22 junho 2012

173/365
Maria Lúcia

Filho da puta. Tércio é um filho da puta de marca maior. Me traiu com uma vagabundazinha. Mas não se abata, Maria Lúcia, erga essa cabeça de rainha. Minha vingança só está começando. Vou gastar cada centavo que esse piranho deixar ao meu alcance. Comecei bem: ontem, dei R$ 50 pra uma hippiezinha-palhacinha suja que jogava uns malabares na rua. Showzinho besta, sem graça. Ficou feliz, coitada. Se eu tivesse uma nota de R$ 100, daria.

21 junho 2012

172/365
Maria Eduarda

Tem rico esnobe, mas tem rico que sabe das coisas, que entende de arte. Hoje, uma mulher linda, cheia de joias, num carrão maravilhoso, assistiu ao meu espetáculo de malabares e, comovida - cheguei a ver lágrimas nos seus olhos -, me deu cinquenta reais. Uma cédula limpinha, verdadeira. Não eram aquelas moedas de cinco ou dez centavos nem aquelas notas velhas de dois reais, remendadas com durex, valor máximo que eu já ganhei de uma pessoa só. Mas sabe o que é isso? É reconhecimento do que é a verdadeira arte. Quem entende, só quem entende o real valor, a beleza, a pureza ética da arte, é que pode ser capaz de reconhecer e valorizar. E estou me sentindo plena hoje. Tenho certeza que fiz uma alma feliz.

20 junho 2012

171/365
Aline

Dia de estivadora. Enquanto esperava o repórter cinematográfico finalizar as tomadas da EPTG, Aline, sentada, olhava para as 24 bolhas nos pés. Teve o impulso de estourar cada uma delas - delírio. Em tempo lembrou-se da dor que já sentiu outras vezes. Retorcia o pescoço: "bora, Romenos, bora", sussurrava. Ele, por sua vez, se deliciava com as luzes misturadas da noite - estrelas, postes, freios, faróis. Atmosfera perfeita. Aline queria voltar pra casa, só isso, só isso. Não comeria nada, não tomaria banho, não leria Rawet, não assistiria Gabriela. Cama, só cama. Só amanhã. "Bora, Romenos".

19 junho 2012

170/365
Fabiane

Querem chamar de barulho
Mané zoada, mané bagulho
O que eu faço é dançar e dizer
Danço e digo
Não serve balé e poesia
Coisa de rico
Só voz e letra ninguém quer
Tem que ter palanque
Levar ao mundo a voz-mulher
Sair do tanque

Porque pra mim dizer o rap
Não tem credo, não tem reza
Quem sabe essa realidade
Se ‘amulhera’, se embeleza

Sou da periferia e sou até
Sou guerreira, sou bandida, eu sou mulher
Sou bonita, sou honesta e tô na pista
Quem me quiser, digo: ‘mano, insista’
E meu amante, meu amigo, não reclame
O meu nome eu já lhe disse: Fabiane
Nesse buraco que eu vivo é só alegria
Pobre ajudando pobre todo dia

Porque pra mim dizer o rap
Não tem credo, não tem reza
Quem sabe essa realidade
Se ‘amulhera’, se embeleza

18 junho 2012

169/365
Valentina

Depois que eu dei o sangue, tirando da mesa dos meus filhos parte do meu salário pra pagar uma faculdade caríssima, e, antes disso, tendo ralado para conseguir uma bolsa parcial, a empresa em que trabalho lança um programa de incentivo ao curso superior. Deus, que ironia! Me formei em março, passei automaticamente de ajudante de limpeza a assistente de recursos humanos. Empresa não é gente, eu sei. Mas, quem diria?, inventaram agora esse incentivo. Justo agora? Tudo bem, investi em mim e já colho os frutos disso, mas me sinto tão preterida, ainda que não haja chance de essa decisão ter sido tomada por minha causa, de propósito. Azar? E assim estou: sem saber o que pensar.
168/365
Dagmar

É das mais antigas pregadoras do Senhor. Pula de igreja em igreja, com a bíbilia debaixo do braço. Ora no ponto de ônibus, na porta do hospital. Mas ontem, justo ontem, chegou espalhafatosa e falastrona ao churrasco de cem anos de seu Abel Batista. Vestido pink - certamente tirado do armário, estilo anos oitenta -, maquiagem brilhante e boca, boca, boca. Falou, comentou sobre o serviço, sobre as obras no Mané Garrincha, sobre o Cachoeira, sobre os maridos da Eudina, da Aparecida e da Cleide. Falou da Eudina, da Aparecida e da Cleide também. Ia trocando de interlocutor. Ficou até a festa acabar, sempre com um copo de cerveja na mão. Foi um domingo em que se esqueceu do Senhor.

16 junho 2012

167/365
Adriana

Lázaro veio salvar a irmã. Nada mais. Foi-se. Ela, sim, talvez tenha algo a aprender neste mundo, como eu. Quanto mais conforto e equilíbrio procuro, mais eu choro. Disseram que vai passar, que ele está bem e vinculado a nós, cuidando de nós. Meu útero nem voltou para o tamanho normal. Dos meus seios mina leite. E dor.

15 junho 2012

166/365
Michele

- Não mora mais aqui não.
- Como não mora? Onde?
- Não mora mais aqui.
- Isso é um celular!
- Ah, então ela morreu, meu filho. Esse celular não é mais dela.
- Eu sei que é você, princesa.
- Me respeita.
- Fala comigo. Onde você está? Que coisa ridícula fazer isso na sua idade.
- Caralho, agora sou velha...
- Você não é velha. É linda, é minha mulher... mas você fugiu, Michele. Cadê você?
- Não te interessa, Robson.
- Querida, vamos conversar?
- (às gargalhadas) Nem a pau.
- Querida...
- Vai se catar.
Desliga. Para sempre.

14 junho 2012

165/365
Lídia

Sei exatamente o que pensam quando me olham assim: "essa velhinha sozinha?" Eu ando sozinha há muito tempo. Pra qualquer lugar dessa Brasília. O que mais sinto falta é de dirigir. Já faz uns doze anos que me arrancaram do volante. Ok, afinal, em um mês, me envolvi em quatro acidentes. A gente tem que respeitar os próprios limites. Mas continuo lúcida e esperta. Não quero ficar em casa fazendo tricô. E vejo, aqui no shopping, essa mãe e essa filha me olharem com certa pena. Certamente questionam, silenciosas e intrigadas, se tem uma babá comigo escondida em algum lugar. Não tem. Quando terminar o meu almoço delicioso, vou continuar a minha caminhada pelas vitrines. Ainda tenho que comprar o meu elixir da juventude, durex e um presente para a Carolina.

13 junho 2012

164/365
Ana Telma

Não costuma dar o seu melhor sempre. Economiza até nos detalhes mais bobos. Se tem duas latas de leite condensado de marcas diferentes, certamente usará primeiro a mais barata ou a de pior qualidade. Entre uma roupa muito chique e outra mediana para trabalhar, escolhe a segunda. Raciocina assim: vai que amanhã tenho uma reunião importante?

Ontem, convidou o Moacir para um jantar romântico em casa. Terapeuticamente, decidiu: vou dar o meu melhor. O mais caro forro de mesa, a louça mais fina, o vinho chileno guardado, vestido, perfume, maquiagem. Tudo impecável. Os dois, juntos há oito meses, mereciam. Moacir ligou.

- Estou num trânsito infernal.
- Ai, que pena. Vai demorar, então?
- Na verdade, Ana... estou embaraçado, mas...
- (respira) o que foi?
- Eu não vou.
- Poxa, mas... e agora? Guardo pra amanhã?
- Eu não vou hoje, nem nunca. Eu não quero mais ficar com você. Desculpe. Boa sorte.

