10 agosto 2012

222/365
Débora

Ligou aos prantos para o namorado. Havia perdido a vaga no grupo de ginástica olímpica. O tórax largo, ainda de colant de treino, tremia e as lágrimas escorriam melando o rosto sem maquiagem. A boca abria e fechava num movimento que não permitia que se vissem os dentes, só a língua, e muita saliva espalhada. O namorado mal conseguia entendê-la. Duas faltas e não relevaram, não tiveram piedade. Ela não pôde argumentar, chorar, implorar. Não tinha atestado, justificativa da mãe a próprio punho, declaração da escola. Nada. Agora, nem vaga no esporte que ela sempre julgou que seria o seu futuro.

09 agosto 2012

221/365
Vilanir

Gostava de saias curtas e rodadas para todas as festas. Telefonava para um e outro e, em minutos, estavam todos no estabelecimento de dona Vilar, a mãe. Vilanir era bonita, negra, iluminada, cheirosa, com muito cabelo, pele brilhante, ressaltada pelas roupas claras, sempre claras. Cantava samba como ninguém e arriscava no tamborim. Torcia, com o seu rebolado natural, o pescoço de tudo que é homem. Entretanto lhe interessavam apenas as mulheres. E, para uma linda cantora de comunidade, feminina, preta e pobre, era inaceitável, inconcebível que não virasse uma - talvez famosa - artista local, boa mãe e esposa. Chorava todas as noites no colo de dona Vilar.
220/365
Antonieta

E a careta Antonieta, alheia às novidades do universo, ganhou na promoção da Band News FM Brasília um iPad 2. Meses lendo o manual, conheceu o Facebook, mas não se encantou. Está apaixonada, isso sim, por um app famoso. Ele resgatou a Antonieta artista, sensível. Não larga o dispositivo. Está pensando em se aposentar do Ministério com urgência.

07 agosto 2012

219/365
Graziela

Já disse que não, não insista. Nem que o Felipe José em pessoa me convide. Não subo em barco algum, sob cachaça alguma, pra participar de festa nenhuma, nesse lago Paranoá até me certificar que essa zica passou.

06 agosto 2012

218/365
Branca

Seu Neném é assim mesmo, casei sabendo. O que faz ele alegre são os rabos de saia . Galanteia, conversa com os amigos, se insinua. Nunca vi, sempre me contam. Ele respeita minha presença. Talvez pense que eu não sei dos pequenos casos e paqueras dele. E pensar que, no início, eu sofria tanto... Amadureci. Cada um com suas vontades. Até a empregada que meus filhos arrumaram ele já anda rondando. Não imagina que vi ele levantando da cama quando dava pra ouvir o chuveiro dela ligado. Deve ter ido espiá-la. Quando voltou, deitou e me abraçou. Dei palmadinhas na barriga dele. São nossos gestos de carinho.

05 agosto 2012

217/365
Lilá

É, eu sou passadeira, mas por que você quer me dar um espaço no jornal pra eu falar de passar roupa? Coisa mais sem graça, não tem nem o que dizer. Pensa comigo: chego nas casas, abro a tábua, esquento o ferro e passo uma pilha de roupa. Na hora de ir embora, recebo meu pagamento e vou. Simples assim. Agora, quer coisa boa e emocionante pra falar? Fala do meu curso de biscuit. Eu nem terminei e minha vida já mudou. Tenho jeito pra coisa. Faço tão direitinho, que estou vendendo bonequinhos pra outros artesãos. Mas a coisa que eu mais faço bem são os noivinhos pra bolo de casamento. Vem gente até de Boa Viagem encomendar. Vai, escreve sobre isso.

