18 março 2012
Bárbara
Criou mais personagens de alcova. Difícil falar de cotidianos que não estejam cercados por paredes; soa tedioso e até falso. Real, verossímil é falar de grandes melancolias ou de brigas íntimas. Assim criou Rose e William, que não conseguiam se enteder. Ao menos cuidou para inverter papéis, a fim de dar graça à narrativa. Contou a história de um William doce, sensível e uma Rose bruta. Ele falava, falava, falava e ela não compreendia - apenas enxergava uma boca se mexendo. Ela, por sua vez, maquinava automaticamente o modo de sair da discussão inteira e superior. Magova. O bate boca se findava e William permanecia na cama, inerte e incrédulo. Chegava a rezar: "deus, eu não consigo mais, me dê forças!" E ela saia do quarto resmungando, com uma voz mais grossa que o seu timbre costumeiro. Mas voltava, sempre voltava, para o golpe final: "a sua sorte, William, é que eu não fui treinada pra bater. Porque a minha vontade agora era te encher de porrada, seu merda". Eram personagens iguais a qualquer coisa, porque, afinal, a esta altura, já se escreveu sobre tudo. Que fazer? Profissão ingrata - Rose e William eram fórmula. E venderiam bem, tal como Cauby e Lavínia, Charles e Emma, Santomé e Avellaneda, Camille e Auguste.
17 março 2012
Wilma
No meu quarto, há dias, a leitura de cabeceira é o Guia Quatro Rodas. Traço percursos, calculo distâncias, contabilizo despesas. Já não é janeiro. Nem fevereiro mais é. Gosto do contra fluxo. Isso me excita, me motiva. Arrumei o meu jipe, minha mochila. Biquini, toalha, roupas leves. Barraca, cantil, caixa de isopor. Repelente, bota, calça com bolsos. No cabelo, trança. ou rabo de cavalo Bloqueador solar. Olhos pintados. Todo mundo trabalhando, retomando a rotina pós verão. Saio agora mesmo de Brasília e só paro em São Luís, dia 2 de abril, talvez.
16 março 2012
Paola
Meu sono é tipicamente depressivo. Se me chateio, se me magoo, logo sinto sono. Pra não chorar, durmo. Para não encarar o mundo, não me relacionar com pessoas que possam me magoar, para evitar fazer algo errado e que me cobrem por isso, durmo. Não tem café, coca cola, guaraná em pó, cocaína que me mantenha acesa. É um sono infeliz, sem sonho. Durmo para não discutir com o Bruno, para não ter que cuidar da Ana Carolina e do Gustavo, para não ouvir a d. Mirtes, para não ir trabalhar. Adoeço, durmo. Desperto cansada, bebo água, ligo o rádio, desligo, faço xixi e volto para a cama. Dias, dias, dias... Não tenho ânimo pra pedir ajuda. Bruno não me ajuda. Choro. Não me mantenho alerta para rezar. Desisto. Durmo.
15 março 2012
Naiara
Passou os dedos pelos meus cabelos. Prometeu amor eterno, ali, em segundos. Fechei a cara, chorei. Depois da transa a contragosto, voltei a chorar. Levantei e comi 12 chocolates. Ele não disse nada, mas eu vi quando arregalou os olhos. Toda mulher nota isso. Murmurei, nervosa, "o que é?". Ele insistiu na discrição. Sorriu amavelmente. Ofereceu o aconchego de sua asa e me enfiei ali, com vontade de ser pra sempre. Na TV, BBB. E eu chorei muito. A prova do líder foi cruel.
14 março 2012
13 março 2012
12 março 2012
11 março 2012
Oyá
São nove os filhos que eu pari. Mas meus protegidos são muitos mais. Me evocam quando o céu quer escurecer, se um vento cerra portas com violência, um raio cai ou caso uma tempestade comece a se formar. É quase um pedido de piedade. No entanto, nem tudo está ao meu alcance - por que cessar o óbvio? o certo? o inevitável? Lanço à Terra o que a Terra precisa/provoca. Serviço feito, danço, balanço cabelos, vermelheio vestiário, boca e faces. Tão humana quanto pareço. Tão entidade quanto me respeitam. E sigo ajudando, tão justa quanto mereçam.
10 março 2012
Jeanne
Julguei ter sido esquecida ou preterida. Afastada de minha irmã e meu afilhado. Mas não. Eu sequer consigo conceber o quanto sou amada e o quanto paira sobre mim um manto protetor de amor puro. Isso é o que me contam e eu não compreendo. Eu amo também, mas nem sempre sou capaz de me espalhar. Me tranquei, me fechei, me retive. Mas volto a compartilhar, aos poucos, o que é bom. Sou guerreira, sou trabalhadora. Inteligente e bela. Admirada e reconhecida. Um dia batizo o menino.
09 março 2012
Valeriana
Depois da novena, escrevi ao meu menino. Espero que lhe entreguem a carta. As pessoas que circulam por aqui não parecem confiáveis. Prezo muito pela confiança. "Filho, leia sozinho. Tire-me daqui, por favor. Há vermes por todos os lados. Aqui é bem sujo. Te amo, se cuide, te espero. Mamãe". Sim, sim, imagino que vão entregar. Hão de ser honestos. Conto os dias pra voltar pra casa.
08 março 2012
07 março 2012
Hélia
A mão gelada e dura, que muitas vezes foi algoz de mímicas ameaçadoras e até de tapas, agora deslizava suavemente por dentro da minha blusa, até o bico do meu seio esquerdo. Não dissemos nada. Confusa, me deixei arrepiar enquanto assinava veementemente os papéis do divórcio. Estávamos no fórum. Os dois advogados, depois das discussões calorosas e, finalmente, do acordo, nos deixaram a sós. E o filho da puta do Rafael se levantou e veio tocar o meu corpo. Como se fosse meu dono. Como se ainda quisesse me mostrar que me conhece inteira e sabe me amolecer. Deixei.
06 março 2012
05 março 2012
Tenho poucas decisões a tomar, não me faltam dinheiro e amor. Minha família é estável. Nunca usei e nunca tive amigos que usaram ou usam drogas. Não há alcoólatras em meu raio de relacionamentos. Meus colegas de trabalho são bacanas, minhas contas estão em dia, meus filhos vão bem na escola. Meu marido é amoroso, mesmo depois de doze anos juntos, e meus amigos são fiéis e compreensivos. Vou à igreja regularmente. Comungo. Não tenho muitas rugas, não sou gorda, não sou feia, não cheiro mal, não tenho traumas. Mas existe algo que eu não tenho. E eu não sei o que é. E procuro não procurar saber, mas essa ausência me incomoda. E me faz chorar convulsivamente todas as noites.
04 março 2012
Edna
Vestiu roupas pesadas, apesar do calor, para economizar espaço na mala. Certa vez, ouviu como uma espécie de conselho que nós só devemos possuir o que podemos carregar. Não conseguia parar de pensar que possuía um lar e não conseguiu encaixar essa conclusão no conselho. Debruçou-se numa mureta com boa vista em Santa Tereza. Talvez calculava para onde iria. Talvez dava a si um momento para ter pena dela mesma ou para lamentar qualquer coisa. Agradeceu por não sentir dores, por estar saudável, por ter um pouco de dinheiro e por ter um celular com fones de ouvido. E partiu.
