela na prisão: "Eu sou dono e senhor de meu destino. Eu sou o comandante de minha alma".

21 março 2010

Bah, o mundo da literatura ainda existe

De 24 a 26 de março, acontece em Brasília o 1º Colóquio Internacional sobre Poéticas da Oralidade Cordel: uma tradição que se refaz. A abertura será dia 24, às 15h, no auditório da Reitoria da UnB. As inscrições podem ser feitas por e-mail: coloquiocordel@gmail.com. E outras informações, você encontra aqui.

E ainda na UnB, o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea e a Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília organizaram o curso de extensão Desconstruir nacionalismos – resgatar identidades regionais, com a professora Ria Lemaire, da Universidade de Poitiers. O curso, ministrado em português, acontece entre os dias 22 e 24 de março. Informações aqui.

E Ivana Arruda Leite lançou há poucos dias seu segundo romance, Alameda Santos. Costumo gostar muito dos textos dela, cujo humor oscila entre o ácido e o inocente, sempre com uma perspectiva desesperançosa e inevitável: feminina até a raiz dos cabelos. Veja o blog dela aqui.

Na telona

Me diverti com Simplesmente complicado semana passada. Majestosos Meryl Streep e Alec Baldwin. Interessante ver como as coisas acontecem sob uma perspectiva, digamos, 'madura' do amor, da vida, do sexo. Balela: tudo igual, tudo confuso, tudo complicado. Mas divertido, no entanto. Há algo de leveza ali, que é raro nas relações 'descomplicadas'.

Saudades de Tereza?

Ela é nova, melhor, mas não inteira. Lê um best de Marian Keyes, vê comédias românticas aos pedaços, enquanto o sono permite, se exercita, trabalha, cuida de três crianças. E briga muito com uma delas.

21 fevereiro 2010

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2010 segue e seguem a pele, a alegria, o ódio, a fé, o cheiro, o amor e a incompreensão. O carnaval acabou. Agora, Jack, traga-me o horizonte.