12 junho 2012

163/365
Ana Karla

Su, deixa eu te contar desde o início: acordei, tomei café e liguei LOGO pra ele. Nada. Ele não atendia. Fiquei preocupada. 11:16’32
Skipe, celular, SMS, telefone fixo, MSN, Facebook... tentei tudo. Temi. Ronaldo sumiu, sumiu, sumiu. 11:17’09
Ui, Su, foi mal, demorei... tentei aqui falar com a Naty, mas ela escreveu “oi” e saiu. Off line. 11:19’15
Mas, hein, Su, resolvi esquecer ele um pouco, tomei banho, fiz escova 11:19’40
E ele mora aqui no prédio, no ap debaixo, mas senti vergonha de ir até lá. Ok, ok, vergonha & preguiça. Eu ando bem preguiçosa. E comendo muito. 11:21’31
Estava agora mesmo comendo um donuts delicioso, que meu pai trouxe. Lembra do meu pai, Su? 11:22’02
Su? 11:23’50
Não terminei a história 11:24’01
Kd tu, Sussu? 11:24’13
Su Su Su 11:24’38
Ei, Sussu! 11:24’44
Tá offffffff? 11:24’50
Suuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu 11:25’01
Respoooonde! 11:25’25
Affff, to saindo. Você some. Deve estar com o Ron e com a Naty. Palhaça. 11:26’10

11 junho 2012

162/365
Ana Pérola

Odeio aquarelas. Colorido morto, floral. Paisagens singelas, apasteladas. Não, não gosto. São tristes demais. Anêmicas demais. Mentem, enganam. Surrupiam traços marcados, limites. Embaçam. Oníricas demais. Aquarelas entram pelos meus olhos invasoras, me desafiam com a sua apatia. Reajam, cores mórbidas dos infernos! Submarinas, transparecem, doentes, janelas enxutas, técnica e expressão de gente molhada e sem sal. São como Nescau na água. Quero cores que, sólidas, me piniquem as vistas, que me provoquem alegria ou dor: não o meio termo, o morno, o lacrimoso. Papéis tortos, chovidos. Aquarelas são aquosas demais. Aguadas demais. Dissimuladas.

10 junho 2012

161/365
Ana Amélia

São três aninhos, não é qualquer coisa, a gente se vira. Difícil vai ser fechar a lista nos cem. Mas não tem como passar disso. E vamos pensar bem, tem uma gordurinha aí, nem todo mundo vai poder ir. A casa de festas já está 'ok': R$ 4.200. Dividi em dez vezes e já pagamos duas. Tathiane vai se divertir, amor. Tem joguinhos, roda gigante pequena, piscina de bolinhas, pula pula, casinha de boneca. A decoração é do Mickey e já está inclusa. Falta fechar os doces: bolo de R$ 400 e R$ 720 de bombons; quase R$ 1.500 de lembrancinhas. Entenda: são orelhinhas, chicletes e chocolates embalados com os motivos da festa, quebra cabeças Disney, potinho de vidro com brigadeiro de colher. E o vestido de Minnie. Vai dar, vai dar, Hélio. Pede pro Igor uns R$ 2.000 emprestados e a gente atrasa o condomínio só este mês e também a C&A e a Riachuelo. Nossa princesa merece.

09 junho 2012

160/365
Ana Paula

Faz mais ou menos 2.555 dias que estou neste mundo. Sei escrever, fazer contas, cantar de cor algumas músicas e até decorei as falas de cenas de filmes. Sei também ajudar a cuidar da minha irmã Natália, que tem uns 90 dias de vida. Bem menos que eu. Meu pai quer que eu seja médica e minha mãe quer que eu seja estudiosa, ande bem arrumada e arranje um bom homem. Quero estudar o suficiente pra ser bombeira ou pintora. Não pintora de paredes, mas de artes mesmo. E não quero ter filhos ou maridos.

08 junho 2012

159/365
Ana Diva

- Me beija, Rafael.
- Ai, que ódio. Já pedi: me chama de Ana Diva.
- Desculpe, mas beija. Vem cá. Tô num tesão, amor.
- Estou assim, amor, tristonha, sei lá.
- Ana linda, vem cá... gostosa.
- Ai, tô tão triste, amuada. Acho que é TPM.
- Não seja ridículo, Rafael.


158/365
Ana Flávia

Feriadão. Isopor, baianinha, biquinis e sungas. Chevete rumo ao Zoo. No churrascão, enquanto todos comem e bebem de se esbaldar, descoloro meus pelinhos e faço alisamento capilar. Depois, um grau no bronzeado. Um franguinho e um refri light. Tenho que manter a beleza.

06 junho 2012

157/365
Ana Cristina

Terminei com o filho da puta do Gustavo. A partir de hoje sou lésbica.

05 junho 2012

156/365
Ana Maria

Mais um crime passional, dizem. No entanto, a motivação não foi ciúme, posse: foi dinheiro. Por que chamam de passional, então? O cara era dono de uma multinacional, tinha um seguro gordo e só a mulher como herdeira. Nenhum filho. Claro que foi a Ana Maria. Crime comum, assassinato, homicídio, latrocínio, como quiserem classificar. Menos passional. Não havia paixão nenhuma entre os dois. E, mesmo se houvesse, crime por paixão sequer existe, a não ser que seja uma overdose de sexo fulminante. Foi o caso? Não. Ana matou. Pronto.

04 junho 2012

155/365
Ana Claudia

Vai se casar em agosto. Não fechou buffet, não experimentou um vestido sequer. Escolheu as cores das flores e do buquê, o espaço já está pago e os convites envelopados e selados. Não tem lista de presentes ainda, muito menos apartamento em vista para alugar. Comprou um sapato pink, que combina com as gérberas, e agendou cabeleireiro e maquiagem. Champanhe, uísque e vinho encomendados. Bolo? Docinhos? Toma nota. O noivo trabalha 24 horas por dia; mal se falam. Se nesses dois meses restantes ele desistir, ela nem vai ficar sabendo. Ri. Gargalha.

03 junho 2012

154/365
Pauline

Minhas filhas já me chamaram a atenção para os meus cabelos que me demandam muito tempo todas as manhãs até ficarem razoáveis. Meu namorado me largou porque eu sou muito crítica, segundo ele, mas o real motivo - tenho certeza -: celulites. Não estou acima do peso, sou saudável, tenho um emprego mediano, suficiente, nada de grande dívidas. Porém, porra!, não tenho a cintura da Paula Fernandes e, que merda!, tenho costelas e pulmão (ela não). Minha pele tem manchinhas e meus cílios são espaçados. Sou normal e, por isso mesmo, imperfeita, longe-longe do ideal. Indesejável?

02 junho 2012

153/365
Laurea

Morena? Loura? Não, agora ataco de ruiva. E é ruiva vermelha - não laranjada. Cabelo novo; vestido reciclado: o mesmo pretinho de paetês. Chiquérrimo, mas usadíssimo. Ninguém vai notar. Se a minha postura for outra, eles pouco vão olhar pra minha roupa. Calcinha esconde-gorduras; sandália básica.
- Cássia? Oi, linda. E aí, descobriu?
- Ele vai, Laurea.
- (aos gritos) Maravilha! Vou estar linda, amiga.
Angelo que me aguarde. É hoje.

01 junho 2012

152/365
Viviane


Ontem, no dia mundial contra o tabaco, Aldo me ligou querendo voltar, dispensei, almocei com Juliana, falei com minha irmã duas vezes, lavei o cabelo, me depilei, comprei detergente, bombril, pimentão e leite, trabalhei até tarde, fui a um happy hour com o pessoal da loja e, juro, só fumei maconha.

31 maio 2012

151/365
Raimunda

Vocês viram? Viram? Na Ana Maria Braga, rapaz. Era eu na Feira do Guará, tirando foto com o Júlio Rocha. Oh, homem lindo, fabuloso. Tava cheio, rapaz. Uma mulherada em volta. Tirei foto com o meu iphone de capa pink. Viram? Sou eu aquela de costa, blusa verde. E foi passar só hoje na TV. Demorou. Faz tempo que ele veio aqui. Primeiro, ouvi os gritos, depois aquele amontoado de gente, bem perto da minha loja, rapaz. Larguei a mercadoria e as freguesas! Foi ótimo. Ele é cheiroso, os dentes branquinhos. E, no abraço que dei, cochichei no ouvido: "arruma um espaço pra mim, que eu sou cantora. Boa cantora". Ele disse: "tá certo, tá certo". Saí feliz e confiante, rapaz. Mas, passados o calor e o vuco vuco do coração, caí na real - duvido que ele vá se lembrar de me dar uma oportunidade.

30 maio 2012

150/365
Nancy

Na queda, perdeu dois dentes e um bocado do juízo. A partir daí, a memória não lhe registrava nada ordenado, racional. Lembrava-se de surtos em que parecia, observadora, estar fora do próprio corpo, que se debatia, reclamador das mãos e dos tapas que o tentavam controlar. Outros tantos dentes foram caindo e os familiares ganharam escamas na época em que começou a chover flores em seu quarto. Sentia picadas seguidas de frescor e sono. Depois de muitos ataques recorrentes em casa, levaram-na. Agora eram só roupas brancas, azulejos psicodélicos, feridas nas pernas, moscas no nariz escorrento. Colegas apáticos. Choque. Falta de mãe e de pai. Falta de maçã, falta de dentes. 