03 março 2012
Germana
É uma harpia. Mede 93cm, pesa 7,3kg, tem penas brancas na cabeça e cinzentas no corpo. Gola escura e imponente. Elegante. Está há muitos minutos à espreita. Um macaco se aproxima. É esperta, inteligente. Prepara o bote. Visualiza o sucesso, com paciência e malícia. Belo banquete. O pobre primata, inocente, chega, galho por galho. Belisca sementes, se admira com a paisagem, saltita. O calor é insuportável. Sorrateira e aguda, ela o surpreende e - zap - agarra-lhe as orelhas como um macho safado merece. Unhas enormes. Ele enlouquece, mas ela parece piedosa - é rápida. Devora-o.
02 março 2012
Liana
Um dia a minha bunda vai cair. Minhas coxas e braços serão ossos e pelancas. No meu pescoço, papada mole. Minha pele, sem viço, não vai exalar um cheiro natural bom. Rugas vão esconder a juventude que talvez ainda vá existir nos olhos, nos sonhos, na imaturidade de decisões, na inquietude. Só vou despertar o interesse de uma ou duas crianças curiosas, que quererão ouvir histórias e tocar meu corpo em predecomposição. E é possível que eu morra sem mesmo me lembrar dos nomes das pessoas - num autismo senil -, sem ser capaz de sentar e rebolar no pau do amor da minha vida ou sem conseguir fritar um ovo para o meu filho ou rir da piada de uma amiga tão espirituosa.
01 março 2012
Mônica
situação 1
M - Paulo, hoje ouvi na Band News um certo "Paulo Bittar" opinando sobre o trânsito na saída da Candangolândia. Às 8h30. Era você?
P - Claro que não, chefa. Foi coincidência.
situação 2
M - Gente, eu adoro a Band News. Escuto todo dia. Queria participar dessas dicas que os ouvintes dão sobre trânsito.
P - Também adoro. Todo dia escrevo um e-mail falando como está o trânsito na saída da Candanga, onde moro. Sempre lento... terrível.
29 fevereiro 2012
Cândida
Acordou às quatro. Um dia desafiador. Fritou coxinhas, risoles e quibes. Poucos, para começar. Andou até o espaço do seu Caetano. Recebeu olhares furiosos: vasilha, cara dela, vasilha, cara dela, vasilha. Recuou cerca de um metro. Abriu a banqueta e pôs a vasilha sobre as coxas. Seu Caetano contrariado - mocinha insolente, safada, quer melar o meu negócio. O primeiro freguês - bom dia, seu Caetano; cafezinho. E, hmm, ele olhou para a esquerda. Ela abriu a vasilha. Ótimo. Escolheu um quibe. Voltou para perto do seu Caetano para jogar conversa fora. Mais um freguês; mais um; e outro; e outro.
Alguns pediam mais café para acompanhar o salgado. Ou café com leite, mais caro. E, aos olhos do seu Caetano, a moça insolente passou a ousada, corajosa e, ele estava rendido, parceira. Avaliou a alegria dos fregueses - é sua filha? E ele tendia a responder que sim porque seria um gênio se, sozinho, tivesse tido essa ideia: complementar o seu cafezinho com algo de comer. Mas, às nove e meia, recolheu seu banco e a mesinha e apenas deu um meio sorriso para a moça. Era talvez o seu modo tacanho de dizer obrigado. Amanhã perguntará o seu nome.
28 fevereiro 2012
Alice
No buço, pequenas gotas. Quando dava uma pausa no falatório, soprava na direção dos seios e me ouvia com toda a sua atenção. Prendeu os longos cabelos, molhados de suor, com dois grampos. As axilas também estavam úmidas. Era apaixonante vê-la falar de si e de sua vida natureba, coisa que nunca me interessou. Perto dela, eu esquecia carne e refrigerante e chegava a ter desejo de provar aveia, leite de soja, biscoitos de chuchu. Virava o rosto, alongava o pescoço. Esguia, iogue. Senti vontade de tocar aquela nuca. Beijar. Lamber o suor. Mas Alice não era uma mulher. Era uma fonte, uma entrevistada, um ícone. Em casa, demorei a conseguir escrever de modo isento, neutro. E passei a sonhar com aquela tarde todas as noites. E para sempre.
27 fevereiro 2012
Joana
E eu sou besta? Dei a mão assim e vi que ele não ia parar. Acelerou, menina. Eu fiz que ia me jogar na frente e ele pisou no freio, um barulhão. Aí eu atravessei bem devagar. E ele ficou puto, foi me xingando. "Velha louca". E eu sorri. "Velha louca, vai pro asilo". "Vou, mas você vai comigo", eu respondi. A lei não existe? Não é clara? Os carros têm as prioridades deles. Na faixa de pedestres, é dos pedestres. Se eu balancei a mão, era a minha vez, ou não era? Pois ele não queria parar. Aí eu pulei assim, sabe como é? Fiz que ia, mas não fui, porque eu também não sou louca de me jogar na frente de um carro. Mas foi bom pra ele se assustar. Aí ele parou, menina, mas puto. E gritou "Velha louca, vai pro asilo". E eu: "Vou, mas tu vai comigo". Porque a gente não pode deixar eles pensarem que podem tudo. Não. Nesse país tem lei, minha filha. O pedestre tem prioridade. Fiz o sinal e ele acelerou. Como é que pode? Aí eu avancei. E ele pá - freou. Mas foi com tudo. Cantou pneu. "Velha louca". E eu sorrindo.
26 fevereiro 2012
Gabrielle
Não me lembro de ter existido um tempo sem balé. Pendurada num dos peitos de minha mãe, acompanhava atenta os movimentos unilaterais dela, ensinando crianças e moças. Suavidade, doçura, beleza. Não tive oportunidade de me apaixonar por essas coisas - um balé para espectadores. Minha vida era a de bastidores, de coletes costurados no corpo, de maquiagem em andamento para cobrir espinhas enormes, de toucas de meia de seda, de pés feridos e calejados. Gente ensaiando dia e noite, gente chorando de dor ou de desespero, gente brigando - geralmente minha mãe, distribuindo ordens. Antes de saber andar, correr, brincar, eu já sabia dançar. E com sapatilha de ponta. O pescoço sempre alongado, peso controlado, cada mudança de braço, rodopio, estiramento de perna devidamente controlados e cronometrados. Contabilizo pouquíssimas vezes que me permiram comer chocolate ou brincar num parquinho de praça. Além disso, não sei o que faria se precisasse depositar um cheque no banco ou comprar uma passagem aérea. Sempre existiram assessores pra isso. Não acredito em deus, nunca fui a igreja alguma; sei fazer coques perfeitos, me maquiar e chorar sozinha, depois de cada apresentação e antes dos aplausos finais.
25 fevereiro 2012
Maria Ruth
Fará vestibular para pedagogia e será aprovada. Aluna dedicada, será convidada a participar de um grupo de pesquisa sobre educação inclusiva. Apresentará trabalhos em congressos, escreverá artigos, terá reconhecimento. Mas não se casará. Conhecerá um rapaz e terá um namoro de duração mediana, que acabará em um outono. Sofrerá, mas se dará conta de que nunca gostou dele. Será professora e pesquisadora requisitada. Descobrirá uma forma de inclusão inovadora, com bons resultados. Dará palestras no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos. Em paralelo, esperará e procurará o amor da sua vida. Pro resto da sua vida. E ele não virá.