04 agosto 2012

216/365
Mariah

Virou a cabeça indagadora, grata surpresa. Sim, era a mãe, a sisuda dona Adelaide, que estava ali pulando empolgada, dobrando o papelzinho com a prenda para a noiva. Estavam no chá de lingerie de uma amiga da família e o momento era justo aquele para o qual Mariah havia se preparado: estrategicamente, para evitar as recorrentes críticas de dona Adelaide, ficaria quieta, observando o ambiente em vez de participar. Já não era a primeira vez em que se sentia obrigada a se conter. Mas dona Adelaide tomou a frente, coordenou o grupo de amigas, sugeriu brincadeiras, pulou, soltou gritinhos de alegria. Sim, a mãe era uma mulher divertida. Uma menina, como ela. Agradável, engraçada. Mariah arregalou os olhos, admirou-se da descoberta. E, diante da cena tão aconchegante (não existe palavra mais adequada), preferiu permanecer observando o ambiente em vez de participar. Sorriu contemplativa e satisfeita.

215/365
Sonia

Encontrei uma escola de gastronomia aqui em Niterói. Nada mais me interessa: só peixe. Quero cozinhar peixe, quero ter um restaurante, quero ser a melhor peixeira de Lima. O nome do meu estabelecimento: Peixe do Brasil. Assim, em português, simples e lindo. Volto para o Peru em dois meses, cheia de conhecimentos e sonhos. Sim, tudo irá mudar e o meu mundo será perfeito. Só falta o Gustavo, meu (ex?) noivo peruano, me aceitar de volta. Foi ele quem me empurrou pra dentro do avião, me mandou de volta para a minha vida brasileira, mesmo eu querendo tanto ficar. Mas a ideia do restaurante irá cativá-lo, estou certa.

02 agosto 2012

214/365
Helena

Ainda de pijamas e pantufas, estabeleço o meu desejo de aniversário: dormir até ser amanhã.

01 agosto 2012

213/365
Zaida

Não entende letra de música brasileira. Não gosta de encostar em outras pessoas, nem mesmo na feira. É gorda, mas se vê vistosa e elegante. Gosta de estar com outras mulheres de sua origem, conversar, aconselhar. Tem medo dos homens e, apesar de bem instruída e inteligente, detesta discutir assuntos que classifica como masculinos. Seu maior luxo é acordar tarde. E, de fato, desde criança permanece na cama até ouvir - longe, longe - seu nome gritado.

31 julho 2012

212/365
Patrícia

Sou empática. Tenho amigos que compreendo como ninguém. Se têm algum problema, sou a primeira ouvidora que vem às suas cabeças. Escuto, aconselho com cuidado, sem invasão, ou disfarço o conselho com especulações: “será que desse jeito não é melhor?”. Sou boa amiga. Talvez por isso mesmo, estranham se eu tenho um problema. Franzem o cenho, sacodem a cabeça. E, quando gratos e solícitos, fingem que me escutam e lançam de volta uma solução rápida e teoricamente adequada, mas de difícil aplicação; quando ingratos ou indiferentes, murmuram interjeições, olham para a mesa ao lado ou para o cardápio e sugerem outro petisco ou mais bebida. “O frango a passarinho daqui é muito bom”, recomendo.

30 julho 2012

211/365
Rosane

Você é um amontoado de culpa. Se se permite comer algo além de sua rotineira dieta, se pune. Se se destempera, sai da sua calma habitual, reúne contra si provas irrefutáveis de sua incompetência. Sim, é tudo culpa sua. Ao menos na sua leitura, na sua interpretação. Seu nome florido e seus olhos botânicos de nada servem, além de lhe imprimir um sentimento de não merecimento: justo eu fui nascer assim tão naturalmente bonita? Mas nada que dure muito. Também a culpa lhe impõe a certeza contraditória: ninguém me admira, você pensa.

29 julho 2012

210/365
Bubba

Tem algo errado aqui. Não sei contar, mas tenho certeza que pari mais filhinhos do que estes aqui. Cadê o marrom? Ah, está ali. Mas tem algo errado, sinto falta de bebês. Minha prole não está completa. Terá sido aquele casal que veio ontem? Ou aquela garota? Estão levando meus filhinhos.