29 maio 2012

149/365
Dandara

Desceu ali fazia doze anos, árida como a terra que pisava. Conheceu Rico, quem explorou como pôde (já que ele tinha um trailer) e largou. Afeiçoou-se a um cachorro e com ele dormiu na varanda de uma pousada por alguns dias. Até sentia fome, mas não lhe enfraquecia não comer. Pediu abrigo e emprego na bodega perto da caixa d'água do ACM. Deixaram-na ficar. Mas é preguiçosa e, sem abrir a boca, atrevida. Os longos cabelos louros, que vivem presos, guardam poeira, fumaça de cigarro e histórias de uma vida abastada e infeliz.

28 maio 2012

148/365
Bibiana

Passei a noite sonhando com casos de abuso sexual, depois de ver o Fantástico. Estou muito chocada e comovida, talvez porque não faça ideia do que eu mesma vivi, quando criança, com pai, tios e primos morando na mesma casa. Não me lembro, não tenho registro disso. Mas por que esses casos mexem tanto comigo? Será que é possível investigar? E pior: o que mais me intriga é a possibilidade de Analu e Amanda terem sofrido essa violência sem que eu tenha notado, já que tiveram ao longo da infância nada menos que três padastros. Uma no Canadá e a outra na Suíça. Preciso perguntar.

27 maio 2012

147/365
Lorena

Ontem, fui à marcha das vadias de shortinho, meia arrastão e corpete. Flor no cabelo, batom vermelho. Gritei, cantei, repeti palavras de ordem. Ouvi discursos, conversei com várias mulheres, troquei ideias. Ao final, como outras, puxei as cordinhas e exibi os seios. Na volta pra casa, ouvi do meu namorado e do meu irmão que esse negócio de luta contra o machismo é besteira; que ser feminista está fora de moda; e que eu só podia mesmo ser uma piranha pra andar na rua daquele jeito.

26 maio 2012

146/365
Henriqueta

Minha mãe sempre dizia que eu podia ser o que quisesse. Alimentava as esperanças mais puras e espontâneas da menina que queria ser bancária, mas não me libertava. Não podia me libertar. Éramos de circo e a nossa casa era um trailer, que dividíamos com outra mãe e filha. Fui educada debaixo da lona, aprendendo a ler e a contar com fantasias, malabares, bichos. Um registro de nascimento eu tinha, mas não um escolar. E foi difícil, quase impossível, aos dezoito anos, seguir o meu caminho: banco. Tinha fascinação, lia revistas, via na TV. É tanto que, durante anos, minha função no circo era a bilheteria - boa pra contar dinheiro, rápida e eficiente. Não sei se o que mais doeu foi me matricular na rede pública e começar do mínimo possível os estudos, pra ter papel que comprovasse, e, então, fazer concurso, passar, construir uma vida rotineira ou deixar minha mãe. Só tenho notícias dela, agora, quando ela resolve telefonar aqui pra minha agência.

25 maio 2012

145/365
Geralda

Deixei o serviço público depois que vi uma menina de doze anos grávida do próprio irmão. Foi o meu último atendimento. Não que eu tenha precisado escolher. Já vi outras várias atrocidades e talvez o acúmulo delas tenha me deixado assim, arrasada e impotente. Decidi, anunciei a data, assinei papéis e pronto. Saturada. E não bastava os casos serem extremos; o atendimento que pude prestar foi ridículo. Eu mal tinha materiais para um curativo. Deixei essa vida. Agora dou aulas até conseguir montar um consultório. Me afastei do pior que o ser humano já pôde construir. Mas ele ainda existe.

24 maio 2012

144/365
Dita

Todos os dias acordo, olho minhas celulites e baixo uma determinação: nada de refrigerantes ou doces. Sustento com firmeza a decisão. Só até o pós almoço. O resto do dia é um desastre. À noite como uma torrada e uma maçã. Durmo morta de fome e culpa.

23 maio 2012

143/365
Blanca

Vou doar para a minha empregada meu Ipod Nano, um sapato Arezzo, dois Schutz, uma bolsa Louis Vuitton. Algumas peças Dudalina. Uma calça Ellus. Na sacola, incluí uma pólo Lacoste para o marido dela. Acho que minha boa ação do ano está mais do que cumprida, não? Bom é ser rica, feliz e desprendida.

22 maio 2012

142/365
Mila

Ignorou o frio intenso das 6h e foi jogar vôlei de areia no Pithon. Na volta, antes do inevitável banho, iogurte, granola, banana e pão integral. Não precisava resolver os problemas com licitação na telefônica que trabalhava - acordar assim, nesse ritmo, já fazia com que se sentisse uma heroína. Ligou para o Otto, ouviu coisas bonitas e foi feliz pegar o metrô.

21 maio 2012


141/365
Pâmela

Namorei por uns anos um cara que me sacaneou e eu nunca esqueci. Não posso deixar de amá-lo e não encontro ninguém que me ajude a esquecê-lo. Em vez de cuidar da minha vida, cada vez mais mergulho no horror da solidão. Perturbo ele e a família dele e julgo que sou bem psicopata e esperta, a ponto de fazer qualquer besteira. Mas não conheço as forças que me cercam. Serei presa ou pior, mais cedo ou mais tarde.

20 maio 2012

140/365
Joana II

Meu batizado foi muito bonito. Meus padrinhos disseram que deus me abençoasse e me deram um álbum para fotos e cinquenta reais. Mamãe fez coxinhas e risoles, alguns levaram refrigerantes, papai colocou o som lá fora. Estava frio, mas todo mundo ficou lá em casa até a madrugada. A família inteira - veio até gente de Teresina - me felicitou: avós, tios, tias, primos, primas, primos dos primos, cunhados dos tios, meio irmãos de primos dos primos. Gente que eu gosto e que eu não gosto. Gente que me traz boas lembranças e gente que, descobrirei mais tarde, já me abusou sexualmente.

19 maio 2012

139/365
Samantha

Carência - foi afinal o diagnóstico revelado pela terapeuta na sessão de ontem. Queria evitar qualquer relação com depressão e conseguiu. A depressão em si e a vontade de ter depressão se retroalimentam. Mas carência estava de bom tamanho para Samantha e foi nela que conseguiu conectar as tristezas, as raivas, as dores, os problemas de relação e a fala atrapalhada e ansiosa. Sairá esta noite para tentar se curar.

18 maio 2012

138/365
Linda

Nem mesmo numa reunião de comitê para discussão de equidade de gênero da empresa Linda conseguia falar. Tentou interromper, levantou o indicador piscando ao presidente do grupo, mas não lhe deram a palavra. Era um avanço, sim, sem dúvida, mas o comitê fora instituído para cumprir convênio - contrapartida em acordo com uma ONG. Parecia não caber na empresa. Linda era a única mulher e foi massacrada sem sequer abrir a boca. No fim das contas, como resultado, o comitê serviu para angariar brindes para distribuição no dia das mães e das mulheres e proporcionar, nas duas datas, café da manhã a todos os funcionários.

17 maio 2012

137/365
Pilar

- Lola disse que não te quer mais aqui.
- ¿Cómo?
- Não me deu explicações. Pegue suas coisas e...
- ¿Estás de broma?
- No. Digo, não. E...
- ¿Qué hago yo?
- Não sei e não me interessa. Cuide-se.

16 maio 2012

136/365
Jéssica

Minha irmã é ridícula. Foi dizer à mamãe que o que quer da vida é ser uma mulher de atitude. Ai, que brega. No meu conceito, mulher de atitude apenas é, não anuncia. Mas a Naty tem o destino dela: fazer comida pra marido e lavar roupa, porque ainda por cima a bicha é burra. Digo isso por dois motivos: ela já largou um cara lindo e rico e, dada a largar que é, largou também os estudos. E já estava no segundo grau. É escandalosa, chora quando a mamãe briga. Eu, longe de ser a filha exemplar, ainda me esforço, mesmo reprovando ano sim ano não. Corro atrás, trabalho desde os 14. E quero ser aeromoça e não depender de ninguém. Mas, como mulher de atitude, não vou anunciar. Vou fazer.