24 fevereiro 2012
Virgínia
Acordou mudada porque dormiu dizendo para si que ia mudar. Disposta, separou calças largas, tênis e grandes vestidos ou blusões, dentro dos quais escondiam-se bunda, coxas, seios parisienses. Tudo muito exuberante. Experimentou o único - e quase novo - sapato de salto em verniz preto. Andou um andar vegetal. Sorriu de si, sem espelho. Quanto às bijuterias, resolveu que precisava de algumas novas. Jogou fora minibrincos, colares coloridos, prendedores de cabelo, bolsas, meias infantilizadas, discos, fotos e livros, livros, livros. Comeu uma maçã, catou uma carteira charmosa; uma camisa masculina ganhou um cinto rude e virou um vestido curto. Calçou o sapato de verniz. Soltou os cabelos. Foi andando - até que se acostumasse lidaria bem com olhares incrédulos - ao trabalho para pedir demissão. No caminho, uma loja de acessórios e uma cafeteria. Eis a nova Virgínia.
23 fevereiro 2012
Amanda
"A senhora não vai contar pra ninguém", mas a paciente ao lado já tinha ouvido tudo e a velha pintada fez um sinal para a atendente. Viu que não adiantou e começou a se justificar. "Eu preciso, Amanda, eu preciso. A sua colega ali foi que errou da outra vez". Em seguida, pediu duas folhas em branco. Amassou uma em volta do que parecia uma calcinha úmida, reforçou com um elástico e pôs na bolsa. Pegou e guardou algumas vezes os documentos, mostrou pra Amanda. "Olha aqui a minha idade. Coloque aí 'uso contínuo', senão vou ter que voltar aqui de novo". Mostrou também o cartão da Unimed. A moça obedecia e tentava ser discreta. Imprimiu o novo receituário. Forjou uma assinatura qualquer acima do nome de um médico com CRM, que talvez até exista. "Agora vá embora e não volte mais", sussurrou. A paciente ao lado com os olhos vidrados. A velha enrubesceu-se: "Amanda, eu também fico muito contente em revê-la. Obrigada, viu, querida. Por isso que eu gosto de ser atendida só por você". Foi. Deixou a segunda folha em branco intacta sobre a mesa.
22 fevereiro 2012
Milena
Tudo tem explicação. Ele queria dinheiro - pensão, seguro - e paz. Talvez. Agora, nem um, nem a outra. Nem a mulher que escolheu como companheira, nem a amante-motivadora, nem o irmão-cúmplice. Vigias. Ele se tornou perigoso, psicopata, assassino cruel. Uma vida amena, batalhada. Tínhamos nós dois, um podia contar com o outro. Brigávamos, mas quem não briga? Tomei banho, me vesti. Ele sempre fazia o café muito cedo. Voltou para o quarto e eu chamei por ele, já abrindo o portão. Não consegui entrar no carro. Me atingiram e eu nem tive tempo de olhar a cara do criminoso. Mas escutei - ele pediu, orientou, sussurrando: "aqui no ombro, ó, aqui". Depois os gritos, a encenação. A dor que eu senti se transformou em nada. Nem pena, nem ódio. Tudo tem explicação.
21 fevereiro 2012
Giovanna
Cansei de ver meus pais brigando. Mas isso não me atinge, sou indiferente. Sou simpática, cumprimento as pessoas educadamente. Me concentro na minha vida, nos meus cadernos novos, escola nova, colegas novos. Meus pais me dão o que eu quero e até o que eu nem sonhei em pedir. Não preciso ter desejos. Mal o ano começou, já ganhei todas as atenções, professor particular de matemática e física e promessas de ir a Gramado em julho e Disney em janeiro. De novo. Falo inglês. Ainda não menstruei, não me interesso por namoros. Converso com meus amigos sobre adesivos, desenhos animados e coisas de escola. Ouço músicas que tocam, não escolho, não tenho um estilo preferido, nunca comprei nada no itunes. Em casa, nada faz sentido. Durmo e como. Durmo muito e como muito. Meus pais sorriem muito. E, por mais que eu erre - se é que eu erro -, o amor que recebo não muda.
20 fevereiro 2012
Maristela
Num programa de TV, desses que promovem encontros, foi dispensada. Saiu sem pretendente. Em festas, shows, ensaios, volta para casa acompanhada ou sozinha, meio a meio. Viveu com Jander no Alto do Cabrito até dois anos atrás, mas terminou o namoro e, desde então, nada. Só pequenos encontros com homens decadentes e feios. Os búzios não se pronunciam. Uma justificativa que usa para si não tem a ver com beleza, mas com idade. As rugas e manchas impressas na face combinam com a flacidez de pescoço, braços, barriga, bunda, pernas. O mundo anda muito focado na juventude, conclui. Mas no carnaval, na sua cidade natal, acompanha maquiada, enfeitada, alegre e confiante os Filhos de Gandhy. Ganha colares e beija de língua homens enormes, bonitos e cheirosos, com todo o amor que guarda dentro de si.
19 fevereiro 2012
Ariadne
Passou no concurso dos Correios. Passou a entregar cartas, uniformizada, e a ter dignidade, tíquete, plano de saúde. Mas o que adiantou? Passou por uma quadra e torceu o pé, rompeu tendões. Passou pelo Santa Lúcia, Santa Luzia, Santa Helena. Passou horas e horas na espera. Procedimentos que precisam ser autorizados. Calção. Passou cheque sem fundo. Tenho dor. Cruzou os braços e foi entrevistada, com o pé inchado. Passou no DFTV.
49/365
Marcela
Estreou na Mocidade do Gama, na bateria. Dedicada, filha da cidade, era respeitada e admirada na comunidade. Criava dois meninos sozinha, dona de casa, rainha do lar. E era envolventemente carnaválica. Preparava-se o ano inteiro, costurava fantasias. Tocava surdo, repique e bumbo. Mas descobriram a moça. Roupas grandes, largas pra quê? Bumbum. E, em 2012, de sandálias novas, virou rainha da bateria.
17 fevereiro 2012
Anunciava pelo megafone: “este carnaval será diferente, pessoal. Vamos ajudar a salvar as nossas crianças!” Era o mesmo anúncio de todo ano e a comunidade se perguntava o que seria diferente, afinal. Mas ajudava. Um doava chuchus, outro cenouras, macarrão, costelinha, batata, couve. A sopa das crianças que vagavam pela Sé era o que dava sentido ao carnaval de Cristina. Ela mesma mexia o panelão, arrumava tudo, dirigia a kombi e a equipe de distribuição. Na madrugada, enquanto se viam foliões bêbados e desorganizados voltando dos barracões para casa, ela abordava meninos e meninas na praça. Oferecia sopa e amor.
15 fevereiro 2012
Ele sai antes de mim, deixa o café pronto às 4h. Vai treinar. O time está na série A2 do campeonato pernambucano. Atrasa salários, não fornece alimentação durante os treinos nem dinheiro pro ônibus, nada de massagista, médico, equipe técnica. Mas ele está lá, firme, por paixão e compromisso. Chega por volta de meio dia, dá o almoço dos meninos e leva pra escola. Volta, come e dorme. E eu, o dia todo na rua. Vendo picolé. Às 7h pego o carrinho e vou pra Boa Viagem. Já não agüento minha própria voz, ritmada: “olha o picolé. Tem de uva, coco, morango, graviola, castanha, nata, chocolate e limão”. Quando chego, ele está me esperando, banhado, cheiroso. As crianças limpas, jantando e assistindo à novela das sete, o dever feito, prontas pra dormir. Enquanto eu janto, ele me conta como foi o treino, cheio de esperança de que, este ano, eles sobem para a A1. Sorrio e confirmo, sem acreditar.