28 julho 2012

209/365
Letícia

Minha mãe trabalha na peixaria. Ela limpa peixes para as pessoas comprar. Ela tem olhos grandes e um sinal perto da bochecha. Não, não é perto, é na bochecha mesmo. Tem um cabelo misturado preto com marrom. É muito linda e iluminada. É bem brava quando está em casa, mas quando telefona é boazinha. Quer saber se está tudo bem, se cheguei da escola e se esquentei meu almoço no micro-ondas. Ela comprou um micro-ondas novo e branquinho. À noitinha ela chega, lê os meus deveres e apaga alguns pra eu fazer de novo. Vemos a novela das empreguetes juntas. E ela vai ralhando de vez em quando porque eu sou um pouco esquecida e bagunceira. Quando ela não traz uns peixes ou camarões, comemos sanduíche, às vezes com refri, às vezes com tang. Tomamos banho e escovamos os dentes. Ela tranca a casa. Ela me diz pra rezar e às vezes eu até esqueço.

27 julho 2012

208/365
Maria Eunice

Hoje completa nove anos. No meio dos lamentos confusos que inundam sua cabeça, igualmente pela nona vez, ela se pergunta onde teria errado. E a única certeza é que, sim, ela o havia ensinado a pedir socorro, a gritar e chamar por ela diante de qualquer situação de perigo. Naquele dia, todavia, ele não chamou. E ela perdeu o filho de dois anos para a água. Ainda vivo, afogando-se, Júlio a olhava nos olhos, tão calado quanto podia. Desafiava o perigo com um silêncio corajoso e doente. Morreu.

26 julho 2012

207/365
Elma

Larguei o cartório, o Danilo e os meus sogros. Por uns meses, morei na casa dos meus pais com Daniel, mas também não foi fácil. Saí da cidade. Em Brasília, montei um buffet, treinei funcionários e consegui fazer dinheiro. Hoje, esses que se julgam minha família mal sabem os números da minha caixa postal e de um celular exclusivo. Daniel sequer pergunta. Somos iguais: puros e livres.

25 julho 2012

206/365
Tâmara

7h15 - apito inconfundível da secretária eletrônica. Mal consegue distinguir uma voz da outra, mas sabe que é a galera da facul. Entre alguns "urrruuu" e "bá bá bá" (de basculante, que é seu apelido) e músicas que ela não foi capaz de identificar: "o nosso Recife é lindo, sua doida. Acorda pra cuspir". Julgou que era melhor levantar, embora continuasse de férias.

24 julho 2012

205/365
Francine

Encontrei um dos filhos dele e expliquei o caso. Ele entendeu como cheguei à conclusão. Meu pai me disse, com todas as letras, um dia: "você não é minha filha". Saiu na TV que o humorista era pai de tanta gente e minha mãe disse, com todas as letras: "minha história com o Chico Anysio é antiga". Juntei as informações. O Bruno me recebeu bem. Disse, com todas as letras, que eu não me preocupasse, pois faríamos um exame e, se o Chico fosse mesmo meu pai, tudo seria providenciado. Fizemos o tal exame, nós dois, num laboratório. Negativo. E o Bruno disse com todas as letras: "que pena". Acho que ele queria que eu fosse irmã dele.

23 julho 2012

204/365
Jocasta

O cansaço é típico e recorrente e, dependendo do caso, intenso e irreversível. A gente cansa o corpo depois de exercícios ou um dia de trabalho. A gente cansa a cabeça. A gente cansa de um perfume, de uma roupa, da moda, da vida, de dogmas, de discursos políticos, de guerra, de livros. Cansa de comer comida com o mesmo tempeiro. Cansa de não ter comida, de ter fome. Cansa de conversa hipócrita, de blablablá, de vozes, de cobranças, de cansar e de viver todo dia. A gente cansa de um barulho, de um filho, de uma criança chata, de bêbados, de bagunça, de doença, de serviço mal feito. A gente cansa de programas de TV. A gente cansa de gente.