15 maio 2012

135/365
Christty Anny

Em 2006, fui contemplada com um dia de princesa para minha filha no programa do Gugu. Foi tão maravilhoso. Além do lindo momento que a Micaela viveu, ganhamos coisas para a casa, pintaram o quarto dela e me deram a oportunidade de ter um negócio próprio: uma máquina moderna de fazer fraldas descartáveis. Em 2008, minha Micaela morreu atropelada. Um ano depois, eu tive uma gangrena na perna e, quando saí do hospital, fiz muitas dívidas por causa dos remédios. Desde então, faço bicos como posso, inclusive vendendo prumas poucas mães desavisadas as fraldas de péssima qualidade. Não consigo pagar as minhas contas, mas vou vivendo. Minha irmã e meus vizinhos me auxiliam e recebo uma ajuda do Governo. Mas não consigo me livrar da porra da máquina. O ferro velho não se interessou; dei para minha prima e ela devolveu; deixei na porta e ninguém levou. No canto da cozinha, feito um hóspede indesejado, aquele entulho de máquina de fazer fraldas descansa há anos.

14 maio 2012

134/365
Paula

Meu nome é Paula Castanhola, sou médica dermatologista, com título de especialização pela Sociedade Brasileira de Dermatologia. Tenho 29 anos, um consultório muito bem equipado, elegante e conceituado. Não me casei e não pretendo. Namorava até o ano passado o Felipe, que até então não passava de um concurseiro. Muito carinho, mas pouca objetividade. Chega de falar de mim (e desde já manifesto que não vejo utilidade neste campo em que devemos escrever sobre características pessoais. No que isso interfere? Em todo caso, fui sincera). Escrevo para obter mais informações sobre a produção assistida, por exemplo: como funciona a escolha do pai? Sei que não conhecerei a identidade dele, mas posso escolher tipo físico? A clínica checa antecedentes criminais? Também preciso dos valores de cada etapa e dos dados da clínica com relação a resultados. Aguardo retorno. Obrigada.

13 maio 2012

133/365
Elcia

E o recado estava dado: por mais filhos que eu tenha e venha a ter não poderei nunca falar pelo grupo de mães, só por mim mesma. E aproveitei o espaço: não, ser mãe não é assim tão gratificante.

12 maio 2012

132/365
Lucinalva

Auxiliar de professora de educação infantil de uma escolinha do Cruzeiro, Lucinalva é um poço de desespero. Não pode exercer em seu novo emprego o que é a manisfestação mais genuína de sua própria personalidade: impáfia, crítica e agressividade. Não tem papas na língua, não tem medo de ninguém, mas, infelizmente, deve tanto a tanta gente e loja e banco que tem que aprender a ficar quieta. Mansa.

11 maio 2012

131/365
Shenta

- Não, não. Não é o que diz Shenta Valença. Conhece? Já leu?
- Nunca li. O que ela diz?
- Você devia ler.
- Não, pra quê?
- Pra ver se fica mais esperta e para de falar bobagem. A mulher é expert, isso é assunto sério.
- O que ela diz?
- Leia.
- Não vou ler.
- Por quê?
- Porque Shenta Valença sou eu, idiota.

10 maio 2012

130/365
Jacira

De vez em quando, precisava sentir-se viva. E isso já significou cometer pequenos furtos em padarias ou supermercados, estacionar em local proibido e fugir de blitz, sair de um restaurante sem pagar ou trair o namorado. Hoje, bastou baixar músicas das Chicas e ouvir, ouvir, ouvir. Sem chorar ou lamentar, reviveu a sensação que foi, num show dois anos atrás, sentir o ápice da dor de um amor rompido.

09 maio 2012

129/365
Claudiane

Em toda a Nobres não há de ter mulher mais jeitosa. Tem os quadris largos, tão contrários à cintura e aos ombros que lembram uma pêra. Trabalha no Balneário Dona Máxima, mas já me confessou que fará o concurso da prefeitura. Passa o dia de roupa bege, limpa o lugar, recolhe folhas secas e até fornece informações aos visitantes. Em casa é a caçula de doze mulheres, das quais sete vivem com a mãe. Cada uma tem sua especialidade doméstica. Como já é faxineira de profissão, em casa é boa no caldo de piranha, na mojica de pintado e no doce de caju. Gosta de roupas coloridas e unhas vermelhas. É estudiosa e sempre quis ser bombeira. Hoje sonha em conhecer os países que fazem fronteira com o Brasil. Todos eles.

08 maio 2012

128/365
Sulla

Ela me avisou. Se eu continuasse com perguntas, sumiria. E foi o que aconteceu. Conheci a Sulla há alguns meses e ainda não consegui tirá-la da cabeça. Bonita, sensual, louca por sexo, mas odiava beijar. Não era puta, não tinha como ser. Seus dentes eram bonitos, tinha um bom hálito, mas nada de beijo. Consegui, uma única vez, desajeitadamente um beijo estranho, raro. Meti minha língua naquela boca semicerrada, dura, cheia de dentes. Confusa. Perguntei se algo em mim a incomodava. Nada. Confessou que não gostava de beijo com homem nenhum. E não havia conforto com a Sulla, a não ser quando ela rebolava frenética no meu pau. Mas que eu não falasse em beijo. E eu não resisti. Minha curiosidade infantil falou mais alto do que a tácita postura do macho desinteressado. Ela me deixou e estou louco à sua procura. Principalmente para saber porque não curte beijar.

07 maio 2012

127/365
Ailina

- Local de nascimento.
- Igarapé-Miri, Pará.
- Ah, terra do Pin...
- É, do Pinduca. Nem pra eu nascer num lugar com artistas mais elegantes.
- Que é isso, moça? O Pinduca é o rei...
- Ah, você não sabe de nada, moço. Vem aqui no meu estado me dizer o que é bom ou ruim. Que carimbó é bom, que a gente tem que preservar as raízes, evitar gostar de música clássica, por exemplo. Quero saber o que ia achar se eu me formasse antropóloga e fosse lá no seu apartamento de Brasília dizer que o Nicolas Behr é um grande poeta e...
- (rindo) Certo, certo.
- Não sei por que ri.
- Desculpe, mas é engraçado. Eu me surpreendo cada vez que você mostra conhecer algo de Brasília.
- (irônica) É, por que a gente parece atrasado, né?
- Não exatamente, mas, sim, eu fui educado com muita distância dos seus costumes e tenho meus preconceitos. Podemos continuar?
- Sim.
- Idade.
- 29.
- Raça/cor?
- O que o senhor acha?
- Indígena.
- Não. Não tenho nada com índio. Sou católica. E, logo que descobrir como, vou mudar o meu nome para Virgínia. Tem mais a ver comigo.

06 maio 2012

126/365
Virna

O bom de dividir o minúsculo apartamento com mais duas é que os meus domingos ora depressivos são hoje pura diversão. Uma traz o namorado, outra uns amigos e a briga pelo controle remoto e pela última pipoca de micro-ondas começa. Casa cheia. Talvez isso me remeta a uma lembrança qualquer de infância, que conscientemente não acesso; talvez seja só uma cura para as solidões dos fins de semana que não acabavam nunca. Um levanta repentinamente pra matar uma muriçoca; uma solta um pum estrondoso; outro traz cerveja pra todo mundo... e o sol vai se pondo. Um de cada vez recolhendo a sujeira, pegando a carteira, o celular. As despedidas. Num esforço me mantenho firme para não trancar a porta ou chorar implorando que fiquem até eu dormir. Estufo o peito, ergo o braço num tchauzinho de miss: "obrigada, gente. Boa semana".

05 maio 2012

125/365
Antônia

Receita de amor III - Planos para o dia do resultado do vestibular: comparecer à divulgação e abraçar o primeiro aprovado gostosinho que esbarrar, com cuidado para decorar o nome completo, o curso, a colocação. Googlear e facebookear o jovenzinho, fazer o cerco de modo que soe tudo casual. Sair com o jovenzinho, ensinar tudo o que sei sobre sexo, apoiá-lo na nova fase de sua vida, oferecer o ouvido atento, enquanto presto carinhos sugadores. Deixá-lo cheio de amor e gratidão. Nunca mais dormir sozinha.