14 fevereiro 2012
13 fevereiro 2012
10 fevereiro 2012
Cabelos cheios e homogeneamente cacheados. Seriam considerados bonitos e sensuais se não fossem completamente brancos ou se não emoldurassem um rosto sujo e inexpressivo. Vaga pela Asa Sul inteira, mas é vista também no Setor Bancário, na Rodoviária, na Esplanada. Nada diz. É completa e saudável: tem mãos, pés – os dois. O tempo inteiro descalços e com unhas enormes, dando um aspecto de garras. Mas não anda, flutua. Sem pressa. Uma saia de tapete, amarada com um pedaço de cortina, uma camisa de botão amarela clara, uma ou duas sacolas de supermercado penduradas na mão. Elegante. Não fala sozinha, não xinga, não se envolve com outros, não rouba, evita pedir moedas. Apenas existe. E impõe à cidade limpa e planejada sua imagem aterrorizadora.
09 fevereiro 2012
08 fevereiro 2012
07 fevereiro 2012
Ir à escola não era prazeroso como diziam que deveria ser. Xingava baixinho para que a tia, deitada na cama ao lado, não ouvisse: caralho. Lavava o rosto, reforçava o desodorante, escovava os dentes, ajeitava o cabelo duro como podia. Já de uniforme, preparava o café, cortava o pão, passava manteiga e sentava-se à mesa. A tia, ao acabar de rezar o terço, unia-se a ela. “Que aulas vais ter hoje?”. Matemática, física, português e geografia. Odiava todas essas e mais as outras. Odiava ir à escola. “Vamos ver se este ano não reprovas”. Consentia. Pegava os livros e cadernos e saía. No ônibus, lamentava. A ela bastava continuar a limpar a casa da tia, lavar as roupas, regar as plantas, ir à missa aos domingos. Não precisava de estudo para isso, mas a velha fazia questão. Um vestido novo costurado por ela mesma por mês e alguns trocados para picolés e, eventualmente, uma revista adolescente eram os luxos que preenchiam seus planos futuros. E só.
06 fevereiro 2012
03 fevereiro 2012
02 fevereiro 2012
01 fevereiro 2012
31 janeiro 2012
30 janeiro 2012
Melancólica. Acordava às 5h para tomar antidepressivos, sem nunca acreditar que teria um dia bom. Voltava para a cama e assistia a um programa aborrecido de TV – doenças incuráveis, problemas incríveis, paranormalidade. Entediava-se. Desligava. Em um horário aprazível, telefonava a uma amiga (trabalhando, Úrsula, depois ligo); tentava a mãe (de novo, filha? Olha só, você deve fazer assim), entediava-se, desligava. Não tinha mais o César para ligar, para chutar o pé, sentir o cheiro, combinar de ir ao supermercado à noite. Mas já fazia tanto tempo. Por que ainda lembrava-se dele? Não tinha mais o escritório, cheio de clientes, cheio de funcionários incompetentes, cheio de problemas. Convidou o Marcelo, ex-sócio, para almoçar (claro, que horas?). O receio de que o babaca esperasse que ela pagasse – já que o convidou – a fez desistir. Ligou de novo (mas por que mudou de ideia, Úrsula? Eu hein...). Almoçou sozinha no restaurante mais caro que pôde encontrar. Fez planos para a viagem de março – Belém do Pará. Quem convidaria? Entediou-se de todos. Voltou para casa. Desligou-se.
Livros, apostilas. Cursinho. Domingo. Sol. Nuvens. Sol. Notebook, cabos, caneta, caderno. Internet. Inscrição. Banco, conta, dinheiro, saldo. Livro. Caderno. Sala de aula, professor, pincel, quadro. Colegas. Concorrência. Bolsa, barra de cereal, água. Apostila. Espirro. Óculos. Saudade. Foco – quadro. Matemática financeira. Direito Penal. Inglês. Alarme, pílulas. Notebook, apostila. Intervalo, água, café, banheiro. Sol, tédio, raiva. Resignação. Sala de aula, professor, pincel, quadro. Colegas. Concorrência. Apostila, livros. Caderno, caneta. Repetição. Exercícios. Interpretação. Erros, acertos. Pontos. Calculadora. Decepção. Otimismo, perseverança. Almoço. Descanso. Livros. Sol. Nuvens. Sol. Notebook. Celular. Rapidez, pressa. Sala de aula, caderno, caneta. Direito Administrativo. Óculos. Água. Exercícios. Rabisco – saudade. Renan. Pôr do sol. Alarme. Carro. Casa. Banho. Livro. Cama. Foco.
É fim de janeiro. Aniversário do Joseph, capricorniano. Acordei cedo, ajudei minha mãe com a louça de ontem, tomei café com ela. Fui à feira, comprei cheiro verde e pimentão. Fiz as unhas, depilei pernas, axila e virilha, alisei os cabelos, peguei uma blusa na costureira. Peguei com a Luciana os ingressos pro pagode hoje. Banho de lua na laje de casa. Desliguei o celular pro Joseph nem sonhar em me telefonar. Sem explicações. Tudo surpresa. Sete da noite. Comecei a me arrumar – banho, desodorante, perfume. Ensaiei uns passinhos na frente do espelho. Liguei o celular para ver quantos recados tinha recebido do Joseph. Nenhum. Procurei o número dele, liguei, fora da área de cobertura. Surpresa?
27 janeiro 2012
Chegou do futebol. Tomou banho, comeu miojo com requeijão e ouviu as perguntas do pai sobre o jogo, respondendo "ã-hã" e variações com a cabeça. Diante do espelho, arrumou mais uma vez as trancinhas. Sorriu para si. Computador. Hora marcada com um garoto, o Daniel. Não o conhecia pessoalmente, ainda, mas ele fora uma espécie de indicação da Ana, super amigo do ficante da super amiga. Nunca se interessou por garotos daquele jeito. Sempre jogou bola com eles, brincou de esconde-esconde na rua, brigou. O Daniel era tão lindo. "Filha, vem ver o jornal com o papai". Não, não queria saber de jornal, de prédio que caiu, de ministro que vai cair. Daniel. Daniel. Daniel. Tinha que chamar de alguma coisa aquilo que sentia e que não tinha nome. Daniel. Daniel. Daniel.
26 janeiro 2012
Elisângela
Cumbuca e produto pra relaxar cachos na mão. Mistura com o pincel macio e passa com cuidado na raiz do cabelo da cliente.
- Eu adoro ela. Foi assim: ela era minha cliente e, com o tempo, fomos ficando amigas. Ela me chama pra sair, visita minha casa, me conta as coisas dela...
- Então tá tudo ótimo.
- Não, mulher, escuta. Ela me enche o saco. No dia que eu me embucetar aí vocês vão ver.
(risos de todo o salão)
- O que ela te fez?