22 julho 2012

203/365
Natércia

Um homem idiota me surpreende. Um bom número de circo me deixa de boca aberta. Um jantar maravilhoso, piadas ruins, notícias de desastres terríveis, doentes na família, insistência em erros, amores duradouros. Mas não posso negar: estas férias em Belém foram marcantes por um detalhe: um banheiro químico de rua ultra limpo e cheiroso.

21 julho 2012

202/365
Cleo

Quem chegar à minha idade e disser que não se arrependeu de nada do que fez estará fazendo papel de herói. Querendo aparecer ou coisa do tipo. Eu me arrependo de muita coisa. Uma delas foi de ter surrado a minha filha mais velha por ela ter comido mais da metade do cuscuz sozinha, esquecida dos irmãos. Alguns dias depois ela pegou malária e faleceu. Me arrependi também de ter deixado de conversar com a minha irmã Claudia, que se mudou para Salvador e nunca mais tive notícias dela nem dos da família dela. Me arrependo de ter contado aos policiais onde o Nego Cristiano tinha se escondido, na Ribeira. Nego Cristiano nunca me fizera qualquer mal. A gente se arrepende das coisas grandes, de pequenas coisas, mas se arrepende muitas vezes ao longo da vida. Dias mais tarde, comida pela vergonha, vou me arrepender de ter dado esse depoimento.

20 julho 2012

201/365
Larissa

E a história se repete. Mais uma vez, queridos amigos, vemos o absurdo a que um ser humano pode chegar: um rapaz norteamericano entrou no cinema, na estreia do filme do Batman, atirando. Matou várias pessoas e feriu outras. Já viu esse filme? Um rapaz de 24 anos, doutorando, muito promissor. Mas, como sempre, um solitário. O que leva um jovem a cometer uma atrocidade como esta? A criação? O meio que o cerca? Índole? Hoje, eu, Larissa Quintino, vou conversar com a psicopedagoga Nathaly Manhães, o psiquiatra Vado Pinheiro, o cineasta Newton Almeida e Jacinta Tavares, mãe de um outro jovem assassino. Não perca o 'Nota e Anota' de hoje, às 23h, logo após o programa Roda de Jeová.

19 julho 2012

200/365
Flávia

Meninos são bobos, chatos, idiotas. Só sabem encher o meu saco e me chamar de super mouse e de princesa do inferno. Dizem que sou feia, fedida e burra. Na verdade, eles é que são. Odeio meninos.

18 julho 2012

199/365
Denise

Minha bichinha, nem que eu tenha que trabalhar a semana toda só pra isso e pedir dinheiro pro maior agiota de Salvador, esse Nelson vai ser solto. Minha irmã, se eu tô com ele, se ele não tem mãe e nem pai e nem irmão, sou eu a responsável por ele. Não interessa, não interessa. Você não sabe, ninguém sabe se ele foi violento. Eu sei. E digo que ele não foi. Estou lhe dizendo que vou conseguir pagar essa fiança. Estou lhe dizendo que vou conseguir. Esse homem vai ficar livre de novo.

17 julho 2012

198/365
Candice

Já numa espécie de transe pré parto, escova os longos cabelos. A avó e o pai do menino se desesperam, arrumam sacolas, marcam as contrações no relógio, mas ela sabe exatamente o que fazer e se acalma. A dor é alucinante. Desfaz cada pequeno nó com o pente e alterna com uma escova profissional. São nove horas pela frente, ela sabe, a natureza não lhe reserva surpresas. Tudo segue a mesma regra, assim como nas outras quatro vezes.

16 julho 2012

197/365
Emanuele

Já está tudo certo há muito. O nascimento da Vania vai ser na casa dela. Já comprei uma bola pra rebolar, lona, luzes especiais. Uma doula foi contratada para me acompanhar e a parteira já está avisada. Ela não cobra. Trazer crianças ao mundo é seu dever. Deve ser a única em Brasília. Vania virá na hora que quiser, ouvindo boa música e orações.