04 maio 2012

124/365
Regina

Receita de amor II - Pra ser feita sexta, sábado e domingo. Na sexta à tarde, duas velas brancas e uma vermelha. Pétalas de rosa espalhadas. Banho de champanhe. Pedir à própria pomba gira força e luz. À noite, roupa curta, perfume, batom e salto alto - Roda do Chopp. No sábado, água morna na bacia e ervas para as partes doloridinhas. Nove copos d'água ao longo do dia, mentalização e ensaio de passos de samba. Fim da tarde, sainha, plataforma - Calaf. Domingo, o resto do ovo de páscoa pra curar a ressaca e missa. Fé em Santo Antônio, todas as orações e ofertas dirigidas a ele, pedindo um marido perfeito. No confessionário, arrepender-se da farra dos dois dias anteriores, com toda a sinceridade possível. Inclusive deixando claro ao padre e ao santo que se comportará até quinta.

03 maio 2012

123/365
Yone

Receita de amor I - Vou fabricar meu próprio homem, com requintes de chef e/ou cirurgiã: pernas de leopardo, sede de leão, olhos de águia, pau de cavalo, peito de orangotango (depilado), disposição de camelo, coração de cachorro. É só juntar as partes, colar com super bonder, esperar secar, pintar da cor preferida, ensinar a ganhar dinheiro e a gostar de artes, de novela e de me comer. (obs: a verificar se a falta de futebol pode estragá-lo)

02 maio 2012

122/365
Melissa

Ando cheia de metas. Até o fim deste ano, Paris e silicone. Mas o que eu queria mesmo não depende de dinheiro, férias e planejamento. Depende de mim e, suspeito, de conjecturas astrais. Desejo ter uma vida saudável, em que se movimentem amor e respeito. E paz.

01 maio 2012

121/365
Monique

- Não, mãe, não é feriado aqui. Estou trabalhando normal. São três casas pra faxinar, fora a minha. Frio nada, aqui tá quente pra caramba, mãe. A América é assim, mãe. E aí, como estão as coisas? É isso aí mesmo, aproveita. E os exames, a senhora fez? Hmm. Certo. Luís deu notícia? É mesmo? Pois é. Já vou, tenho que trabalhar. Em julho eu vou aí, tá? Mas amanhã a gente conversa de novo aqui, tá? Um beijo, mãe, te amo. Dá um beijo em todo mundo aí. Tá, tá, certo. Tchau.

30 abril 2012

120/365
Maria João

Não poderia ter tido outro nome. Durante a gravidez, foi “o João da mamãe”. E, mesmo depois de nascida, com a demora do registro, a mãe se dirigia a ela como João, longe de possíveis olhares censores. Diante dos avós: “ainda não sei que nome vou dar à menina”. Exprimia, numa tentativa ineficaz de demonstrar alegria, decepção. Não queria uma garota. E Maria João cresceu sob os carinhos aborrecidos da mãe, aprendendo a se expressar com falsidade. Para agradar a mãe, vestia-se de modo masculinizado, mantinha o cabelo curto e tentou a carreira de jogadora de futebol, mas não tinha talento. Fez vestibular para educação física, mas não passou. Quando a mãe morreu, morreu com ela a culpa de Maria João. Comprou vestidos e maquiagem e resolveu fazer o que sabia bem: virou atriz de teatro amador e matriculou-se em balé clássico. Só não pôde deixar de lado o conforto das cuecas.

29 abril 2012

119/365
Soraya

Amanhã não é feriado na minha Brasília, talvez só pras dondocas. Moro na Estrutural, sou catadora profissional e, quanto mais eu trabalho, mais eu recebo. Não posso me dar ao luxo. Hoje à noite é banho e cama. Às vezes como algo especial, um chocolate, macarrão com ovo. Nem o Domingo Legal eu assisto.

28 abril 2012

118/365
Celeste

No Brasil, são mais noventa mil. E eu moro no estado com a maior concentração deles. Não é possível que eu não consiga me casar com um judeu. Já me sugeriram anunciar, mas não tenho coragem. Prefiro ficar plantada em frente às sinagogas paulistanas até que um amor à primeira vista aconteça. Não me interessa se o cara nasceu judeu ou se escolheu seguir os preceitos do judaísmo. O que importa é ser rico e circuncisado.

27 abril 2012

117/365
Zazá

Moro naquela ponte. Tenho um fogão de tijolos, duas panelas, um colchão. Nunca estou sozinha, a rua é muito movimentada e tem sempre um diabo pra conversar comigo – vivo ou não. Mulheres de carro fazem cara de nojo e, se as abordo, mudam indecentemente a expressão para pena, quase pedindo perdão. Não me fizeram nada. Tenho dois livros também. Já tive uma bíblia, mas dei para outro transeunte. Detesto a bíblia. É leitura de gente culta, o que é diferente de inteligente. Eu sou inteligente. Até hoje ninguém nunca conseguiu me roubar ou me estuprar. Agora chega de conversa mole. Tenho que fazer meu almoço.

26 abril 2012

116/365
Olívia

Olham pra mim como se eu fosse uma descarada. Mesmo o Jorge não aparentando ser 26 anos mais jovem, as pessoas percebem que existe uma diferença boa de idade. Quando não me abordam como se eu fosse mãe do meu namorado, me fuzilam condenadores. Ora, o que têm com isso? O Jorginho, por sua vez, segue tranqüilo e feliz: “você não devia ligar pra isso, meu bem”. E eu tento. Mas não me sinto madura o bastante para ignorar.

25 abril 2012

115/365
Ronalda

As sardas e os seios balançaram numa gargalhada inconstante e compulsiva da moça. Mineira de Três Corações, que ironia!, acaba de descobrir um trem no coração. Coisa grave, numa cavidade. O médico interjeitou com os olhos. Jeito interessante de reagir a uma notícia tão terrível: soltou um "folgo em saber" e sorrisos, muitos sorrisos.

24 abril 2012

114/365
Margarida

Na minha cidade, conto nos dedos quem não mexe com flores. Todos mexem, mesmo indiretamente. Até as putas, que atendem produtores, vendedores, adubadores. O dinheiro cheiroso de rosas, violetas, tulipas, copos-de-leite circulam pela cidade. Contudo a Margarida, minha cunhada, é caso raro. Produz sabonetes, mas com essências que vêm da Europa. E é pra lá que ela manda a produção. Exportadora. Os recursos dela até passeiam em Holambra e, imagino, eventualmente compram um vasinho de crisântemos, mas não têm grande participação nessa economia. No entanto, não é por isso que Margarida virou ídola das moças da cidade: num lugar poético, colorido, encantador, a incansável abelha rainha dá pra outros homens, além do meu irmão. E todos sabem disso, menos o tonto do zangão. A mulherada da família aplaude, acha que Margarida é o suprassumo da coragem e do desprendimento. Mês que vem, a aboletada heroína vai parir um menino. E só deus sabe de quem será.

23 abril 2012

113/365
Hildete

Em testemunho, uma irmã da igreja disse que saiu da depressão transformando a tristeza em bicho. Imaginava baratas, besouros, ratos e pisava, esmagava. Com a graça de Deus, ela foi curada. Eu não enxerguei o dedo de Deus aí, a não ser que fosse pra ajudar com a ideia. Tudo metafórico demais. Tentei a tática. Meu bicho ficou um pouco maior - um urso enorme, com pêlos mais longos do que o normal. E antes que eu pudesse tentar qualquer coisa (facão? espingarda?) ele me envolveu inteira. O prazer estranho que a tristeza proporciona. Agora vivo de dar mel pro urso, que me faz chorar e desistir da vida. Larguei até a igreja.

22 abril 2012

112/365
Dinorá

Odiava o sofá. Escreveu pro Luciano Huck e até agora nada. A história não comoveria a produção, afinal, ela sabia, trocar o sofá era um capricho. Vive bem em Eldorado do Sul, trabalha na prefeitura, mora numa casa boa alugada e vai semanalmente curtir uma balada em Porto Alegre. Mas nunca consegue se organizar para guardar dinheiro e trocar o sofá. Quer um objeto chique, estiloso. Domingo - dia ruim pra pensar. Sentada no trambolho, quase chora. Bah, e se eu conseguir comprar um vermelhão de couro? Vai ser só o princípio de outro estresse. Não vai combinar com nada.

21 abril 2012

111/365
Veridiana

Deixou de sair com um pretendente, não viu a família, ignorou ligações. Foco: escreve um artigo genial e inédito sobre a representação das empregadas domésticas numa novela que acabou de estrear na Globo. Quer publicar o texto na próxima edição de uma revista feminista e o prazo está para vencer. E vale, para ter pontos no grupo de pesquisa, escrever qualquer coisa. Até contra o que concorda. Que essas empregadinhas se fodam.