- Ela vive emburrada comigo. Se me liga e me chama pra sair e eu não vou, pronto, emburra. Se vem aqui no salão e eu não atendo ela na frente de todo mundo, emburra.
- Mas ela teria que entender, né? Você está trabalhando, tem outras clientes.
- Mulher, ela nem marca. Ela quer ser atendida na hora.
- Isso é amiga?
- Já tá quase pronta, viu? Mais dois minutos. Vamos já lavar.
- Tá.
- Outro dia me chamou pro cinema e eu disse que não tinha dinheiro. E ela fechou a cara. Ave Maria, só se eu der minha periquita (risos).
A cliente olha o cabelo cheio de química pelo espelho. O cheiro é forte.
- E quando ela chega eu tenho que sorrir, nem que eu tenha brigado com o Anderson ou qualquer outra pessoa. Eu tenho que tratar ela bem.
Chega a fulana.
- Amiga linda, eu tava te esperando! Vai querer depilar, né?
O couro cabeludo da cliente ardendo com a progressiva.
25 janeiro 2012
Meu muro e meu portão são baixos. Minha fachada é meio velha, descascada. Vejo a rua, vejo o povo passeando, dou bom dia. Me trazem leite, pão e jornal na porta de casa. Vou à bodega. Conheço todo mundo. Estou na Lapa há mais de 40 anos. Só nesta rua, mais de 25. Hoje é um dia especial - o aniversário da cidade que me oprime e me acolhe. Tem corrida de rua, show, festa na Paulista. Eu não vou. Mas fiz um bolo especial. E comprei velas. À noite, depois de ver tudo pela televisão, e depois de passar as pomadas nas pernas, e tomar o remédio da pressão, e ver se o Pingo, meu vira-lata, já dormiu, eu vou cantar parabéns pra minha cidade. Sozinha.
24 janeiro 2012
24/365
Katrinna
Em plena terça-feira de janeiro e ela em casa, sem dinheiro, sem trabalho. Por orientação de seu advogado, aguarda o fim do seguro desemprego. Talvez espere até o fim do processo; poderá receber alguma indenização. Assistiu a dois filmes ontem. Acordou às 9h. Escolheu a conta de luz para pagar. Sem internet, o passeio do dia foi até a lotérica da esquina. Comprou dois pães. Evitou gastar com cuscuz. Pouca margarina. Está magra - não tem academia, gelatina diet, leite desnatado. Anteontem ligou para a mãe. Velha insensível. Se vire, pague suas contas e me deixe em paz. Do pai e do irmão não tinha notícias. O namorado? Nos fins de semana em que os dois conseguem juntar algum dinheiro, saem, dançam, trepam num motelzinho. Mas é só o dinheiro acabar e cada um volta para a sua rotina. Desde a semana passada não tinha notícias dele. Cachorro. Ana Maria Braga. Eu quero trabalhar. Vai lavar roupa, arrumar a cama, limpar a casa. De novo. À tarde, ligará para o advogado.
23 janeiro 2012
Fui vencida. O meu desfio de 2012 não foi cumprido. Mas não quero mais essa culpa para a minha coleção. Não foi por preguiça, falta de inspiração ou bloqueio criativo. Não publiquei nos dias 21 e 22 porque o meu acesso à internet está limitado ao trabalho. Mas escrevi, apesar da trabalheira com mudança de endereço.
E, para provar, eis os contos de hoje, ontem e anteontem.
23/365
Graça
Meu ano está maravilhoso. Me botaram pra servir este andar agora, com menos pessoas e todas educadas. Chamaram a Camilinha no Extra. Ela vai ser caixa. E a Duda começou em dezembro como adolescente aprendiz na Caixa Econômica do Gama. Eu passei no Enem. Agora vou ter que procurar em qual faculdade eu consigo entrar com bolsa do Prouni. Você vê aí pra mim na internet? Não precisa ser agora não, mais tarde, quando eu trouxer o seu café. Mas, menina, você não vai acreditar, meu coração está uma bagunça. Cansei do açougueiro. Mas foi porque eu me apaixonei. Nunca acreditei nesse negócio de amor à primeira vista, mas existe. Fui numa festa com minhas amigas e me apaixonei. Fiquei com o rapaz. Traí meu namorado. Ele estava viajando. Mas agora voltou e já percebeu que eu estou fria com ele. Vou ficar assim até ele se tocar e cair fora. Não tenho coragem de dizer que eu tenho outro. Ele não ia fazer nada, não ia matar ninguém, mas é chato, né? São três anos de namoro. Ele me ligou ontem e disse que ia lá pra casa. Eu falei que estava passando mal, pra ele não ir. E saí com o outro. Minhas meninas não sabem. Anselmo o nome dele. Não, não é muito bonito não. Mas os olhos dele são lindos, cor de mel. Não vou reclamar não, meu ano começou bem. Graças a deus. Deixa eu servir a outra menina ali.
22/365
Renata
Contou e recontou os dólares. Não batia. Era a primeira vez em Miami. Conferiu cada compra, forçou a memória para visualizar cada lanchinho, sorvetinho, chicletinho. Gastou com algo que não lembrava ou foi roubada. Mas quem roubaria vinte dólares? Droga. Devia ter reservado a bosta do dinheiro. Agora, por causa de vinte dólares, estava prestes a perder o voo. Seria possível ir até o aeroporto correndo? Pegou o mapa. Muito muito muito muito longe. E ainda teria que carregar malas, sacolas, bolsas. Droga. Pensou em pegar emprestado com alguém, mas quem? E com esse inglês péssimo? What you... Do you... Vinte. Two, zero. Money?, ensaiava. E como ia devolver? Sedex? Quem ia confiar nela assim? Era outro país, sei lá. Ou podia vender o tênis, as garrafinhas? Droga. 6h da manhã. Incomodaria algum hóspede? Haveria brasileiros alí? Droga. Batia a cabeça na mala, desejando que alguma ideia lhe escapasse por um buraco qualquer.
Maria do Rosário
- Não trabalhamos com intuição, senhora.
- E como é que a gente faz, moço? Meu filho ainda não voltou pra casa e eu sei que aconteceu algo ruim.
- Qual a idade do rapaz?
- 17. Não, 18. Acabou de completar... Hoje é o aniversário dele, já passa da uma da manhã.
- Aí é que eu não posso fazer nada, senhora.
- Que porra é essa, seu delegado?
- Eu não sou delegado, senhora. Sou agente. E, infelizmente, não posso fazer nada. A senhora pode apresentar queixa de desaparecimento 48 horas depois do sumiço do rapaz. Então, vai ter que esperar.
- Eu estou lhe dizendo, seu agente, que algo ruim aconteceu. Eu sinto isso. A informação está aqui, ó (batia com a mão fechada no peito), mas eu não consigo decifrar. Sei que foi sério. Talvez uma tragédia.
- Já disse que não há o que fazer, senhora.
- Eu estou desesperada, meu filho precisa de ajuda.
- Se ele precisasse mesmo de ajuda, ele ligaria.
- O senhor não está entendendo.
- Senhora, eu devo cumprir a lei.
- (Exaltada) o senhor enfia essa lei no seu cu. Porra, já faz meia hora que eu estou lhe dizendo que...
- (Para outro agente) algema a velha. Desacato.
Rosário calou-se.
