01 maio 2012

121/365
Monique

- Não, mãe, não é feriado aqui. Estou trabalhando normal. São três casas pra faxinar, fora a minha. Frio nada, aqui tá quente pra caramba, mãe. A América é assim, mãe. E aí, como estão as coisas? É isso aí mesmo, aproveita. E os exames, a senhora fez? Hmm. Certo. Luís deu notícia? É mesmo? Pois é. Já vou, tenho que trabalhar. Em julho eu vou aí, tá? Mas amanhã a gente conversa de novo aqui, tá? Um beijo, mãe, te amo. Dá um beijo em todo mundo aí. Tá, tá, certo. Tchau.

30 abril 2012

120/365
Maria João

Não poderia ter tido outro nome. Durante a gravidez, foi “o João da mamãe”. E, mesmo depois de nascida, com a demora do registro, a mãe se dirigia a ela como João, longe de possíveis olhares censores. Diante dos avós: “ainda não sei que nome vou dar à menina”. Exprimia, numa tentativa ineficaz de demonstrar alegria, decepção. Não queria uma garota. E Maria João cresceu sob os carinhos aborrecidos da mãe, aprendendo a se expressar com falsidade. Para agradar a mãe, vestia-se de modo masculinizado, mantinha o cabelo curto e tentou a carreira de jogadora de futebol, mas não tinha talento. Fez vestibular para educação física, mas não passou. Quando a mãe morreu, morreu com ela a culpa de Maria João. Comprou vestidos e maquiagem e resolveu fazer o que sabia bem: virou atriz de teatro amador e matriculou-se em balé clássico. Só não pôde deixar de lado o conforto das cuecas.

29 abril 2012

119/365
Soraya

Amanhã não é feriado na minha Brasília, talvez só pras dondocas. Moro na Estrutural, sou catadora profissional e, quanto mais eu trabalho, mais eu recebo. Não posso me dar ao luxo. Hoje à noite é banho e cama. Às vezes como algo especial, um chocolate, macarrão com ovo. Nem o Domingo Legal eu assisto.

28 abril 2012

118/365
Celeste

No Brasil, são mais noventa mil. E eu moro no estado com a maior concentração deles. Não é possível que eu não consiga me casar com um judeu. Já me sugeriram anunciar, mas não tenho coragem. Prefiro ficar plantada em frente às sinagogas paulistanas até que um amor à primeira vista aconteça. Não me interessa se o cara nasceu judeu ou se escolheu seguir os preceitos do judaísmo. O que importa é ser rico e circuncisado.

27 abril 2012

117/365
Zazá

Moro naquela ponte. Tenho um fogão de tijolos, duas panelas, um colchão. Nunca estou sozinha, a rua é muito movimentada e tem sempre um diabo pra conversar comigo – vivo ou não. Mulheres de carro fazem cara de nojo e, se as abordo, mudam indecentemente a expressão para pena, quase pedindo perdão. Não me fizeram nada. Tenho dois livros também. Já tive uma bíblia, mas dei para outro transeunte. Detesto a bíblia. É leitura de gente culta, o que é diferente de inteligente. Eu sou inteligente. Até hoje ninguém nunca conseguiu me roubar ou me estuprar. Agora chega de conversa mole. Tenho que fazer meu almoço.

26 abril 2012

116/365
Olívia

Olham pra mim como se eu fosse uma descarada. Mesmo o Jorge não aparentando ser 26 anos mais jovem, as pessoas percebem que existe uma diferença boa de idade. Quando não me abordam como se eu fosse mãe do meu namorado, me fuzilam condenadores. Ora, o que têm com isso? O Jorginho, por sua vez, segue tranqüilo e feliz: “você não devia ligar pra isso, meu bem”. E eu tento. Mas não me sinto madura o bastante para ignorar.

25 abril 2012

115/365
Ronalda

As sardas e os seios balançaram numa gargalhada inconstante e compulsiva da moça. Mineira de Três Corações, que ironia!, acaba de descobrir um trem no coração. Coisa grave, numa cavidade. O médico interjeitou com os olhos. Jeito interessante de reagir a uma notícia tão terrível: soltou um "folgo em saber" e sorrisos, muitos sorrisos.

24 abril 2012

114/365
Margarida

Na minha cidade, conto nos dedos quem não mexe com flores. Todos mexem, mesmo indiretamente. Até as putas, que atendem produtores, vendedores, adubadores. O dinheiro cheiroso de rosas, violetas, tulipas, copos-de-leite circulam pela cidade. Contudo a Margarida, minha cunhada, é caso raro. Produz sabonetes, mas com essências que vêm da Europa. E é pra lá que ela manda a produção. Exportadora. Os recursos dela até passeiam em Holambra e, imagino, eventualmente compram um vasinho de crisântemos, mas não têm grande participação nessa economia. No entanto, não é por isso que Margarida virou ídola das moças da cidade: num lugar poético, colorido, encantador, a incansável abelha rainha dá pra outros homens, além do meu irmão. E todos sabem disso, menos o tonto do zangão. A mulherada da família aplaude, acha que Margarida é o suprassumo da coragem e do desprendimento. Mês que vem, a aboletada heroína vai parir um menino. E só deus sabe de quem será.

23 abril 2012

113/365
Hildete

Em testemunho, uma irmã da igreja disse que saiu da depressão transformando a tristeza em bicho. Imaginava baratas, besouros, ratos e pisava, esmagava. Com a graça de Deus, ela foi curada. Eu não enxerguei o dedo de Deus aí, a não ser que fosse pra ajudar com a ideia. Tudo metafórico demais. Tentei a tática. Meu bicho ficou um pouco maior - um urso enorme, com pêlos mais longos do que o normal. E antes que eu pudesse tentar qualquer coisa (facão? espingarda?) ele me envolveu inteira. O prazer estranho que a tristeza proporciona. Agora vivo de dar mel pro urso, que me faz chorar e desistir da vida. Larguei até a igreja.

22 abril 2012

112/365
Dinorá

Odiava o sofá. Escreveu pro Luciano Huck e até agora nada. A história não comoveria a produção, afinal, ela sabia, trocar o sofá era um capricho. Vive bem em Eldorado do Sul, trabalha na prefeitura, mora numa casa boa alugada e vai semanalmente curtir uma balada em Porto Alegre. Mas nunca consegue se organizar para guardar dinheiro e trocar o sofá. Quer um objeto chique, estiloso. Domingo - dia ruim pra pensar. Sentada no trambolho, quase chora. Bah, e se eu conseguir comprar um vermelhão de couro? Vai ser só o princípio de outro estresse. Não vai combinar com nada.

21 abril 2012

111/365
Veridiana

Deixou de sair com um pretendente, não viu a família, ignorou ligações. Foco: escreve um artigo genial e inédito sobre a representação das empregadas domésticas numa novela que acabou de estrear na Globo. Quer publicar o texto na próxima edição de uma revista feminista e o prazo está para vencer. E vale, para ter pontos no grupo de pesquisa, escrever qualquer coisa. Até contra o que concorda. Que essas empregadinhas se fodam.

20 abril 2012

110/365
Amália

Tratou de contabilizar o que tinha. 72 anos; 46 cartas antigas dentro de uma caixa velha e empoeirada; 38 instrumentos de bordado - linhas, agulhas, alfinetes, fitas; 32 dentes falsos; 21 potes de azeitona vazios; 12 velas; 11 vestidos; 7 pares de meias; 6 viagens marcantes; 5 cachos de uva na geladeira; 4 jogos de cama e toalhas; 3 ex-maridos; 2 pontes de safena; 2 filhos que não vê há décadas; 1 vontade - morrer.

19 abril 2012

109/365
Elaine

Atendente de loja de piscinas. Mereço uma coisa melhor. Pedi as contas. Nem que seja pra ficar em casa, esperando um grande emprego cair do céu. Nem que seja só pra isso - que não é correto, eu sei -, porque eu sou muito melhor do que se exige de uma atendente. Tenho 22 anos, boa aparência e terminei o segundo grau. Cursos? Faculdade? Logo que eu conseguir um emprego decente vou fazer. Não acredito em ajuda do governo pra isso. Aí tem coisa. Minha mãe e minha avó me apoiam, sabem, me conhecem. Minha filha ainda não entende nada. 

Agora não posso atualizar meu currículo. Estou me arrumando para a festa da Márcia. Mas amanhã vou escrever: sou comprometida, séria, eficiente. E também posso incluir a experiência de cinco meses como atendente de loja de piscinas. Melhor cortar o "de loja de piscinas".

18 abril 2012

108/365
Nara

Bienal do livro. Os trafegantes continuaram suas caminhadas como se nada estivesse acontecendo. Nara foi parada por um coelho laranja de pelúcia de dois metros, que dizia ser o Seu Exu Espelho. Escutou com atenção: "olhe para si, minha fia. Mude não porque é certo mudar, mas porque permanecer como está lhe faz sofrer". As pontas das orelhas piscaram, como se houvesse luzes de natal ali. Por um segundo, Nara se distraiu. Talvez tenha sido lançada às memórias da infância. Mas voltou a tempo de ouvir que devia ser mais gentil consigo mesma. O coelho foi embora. Ninguém parecia ter visto nada. Esbarrou em alguns olhadores de estantes e concluiu que às vezes era bom ouvir o óbvio.