20 abril 2012

110/365
Amália

Tratou de contabilizar o que tinha. 72 anos; 46 cartas antigas dentro de uma caixa velha e empoeirada; 38 instrumentos de bordado - linhas, agulhas, alfinetes, fitas; 32 dentes falsos; 21 potes de azeitona vazios; 12 velas; 11 vestidos; 7 pares de meias; 6 viagens marcantes; 5 cachos de uva na geladeira; 4 jogos de cama e toalhas; 3 ex-maridos; 2 pontes de safena; 2 filhos que não vê há décadas; 1 vontade - morrer.

19 abril 2012

109/365
Elaine

Atendente de loja de piscinas. Mereço uma coisa melhor. Pedi as contas. Nem que seja pra ficar em casa, esperando um grande emprego cair do céu. Nem que seja só pra isso - que não é correto, eu sei -, porque eu sou muito melhor do que se exige de uma atendente. Tenho 22 anos, boa aparência e terminei o segundo grau. Cursos? Faculdade? Logo que eu conseguir um emprego decente vou fazer. Não acredito em ajuda do governo pra isso. Aí tem coisa. Minha mãe e minha avó me apoiam, sabem, me conhecem. Minha filha ainda não entende nada. 

Agora não posso atualizar meu currículo. Estou me arrumando para a festa da Márcia. Mas amanhã vou escrever: sou comprometida, séria, eficiente. E também posso incluir a experiência de cinco meses como atendente de loja de piscinas. Melhor cortar o "de loja de piscinas".

18 abril 2012

108/365
Nara

Bienal do livro. Os trafegantes continuaram suas caminhadas como se nada estivesse acontecendo. Nara foi parada por um coelho laranja de pelúcia de dois metros, que dizia ser o Seu Exu Espelho. Escutou com atenção: "olhe para si, minha fia. Mude não porque é certo mudar, mas porque permanecer como está lhe faz sofrer". As pontas das orelhas piscaram, como se houvesse luzes de natal ali. Por um segundo, Nara se distraiu. Talvez tenha sido lançada às memórias da infância. Mas voltou a tempo de ouvir que devia ser mais gentil consigo mesma. O coelho foi embora. Ninguém parecia ter visto nada. Esbarrou em alguns olhadores de estantes e concluiu que às vezes era bom ouvir o óbvio.

17 abril 2012

107/365
Clarissa

Mulher desenvolta, independente, engraçada, sensual e cheia de tiradas inteligentes. Vivia com manchas verdes nas coxas por esbarrar constantemente nos móveis de sua própria casa. Tornara-se amiga do chaveiro, de tanto precisar de chaves novas. Esquecia todos os aniversários. Dançava tão desengonçadamente que tinha vergonha de fazer isso perto de um espelho. Trocava shampoo por condicionador e vice versa. Cansou de ser avisada sobre resto de folhas nos dentes, inclusive em encontros românticos. Começou a fazer análise. Quer mudar.

16 abril 2012

106/365
Karin

Por seis anos, pouco mais fiz além de sofrer. De uns meses pra cá, me desprendi, daí. Tirei o luto, aflorei pra vida. Me sinto moça de novo. Conheci o Hernandez. E hoje, justo hoje, quase esqueci do falecido, daí. Na última hora, o cemitério fechando, levei meia dúzia de flores. Quase joguei no túmulo. Quase nem deu tempo de confirmar se era aquela tumba mesmo. Já arrumada pra comer pinhão com o Hernandez, de bico vermelho, virei as costas, sem qualquer lembrança daquela tristeza toda, daí.

15 abril 2012

105/365
Rochele

Queria ter um carro de borracha, morar numa casa com paredes de tule (ventilada) com um jardim de verdade. Faria mingaus, saladas e sopas para comer e doces em compotas para vender, afastada das preocupações típicas de uma assessoria jurídica. O único luxo: chão de pedras portuguesas por toda a cidade. As pessoas teriam que evitar sapatos refinados. Teatro e cinema de graça. Música em cada esquina. A população da cidade bastante interessada por doces em compotas.

14 abril 2012

104/365
Diana

Perto de Brasília, amanheceu quente. Lavou toda a roupa da casa e, enrolada numa toalha, recebeu a amiga Neu, que lhe aplicou tintura nos cabelos. Depois do banho, depois do almoço, depois do copo d'água de sempre, se pegou paralisada, olhando a roupa quarando, pela janela. Queria se dar ao luxo de achar linda aquela cena - talvez lembrasse algum filme -, mas tinha o pai no hospital, o namorado num bar qualquer e um irmão novinho e estudioso esperando que ela desse um jeito na mensalidade do curso de idiomas.

13 abril 2012

103/365
Manuela

Apesar de toda a família depositar nela o desejo de ter a primeira representante numa universidade, ela não quer. E o que poderia ser entendido como destrato sequer lhe pesa. Ela é dona de si. Tem dezesseis anos, notas boas e ajuda na produção da 87 FM. No início, sonhou em ser radialista. Muito óbvio para quem quer ganhar o mundo. Agora, está juntando algum dinheiro pra comprar uma moto econômica. Provavelmente, permanecerá na rádio - e poderá até virar locutora, pois tem voz -, mas se a dispensarem, procurará outra coisa. Vai querer viajar, conhecer o que há para além do Sudoeste mineiro. Depois, voltará a Guaxupé renovada, apenas para ver a família pela última vez. Morará em Santos.

12 abril 2012

102/365
Lidiane

Assustava olhar para si. Desde muito pequena tinha como sonho, certeza e vocação a vontade de ser mãe. Cuidava das bonecas como se fossem vivas. Agora, neste exato momento, o desespero: não compreende a origem de seu desejo mais profundo de que o feto que carrega há dois meses seja anencéfalo. E quer mais: que a decisão anunciada há pouco seja publicada em tempo hábil, para que a interrupção se dê sem grandes perigos.

11 abril 2012

101/365
Brenda

Colado ali, na porta do armário. Via todo o quarto - o espelho era o único ser sincero: mostrava-lhe diariamente a gordura localizada, a celulite e a flacidez tão precoce. Seus 48 quilos pesavam absurdamente. Uma moça de 15 anos. Sentia o cheiro do café com pão de queijo da vó, lembrava a infância. Sempre comera bem e sem frescuras. Saladas, arroz, feijão, leite e, às vezes, até jiló. Mas de uns tempos pra cá, comparava-se às amigas, às artistas da Globo, aos ídolos teen internacionais. Chupava gelo, beliscava alguns grãos e, mais eventualmente, comia uma mini maçã. Não sentia prazer de ir à escola ou sair com as amigas, perdera o gosto por um bom prato de macarrão e por ouvir as histórias do vô. Por sentir dor, trancava-se, doente. Enjoou do namorado, largou o diário que escrevia desde os 12. Aliado fiel? Só o espelho.

10 abril 2012

100/365
Georgia

De cabelos molhados, sentou-se à janela. Não tinha um emprego porque não precisava ter. Nenhuma atividade vespertina porque gostava de dormir à tarde. Hoje, no entanto, não cochilou. Via o grande jardim, a piscina, o rapaz limpando a piscina, dois cachorros. Ouvira as empregadas conversarem sobre uma grande tragédia na família de uma delas. Aquilo não lhe pertencia. E a sua vida era essa – sem desafios, sem tristezas, sem preocupações. De cabelos molhados, permaneceu apática à janela. E decidiu não pensar.

09 abril 2012

99/365
Quitéria

Na Rodoviária Interestadual, lembra os seus planos de quando chegou a Brasília: estudar, se formar, passar num concurso, trazer os pais e a filha miúda, dar a eles a vida que merecem. De volta a Goianésia, sente um misto de fracasso e orgulho - essa bosta de cidade não dá oportunidade a ninguém. Seis anos. Não estudou, não se formou, não passou em concurso algum. Vez por outra, de folga, ia visitar a família. Trabalhou em loja de shopping e de material de construção, foi terceirizada em ministérios, recepcionista em escola de balé. Volta a sua cidade sem dinheiro, sem casa própria, sem perspectiva, com 41 anos e muitas dívidas.