20 janeiro 2012
20/365
Ava Eugênia
Deixara de comer carne, inclusive frango. Tudo para agradar o namorado estrangeiro, que considerava a prática de devorar animais deplorável. A data do casamento marcada: 21 próximo. Falta muito pouco. E ela tem dúvidas, medos, receios. Não seria simples desistir, fugir, simular um chilique. Afinal, o casamento vai legalizar a situação do noivo excêntrico no Brasil. Será o mesmo que atestar que o ama para sempre e que, de um modo ou de outro, ela estará ligada a ele a perder de vista. Se sentia antecipadamente culpada, responsável por proporcionar a ele uma nova vida: possibilidade de ter uma carreira, de ganhar dinheiro, de prosperar. Largar hábitos ruins é fácil; organizar uma festa simples mas com detalhes de muito bom gosto é fácil. E aguentar um desconhecido para o resto da vida? Respira, acessa o iphone e tuíta, fingidamente entusiasmada: “Amanhã a festa mais animada do ano, meu casamento com o Philip. Espero todo mundo lá. Até a Luiza que voltou do Canadá. hahaha”.
19 janeiro 2012
19/365
Tereza
Ainda choro se algo me surpreende. Acredito em algumas instituições-conceitos, como amizade, família, mas com alguma desconfiança. Não sigo com rigor os meus ritos. Não respeito meu corpo. Os limites se impõem, mas contra a minha vontade. Ponho à prova a minha intuição. Não aprendi a perdoar, sou rancorosa. Cumpro minhas obrigações, às vezes com um entusiasmo genuíno, às vezes com apatia e até desprezo. Sinto raiva quase todos os dias. Não sorrio a nenhuma criança que não seja filha minha. E o sorriso de ninguém me comove. Retraio minha espontaneidade. Tento regularmente manter o desvínculo com alguns familiares e amigos. Até rezo. Planejo – e executo – meu lazer quase mecanicamente, para cumprir uma receita de vida boa. O tempo passa e eu cresço. E me torno, cada vez mais, uma pessoa pior.
18 janeiro 2012
18/365
Claudia
Não tinha papas na língua. E queria parecer não ter. Queria ser respeitada, temida. Desafiava. Apostava seu cargo de confiança, seu status. Falava mal da empresa e de seus superiores. “Você viu, Lu, que o chefe conversou por horas com a Vick ontem, na confraternização?” – alfinetava. “Vi, Claudia, mas não enxergo mal nenhum nisso”. Balançava a cabeça: “ai, Lu, como você é ingênua. A prova é cabal, querida: hoje ele chegou sério, sisudo. E sabe o que é isso?”. Lu esperava a resposta maliciosa, quase incrédula. “Ressaca moral” – e aguardava os olhos arregalados de Lu –. “É um filho da puta como outro qualquer”. Sabia que a Lu se mordia de ódio. Não pelos impropérios lançados a um homem aparentemente honesto, mas porque ela, Claudia, pra arrematar, agia como se fosse a dona do setor. “E, Lu, antes que eu esqueça, querida, estou esperando o relatório”.
17 janeiro 2012
17/365
Selma
Aprendi que a gente tem que agradecer até o que é ruim. Que o ruim é sempre supostamente ruim. Apenas. Estou diante do ponto dos exus de minha casa. Já conversei com meus guias, já chorei minhas pitangas, me descabelei – fiquei com os olhos inchados e o corpo dolorido. Agora acendo velas, bato cabeça. Não é fácil a gente se concentrar de verdade quando está magoada. As feridas não cicatrizam por magia. Difícil rezar. O Jonas é um bandido, pilantrinha, covarde. E não me quer mais. As pombas giras riem porque compreendem a bobagem que é lamentar amor perdido. Isso passa, garantem. Até passar, peço que prendam minhas pernas. Pra eu não correr atrás dele.
16 janeiro 2012
16/365
Iolanda
Meu filho, eu estava saindo do Comper e o rapaz gentilmente se prontificou a me ajudar. Porque eu comprei muita, muita coisa e tinha muitas sacolas. Eu vejo esse rapaz quase todo dia, ele olha os carros. Ele deve saber onde eu moro, pois fomos andando enganchados até perto do meu prédio. Ele tentou tirar as sacolas pra me ajudar, mas elas se emaranharam nos meus braços. Bastou isso. Seu Pereira, porteiro do meu prédio, veio correndo. E mais uns dois ou três que eu não conheço se amontoaram à nossa volta. E bateram no rapaz. Bateram na cabeça dele, chutaram a barriga, as costas. Ele não disse nada. Nem todo mundo é marginal, meu filho. E foi tudo tão rápido, que eu tentava explicar pra eles e não conseguia. Fiquei assustada. Se o rapaz não morreu, deve estar bem machucado, porque a última vez que o vi – me arrastaram pro outro lado e, aí sim, perdi algumas sacolas – ele estava ensanguentado no chão. Eu mesma subi pelo elevador e chamei a polícia.
15 janeiro 2012
15/365
Rita
No Pier 21.
- Pronto, perguntei se a gente podia pagar depois de comer.
- Imbecil. Idiota. Por que foi perguntar?
Não entendia a reação grosseira. A mãe era tudo pra ela. Mesmo sendo adolescente, não dava trabalho. Ajudava a cuidar da irmã temporã. Há pouco, a menina tentava tirar a fralda, na frente de todo mundo, e a mãe se servia.
- Hein, imbecil, responde. Burra!
(Rita calada)
- Idiota... não sei por que ainda saio com vocês duas. Perguntar coisas pra uma mulher. Uma mulher desconhecida. Eu mandei você perguntar? Mandei, hein?
(Rita calada)
- Trouxa, babaca. Eu perdi a fome. Vou pro carro.
(Rita olha assustada)
- Imbecil.
Não chora. Termina o prato calada. Não sabe como vai pagar a conta. Ou como vai levantar e ir embora sem ser percebida. Come toda a salada.
14 janeiro 2012
14/365
Elisabeth
Acorda. Escova os dentes. Banho rápido; café com toalha. A roupa foi escolhida na noite anterior. Creme, maquiagem, desodorante. Tudo cronometrado. Ao entrar no carro, as ligações começam: secretária, banco, filha, mãe, namorado. O amor não é prioridade. Chega ao banco, lê todos os jornais, analisa as taxas do Bacen, especula, sugere, opina. A secretária lembra que tem dentista às 11h. Manda cancelar, adiar. Café. A secretária telefona na hora do lanche. Na hora do almoço. Na hora do outro lanche. Jantarão juntas. O namorado telefona. Não atende. Taxas, investimentos, câmbio. Retorna a ligação e – sem ouvi-lo – pede que ele escolha o destino das férias. Tem que desligar. Entrevista um candidato à sua equipe. Café. Não tem tempo de imaginar praia. Delega. Filha, não posso falar agora, amor. Continue amamentando, sempre que ele chorar. Ouve o neto ao fundo. Desliga. Volta para casa. Jantar com a secretária, passar a agenda de amanhã. A mãe telefona, aconselha: diminua o ritmo. A roupa do outro dia já está escolhida. Demaquilante, banho, dentes. Duas pílulas milagrosas. Dorme.