15 julho 2012

196/365
Marlise

Puseram-na de licença por perigo de adiantamento de parto. O menino tem pressa. E Marlise está em casa, no entanto, sem descanso: tem mais três homens na sua vida, scrap book a fazer, roupas de bebê a lavar e passar, aulas de inglês a tomar do rapazinho de oito anos. Não, Marlise não consegue ficar quieta. Nem com Juan na barriga, nem depois. Pode-se esperar.

14 julho 2012

195/365
Camila

Ansiosa para ver Antônia, Camila divide a alegria com varizes e inchaços. Seu maior desejo é parar de trabalhar e ficar em casa tomando água de coco, com as pernas para o alto. Já ganhou 16 quilos. O pescoço dói, não tem ânimo para ter relações com Jaime. Desconfia-se de que ela enjoou do cara. Começa a montar o enxoval, mas ir a uma loja lhe custa. A médica disse que não é normal, que ela devia estar mais inteira. Mas que se há de fazer?

13 julho 2012

194/365
Ingrid

São 12 macaquinhos, oito bodies, seis conjuntos de calça e camiseta, shortinhos, bonezinhos, babadores, toalhinhas, fraldas de pano, cueiros, mantas, cobertores, chocalhos, mordedores, sugador nasal, mamadeiras, chupetas. Ainda tem a roupa do batizado. Gastamos menos de 300 dólares com essas compras. O carrinho e o bebê conforto saíram por 400 dólares. E ainda curti com o maridão em Miami. Como, dez anos atrás, um brasileiro classe média acharia que isso seria possível?

12 julho 2012

193/365
Tilde

Depois que passa a bosta da fase do enjoo, começa o pânico. Estou péssima. E o Gustavo sumiu. Eu sabia que não podia confiar nele. O Hugo veio aqui hoje e me disse com todas as letras: assumo teu menino. Balancei. Não é uma má ideia. Não tirei o menino cedo, agora já é perigoso. O Hugo tem emprego, pode me bancar, pagar hospital, ser um bom pai. O moleque nasce, dou um tempo e caio fora. Sumo do mapa.

11 julho 2012

192/365
Nana

Minha gatinha anda estranha, não quer sair, mal humorada. Reclama que os seios estão ultra sensíveis, nem posso enconstar (não posso nem ver). Mal fala comigo, apesar da tagarela que sempre foi, e está engordando. Será depressão?

10 julho 2012

191/365
Gracielli

Me demitiram e eu descobri que estava grávida. Cheguei a conversar com meu encarregado e ele disse que lamentava, mas como ia saber se eu já não estava grávida no dia da demissão? Perdi os meus direitos. Meus pais e meus vizinhos me aconselharam a ficar quieta, que na justiça não dá nada, e procurar outra coisa, enquanto a barriga não aparece. Nas duas primeiras entrevistas, percebi que gostaram de mim. Senti confiança pra falar da gestação e me dei mal. Mas ontem fui esperta: mesmo quando perguntaram se pretendo engravidar disse que nem pensar. Ficaram de me ligar hoje.

09 julho 2012

190/365
Zuleica

E o resultado da Gonadotrofina corionica fração beta foi 28753.8 mUI/mL. Leiga, demorou até achar os valores de referência. Grávidíssima, de quatro a cinco semanas. Sorriu para o papel. Fez planos criativos para contar ao namorado, mas acabou telefonando ali mesmo. Ele se mostrou feliz. Marcou consulta com o obstetra da família e começou automaticamente a enjoar.

08 julho 2012

189/365
Kélvia

Se meu analista me diz pra sorrir diante da bagunça, da desordem, da sujeira, imagino que devo brincar de pega varetas com os palitos espalhados em todo o chão da cozinha pela caixa de Gina que caiu agora. Que lástima.