08 abril 2012

98/365
Roseli

Depois de dois ovos de páscoa, um sudoku completo e meio tanque de roupa passada, resolveu se entregar ao inferno: bebeu sozinha duas garrafas de vinho barato, ligou para um ex-noivo e chorou meio litro de ódio.

07 abril 2012

97/365
Andria

Com Rodolfo, conheceu uma vida com dinheiro de sobra. A lua de mel foi em Nova Iorque e, quando voltaram, a surpresa: uma casa linda, colonial, para os dois. Duas árvores frutíferas, uma piscina de água esverdeada, cheia de folhas. Perto do quadro que via, até Nova Iorque ficava em segundo plano. O lodo das paredes, algumas grades com rococós descascados. Não queria mudar nada, desejava nem precisar limpar o lugar. E o sorriso de Rodolfo, com aparelho, e o rosto com marcas de espinha a fizeram murchar; lembravam-lhe o preço que se deve pagar pelo belo. Uma troca. Justa?

06 abril 2012

96/365
Silvia

Missa. Envolvida na reza, confessava e pedia perdão pelos seus pecados e pelos dos outros. Cantava, devotíssima, os cânticos de olhos fechados e mãos levantadas. O véu de rendinha lhe dava um ar de beata de interior. Pedia graças fervorosamente. De volta à casa, tomava seus xaropes, prendia os cabelos e pendurava vassouras e rodo. Sexta-feira Santa ninguém faz nada - a mãe lhe ensinara. De frente para a TV desligada, segurava o terço, sem rezar. Lembrava da juventude e lamentava ter atentado tanto os ensinamentos de Jesus. Via-se usando vestidos de chita provocantes, maquiando-se. Fazer o quê? Hoje, nem bordar podia.

05 abril 2012

95/365
Nazaré

Com tantos assuntos pascoais, sonhou com um coelho enorme, de olhos azuis. Ele jogava chocolate derretido em todo o corpo roliço dela e lhe lambia as faces, o pescoço, os seios, a barriga. Transaram por horas e horas, em todas as posições possíveis a um coelho com uma mulher gorda; o pompom balançando três, quatro, cinco vezes. Rapidíssimas investidas, mas várias, infinitas. Ela gemia e, cada vez mais, se via entregue às vontades do leporídeo. Acordou maravilhada.

04 abril 2012

94/365
Odyleide

O que lhe interessa e comove é o inverno, seja onde for. Dois anos atrás, conseguiu juntar dinheiro suficiente para conhecer Gramado. E, apesar de o frio intenso já ter passado, a cidade lhe pareceu congelante, longe dos 39°C de praxe da sua Cuiabá. Amanhã, segue para La Paz - foi o que conseguiu de mais frio e barato para o período: mínima de 4°C. Tem casacos, botas, uma touca e um cachecol para essas ocasiões. Malas prontas. O ônibus sai às 9h.

03 abril 2012

93/365
Sabrina

Desde bebé era o centro das atenções, com seus movimentos engraçados, egípcios. Estudou balé, jazz, dança contemporânea, salão e street. Riscou no calendário o 6 de abril, data da divulgação dos escolhidos para a segunda fase do Festival Dança Viana, mas recebeu a notícia hoje: selecionada. Cerca de 300km de sua Loures até o Porto. A família toda se organiza, junta forças e euros. Nossa jovem há de vencer.

02 abril 2012

92/365
Jussara

Perdeu os avós no domingo de ramos. Em momentos assim, costumava querer companhia, chorar em grupo. Não desta vez. Trancou-se no quarto, que ainda conservava uma decoração teen, e compôs duas músicas muito tristes. Violão em punho, fumava maconha e escrevia as notas e a letra. Em seguida dormiu. Experimentou uma solidão momentânea e poética. Com medo de acostumar-se a isso, acordou, pregou um sorriso amarelo na cara e foi atrás de amigos.

01 abril 2012

91/365
Hélia II

Resolveu ir à pé, sozinha. A noite estava quase tão quente quanto o dia. Vestia saia, blusa, sandálias. O medo e a quase certeza de que algo aconteceria lhe proporcionavam um prazer estranho. O coração disparava, sentia os ossos esfriarem. Era como quando, criança, decidia fazer algo proibido sabendo que seria castigada pelo pai. Era um arcar com um risco. Alto risco. Sabor de coragem. Não desejava que algo de ruim lhe acontecesse - aquilo não era um suicídio - e se sentia imensamente grata a deus quando chegava a salvo em casa. Cruzou a orla leste da cidade, com alguns tropeços, um salto muito gasto e nada mais. Bêbados, travestis, grupos suspeitos. Passou pela alfândega, o cais do porto, o Mucuripe e toda a Beira Mar até depois da Monsenhor Tabosa. Subiu no ônibus ofegante, respirou fundo e sorriu aliviada.

31 março 2012

90/365
Karla

Era uma da manhã e acordei sobressaltada, ainda no voo interminável. Desta vez, vi um pôr do sol surreal, laranja, mas não tão iluminador. E focos de fogo espalhados pela terra. Não era fogo - mas luzes de propriedades rurais próximas umas das outras (feudos hoje em dia?), depois percebi. Não era sol. Talvez uma lua cheia ou um disco voador. O avião parou no ar. Planava. Voltei a dormir.

30 março 2012

89/365
Dona Neide

Quando viva, era a piada da turma. Os garotos a perturbavam até que ela explodisse em berros. Abria a porta de casa e expulsava com rodo em punho os que cantarolavam pilhérias, tocavam a campainha ou lançavam nomes feios. Era muda – não podia rebater. Os apelidos “Velha Azeitona”, “Carcaça” e “Maria Paçoca” eram respondidos com uivos e gritos de horror. De longe, eu via uma boca escura de poucos dentes. Diziam que ela não tinha língua. A vizinhança se dividia, ora por não tolerar a algazarra, ora por – calada – espiar curiosa das janelas ou mesmo estimular os garotos. Ela não recebia visitas. Passava o dia a limpar a casa, a arrastar móveis e a cuidar do jardim. Às vezes, gosto de imaginar o que falaria se pudesse. Talvez retrucasse; talvez até agradecesse o movimento vespertino de uma vida tão monótona. Ouso apostar que, agora, a sete palmos, sente saudades dos garotos.

29 março 2012

88/365
Talita

A voz é tão bonita, altiva, lúcida e inteligente. A risada revela uma falsa recatada, gostosona e segura de si. Nada daquele falso sensualismo ou da sem graceza de uma voz comum: me apaixonei imediatamente e já não posso despertar sem o seu “bom dia”. Desenhei imaginativamente uma mulher grandona de cabelos negros e longos, olhos certeiros, com mãos finas e unhas feitas, esperta, agradável. Agora, porém, arregalo os meus olhões diante da imagem dela na internet – Talita Valadares, radialista da Alvorada News AM, mede 1,5m, é magricela, nariguda, muito branca, tem uma boca larga, cabelos oleosos e mirrados, olheiras. Os óculos sequer combinam com seu rosto ou com as roupas largas, pouco femininas. É feiosa. Mas, ah, vou chamá-la para jantar.

28 março 2012

87/365
Eulália

Com um quase nada de forças, chega em casa. O trabalho de limpeza continua. Junta restos pela cozinha, afasta a poeira, lava talheres, dá descarga. Moída, porque o culto hoje foi difícil. Ex-viciados, ex-traficantes, ex-baitolas pra ela descarregar, salvar, levar à luz, oferecer o reino dos céus. Rouca de tanto gritar aleluias e cantar com devoção. Depois do banho, agradece por ser viúva e pelos filhos já serem adultos. Estar só como gostaria de estar. Cobre-se com um cobertor xadrez, toma um copo d'água e fecha os olhos. Minutos depois, a lembrança. Mas deixa pra amanhã a oração. Jesus há de perdoar esta falta.

27 março 2012

86/365
Taís

Depois da aula de inglês, a tarde é livre. Toca violoncelo, come biscoitos com coca cola, faz um ou outro dever de casa, assiste a Malhação, volta a tocar violoncelo. As amigas da quadra chamam: “desce”. Ela desliza pelas escadas dos anos sessenta – quase originais, não fossem as barras modernas – de chinelo, camiseta e short de pijama. Conversa, programa encontros, troca músicas por bluetooth, pergunta pelo Fernando amenamente, sem grandes interesses. Volta, liga pra mãe, que ainda demora a chegar. Secretária de ministro. Começa a pensar no jantar, fuça a geladeira. Volta ao violoncelo. Recebe um sms com notícias do Fernando. Menino idiota. Decidida, telefona de novo pra mãe: “traz uma pizza?”. Tudo certo. O resto do dever de casa, violoncelo, novela das sete, jornal, violoncelo. Toma banho e espera a pizza.