13 janeiro 2012
Dorinha Landir
Por um rápido instante, se permitiu imaginar-se no lugar de Sheila, que lhe arrancava as cutículas. Atenderia mais duas ou três clientes. Na volta para casa, saltaria do ônibus sujo e lotado, passaria na padaria e compraria – fiado – um pacote de pão. O marido seria um desempregado barrigudo e nojento, os filhos catarrentos? Chega. Melhor voltar ao pensamento das joias que pretendia comprar, do novo carro, dos vestidos. O marido cheiroso, os filhos educados e brilhantes. Pediu champanhe à gerente do lugar – o nome lhe fugiu – e foi prontamente atendida. Melhor levantar o queixo, evitar olhar os olhos de Sheila, imaginar um pagode de laje. Isso nem deve existir, apostava. Já com os cabelos no lavatório, telefonou para Araci e, ao instruí-la sobre o jantar, ouviu um verbo mal conjugado. De onde vinha essa pobreza de espírito? Essa falta de noção? Nunca deve ter estudado, coitada. Ainda hoje, com seu salário irrisório, deve ter dificuldades para fechar o mês com as contas em dia. Era viúva e sustentava dois filhos e um neto. Pegava quatro ônibus todo dia. Chega. Saiu do salão. Só restava se certificar de que deveria reservar-se calada, desde o entrar no carro até chegar aos jardins da mansão. E subir o vidro rapidamente para evitar qualquer conversinha sem propósito do Jair, que começaria com um “boa tarde, madame”.
12 janeiro 2012
12/365
Flaviane
A analista queria inovar. Queria ir além de Freud e seus sucessores. Botou duas pacientes, desconhecidas entre si, para conversar. “Coisa estranha, o que ela quer com isso?”, e a outra respondia “e eu que sei? Essa mulher é louca”. Ela observava primeiro sem ser vista. Depois, passou a ficar na sala, postada atrás dos dois divãs paralelos. Era interessante, mas ela ainda não conseguia concluir nada – um experimento sem objetivo e sem hipóteses. E as duas passaram a sair de si, deixaram de falar dos seus próprios problemas ao léu, para ouvir e aconselhar a outra. Mais adiante, perderam o interesse por essa conversa solidária. E foi surpreendente para Flaviane ouvir especulações/suposições/verdades sobre si. “Hum, não te contei. Ela tem um namorado lindo, mas nem liga pra ele. Esnoba, sabe?” e a outra comentava “não consigo entender como alguém poderia tratar uma pessoa próxima com descaso. E nem bonita ela é. Deve ser doente”. E as sessões duravam mais, muito mais do que um bom filme.
11 janeiro 2012
11/365
Laura
Tinha pezinhos de anjo, menores que os da maioria das crianças da mesma idade. Mas era geniosa. Cada birra resultava em valiosos olhares permissivos e, às vezes, doces (além do pedido objeto do show). Não se tratava de falta de educação, diziam os pais e atestava a psicopedagoga, mas de personalidade. Um grito no supermercado, um escândalo na casa dos parentes, um choro desnecessário por uma boneca nova – tudo seria pouco, quase nada, diante do dinheiro que a pequena renderia. Os sonhos do casal – primeiro era casar, ter dinheiro para alugar um apartamento na Asa Sul, comprar um carro semi novo e planejar a chegada da princesa – agora se resumiam em quitar dívidas, equilibrar os gastos, sair do vermelho. Com um comercial de TV feito e já matriculada em teatro e sapateado, mal sabia a ordem do alfabeto. Investimento. Os olhos dos pais brilhavam de orgulho.
10 janeiro 2012
10/365
Wanda
Gostou do primeiro capítulo da novela com a Marília Pera. Era fã. Mas era raro isso acontecer, uma novela ser boa logo no início. O jornal começou e ela foi esquentar o arroz, fritar o ovo – o último – para o Juarez. Achava ele um filho da puta de marca maior, mas acreditava que mãe e mulher sempre ficam em segundo, terceiro, quarto lugar. Se tem um ovo só, é do homem da casa. Se são dois, era um dele e um do menino. O terceiro é que seria o dela. Ontem, o vizinho caminhoneiro entrara num buraco que quase cobriu todo o veículo. A esposa ficara louca, puxando os cabelos, mas ele saiu nadando. Um buraco sem sentido. Ela consolou a vizinha. Também ontem, tentou pela terceira vez confirmar a matrícula do menino, sem sucesso. Só vai ter outro dia útil de folga semana que vem. Hoje fez faxina na casa da dona Liduína, no Guará. Machucara o joelho, de novo. Não sabe como será amanhã, na casa da dona Viviane. O ovo frito, voltou à geladeira. Resto de arroz e cenoura. Aproveitou o óleo do ovo do Juarez. Fez um mexido pra ela e pro menino. Estranho a prioridade ser de um filho da puta desses. Mas não ia reclamar, estava feliz com a novela. Se o primeiro capítulo já foi bom, imagine os próximos.
09 janeiro 2012
9/365
Rosa
Já contabilizava oito anos na profissão. Muitas aulas dadas e especializações com os profissionais mais renomados de todo o mundo. E agora, depois de vender seu curso em um site de compras coletivas, batera todos os recordes: três a quatro aulas diárias, cada uma com três horas de duração. Mas ela nunca havia passado por uma situação assim. Nunca, nunquinha. Nada perto disso. Explicações demais. Enquanto ensinava pacientemente as alunas a delinear os olhos, deixou escapar o pior e mais estarrecedor peido de sua vida. As que estavam próximas notaram, chegaram a contorcer o rosto ou sorrir. Iam borrar a maquiagem, essas ridículas. Sentiu ódio delas e anunciou: vou lavar as mãos, caiu base e sombra líquida aqui, posso manchar o rosto. Explicações demais. Foi ao banheiro e lá ficou por mais de dez minutos. Ao retornar, observou o olhar das alunas. Claro que elas sabiam. Fez outro anúncio: o cano da torneira soltou, está tudo molhado, não vão lá, ok? Explicações demais. Seguiu com o curso, rubra, sem blush.
08 janeiro 2012
8/365
Danila
Deprimida, Danila assistia ao Fabuloso Destino de Amélie Poulain e chorava em bicas. Queria ser inocente. Ao menos na relação com a Natália, que era a mais desencanada das meninas de sua vida. Queria também que a Natália fosse inocente. Danila queria ser pura também no seu empreguinho de bosta – apesar de ser muito capaz e ambiciosa. Queria não ser mais ambiciosa; queria que ninguém mais tivesse ambição. Queria ter uma mobilete e até uma amiga aeromoça pra reavivar a fantasia do seu paizinho, que sofria a morte de sua última esposa há mais de seis anos. Queria morar na europa, que todos conhecessem Paris, e ser garçonete e escrever o cardápio ao contrário no vidro, sem ter medo, raiva, receio ou rancor de nada. Queria armar situações para a alegria dos outros, só pra deixar de ver gente tão deprimida. Mas desejava copiosamente que alguém se ocupasse da alegria dela, inocentemente.