17 abril 2012

107/365
Clarissa

Mulher desenvolta, independente, engraçada, sensual e cheia de tiradas inteligentes. Vivia com manchas verdes nas coxas por esbarrar constantemente nos móveis de sua própria casa. Tornara-se amiga do chaveiro, de tanto precisar de chaves novas. Esquecia todos os aniversários. Dançava tão desengonçadamente que tinha vergonha de fazer isso perto de um espelho. Trocava shampoo por condicionador e vice versa. Cansou de ser avisada sobre resto de folhas nos dentes, inclusive em encontros românticos. Começou a fazer análise. Quer mudar.

16 abril 2012

106/365
Karin

Por seis anos, pouco mais fiz além de sofrer. De uns meses pra cá, me desprendi, daí. Tirei o luto, aflorei pra vida. Me sinto moça de novo. Conheci o Hernandez. E hoje, justo hoje, quase esqueci do falecido, daí. Na última hora, o cemitério fechando, levei meia dúzia de flores. Quase joguei no túmulo. Quase nem deu tempo de confirmar se era aquela tumba mesmo. Já arrumada pra comer pinhão com o Hernandez, de bico vermelho, virei as costas, sem qualquer lembrança daquela tristeza toda, daí.

15 abril 2012

105/365
Rochele

Queria ter um carro de borracha, morar numa casa com paredes de tule (ventilada) com um jardim de verdade. Faria mingaus, saladas e sopas para comer e doces em compotas para vender, afastada das preocupações típicas de uma assessoria jurídica. O único luxo: chão de pedras portuguesas por toda a cidade. As pessoas teriam que evitar sapatos refinados. Teatro e cinema de graça. Música em cada esquina. A população da cidade bastante interessada por doces em compotas.

14 abril 2012

104/365
Diana

Perto de Brasília, amanheceu quente. Lavou toda a roupa da casa e, enrolada numa toalha, recebeu a amiga Neu, que lhe aplicou tintura nos cabelos. Depois do banho, depois do almoço, depois do copo d'água de sempre, se pegou paralisada, olhando a roupa quarando, pela janela. Queria se dar ao luxo de achar linda aquela cena - talvez lembrasse algum filme -, mas tinha o pai no hospital, o namorado num bar qualquer e um irmão novinho e estudioso esperando que ela desse um jeito na mensalidade do curso de idiomas.

13 abril 2012

103/365
Manuela

Apesar de toda a família depositar nela o desejo de ter a primeira representante numa universidade, ela não quer. E o que poderia ser entendido como destrato sequer lhe pesa. Ela é dona de si. Tem dezesseis anos, notas boas e ajuda na produção da 87 FM. No início, sonhou em ser radialista. Muito óbvio para quem quer ganhar o mundo. Agora, está juntando algum dinheiro pra comprar uma moto econômica. Provavelmente, permanecerá na rádio - e poderá até virar locutora, pois tem voz -, mas se a dispensarem, procurará outra coisa. Vai querer viajar, conhecer o que há para além do Sudoeste mineiro. Depois, voltará a Guaxupé renovada, apenas para ver a família pela última vez. Morará em Santos.

12 abril 2012

102/365
Lidiane

Assustava olhar para si. Desde muito pequena tinha como sonho, certeza e vocação a vontade de ser mãe. Cuidava das bonecas como se fossem vivas. Agora, neste exato momento, o desespero: não compreende a origem de seu desejo mais profundo de que o feto que carrega há dois meses seja anencéfalo. E quer mais: que a decisão anunciada há pouco seja publicada em tempo hábil, para que a interrupção se dê sem grandes perigos.

11 abril 2012

101/365
Brenda

Colado ali, na porta do armário. Via todo o quarto - o espelho era o único ser sincero: mostrava-lhe diariamente a gordura localizada, a celulite e a flacidez tão precoce. Seus 48 quilos pesavam absurdamente. Uma moça de 15 anos. Sentia o cheiro do café com pão de queijo da vó, lembrava a infância. Sempre comera bem e sem frescuras. Saladas, arroz, feijão, leite e, às vezes, até jiló. Mas de uns tempos pra cá, comparava-se às amigas, às artistas da Globo, aos ídolos teen internacionais. Chupava gelo, beliscava alguns grãos e, mais eventualmente, comia uma mini maçã. Não sentia prazer de ir à escola ou sair com as amigas, perdera o gosto por um bom prato de macarrão e por ouvir as histórias do vô. Por sentir dor, trancava-se, doente. Enjoou do namorado, largou o diário que escrevia desde os 12. Aliado fiel? Só o espelho.

10 abril 2012

100/365
Georgia

De cabelos molhados, sentou-se à janela. Não tinha um emprego porque não precisava ter. Nenhuma atividade vespertina porque gostava de dormir à tarde. Hoje, no entanto, não cochilou. Via o grande jardim, a piscina, o rapaz limpando a piscina, dois cachorros. Ouvira as empregadas conversarem sobre uma grande tragédia na família de uma delas. Aquilo não lhe pertencia. E a sua vida era essa – sem desafios, sem tristezas, sem preocupações. De cabelos molhados, permaneceu apática à janela. E decidiu não pensar.

09 abril 2012

99/365
Quitéria

Na Rodoviária Interestadual, lembra os seus planos de quando chegou a Brasília: estudar, se formar, passar num concurso, trazer os pais e a filha miúda, dar a eles a vida que merecem. De volta a Goianésia, sente um misto de fracasso e orgulho - essa bosta de cidade não dá oportunidade a ninguém. Seis anos. Não estudou, não se formou, não passou em concurso algum. Vez por outra, de folga, ia visitar a família. Trabalhou em loja de shopping e de material de construção, foi terceirizada em ministérios, recepcionista em escola de balé. Volta a sua cidade sem dinheiro, sem casa própria, sem perspectiva, com 41 anos e muitas dívidas.

08 abril 2012

98/365
Roseli

Depois de dois ovos de páscoa, um sudoku completo e meio tanque de roupa passada, resolveu se entregar ao inferno: bebeu sozinha duas garrafas de vinho barato, ligou para um ex-noivo e chorou meio litro de ódio.

07 abril 2012

97/365
Andria

Com Rodolfo, conheceu uma vida com dinheiro de sobra. A lua de mel foi em Nova Iorque e, quando voltaram, a surpresa: uma casa linda, colonial, para os dois. Duas árvores frutíferas, uma piscina de água esverdeada, cheia de folhas. Perto do quadro que via, até Nova Iorque ficava em segundo plano. O lodo das paredes, algumas grades com rococós descascados. Não queria mudar nada, desejava nem precisar limpar o lugar. E o sorriso de Rodolfo, com aparelho, e o rosto com marcas de espinha a fizeram murchar; lembravam-lhe o preço que se deve pagar pelo belo. Uma troca. Justa?

06 abril 2012

96/365
Silvia

Missa. Envolvida na reza, confessava e pedia perdão pelos seus pecados e pelos dos outros. Cantava, devotíssima, os cânticos de olhos fechados e mãos levantadas. O véu de rendinha lhe dava um ar de beata de interior. Pedia graças fervorosamente. De volta à casa, tomava seus xaropes, prendia os cabelos e pendurava vassouras e rodo. Sexta-feira Santa ninguém faz nada - a mãe lhe ensinara. De frente para a TV desligada, segurava o terço, sem rezar. Lembrava da juventude e lamentava ter atentado tanto os ensinamentos de Jesus. Via-se usando vestidos de chita provocantes, maquiando-se. Fazer o quê? Hoje, nem bordar podia.

05 abril 2012

95/365
Nazaré

Com tantos assuntos pascoais, sonhou com um coelho enorme, de olhos azuis. Ele jogava chocolate derretido em todo o corpo roliço dela e lhe lambia as faces, o pescoço, os seios, a barriga. Transaram por horas e horas, em todas as posições possíveis a um coelho com uma mulher gorda; o pompom balançando três, quatro, cinco vezes. Rapidíssimas investidas, mas várias, infinitas. Ela gemia e, cada vez mais, se via entregue às vontades do leporídeo. Acordou maravilhada.

04 abril 2012

94/365
Odyleide

O que lhe interessa e comove é o inverno, seja onde for. Dois anos atrás, conseguiu juntar dinheiro suficiente para conhecer Gramado. E, apesar de o frio intenso já ter passado, a cidade lhe pareceu congelante, longe dos 39°C de praxe da sua Cuiabá. Amanhã, segue para La Paz - foi o que conseguiu de mais frio e barato para o período: mínima de 4°C. Tem casacos, botas, uma touca e um cachecol para essas ocasiões. Malas prontas. O ônibus sai às 9h.