07 julho 2012

188/365
Damascena

Antes de sair para a faxina de sábado, olha-se nua diante do espelho. Gosta do que vê. É atraente, tem olhos brilhantes, boca miúda, peitos firmes e grandes, cintura fina, quadril largo onde tantos homens já cravaram as mãos para firmar o vai-e-vem que ela tanto gosta. Sente falta do Ronald, do Wilton, do Marcelo, do Robson, do Cleyton, do Jura, do Zé Paulo. Cada um, a seu modo, a tinha feito delirar, gemer, pedir mais. Sorri. Passa a mão nas coxas, no sexo (úmido) e acaricia os peitos. Sente o seu cheiro real, o cheiro da manhã, o cheiro de mulher. Mas ouve carros na rua. Já amanheceu. Desiste de se masturbar e vai à luta.

06 julho 2012

187/365
Lara

Jorge foi embora. Fiquei no nosso apartamento, alugado. Passei dias tentando me livrar da presença dele em objetos, cheiros, lembranças. Joguei fora porta retratos e retratos. Garrafas, roupas velhas. Depressivei-me. Liguei para minha mãe e passei dez dias no interior do Piauí com ela. Chego hoje, jogo sal grosso em cada canto e promovo a limpeza geral. Balde, água sanitária e raiva. Magia: já não há vestígio de Jorge. Mudei a cama de lugar, o guarda roupa, o sofá. Deixei o corredor livre pro frio andar, tirar o morfo, respirar. Sentada, nesta manhã de folga, percebo que dobrar sacos de supermercado me fazem sentir mais dona do meu nariz. E plena no meu lar.

05 julho 2012

186/365
Carol

Um nó na garganta. Não é gripe nem raiva não expressada, é falta de cana. Tomei segunda no aniversário de uma amiga. Terça no Poizé, forrozão. Quarta durante o Boca x Corinthians. E hoje, final da Copa do Brasil, nada. Estou trancada em casa, sem uma latinha sequer, com a chave quebrada na porta, sem luz em Águas Claras, sem internet, celular com bateria por um fio. Nem pra conseguir enxergar o telefone de qualquer chaveiro na lista.

04 julho 2012

185/365
Valéria

Enquanto tempera o frango, Valéria discursa para as colegas, um ano mais novas que ela, Leopoldina e Angela: "no tempo de minha avó, dizia-se para as meninas brancas se casarem com um doutor ou grande produtor rural. No de minha mãe, já na cidade, dizia-se para procurarem um homem rico, formado, empresário, esperto e ambicioso. De preferência médico. Hoje, minha nega, no nosso, essas mesmas meninas riquinhas têm duas opções: ou casam com um filho de político já bem ajustado na vida, que estude medicina, ou com um funcionário público burocrata, que tenha sonhado em ser cardiologista. O cabra pode ser um merda, mas precisa ter pinta de oftalmologista e dinheiro. Essa realidade alagoana não muda nunca".

03 julho 2012

184/365
Abigail

Porque mereço cada segundo deste meu primeiro dia de férias. Do trabalho, ontem, parti para o aeroporto. Amanheci rezando para minha mãe, na beira do mar. Cantei pra ela, joguei flores, agradeci. Aqui, de roupa branca, cabelos soltos, me sinto um pássaro. Sei da minha beleza. Me sinto amada, desejada, plena. Ainda que só. A brisa e o sol me advertem constantemente de quem sou e o que devo fazer neste mundo. Sensação que não se repete no escritório, no trânsito, na lida com os clientes, os parentes, os vizinhos, os amigos, os colegas de dança. Deito e deixo a areia grudar em mim, pra me lembrar que sou feita delas. Grande e complexa, mas miúda e humilde. Que assim seja.