26 março 2012

85/365
Adélia

Para quem já se viu em cima de uma balança que marcava mais – muito mais – do que cem quilos pernas com pele não eram nada. Também não lhe incomodava a falta de cintura e a flacidez nos braços. Nem mesmo as estrias. Cirurgia de redução de estômago marcada e ela desistiu, fugiu. Trancou-se em casa, desligou o celular e desempoeirou a esteira, comprada há mais de dois anos. E foi no dia em que atingiu os 59 quilos eliminados que decidiu se matricular numa academia badalada. Já não era obesa, julgava que já podia usar roupas justas. Fez megahair e gastou todas as economias em calças, shorts, tops, macacões novinhos. Diariamente, malhava por duas ou três horas. Sem personal trainer e com disposição. Aos olhos dos outros frequentadores, não era uma "gatinha", porém, admirava-se, fez amigos.

25 março 2012

84/365
Mariana

Domingo. Hoje é dia do filho da puta chegar bêbado. Mataria ele se não fosse quaresma.

24 março 2012

83/365
Eliete

E em Maranguape não se falou em outra coisa. Só assim, com a morte do maior humorista do mundo, Eliete pôde passar despercebida. Juntou em sua valise seus vestidos, lenços, o único sutiã e outras pequenas peças. O esmalte, algodão e acetona. Pegou o primeiro ônibus para qualquer lugar. Deixou seus gêmeos de doze anos dormindo, o aluguel atrasado, dívidas nas bodegas e na farmácia. Mal soube do humorista, de quem chegou a sentir orgulho por ter projetado nacionalmente o nome de sua cidade natal. Mal teve tempo de lamentar qualquer coisa; o coração na boca. Coragem até nos cabelos.

23 março 2012

82/365
Madalena

Naquele dia acordei inquieta, lavei as vasilhas e arrastei a estante. Algo estava pra acontecer. Apertei meus seios, como se abraçasse eu mesma, andando dum lado pra outro. Uma angústia aqui, ave. Telefonei pros meus filhos e pra minha irmã; todos bem. Voltei pra lida, porque podia ser simplesmente um objeto na minha casa impedindo o fluxo e eu sentindo isso tudo. Mexi, revirei, reorganizei e a notícia chegou, como sempre chega. Era o Eraldo, pai dos meus filhos e amor da minha vida. Já não estávamos juntos há tantos anos, mas parece que o coração não raciocina. E foi a piranha que veio me contar: olha, Madá, o Eraldo morreu, mulher. E eu me esforcei pra não parecer incomodada e não tinha jeito e não teve jeito: ela viu o desespero saindo pela minha garganta, o choro caindo em litros. Peguei em tudo que é vassoura e rodo, tentando voltar ao trabalho e eliminar esse sofrimento. A dor não passou.

81/365
Zaynah

Não quero meu corpo à mostra, não vendo minha imagem a revistas ou simplesmente ofereço aos olhares cobiçadores dos homens. Sem lenço não saio. Não interessa onde estamos. Assim, minha mãe me ensinou, como a mãe dela a ensinou e a mãe de sua mãe. O véu não tem a ver com os costumes de um país ou povo, mas com proteção, devoção, compromisso, amor. Já passamos por Paris, Cuba, Buenos Aires e, agora, Brasília. Em cada um desses lugares, o olhar ocidental se repetiu. Isso não tem importância, pois, também na nossa crença, não precisamos nos misturar com outras pessoas. Basta conhecer e respeitar. Meu hijab é protetor e vai cobrir a minha filha e a filha de minha filha e assim por diante. Sem que nenhuma de nós tenha que se confundir com bobagens como a exibição provocadora.

21 março 2012

80/365
Daniela

Certa vez, ainda na cama, Rogério me disse que o que lhe atraía em mim era a juventude. Retruquei, incrédula e ofendida, que aquilo parecia coisa de garotão, de menino sem nada na cabeça. O que lhe interessava, afinal, uma beleza desenrugada? Ele me esclareceu: eu era livre de rancores e mágoas. Era dessa juventude, dessa inocência de sentimentos, que ele falava. Sorri, me envaideci. Agora, todavia, pouco mais de cinco anos passados, vejo como envelheci. Talvez por isso Rogério não tenha apostado em mim; cansou, desistiu, ou simplesmente não quis apostar contra o líquido e certo: eis-me aqui, bonita, robusta, saudável e tal e qual mal humorada e amarga. Se tanto, salgada pelo tempo, seca e indigesta.

20 março 2012

79/365
Vivian

Tu sabes que tens que te controlar. Não podes interferir no negócio do teu esposo. Sim, tu és a primeira dama do maior sacolão do Guará e o teu homem sabe que, sem ti, ele nem teria todo esse sucesso e esse patrimônio. Mas não te metes, não é prudente, nem inteligente. Não deves dar ordens aos funcionários, já tens duas empregadas só tuas em casa; não deves ficar circulando pelo estabelecimento, conferindo serviço e dedurando pequenas infrações. Tu não és a fiscal da loja, pões isso na cabeça. Tu tens duas meninas a dar exemplo e tens também uma casa grande para administrar. E, bonita como és, não deves mesmo circular pelo sacolão. O lugar é pacato e familiar, mas há bares e biroscas por perto; muitos bêbados inconvenientes. Se podes escolher, boneca, vai ao shopping, vai fazer massagem, vai levar as pequenas ao circo. Deixa teu esposo lá, a cuidar de tudo.

19 março 2012

78/365
François

Sim, eu tenho uma namorada. E, sim, há muito sei que gosto de mulheres. Mas tenho preguiça de fazer disso uma bandeira. Vivo com Ângela naturalmente; vamos ao cinema, a bares, ao teatro, fazemos supermercado juntas. Acredito que o preconceito existe, apesar de nunca ter sofrido diretamente, que o mundo é machista e que ninguém tem nada a ver com a vida sexual dos outros. Acho bacana que se travem discussões a esse respeito e reconheço que a mudança é importante. Mesmo assim, não tenho paciência. E não tenho nenhuma vontade de trazer para mim essa responsabilidade. Sou velha demais, ocupada demais e feliz demais pra isso.

18 março 2012

77/365
Bárbara

Criou mais personagens de alcova. Difícil falar de cotidianos que não estejam cercados por paredes; soa tedioso e até falso. Real, verossímil é falar de grandes melancolias ou de brigas íntimas. Assim criou Rose e William, que não conseguiam se enteder. Ao menos cuidou para inverter papéis, a fim de dar graça à narrativa. Contou a história de um William doce, sensível e uma Rose bruta. Ele falava, falava, falava e ela não compreendia - apenas enxergava uma boca se mexendo. Ela, por sua vez, maquinava automaticamente o modo de sair da discussão inteira e superior. Magova. O bate boca se findava e William permanecia na cama, inerte e incrédulo. Chegava a rezar: "deus, eu não consigo mais, me dê forças!" E ela saia do quarto resmungando, com uma voz mais grossa que o seu timbre costumeiro. Mas voltava, sempre voltava, para o golpe final: "a sua sorte, William, é que eu não fui treinada pra bater. Porque a minha vontade agora era te encher de porrada, seu merda". Eram personagens iguais a qualquer coisa, porque, afinal, a esta altura, já se escreveu sobre tudo. Que fazer? Profissão ingrata - Rose e William eram fórmula. E venderiam bem, tal como Cauby e Lavínia, Charles e Emma, Santomé e Avellaneda, Camille e Auguste.

17 março 2012

76/365
Wilma

No meu quarto, há dias, a leitura de cabeceira é o Guia Quatro Rodas. Traço percursos, calculo distâncias, contabilizo despesas. Já não é janeiro. Nem fevereiro mais é. Gosto do contra fluxo. Isso me excita, me motiva. Arrumei o meu jipe, minha mochila. Biquini, toalha, roupas leves. Barraca, cantil, caixa de isopor. Repelente, bota, calça com bolsos. No cabelo, trança. ou rabo de cavalo Bloqueador solar. Olhos pintados. Todo mundo trabalhando, retomando a rotina pós verão. Saio agora mesmo de Brasília e só paro em São Luís, dia 2 de abril, talvez.