03 abril 2012

93/365
Sabrina

Desde bebé era o centro das atenções, com seus movimentos engraçados, egípcios. Estudou balé, jazz, dança contemporânea, salão e street. Riscou no calendário o 6 de abril, data da divulgação dos escolhidos para a segunda fase do Festival Dança Viana, mas recebeu a notícia hoje: selecionada. Cerca de 300km de sua Loures até o Porto. A família toda se organiza, junta forças e euros. Nossa jovem há de vencer.

02 abril 2012

92/365
Jussara

Perdeu os avós no domingo de ramos. Em momentos assim, costumava querer companhia, chorar em grupo. Não desta vez. Trancou-se no quarto, que ainda conservava uma decoração teen, e compôs duas músicas muito tristes. Violão em punho, fumava maconha e escrevia as notas e a letra. Em seguida dormiu. Experimentou uma solidão momentânea e poética. Com medo de acostumar-se a isso, acordou, pregou um sorriso amarelo na cara e foi atrás de amigos.

01 abril 2012

91/365
Hélia II

Resolveu ir à pé, sozinha. A noite estava quase tão quente quanto o dia. Vestia saia, blusa, sandálias. O medo e a quase certeza de que algo aconteceria lhe proporcionavam um prazer estranho. O coração disparava, sentia os ossos esfriarem. Era como quando, criança, decidia fazer algo proibido sabendo que seria castigada pelo pai. Era um arcar com um risco. Alto risco. Sabor de coragem. Não desejava que algo de ruim lhe acontecesse - aquilo não era um suicídio - e se sentia imensamente grata a deus quando chegava a salvo em casa. Cruzou a orla leste da cidade, com alguns tropeços, um salto muito gasto e nada mais. Bêbados, travestis, grupos suspeitos. Passou pela alfândega, o cais do porto, o Mucuripe e toda a Beira Mar até depois da Monsenhor Tabosa. Subiu no ônibus ofegante, respirou fundo e sorriu aliviada.

31 março 2012

90/365
Karla

Era uma da manhã e acordei sobressaltada, ainda no voo interminável. Desta vez, vi um pôr do sol surreal, laranja, mas não tão iluminador. E focos de fogo espalhados pela terra. Não era fogo - mas luzes de propriedades rurais próximas umas das outras (feudos hoje em dia?), depois percebi. Não era sol. Talvez uma lua cheia ou um disco voador. O avião parou no ar. Planava. Voltei a dormir.

30 março 2012

89/365
Dona Neide

Quando viva, era a piada da turma. Os garotos a perturbavam até que ela explodisse em berros. Abria a porta de casa e expulsava com rodo em punho os que cantarolavam pilhérias, tocavam a campainha ou lançavam nomes feios. Era muda – não podia rebater. Os apelidos “Velha Azeitona”, “Carcaça” e “Maria Paçoca” eram respondidos com uivos e gritos de horror. De longe, eu via uma boca escura de poucos dentes. Diziam que ela não tinha língua. A vizinhança se dividia, ora por não tolerar a algazarra, ora por – calada – espiar curiosa das janelas ou mesmo estimular os garotos. Ela não recebia visitas. Passava o dia a limpar a casa, a arrastar móveis e a cuidar do jardim. Às vezes, gosto de imaginar o que falaria se pudesse. Talvez retrucasse; talvez até agradecesse o movimento vespertino de uma vida tão monótona. Ouso apostar que, agora, a sete palmos, sente saudades dos garotos.

29 março 2012

88/365
Talita

A voz é tão bonita, altiva, lúcida e inteligente. A risada revela uma falsa recatada, gostosona e segura de si. Nada daquele falso sensualismo ou da sem graceza de uma voz comum: me apaixonei imediatamente e já não posso despertar sem o seu “bom dia”. Desenhei imaginativamente uma mulher grandona de cabelos negros e longos, olhos certeiros, com mãos finas e unhas feitas, esperta, agradável. Agora, porém, arregalo os meus olhões diante da imagem dela na internet – Talita Valadares, radialista da Alvorada News AM, mede 1,5m, é magricela, nariguda, muito branca, tem uma boca larga, cabelos oleosos e mirrados, olheiras. Os óculos sequer combinam com seu rosto ou com as roupas largas, pouco femininas. É feiosa. Mas, ah, vou chamá-la para jantar.

28 março 2012

87/365
Eulália

Com um quase nada de forças, chega em casa. O trabalho de limpeza continua. Junta restos pela cozinha, afasta a poeira, lava talheres, dá descarga. Moída, porque o culto hoje foi difícil. Ex-viciados, ex-traficantes, ex-baitolas pra ela descarregar, salvar, levar à luz, oferecer o reino dos céus. Rouca de tanto gritar aleluias e cantar com devoção. Depois do banho, agradece por ser viúva e pelos filhos já serem adultos. Estar só como gostaria de estar. Cobre-se com um cobertor xadrez, toma um copo d'água e fecha os olhos. Minutos depois, a lembrança. Mas deixa pra amanhã a oração. Jesus há de perdoar esta falta.

27 março 2012

86/365
Taís

Depois da aula de inglês, a tarde é livre. Toca violoncelo, come biscoitos com coca cola, faz um ou outro dever de casa, assiste a Malhação, volta a tocar violoncelo. As amigas da quadra chamam: “desce”. Ela desliza pelas escadas dos anos sessenta – quase originais, não fossem as barras modernas – de chinelo, camiseta e short de pijama. Conversa, programa encontros, troca músicas por bluetooth, pergunta pelo Fernando amenamente, sem grandes interesses. Volta, liga pra mãe, que ainda demora a chegar. Secretária de ministro. Começa a pensar no jantar, fuça a geladeira. Volta ao violoncelo. Recebe um sms com notícias do Fernando. Menino idiota. Decidida, telefona de novo pra mãe: “traz uma pizza?”. Tudo certo. O resto do dever de casa, violoncelo, novela das sete, jornal, violoncelo. Toma banho e espera a pizza.

26 março 2012

85/365
Adélia

Para quem já se viu em cima de uma balança que marcava mais – muito mais – do que cem quilos pernas com pele não eram nada. Também não lhe incomodava a falta de cintura e a flacidez nos braços. Nem mesmo as estrias. Cirurgia de redução de estômago marcada e ela desistiu, fugiu. Trancou-se em casa, desligou o celular e desempoeirou a esteira, comprada há mais de dois anos. E foi no dia em que atingiu os 59 quilos eliminados que decidiu se matricular numa academia badalada. Já não era obesa, julgava que já podia usar roupas justas. Fez megahair e gastou todas as economias em calças, shorts, tops, macacões novinhos. Diariamente, malhava por duas ou três horas. Sem personal trainer e com disposição. Aos olhos dos outros frequentadores, não era uma "gatinha", porém, admirava-se, fez amigos.

25 março 2012

84/365
Mariana

Domingo. Hoje é dia do filho da puta chegar bêbado. Mataria ele se não fosse quaresma.

24 março 2012

83/365
Eliete

E em Maranguape não se falou em outra coisa. Só assim, com a morte do maior humorista do mundo, Eliete pôde passar despercebida. Juntou em sua valise seus vestidos, lenços, o único sutiã e outras pequenas peças. O esmalte, algodão e acetona. Pegou o primeiro ônibus para qualquer lugar. Deixou seus gêmeos de doze anos dormindo, o aluguel atrasado, dívidas nas bodegas e na farmácia. Mal soube do humorista, de quem chegou a sentir orgulho por ter projetado nacionalmente o nome de sua cidade natal. Mal teve tempo de lamentar qualquer coisa; o coração na boca. Coragem até nos cabelos.

23 março 2012

82/365
Madalena

Naquele dia acordei inquieta, lavei as vasilhas e arrastei a estante. Algo estava pra acontecer. Apertei meus seios, como se abraçasse eu mesma, andando dum lado pra outro. Uma angústia aqui, ave. Telefonei pros meus filhos e pra minha irmã; todos bem. Voltei pra lida, porque podia ser simplesmente um objeto na minha casa impedindo o fluxo e eu sentindo isso tudo. Mexi, revirei, reorganizei e a notícia chegou, como sempre chega. Era o Eraldo, pai dos meus filhos e amor da minha vida. Já não estávamos juntos há tantos anos, mas parece que o coração não raciocina. E foi a piranha que veio me contar: olha, Madá, o Eraldo morreu, mulher. E eu me esforcei pra não parecer incomodada e não tinha jeito e não teve jeito: ela viu o desespero saindo pela minha garganta, o choro caindo em litros. Peguei em tudo que é vassoura e rodo, tentando voltar ao trabalho e eliminar esse sofrimento. A dor não passou.

81/365
Zaynah

Não quero meu corpo à mostra, não vendo minha imagem a revistas ou simplesmente ofereço aos olhares cobiçadores dos homens. Sem lenço não saio. Não interessa onde estamos. Assim, minha mãe me ensinou, como a mãe dela a ensinou e a mãe de sua mãe. O véu não tem a ver com os costumes de um país ou povo, mas com proteção, devoção, compromisso, amor. Já passamos por Paris, Cuba, Buenos Aires e, agora, Brasília. Em cada um desses lugares, o olhar ocidental se repetiu. Isso não tem importância, pois, também na nossa crença, não precisamos nos misturar com outras pessoas. Basta conhecer e respeitar. Meu hijab é protetor e vai cobrir a minha filha e a filha de minha filha e assim por diante. Sem que nenhuma de nós tenha que se confundir com bobagens como a exibição provocadora.