02 julho 2012

183/365
Clotilde

Quando meu amorzinho chega em casa, já tem o jantar posto. Tiro-lhe o casaco, pergunto como foi o dia, sirvo uma cervejinha pra ele relaxar. Enquanto toma banho, pergunto muitas coisas e conto as novidades. Ele confirma ou geme - hum, ã-hã, tá, ok, certo, hmm, uh, ah. Senta-se para assistir ao jornal, trago o charuto. Ele mal diz qualquer coisa, mas tenho certeza que me adora e adora o tratamento que dispenso a ele. Pede um licor depois do charuto, invariavelmente. E, já na cama, sussurro juras de amor. Ultimamente, ele não tem estado disposto. Mas sei esperar.

01 julho 2012

182/365
Lenita

Não tenho outra referência. Queria me firmar, mas só sinto segurança na insegurança. Minha mãe sempre estava onde havia dinheiro. Ou onde ela achava que havia dinheiro. Não conheci meu pai. Minha avó, até morrer, vi três ou quatro vezes. Trocava mais de cidade do que nós. Nasci em São Paulo, moramos em Santos, Búzios, Pirenópolis, Itiquira, Palmas, Rondonópolis, Uberaba, Brasília, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, nessa ordem. E, agora, Rio Branco. Estou ganhando pouco, quase nada, longe do meu namorado e minha mãe acha que está tudo bem, que temos que ter o pensamento positivo, que estamos prestes a ganhar muito dinheiro. Estou cansando disso. Quero voltar. Pra onde?

30 junho 2012

181/365
Magali

Costuma jogar os negros cabelos molhados enquanto dá entrevistas. Enjoada, chata, cheia de manias. Repleta de curvas. Os seios pequenos, com mamilos grandes e escuros, encabeçam uma barriga sem gordura e sem cintura. Tem coxas grossas, harmoniosas com a bunda. Pele branca - impossível supor que já tenha visto sol. Não é burra, mas estudar não é a sua. Nunca leu um livro inteiro. Fez faculdade pra cumprir tabela, agradar a mãe. Fala bobagens. Nada. Compete. É uma sereia de piscinas cobertas e aquecidas. Esquece um pouco o repórter - pisca um olho quando me vê; acena. Gosto de ver. Detesto escutar. É aborrecida, repetitiva e apaixonante.

29 junho 2012

180/365
Reginalva

Passei dois meses sem pegar o meu Bolsa Família. Nem sabia onde estava o cartão. Seu Eudes da Lotérica gritou: "Nalva, o Bolsa". Aí eu lembrei. E me esbaldei. Comprei até um tênis pro Henrique, que tava precisando. Hoje tem carne pros meninos.

28 junho 2012

179/365
Isadora

E ela me disse: minha mãe, eu vivo com uma mulher. E eu demorei alguns segundos até raciocinar, mas ela não precisou entrar em detalhes. Minha filha, mas como é essa coisa? Minha mãe, é normal igual às outras, mas em vez de homem é mulher. Entendi. Tu nunca quisesse ter menino mesmo, né? Tá certo, minha filha. E ela sorriu. Sempre pediu minha benção pra tudo. Pedi que trouxesse a moça. Que já não deve ser tão moça. Pouca coisa me surpreende ainda. E hoje estou surpreendida por não ter me espantado com essa novidade de Maria Valéria. Ser centenária tem suas vantagens.

27 junho 2012


178/365
Cynara

Queria montar um buffet. Era mestre em grandes ideias, megalomaníaca. Passava as tardes criando decoração e cardápios. Resolveu fazer um blog, vinculado ao Facebook, para divulgar. Anunciou como carro chefe para casamentos os palitinhos com queijo, azeitona e salsicha. E, de lembrancinha, Serenatas de Amor só no papel alumínio, envolvidos em tule e laço de fita. Na 25 de Março, comprou lanternas em formato de flor, rosa degradê, de base dourada, com lâmpada e fundo musical, para aluguel em separado. Quando puder avaliar a aceitação do público, registrará a marca, criará CNPJ e fará promoção no Peixe Urbano.