07 janeiro 2012
7/365
Márcia Carolina
Márcia Carolina Coutinho Lima. Nascimento: 12 de janeiro de 1986. Natural de São José do Ribamar-MA. Solteira, sem filhos. Reside em São Luís. Disponibilidade para viagens. Experiências profissionais: parte administrativa de corretora de seguros – 4 meses; secretária de cirurgião dentista – 2 meses; assistente de limpeza na prefeitura de São Luís – 1 ano e 7 meses; estágio no SENAC – 6 meses. Cursos: Inglês – básico; Informática – básico (word e excel); Curso de brigadista – trancado; Curso de cabeleireira e manicure; Curso de camareira. Comunicativa, escreve bem, lê à noite antes de dormir. Esperta. Pretende ingressar no curso de Gestão Empresarial – noturno ainda em 2012 e tirar carteira de motorista. Não tem medo de trabalho. Boa aparência. Gosta de viajar e conhecer pessoas. Precisa pagar o aluguel.
06 janeiro 2012
6/365
Tânia
“Tudo certo”. Depois de conferir quatro vezes a autenticidade das cédulas, Tânia as enrolou e enfiou no sutiã. Entre o suspiro de alívio pelo ateste e o movimento automático de acesso ao seu cofre orgânico suado, pegou a bic e o boleto. Era muito dinâmica, apesar do alto percentual adiposo. “Vai ser o quê?” O cabra não sabia. Nunca vira homem tão enrolado; os olhos dele corriam pelo entorno dela – a banqueta, os azulejos antigos do comércio fechado, os restos de cartazes na parede, o vira-lata. “Cachorro”. De repente deu pra falar firme. “Cadela”. E Tânia estranhou, mas nem teve tempo de raciocinar e, até antes de ouvir a ordem de pôr as mãos na cabeça, já deixava à mostra os sovacos. Sensação de água gelada pelo corpo, de cérebro raciocinando rápido, trazendo opções e decisões, ao mesmo tempo. Ficaria calada – por direito – até a presença do advogado (que advogado ela conhecia, meu deus?). Mas quando abrisse o bico ia levar até os famosos mais honrados com ela. Os PF tinham algo de inocentes, pensou, pois comemoram feito crianças a prisão de uma pobre coitada. Até ouviu um deles dizer: “o jogo perdeu uma leoa das grandes”. Coitados, e não conteve o riso, ela não passara de hiena.
05 janeiro 2012
5/365
Luísa
Ouvia o seu velho tagarelar por todo o caminho da casa dos tios. Os fones ele já tinha puxado. Os pais perdem tempo demais com bla bla blá, pensava. Antes mesmo que ele se desse conta, ela já tinha aprendido a lição: não é legal bater boca com a avó. O seu nome completo ela ouvira vinte mil vezes até ali. “Você tem que ter consciência, tá ouvindo, mocinha?, que a sua avó não está conosco, nós é que estamos na casa dela; se ela disser que você não vai tomar o suco especial dos infernos que ela comprou, você não vai tomar, entendeu?”. Tudo por causa de uma caixa de suco artificial, com substâncias bioativadoras para fortalecer os ossos. Recomendação médica. Queria responder ao pai que tem achado seus ossos meio moles, ultimamente, o que tem até dificultado a educação física. Mas tinha medo de levar uma chapuletada na boca. Respondona, ele diria. Maleducada, ele diria. Devia elevar seus pensamentos, exercitar a paciência – com o pai e com a avó –, a compreensão, a solicitude, a compaixão, o amor. Lembrou do Gustavo Peixoto. E sorriu – o pai estranhou – ao pensar no seu cenário futuro favorito: os dois velhinhos (mas Gustavo com o mesmo penteado de hoje), com aliança grossa no dedo, provavelmente tomando suco especial para os ossos e repreendendo um ou outro neto.
04 janeiro 2012
4/365
Carmem
Voltou ao trabalho. Fazia – por gentileza – o levantamento de alguns dados para o relatório da colega, porque obviamente não tinha nada para fazer. Muito correta, muito séria, muito comprometida, logo arrumou memorandos e avisos a fazer. Milena, você está muito ocupada? Desculpe, é que não posso mais tratar dos seus números para o relatório – com um sorriso entredentes. Não haveria problema. Milena retomaria o trabalho. Mas, antes que ela se esquecesse: Milena, querida, amanhã você poderia revisar meus memorandos e avisos, quando eu acabar? É que o chefe vai querer ver e sabe-se lá, não é? Milena piscou marotamente para Carmem, pegou a bolsa e foi embora. Aquele código todos bem conheciam. Carmem chegou a sentir vergonha, mas depois relaxou. Relatórios, memorandos, avisos. Quem saberá quando e como ficam prontos?
03 janeiro 2012
Isabel
Como alguém poderia saber? Meu vizinho, seu Júlio da padaria, Márcia do sacolão. Mas hoje todos me olharam diferente. A cada “Bom dia, dona Isabel” pelo caminho eu me sentia denunciada. A roupa era a mesma – da caminhada diária. Quando cheguei à porta do prédio, parei antes de entrar. Olhei em volta. Nenhum conhecido. Cronometrei o tempo. Não poderia demorar mais que o regulamentar da caminhada. Os rapazes muito simpáticos me receberam, preenchi a ficha, conheci as instalações. “A senhora já começa hoje?”. Olhei para o relógio. “Sim, acho que dá tempo. Quinze minutinhos, tá?”. Ele me colocou num aparelho enorme, com luzes piscando, números. Comecei minha caminhada artificial. Hoje, excepcionalmente, mais curta. Blindada do cheiro da rua, do sol e da chuva, dos “Bom dia, dona Isabel”, dos vigias incansáveis. Evitei o espelho, certa de que me sentiria como uma daquelas moças dali: finas, magras, com longos cabelos e roupas de grife. E me senti. Era ali que eu queria ficar todas as minhas manhãs. Sem que ninguém soubesse.
02 janeiro 2012
2/365
Vinólia
Na avaliação de Joel, Sandro e Inácio, dona Vinólia começou cedo. Em plena segunda-feira, às 11h, ela estava na terceira garrafa e já revirava os olhos e a língua. Na cozinha, frango cru semi temperado, uma cebola cortada ao meio, faca suja, arroz lavado na peneira. Resquícios interminados de um dia que aparentemente se iniciara certo, cotidiano.
Os rapazes aportavam na casa da mãe diariamente para filar o almoço antes do serviço. Mas hoje não haveria o que comer. Dona Vinólia já não respondia pelos quitutes que planejara preparar. Surrupiava a atenção dos três, atônitos, quando tentava pronunciar qualquer coisa ou ensaiava assoviar. Que fossem ao inferno os filhos imbecis. Que a deixassem ali, aposentada deles, desquitada do trabalho e viúva de sua razão. Hoje, Vinólia se escondeu da saudade, com cerveja.
01 janeiro 2012
1/365
Nair
Nair prepara o jantar. Pela manhã, levou as meninas para brincar no foguete do Parque. As duas bonitinhas descansavam as pernas grossas no sono vespertino. O cheiro de bisteca invade o apartamento recém-comprado. Nair se pega divagando se cheiros fortes assim entram no taco da sala e ali se instalam para sempre. Passam a fazer parte da história do lugar. Aqui deve haver registro de frangos, carnes, doces de tacho – alguém faria doce de tacho em um apartamento tão pequeno? – e também de produtos de limpeza inadequados. Aqui e ali se vê uma pequena mancha.
As meninas acordam. A mãe tem que banhá-las, banhar-se e vigiar o fogo. São poucas horas até o primeiro jantar do ano. Nair desperta do pensamento sobre os tacos. A caminho do varal, para pegar as toalhas, faz uma resolução que considera genial: preparará um doce de abóbora este ano. No tacho.