21 março 2012

80/365
Daniela

Certa vez, ainda na cama, Rogério me disse que o que lhe atraía em mim era a juventude. Retruquei, incrédula e ofendida, que aquilo parecia coisa de garotão, de menino sem nada na cabeça. O que lhe interessava, afinal, uma beleza desenrugada? Ele me esclareceu: eu era livre de rancores e mágoas. Era dessa juventude, dessa inocência de sentimentos, que ele falava. Sorri, me envaideci. Agora, todavia, pouco mais de cinco anos passados, vejo como envelheci. Talvez por isso Rogério não tenha apostado em mim; cansou, desistiu, ou simplesmente não quis apostar contra o líquido e certo: eis-me aqui, bonita, robusta, saudável e tal e qual mal humorada e amarga. Se tanto, salgada pelo tempo, seca e indigesta.

20 março 2012

79/365
Vivian

Tu sabes que tens que te controlar. Não podes interferir no negócio do teu esposo. Sim, tu és a primeira dama do maior sacolão do Guará e o teu homem sabe que, sem ti, ele nem teria todo esse sucesso e esse patrimônio. Mas não te metes, não é prudente, nem inteligente. Não deves dar ordens aos funcionários, já tens duas empregadas só tuas em casa; não deves ficar circulando pelo estabelecimento, conferindo serviço e dedurando pequenas infrações. Tu não és a fiscal da loja, pões isso na cabeça. Tu tens duas meninas a dar exemplo e tens também uma casa grande para administrar. E, bonita como és, não deves mesmo circular pelo sacolão. O lugar é pacato e familiar, mas há bares e biroscas por perto; muitos bêbados inconvenientes. Se podes escolher, boneca, vai ao shopping, vai fazer massagem, vai levar as pequenas ao circo. Deixa teu esposo lá, a cuidar de tudo.

19 março 2012

78/365
François

Sim, eu tenho uma namorada. E, sim, há muito sei que gosto de mulheres. Mas tenho preguiça de fazer disso uma bandeira. Vivo com Ângela naturalmente; vamos ao cinema, a bares, ao teatro, fazemos supermercado juntas. Acredito que o preconceito existe, apesar de nunca ter sofrido diretamente, que o mundo é machista e que ninguém tem nada a ver com a vida sexual dos outros. Acho bacana que se travem discussões a esse respeito e reconheço que a mudança é importante. Mesmo assim, não tenho paciência. E não tenho nenhuma vontade de trazer para mim essa responsabilidade. Sou velha demais, ocupada demais e feliz demais pra isso.

18 março 2012

77/365
Bárbara

Criou mais personagens de alcova. Difícil falar de cotidianos que não estejam cercados por paredes; soa tedioso e até falso. Real, verossímil é falar de grandes melancolias ou de brigas íntimas. Assim criou Rose e William, que não conseguiam se enteder. Ao menos cuidou para inverter papéis, a fim de dar graça à narrativa. Contou a história de um William doce, sensível e uma Rose bruta. Ele falava, falava, falava e ela não compreendia - apenas enxergava uma boca se mexendo. Ela, por sua vez, maquinava automaticamente o modo de sair da discussão inteira e superior. Magova. O bate boca se findava e William permanecia na cama, inerte e incrédulo. Chegava a rezar: "deus, eu não consigo mais, me dê forças!" E ela saia do quarto resmungando, com uma voz mais grossa que o seu timbre costumeiro. Mas voltava, sempre voltava, para o golpe final: "a sua sorte, William, é que eu não fui treinada pra bater. Porque a minha vontade agora era te encher de porrada, seu merda". Eram personagens iguais a qualquer coisa, porque, afinal, a esta altura, já se escreveu sobre tudo. Que fazer? Profissão ingrata - Rose e William eram fórmula. E venderiam bem, tal como Cauby e Lavínia, Charles e Emma, Santomé e Avellaneda, Camille e Auguste.

17 março 2012

76/365
Wilma

No meu quarto, há dias, a leitura de cabeceira é o Guia Quatro Rodas. Traço percursos, calculo distâncias, contabilizo despesas. Já não é janeiro. Nem fevereiro mais é. Gosto do contra fluxo. Isso me excita, me motiva. Arrumei o meu jipe, minha mochila. Biquini, toalha, roupas leves. Barraca, cantil, caixa de isopor. Repelente, bota, calça com bolsos. No cabelo, trança. ou rabo de cavalo Bloqueador solar. Olhos pintados. Todo mundo trabalhando, retomando a rotina pós verão. Saio agora mesmo de Brasília e só paro em São Luís, dia 2 de abril, talvez.

16 março 2012

75/365
Paola

Meu sono é tipicamente depressivo. Se me chateio, se me magoo, logo sinto sono. Pra não chorar, durmo. Para não encarar o mundo, não me relacionar com pessoas que possam me magoar, para evitar fazer algo errado e que me cobrem por isso, durmo. Não tem café, coca cola, guaraná em pó, cocaína que me mantenha acesa. É um sono infeliz, sem sonho. Durmo para não discutir com o Bruno, para não ter que cuidar da Ana Carolina e do Gustavo, para não ouvir a d. Mirtes, para não ir trabalhar. Adoeço, durmo. Desperto cansada, bebo água, ligo o rádio, desligo, faço xixi e volto para a cama. Dias, dias, dias... Não tenho ânimo pra pedir ajuda. Bruno não me ajuda. Choro. Não me mantenho alerta para rezar. Desisto. Durmo.

15 março 2012

74/365
Naiara

Passou os dedos pelos meus cabelos. Prometeu amor eterno, ali, em segundos. Fechei a cara, chorei. Depois da transa a contragosto, voltei a chorar. Levantei e comi 12 chocolates. Ele não disse nada, mas eu vi quando arregalou os olhos. Toda mulher nota isso. Murmurei, nervosa, "o que é?". Ele insistiu na discrição. Sorriu amavelmente. Ofereceu o aconchego de sua asa e me enfiei ali, com vontade de ser pra sempre. Na TV, BBB. E eu chorei muito. A prova do líder foi cruel.

14 março 2012

73/365
Andréia

As coisas não vão mudar. Quando ingressei no magistério, existia esperança e eu mesma tinha certeza de que faria a diferença, educaria crianças e jovens, construiríamos um país melhor. Quase conseguia, no silencioso caminho da escola, ouvir gritos de incentivo e me segurava para não ceder à tentação de lançar socos no ar, motivadíssima. Não demorou para eu me ver envolvida com discursos sindicais, replicados por colegas estressados e mal remunerados. Não demorei a me render às licenças emendadas – LER, depressão, estafa, dores de coluna e cabeça, alergia respiratória. Não demorou para me transferirem para uma atividade burocrática. Adeus às salas de aula, aos alunos estranhos – insetos – e à encheção de saco por coordenadores, diretores. Ponto, provas, chamadas, giz – adeus. Agora, uma greve safada. Ajustes safados que sequer saem do papel – R$ 1.450 mensais por 40 horas semanais. Acompanho tudo pela TV, tomando sorvete em cima do muro. Tão distante quanto eu conseguir.

13 março 2012

72/365
Emília

13 de abril de 2012 - Pronto. Marquei uma data. Daqui a um mês, vou largar para sempre o cigarro. Motivo: saúde. Exclusivamente, pois tenho um tumor nas cordas vocais em pleno (e célere) desenvolvimento por conta desse conceito/objeto, que já foi minha comida, meu charme, minha muleta. Mas não estou feliz e vou registrar, neste meu diário fiel, a minha profunda indignação: dezoito anos atrás, quando pus o meu primeiro cigarro na boca, fui uma jovem ousadinha, inteligente, boêmia e extremamente sensual. Nos bares, à espera de um amigo ou amante, cruzava as pernas e acendia um free. Um movimento de cabeça fazia com que os cabelos ganhassem volume, o olhar focava desfocado o horizonte. Eu era um desenho vivo do objeto de desejo de homens e de admiração das mulheres. “Tem fogo?”, pediam. “Fogo?”, ofereciam.

O cigarro era o começo de uma amizade ou de uma bela trepada.

Hoje, sem que precisem me abordar, me sinto invadida. Me olham com asco. Isso acaba com o meu humor. Já até me xingaram no trânsito, às 7h da manhã: “nojenta, apaga essa porra. Tu vai morrer”. Ele também vai, não vai? Não pratico esportes, bebo, cheiro mal. Sou, hoje, o antissímbolo do que fui. E mais: existe uma bosta de conspiração social, com médicos, dentistas, opinião pública, imprensa na luta contra o cigarro. Saco! Dois maços por dia – cada um com figuras assombrosas, para as quais olho com uma curiosidade mórbida. Mais um mês. Até lá, espero não falecer e me acostumar com a ideia.

12 março 2012

71/365
Cibely Spíndola

Harry foi embora de São Paulo. Não consegui esperá-lo no aeroporto e nem vê-lo aqui em Monte Mor. Jogo de polo. Muito assédio. Fecho os olhos - se eu fosse a princesa que meu empresário me fez acreditar que eu era, estaria ao lado dele, como namorada ou ao menos como uma membro da realeza, a quem ele também dispensaria honrarias. Bastaria ter ficado entre as finalistas do Miss Campinas Gay? Talvez. É bastante provável. Gostaria de ter sido bajulada por ele ou por outro príncipe. Gostaria que algum grande homem me reconhecesse na multidão e se apaixonasse perdidamente por mim. Quem sabe não vem algum no aniversário da cidade, dia 24? A prefeitura vai caprichar na festa. Se não, vou me mudar para a capital. Vou brilhar no mundo artístico e encontrar o meu príncipe por lá.

11 março 2012

70/365
Oyá

São nove os filhos que eu pari. Mas meus protegidos são muitos mais. Me evocam quando o céu quer escurecer, se um vento cerra portas com violência, um raio cai ou caso uma tempestade comece a se formar. É quase um pedido de piedade. No entanto, nem tudo está ao meu alcance - por que cessar o óbvio? o certo? o inevitável? Lanço à Terra o que a Terra precisa/provoca. Serviço feito, danço, balanço cabelos, vermelheio vestiário, boca e faces. Tão humana quanto pareço. Tão entidade quanto me respeitam. E sigo ajudando, tão justa quanto mereçam.

10 março 2012

69/365
Jeanne

Julguei ter sido esquecida ou preterida. Afastada de minha irmã e meu afilhado. Mas não. Eu sequer consigo conceber o quanto sou amada e o quanto paira sobre mim um manto protetor de amor puro. Isso é o que me contam e eu não compreendo. Eu amo também, mas nem sempre sou capaz de me espalhar. Me tranquei, me fechei, me retive. Mas volto a compartilhar, aos poucos, o que é bom. Sou guerreira, sou trabalhadora. Inteligente e bela. Admirada e reconhecida. Um dia batizo o menino.

09 março 2012

68/365
Valeriana

Depois da novena, escrevi ao meu menino. Espero que lhe entreguem a carta. As pessoas que circulam por aqui não parecem confiáveis. Prezo muito pela confiança. "Filho, leia sozinho. Tire-me daqui, por favor. Há vermes por todos os lados. Aqui é bem sujo. Te amo, se cuide, te espero. Mamãe". Sim, sim, imagino que vão entregar. Hão de ser honestos. Conto os dias pra voltar pra casa.

08 março 2012

67/365
Xantipa

Substituta de trapezista? Eu merecia mais. Pratico trapézio desde os cinco anos de idade, todo mundo sabe. Tenho mais técnica, mais desenvoltura e até mais simpatia. Meu corpo é mais bonito, inclusive. Mereço continuar no apoio, com pequenas aparições coadjuvantes? Da bilheteria eu até gosto, mas odeio organizar filas, orientar os artistas nos bastidores – “Crezia, mudar a maquiagem. Dalto, falta o colete” – e também já não tolero auxiliar o acrobata, principalmente quando tenho que ajudá-lo a se vestir. Seu corpo fede. Substituta!? Vão pro inferno. Continuo nas minhas múltiplas subfunções. Porque eu não vou dar pro palhaço, pro mágico, pro domador, pro motoqueiro do globo da morte.

07 março 2012

66/365
Hélia

A mão gelada e dura, que muitas vezes foi algoz de mímicas ameaçadoras e até de tapas, agora deslizava suavemente por dentro da minha blusa, até o bico do meu seio esquerdo. Não dissemos nada. Confusa, me deixei arrepiar enquanto assinava veementemente os papéis do divórcio. Estávamos no fórum. Os dois advogados, depois das discussões calorosas e, finalmente, do acordo, nos deixaram a sós. E o filho da puta do Rafael se levantou e veio tocar o meu corpo. Como se fosse meu dono. Como se ainda quisesse me mostrar que me conhece inteira e sabe me amolecer. Deixei.

06 março 2012

65/365
Sueli

Minha mãe morreu ontem. Deixou três irmãos muito mais novos para eu criar: Cássio, Acácio e Verônica. Ao sair do hospital com essa notícia, não sabia o que fazer. Não sabia o que providenciar para o enterro dela. Não tinha dinheiro suficiente para ir à casa da minha amiga buscar os meninos e voltar para casa. Ou deveria voltar ao hospital? Que papéis eu deveria levar e para onde? Não tenho crédito no celular. Além dessa amiga, que nem é tão próxima assim, não tenho para quem ligar. Aos dezoito, três filhos para banhar, dar de comer, acompanhar o desempenho na escola. Uma mãe para enterrar, pagar um enterro. Ganhar dinheiro pra tudo isso. Mas o cemitério não espera. Quem me emprestaria dinheiro pra isso? Que pessoa ou que banco? Eu não tenho emprego. Estudo em escola pública, moro na periferia, ando de transporte público, não tenho bens, minha casa é alugada. Só minha geladeira é nova, que o governo deu. E minha mãe morreu. E eu tenho Cássio, Acácio e Verônica pra criar. Tenho que ser a mãe agora. Será que vou ser despejada?

05 março 2012

64/365
Magda

Tenho poucas decisões a tomar, não me faltam dinheiro e amor. Minha família é estável. Nunca usei e nunca tive amigos que usaram ou usam drogas. Não há alcoólatras em meu raio de relacionamentos. Meus colegas de trabalho são bacanas, minhas contas estão em dia, meus filhos vão bem na escola. Meu marido é amoroso, mesmo depois de doze anos juntos, e meus amigos são fiéis e compreensivos. Vou à igreja regularmente. Comungo. Não tenho muitas rugas, não sou gorda, não sou feia, não cheiro mal, não tenho traumas. Mas existe algo que eu não tenho. E eu não sei o que é. E procuro não procurar saber, mas essa ausência me incomoda. E me faz chorar convulsivamente todas as noites.

04 março 2012

63/365
Edna

Vestiu roupas pesadas, apesar do calor, para economizar espaço na mala. Certa vez, ouviu como uma espécie de conselho que nós só devemos possuir o que podemos carregar. Não conseguia parar de pensar que possuía um lar e não conseguiu encaixar essa conclusão no conselho. Debruçou-se numa mureta com boa vista em Santa Tereza. Talvez calculava para onde iria. Talvez dava a si um momento para ter pena dela mesma ou para lamentar qualquer coisa. Agradeceu por não sentir dores, por estar saudável, por ter um pouco de dinheiro e por ter um celular com fones de ouvido. E partiu.

03 março 2012

62/365
Germana

É uma harpia. Mede 93cm, pesa 7,3kg, tem penas brancas na cabeça e cinzentas no corpo. Gola escura e imponente. Elegante. Está há muitos minutos à espreita. Um macaco se aproxima. É esperta, inteligente. Prepara o bote. Visualiza o sucesso, com paciência e malícia. Belo banquete. O pobre primata, inocente, chega, galho por galho. Belisca sementes, se admira com a paisagem, saltita. O calor é insuportável. Sorrateira e aguda, ela o surpreende e - zap - agarra-lhe as orelhas como um macho safado merece. Unhas enormes. Ele enlouquece, mas ela parece piedosa - é rápida. Devora-o.

02 março 2012

61/365
Liana

Um dia a minha bunda vai cair. Minhas coxas e braços serão ossos e pelancas. No meu pescoço, papada mole. Minha pele, sem viço, não vai exalar um cheiro natural bom. Rugas vão esconder a juventude que talvez ainda vá existir nos olhos, nos sonhos, na imaturidade de decisões, na inquietude. Só vou despertar o interesse de uma ou duas crianças curiosas, que quererão ouvir histórias e tocar meu corpo em predecomposição. E é possível que eu morra sem mesmo me lembrar dos nomes das pessoas - num autismo senil -, sem ser capaz de sentar e rebolar no pau do amor da minha vida ou sem conseguir fritar um ovo para o meu filho ou rir da piada de uma amiga tão espirituosa.

01 março 2012

60/365
Mônica

situação 1
M - Paulo, hoje ouvi na Band News um certo "Paulo Bittar" opinando sobre o trânsito na saída da Candangolândia. Às 8h30. Era você?
P - Claro que não, chefa. Foi coincidência.

situação 2
M - Gente, eu adoro a Band News. Escuto todo dia. Queria participar dessas dicas que os ouvintes dão sobre trânsito.
P - Também adoro. Todo dia escrevo um e-mail falando como está o trânsito na saída da Candanga, onde moro. Sempre lento... terrível.

29 fevereiro 2012

+1
Cândida

Acordou às quatro. Um dia desafiador. Fritou coxinhas, risoles e quibes. Poucos, para começar. Andou até o espaço do seu Caetano. Recebeu olhares furiosos: vasilha, cara dela, vasilha, cara dela, vasilha. Recuou cerca de um metro. Abriu a banqueta e pôs a vasilha sobre as coxas. Seu Caetano contrariado - mocinha insolente, safada, quer melar o meu negócio. O primeiro freguês - bom dia, seu Caetano; cafezinho. E, hmm, ele olhou para a esquerda. Ela abriu a vasilha. Ótimo. Escolheu um quibe. Voltou para perto do seu Caetano para jogar conversa fora. Mais um freguês; mais um; e outro; e outro.

Alguns pediam mais café para acompanhar o salgado. Ou café com leite, mais caro. E, aos olhos do seu Caetano, a moça insolente passou a ousada, corajosa e, ele estava rendido, parceira. Avaliou a alegria dos fregueses - é sua filha? E ele tendia a responder que sim porque seria um gênio se, sozinho, tivesse tido essa ideia: complementar o seu cafezinho com algo de comer. Mas, às nove e meia, recolheu seu banco e a mesinha e apenas deu um meio sorriso para a moça. Era talvez o seu modo tacanho de dizer obrigado. Amanhã perguntará o seu nome.

28 fevereiro 2012

59/365
Alice

No buço, pequenas gotas. Quando dava uma pausa no falatório, soprava na direção dos seios e me ouvia com toda a sua atenção. Prendeu os longos cabelos, molhados de suor, com dois grampos. As axilas também estavam úmidas. Era apaixonante vê-la falar de si e de sua vida natureba, coisa que nunca me interessou. Perto dela, eu esquecia carne e refrigerante e chegava a ter desejo de provar aveia, leite de soja, biscoitos de chuchu. Virava o rosto, alongava o pescoço. Esguia, iogue. Senti vontade de tocar aquela nuca. Beijar. Lamber o suor. Mas Alice não era uma mulher. Era uma fonte, uma entrevistada, um ícone. Em casa, demorei a conseguir escrever de modo isento, neutro. E passei a sonhar com aquela tarde todas as noites. E para sempre.

27 fevereiro 2012

58/365
Joana

E eu sou besta? Dei a mão assim e vi que ele não ia parar. Acelerou, menina. Eu fiz que ia me jogar na frente e ele pisou no freio, um barulhão. Aí eu atravessei bem devagar. E ele ficou puto, foi me xingando. "Velha louca". E eu sorri. "Velha louca, vai pro asilo". "Vou, mas você vai comigo", eu respondi. A lei não existe? Não é clara? Os carros têm as prioridades deles. Na faixa de pedestres, é dos pedestres. Se eu balancei a mão, era a minha vez, ou não era? Pois ele não queria parar. Aí eu pulei assim, sabe como é? Fiz que ia, mas não fui, porque eu também não sou louca de me jogar na frente de um carro. Mas foi bom pra ele se assustar. Aí ele parou, menina, mas puto. E gritou "Velha louca, vai pro asilo". E eu: "Vou, mas tu vai comigo". Porque a gente não pode deixar eles pensarem que podem tudo. Não. Nesse país tem lei, minha filha. O pedestre tem prioridade. Fiz o sinal e ele acelerou. Como é que pode? Aí eu avancei. E ele pá - freou. Mas foi com tudo. Cantou pneu. "Velha louca". E eu sorrindo.

26 fevereiro 2012

57/365
Gabrielle

Não me lembro de ter existido um tempo sem balé. Pendurada num dos peitos de minha mãe, acompanhava atenta os movimentos unilaterais dela, ensinando crianças e moças. Suavidade, doçura, beleza. Não tive oportunidade de me apaixonar por essas coisas - um balé para espectadores. Minha vida era a de bastidores, de coletes costurados no corpo, de maquiagem em andamento para cobrir espinhas enormes, de toucas de meia de seda, de pés feridos e calejados. Gente ensaiando dia e noite, gente chorando de dor ou de desespero, gente brigando - geralmente minha mãe, distribuindo ordens. Antes de saber andar, correr, brincar, eu já sabia dançar. E com sapatilha de ponta. O pescoço sempre alongado, peso controlado, cada mudança de braço, rodopio, estiramento de perna devidamente controlados e cronometrados. Contabilizo pouquíssimas vezes que me permiram comer chocolate ou brincar num parquinho de praça. Além disso, não sei o que faria se precisasse depositar um cheque no banco ou comprar uma passagem aérea. Sempre existiram assessores pra isso. Não acredito em deus, nunca fui a igreja alguma; sei fazer coques perfeitos, me maquiar e chorar sozinha, depois de cada apresentação e antes dos aplausos finais.

25 fevereiro 2012

56/365
Maria Ruth

Fará vestibular para pedagogia e será aprovada. Aluna dedicada, será convidada a participar de um grupo de pesquisa sobre educação inclusiva. Apresentará trabalhos em congressos, escreverá artigos, terá reconhecimento. Mas não se casará. Conhecerá um rapaz e terá um namoro de duração mediana, que acabará em um outono. Sofrerá, mas se dará conta de que nunca gostou dele. Será professora e pesquisadora requisitada. Descobrirá uma forma de inclusão inovadora, com bons resultados. Dará palestras no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos. Em paralelo, esperará e procurará o amor da sua vida. Pro resto da sua vida. E ele não virá.

24 fevereiro 2012

55/365
Virgínia

Acordou mudada porque dormiu dizendo para si que ia mudar. Disposta, separou calças largas, tênis e grandes vestidos ou blusões, dentro dos quais escondiam-se bunda, coxas, seios parisienses. Tudo muito exuberante. Experimentou o único - e quase novo - sapato de salto em verniz preto. Andou um andar vegetal. Sorriu de si, sem espelho. Quanto às bijuterias, resolveu que precisava de algumas novas. Jogou fora minibrincos, colares coloridos, prendedores de cabelo, bolsas, meias infantilizadas, discos, fotos e livros, livros, livros. Comeu uma maçã, catou uma carteira charmosa; uma camisa masculina ganhou um cinto rude e virou um vestido curto. Calçou o sapato de verniz. Soltou os cabelos. Foi andando - até que se acostumasse lidaria bem com olhares incrédulos - ao trabalho para pedir demissão. No caminho, uma loja de acessórios e uma cafeteria. Eis a nova Virgínia.

23 fevereiro 2012

54/365
Amanda

"A senhora não vai contar pra ninguém", mas a paciente ao lado já tinha ouvido tudo e a velha pintada fez um sinal para a atendente. Viu que não adiantou e começou a se justificar. "Eu preciso, Amanda, eu preciso. A sua colega ali foi que errou da outra vez". Em seguida, pediu duas folhas em branco. Amassou uma em volta do que parecia uma calcinha úmida, reforçou com um elástico e pôs na bolsa. Pegou e guardou algumas vezes os documentos, mostrou pra Amanda. "Olha aqui a minha idade. Coloque aí 'uso contínuo', senão vou ter que voltar aqui de novo". Mostrou também o cartão da Unimed. A moça obedecia e tentava ser discreta. Imprimiu o novo receituário. Forjou uma assinatura qualquer acima do nome de um médico com CRM, que talvez até exista. "Agora vá embora e não volte mais", sussurrou. A paciente ao lado com os olhos vidrados. A velha enrubesceu-se: "Amanda, eu também fico muito contente em revê-la. Obrigada, viu, querida. Por isso que eu gosto de ser atendida só por você". Foi. Deixou a segunda folha em branco intacta sobre a mesa.

22 fevereiro 2012

53/365
Milena

Tudo tem explicação. Ele queria dinheiro - pensão, seguro - e paz. Talvez. Agora, nem um, nem a outra. Nem a mulher que escolheu como companheira, nem a amante-motivadora, nem o irmão-cúmplice. Vigias. Ele se tornou perigoso, psicopata, assassino cruel. Uma vida amena, batalhada. Tínhamos nós dois, um podia contar com o outro. Brigávamos, mas quem não briga? Tomei banho, me vesti. Ele sempre fazia o café muito cedo. Voltou para o quarto e eu chamei por ele, já abrindo o portão. Não consegui entrar no carro. Me atingiram e eu nem tive tempo de olhar a cara do criminoso. Mas escutei - ele pediu, orientou, sussurrando: "aqui no ombro, ó, aqui". Depois os gritos, a encenação. A dor que eu senti se transformou em nada. Nem pena, nem ódio. Tudo tem explicação.

21 fevereiro 2012

52/365
Giovanna

Cansei de ver meus pais brigando. Mas isso não me atinge, sou indiferente. Sou simpática, cumprimento as pessoas educadamente. Me concentro na minha vida, nos meus cadernos novos, escola nova, colegas novos. Meus pais me dão o que eu quero e até o que eu nem sonhei em pedir. Não preciso ter desejos. Mal o ano começou, já ganhei todas as atenções, professor particular de matemática e física e promessas de ir a Gramado em julho e Disney em janeiro. De novo. Falo inglês. Ainda não menstruei, não me interesso por namoros. Converso com meus amigos sobre adesivos, desenhos animados e coisas de escola. Ouço músicas que tocam, não escolho, não tenho um estilo preferido, nunca comprei nada no itunes. Em casa, nada faz sentido. Durmo e como. Durmo muito e como muito. Meus pais sorriem muito. E, por mais que eu erre - se é que eu erro -, o amor que recebo não muda.

20 fevereiro 2012

51/365

Maristela


Num programa de TV, desses que promovem encontros, foi dispensada. Saiu sem pretendente. Em festas, shows, ensaios, volta para casa acompanhada ou sozinha, meio a meio. Viveu com Jander no Alto do Cabrito até dois anos atrás, mas terminou o namoro e, desde então, nada. Só pequenos encontros com homens decadentes e feios. Os búzios não se pronunciam. Uma justificativa que usa para si não tem a ver com beleza, mas com idade. As rugas e manchas impressas na face combinam com a flacidez de pescoço, braços, barriga, bunda, pernas. O mundo anda muito focado na juventude, conclui. Mas no carnaval, na sua cidade natal, acompanha maquiada, enfeitada, alegre e confiante os Filhos de Gandhy. Ganha colares e beija de língua homens enormes, bonitos e cheirosos, com todo o amor que guarda dentro de si.

19 fevereiro 2012

50/365
Ariadne

Passou no concurso dos Correios. Passou a entregar cartas, uniformizada, e a ter dignidade, tíquete, plano de saúde. Mas o que adiantou? Passou por uma quadra e torceu o pé, rompeu tendões. Passou pelo Santa Lúcia, Santa Luzia, Santa Helena. Passou horas e horas na espera. Procedimentos que precisam ser autorizados. Calção. Passou cheque sem fundo. Tenho dor. Cruzou os braços e foi entrevistada, com o pé inchado. Passou no DFTV.

49/365
Marcela

Estreou na Mocidade do Gama, na bateria. Dedicada, filha da cidade, era respeitada e admirada na comunidade. Criava dois meninos sozinha, dona de casa, rainha do lar. E era envolventemente carnaválica. Preparava-se o ano inteiro, costurava fantasias. Tocava surdo, repique e bumbo. Mas descobriram a moça. Roupas grandes, largas pra quê? Bumbum. E, em 2012, de sandálias novas, virou rainha da bateria.

17 fevereiro 2012

48/365
Dália

Era lindo – duas covinhas no rosto, ao sorrir. E eu sorria. Gargalhava. Duas covas. Eu e meu amor. Tudo pago, porque a família, apesar de ser família, não tem nada com isso. Canto direito do cemitério sem canto, espiralado. Onde se vê o pôr do sol. Sou romântica, sempre fui. Por isso vacilo. Parece que careço de coragem pra apertar o gatilho. O filho da puta eu já matei. Sobra apreço, medo, autoestima. Falta dar cabo de mim.


47/365
Cristina
 
Anunciava pelo megafone: “este carnaval será diferente, pessoal. Vamos ajudar a salvar as nossas crianças!” Era o mesmo anúncio de todo ano e a comunidade se perguntava o que seria diferente, afinal. Mas ajudava. Um doava chuchus, outro cenouras, macarrão, costelinha, batata, couve. A sopa das crianças que vagavam pela Sé era o que dava sentido ao carnaval de Cristina. Ela mesma mexia o panelão, arrumava tudo, dirigia a kombi e a equipe de distribuição. Na madrugada, enquanto se viam foliões bêbados e desorganizados voltando dos barracões para casa, ela abordava meninos e meninas na praça. Oferecia sopa e amor.

15 fevereiro 2012


46/365
Eugênia

Ele sai antes de mim, deixa o café pronto às 4h. Vai treinar. O time está na série A2 do campeonato pernambucano. Atrasa salários, não fornece alimentação durante os treinos nem dinheiro pro ônibus, nada de massagista, médico, equipe técnica. Mas ele está lá, firme, por paixão e compromisso. Chega por volta de meio dia, dá o almoço dos meninos e leva pra escola. Volta, come e dorme. E eu, o dia todo na rua. Vendo picolé. Às 7h pego o carrinho e vou pra Boa Viagem. Já não agüento minha própria voz, ritmada: “olha o picolé. Tem de uva, coco, morango, graviola, castanha, nata, chocolate e limão”. Quando chego, ele está me esperando, banhado, cheiroso. As crianças limpas, jantando e assistindo à novela das sete, o dever feito, prontas pra dormir. Enquanto eu janto, ele me conta como foi o treino, cheio de esperança de que, este ano, eles sobem para a A1. Sorrio e confirmo, sem acreditar.

14 fevereiro 2012


45/365
Rafaela

Custava a dormir. Pela TV a cabo, assistia a programas bizarros sobre gente bizarra que faz coisas bizarras, como colecionar unhas, arrancar tufos de cabelo, lixar os pés até ferí-los, mascar embalagens de balas ou chicletes. Suas pequenas manias de limpeza, o tique de passar os dedos pelas axilas e cheirá-los constantemente, o fato de gostar de guardar tampas de garrafa pet, de cheirar gás de cozinha e de telefonar para pessoas que já passaram pela sua vida, fingindo ser vendedora de algum produto, eram irrisórios diante do que se apresentava nos programas. Essa conclusão lhe proporcionava alegria e alívio. Por isso era a maior espectadora dessas produções. Por isso não dormia. Por isso era normal.

13 fevereiro 2012


44/365
Tathyanne

Era panela batendo, vizinha cantarolando (até afinada) e esfregando laje. Dez e meia da manhã. Segunda-feira. Lavou o rosto, ajeitou o mega hair. Chupou uma manga. De shortinho e top, sentou no batente da porta com acetona, algodão e esmalte pra retocar as unhas vermelhas. Cabeça longe. Respondeu com cara de nojo pra um ou dois “aêê, gata, que saúde” e entrou pra esquentar o almoço. Tomou banho, comeu, escolheu a calça clara com glitter, juntou as pulseiras do mesmo tom da camisa do uniforme, plataforma branca, rímel, gloss. Revirou-se na frente do espelho. Ajeitou o piercing. Gostou do resultado. Pegou a bolsa e desceu. “Copa/Leme/Botafogooo. Entra aí, princesa”. A mesma cara de nojo. Tirou o chiclete da boca, com um cuidado sensualizado. Cruzou as pernas. Encostou a cabeça na janela e lembrou do baile com o Maicon ontem. Fechou os olhos pintados de azul, sorriu e passou as mãos pelas coxas, lembrando das mãos dele. Até esqueceu o calor.

43/365
Otília

São quarenta e nove anos juntos. Ele já me aprontou tanta coisa, mas eu não guardo mágoa. Certa vez, achando que podia tudo, me arrumei e, antes de ele chegar do serviço, levei as crianças ao parquinho de diversões, ao lado da igreja. Ele foi atrás de mim. Me levou de volta para casa, sem violência. No caminho, apenas disse: parece uma puta com esse batom. Ao chegar em casa, pus os meninos na cama e chorei. Demorei anos para digerir essa culpa. Tive dificuldades para trabalhar fora, pagar meus bordados, minhas coisas. Agora ele está aqui deitado ao meu lado, entubado, mas consciente. Eu lhe conto histórias, falo do passado. O tumor, na próstata, está quase do tamanho de uma laranja, mas não faz parte dos nossos assuntos. Quando narro algo engraçado, como no dia em que ele despejou um balde de água suja e pano de chão na própria cabeça, ele sorri com a boca imóvel e os olhos brilhantes. E me retribui as memórias, as preces e a dedicação com uma lágrima.

42/365
Kátia

Quero anunciar que estou de partida para a Alemanha. Ensaiei. Metade deles sequer sabe que língua se fala por lá. São meus dezesseis primos, nove tios, três sobrinhos, pai, vó. Todos reunidos de novo, com duas panelas de galinha caipira, polenta, arroz, pão de queijo, farinha. Em uma primeira tentativa, elevei a voz, mas foi impossível. Só vovó me olhou e duas primas. Uma delas já sabe da novidade. Não vão entender. Sempre estudei música, mas ninguém foi muito de me apoiar. Com razão. Desde criança, participo de projeto social e toco violino. Mas sempre tive que estudar seriamente e cheguei a fazer cursos de auxiliar de enfermagem e recepcionista para garantir o sustento. Música é coisa de desocupado. Meu pai tentou viver de música na juventude, e até hoje canta muito bem, mas virou exemplo de fracasso. E eu uma reles iludida com esse universo. Mas ontem recebi a notícia de que fui aprovada num teste de bolsa para estudar lá fora. Alegria e aflição. Acho que vou esperar a prece antes do almoço. Vó há de me abençoar.

10 fevereiro 2012

41/365
Rebeca

Cabelos cheios e homogeneamente cacheados. Seriam considerados bonitos e sensuais se não fossem completamente brancos ou se não emoldurassem um rosto sujo e inexpressivo. Vaga pela Asa Sul inteira, mas é vista também no Setor Bancário, na Rodoviária, na Esplanada. Nada diz. É completa e saudável: tem mãos, pés – os dois. O tempo inteiro descalços e com unhas enormes, dando um aspecto de garras. Mas não anda, flutua. Sem pressa. Uma saia de tapete, amarada com um pedaço de cortina, uma camisa de botão amarela clara, uma ou duas sacolas de supermercado penduradas na mão. Elegante. Não fala sozinha, não xinga, não se envolve com outros, não rouba, evita pedir moedas. Apenas existe. E impõe à cidade limpa e planejada sua imagem aterrorizadora.

09 fevereiro 2012

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Lívia

- Perguntas fáceis, básicas: cores e estádio.
- Vermelho, branco e preto. Elzir Cabral.
- Duas alcunhas.
- Ferrim e Tricolário, entre várias outras.
- Uma torcida organizada.
- A minha: Falange Coral.
- Tranqüilo, né? Agora é pra valer, moça. Quantas vezes campeão cearense?
- Nove. E vinte vezes vice-campeão.
- Ídolo dos anos 80.
- Gesiel.
- Já participou do Brasileirão?
- Sim, seis vezes na primeira divisão; oito na segunda; doze na terceira. Melhor colocação em 1981, em 27°.
- Admitida.
Os gritos dos amigos, também torcedores, pareciam de gol. Levantaram Lívia, que sorria e chorava. Abraçou o marido, beijou os filhos. Que vitória! Conseguira ser admitida no Conselho Consultivo do Ferroviário, seu time. Em entrevista, declarou que trabalharia para realizar o seu maior sonho, com conhecimento, paixão e simpatia: chegar à presidência do clube. Primeiro passo dado.

08 fevereiro 2012


39/365 
Telma

Aos 24 anos, quando se preparava para engravidar, descobrira um câncer de colo de útero. Sempre cuidou da saúde, praticava vôlei, consultava periodicamente os médicos, menstruação regular e pouquíssimas gripes registradas ao longo da vida. Quimioterapia, retirada do útero. Curou-se. Programas de TV a procuraram, jornais, revistas. Em todos, recuperada, aparecia feliz e otimista – era o “exemplo” tão cobiçado como matéria prima para reportagens longas e positivas. Muito bonita e jovem, teve, com a tragédia, seus minutos de fama. Dois anos depois, fizeram questão de esquecê-la. Separou-se do marido, que queria ser pai, os cabelos cresceram fracos e opacos, engordou 64 quilos. Tem a certeza de que o câncer veio para matá-la, mas não foi capaz. Ela mesma pretende resolver isso. Em algumas horas.

07 fevereiro 2012

38/365
Leila
 
Ir à escola não era prazeroso como diziam que deveria ser. Xingava baixinho para que a tia, deitada na cama ao lado, não ouvisse: caralho. Lavava o rosto, reforçava o desodorante, escovava os dentes, ajeitava o cabelo duro como podia. Já de uniforme, preparava o café, cortava o pão, passava manteiga e sentava-se à mesa. A tia, ao acabar de rezar o terço, unia-se a ela. “Que aulas vais ter hoje?”. Matemática, física, português e geografia. Odiava todas essas e mais as outras. Odiava ir à escola. “Vamos ver se este ano não reprovas”. Consentia. Pegava os livros e cadernos e saía. No ônibus, lamentava. A ela bastava continuar a limpar a casa da tia, lavar as roupas, regar as plantas, ir à missa aos domingos. Não precisava de estudo para isso, mas a velha fazia questão. Um vestido novo costurado por ela mesma por mês e alguns trocados para picolés e, eventualmente, uma revista adolescente eram os luxos que preenchiam seus planos futuros. E só.

06 fevereiro 2012


37/365 
Susana

Exibia um vestido de colorido antigo. Piaçava e sabão caseiro. Esfregar o chão cimentado da casa era a sua maior alegria, aliviava tensões. Mas já não havia tensões. Ao longo dos anos, fora se tornando a única dona do apartamento térreo de dois dormitórios, banheiro, sala, cozinha e esse quintalzinho de lambuja, em La Habana Vieja. Amava o quintalzinho – ali fizera uma pequena horta. Desligava a mangueira e cantarolava, mal podendo esconder – de si – o sorriso. És mi casa, mi casa. O peso dessas palavras fazia uma vibração forte no peito, como se tambores fossem surrados ali mesmo. Conseguira um pouco de tinta para o quarto das crianças, ganhara de uma vizinha dois jarros pesados, onde plantaria rosas. O velho rádio ligado competia com o “tcha tcha tcha” da vassoura. E Susana misturava os movimentos de limpeza com o rebolado suave da nueva trova que escutava.

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Odete

O seu ídolo da juventude estava em estado grave num hospital de Nova Lima. Ela, uma barata tonta pela casa. Bebia água, ligava a TV, desligava. Ora queria notícias, ora queria evitar o pânico. Respirava, conseguia sentar-se. E logo recomeçava o vai-e-vem. Precisava fazer alguma coisa. Internet, notícias, traqueostomia, infarto. Telefonou para várias empresas de ônibus, fora do horário de atendimento. Queria ir até onde ele está, mas pra quê? Levaria flores? Calcinhas? Chorava. Uma voz lhe dizia “as pessoas morrem um dia”. Mas não ele, não o melhor cantor romântico de todos os tempos, o homem mais feio e sensual que já lhe cruzara o caminho, ainda que ela nunca tenha conseguido ir a um show (quando ele esteve em Cuiabá, ela caíra de cama. Teve dengue). Não conseguia dormir nem conter as lágrimas. Resolveu masturbar-se. Esperaria amanhecer para tentar comprar as passagens.


35/365 
Luzia

Enquanto dormia, sentiu uma dor terrível. Talvez no peito, talvez no baixo ventre – não conseguia identificar. Era sonho. Remexia-se. Acordou Jonas, que a viu suar e voltou a dormir. Via-se deitada numa maca, com médicos em torno de uma lâmpada tão aguda quanto a dor. Parou de se sacudir, experimentando uma espécie de alívio por estar nas mãos de profissionais. Mas essa sensação logo se dissipou. Abriu os olhos e viu-se no próprio quarto. Identificou o local da dor quando sentiu que sangrava muito entre as pernas. Pálida, lembrou-se que estava grávida e concluiu que perdia o bebê. Olhou para Jonas. Não conseguiu chamá-lo.

03 fevereiro 2012

34/365
Bruna

De repente, passou. Até ontem, durante muitos anos, já chegava ao cabeleireiro chorando, certa de que não iria gostar de alguma coisa. “O que aconteceu, minha linda?”, ele perguntava. E eu respondia “nada, querido, tpm”. E era tiro e queda: um lado ficava mais curto, a franja enrolava, as camadas davam um volume exagerado e eu saía aos prantos. Algo inconsciente saiu ou algo consciente entrou. Ou ambos. Ou ainda algum planeta se alinhou com outro e, cosmicamente, me lançaram influências. Boas influências. Hoje, cheguei ressabiada a um novo salão. Fui muito bem atendida, me ofereceram café e suco. “Essa moça aqui vai fazer as suas unhas”. Nunca vi. Em outros tempos, eu já anteveria cutículas feridas, bolinhas de ar no esmalte. Mas não. Sorri durante todo o serviço, conversei com a moça. Agora, vejo uma única unha lixada em diagonal. E acho graça.

02 fevereiro 2012

33/365 
Iara

Não me conformo com tanta gente reclamando da vida. Difícil é ser sereia nos dias atuais. Sair cedo do mar, pra não ser vista, apesar de querer dormir mais ou fazer hora na cama, ver um programa educativo às 6h da manhã. Esperar o rabo desaparecer, tomar banho de água doce pra tirar o cheiro de mar, passar muitos cremes, vestir uniforme, meia calça, sapato, escovar os longos cabelos e os dentes, usar perfume. Pegar ônibus, enfrentar um trânsito infernal até o Centro, caminhar rumo ao escritório. Às vezes, os colegas fazem questão de não responder ao meu “bom dia” – eu chego cheia de alegria, apesar de tudo. É terrível. E não é exatamente prazeroso receber representantes de empresas, arquivar documentos, atender telefone, ir ao banco, almoçar, voltar, trabalhar mais um pouco. Mas chega o fim da tarde. Recuso eventuais convites para um chope. Troco de roupa, dou uma corridinha na praia. Me dispo, coloco meu colar de pérolas e me despeço do sol, da areia. De joelhos, agradeço: odoyá, minha mãe. Olho em volta, não vem ninguém, mergulho. A caminho de minha casa, nado feliz e rapidamente para não perder a novela.

01 fevereiro 2012

32/365
Cecília

Pedante e orgulhosa. Lançava suas ordens à rua, porque empregados não tinha há muito tempo. Ela mesma lavava as camisolas de seda à mão. Usava as peças o dia inteiro. O mato à frente do casarão crescia e a pintura da fachada descascava. Rude, fingia para si que relia os clássicos. Um a um, retirava-os da biblioteca, soprava o pó e folheava. Enchia de água da torneira uma taça de champanhe. Quando aparecia algum dinheiro, comprava uvas, cerejas. Os parentes ajudavam como podiam. Almas boas que eram, relevaram rapidamente os coices que Cecília distribuiu por anos e anos e levavam frutas, pães, material de limpeza e higiene. Ela os recebia com indiferença. Vez por outra, pagavam uma conta. Puxavam assunto e eram brindados com a ausência da austera falida. Cecília definhava. Logo morreria, certamente. Mas, orgulhosa e pedante, jamais sairia de seu palacete decadente ou de seu imaginário pedestal.