26 junho 2012

177/365
Hilary

Manias que se explicassem ou se justificassem não seriam manias. A de Hilary era peidar para si, sonoramente, sozinha. Mas arrependia-se, irritada, da própria proeza antes mesmo de finalizar-se o efeito malcheiroso. "Argh", reclamava com sotaque.

25 junho 2012

176/365
Vicentina

Preparou-se como nunca para a derradeira segunda-feira, comemorando a promoção no trabalho. Pela internet matriculou-se numa academia badalada, comprou uma bermuda modeladora para já se sentir magra antecipadamente e, domingo, comeu nada menos que costela de porco, creme de milho, quiabada, uma panela de brigadeiro, mais de um litro de coca cola, duas marias moles, canjica branca, arroz de carreteiro, cachorro-quente, batata frita crocante, cerveja, quentão, caldo de feijão e uma pêra. Dormiu feito uma rainha. Hoje, amanheceu cheia de pique. Comeu de modo balanceado e sensato. Chegou a sentir pena de si, com o dia puxado, mas resistiu a qualquer recompensa calórica. Até que Marcos ligou. Desistiu de malhar. Permitiu-se comer dois bombons após jantar um sanduíche. Em casa, cancelou a matrícula da academia e presenteou a irmã com a bermuda mágica. Mergulhou no sorvete de flocos.

24 junho 2012

175/365
Alda

Precisou começar a novela para me notarem. Já ouvi absurdos: "faça a sobrancelha", "experimente uma limpeza de pele", "você precisa de um batom". Não quero, não gosto. Agora, viva a beleza natural. Feliz com as minhas roupas básicas, minhas sapatilhas, minha orelha sem furo. Radiante com o meu cabelo crespo e com seus primeiros fios brancos. Sou a Gabriela da cidade grande.

23 junho 2012

174/365
Gorete

Bom dia, Gorete! Deixei roupa batendo. Tem Pinho Sol no armário do banheiro. Não deixei carne descongelando. Faça almoço só para você, pois viajo amanhã. Tem frango e carne prontos na geladeira. Assim que eu conseguir, ligo, pois estarei em um evento fora do Tribunal agora de manhã. Te devo R$ 5. Ah, por favor, corte a melancia e o abacaxi. Faça suco da metade do abacaxi. Se der tempo, separe as blusas dos shorts e saias das minhas gavetas, por favor. Até sábado!

22 junho 2012

173/365
Maria Lúcia

Filho da puta. Tércio é um filho da puta de marca maior. Me traiu com uma vagabundazinha. Mas não se abata, Maria Lúcia, erga essa cabeça de rainha. Minha vingança só está começando. Vou gastar cada centavo que esse piranho deixar ao meu alcance. Comecei bem: ontem, dei R$ 50 pra uma hippiezinha-palhacinha suja que jogava uns malabares na rua. Showzinho besta, sem graça. Ficou feliz, coitada. Se eu tivesse uma nota de R$ 100, daria.

21 junho 2012

172/365
Maria Eduarda

Tem rico esnobe, mas tem rico que sabe das coisas, que entende de arte. Hoje, uma mulher linda, cheia de joias, num carrão maravilhoso, assistiu ao meu espetáculo de malabares e, comovida - cheguei a ver lágrimas nos seus olhos -, me deu cinquenta reais. Uma cédula limpinha, verdadeira. Não eram aquelas moedas de cinco ou dez centavos nem aquelas notas velhas de dois reais, remendadas com durex, valor máximo que eu já ganhei de uma pessoa só. Mas sabe o que é isso? É reconhecimento do que é a verdadeira arte. Quem entende, só quem entende o real valor, a beleza, a pureza ética da arte, é que pode ser capaz de reconhecer e valorizar. E estou me sentindo plena hoje. Tenho certeza que fiz uma alma feliz.

20 junho 2012

171/365
Aline

Dia de estivadora. Enquanto esperava o repórter cinematográfico finalizar as tomadas da EPTG, Aline, sentada, olhava para as 24 bolhas nos pés. Teve o impulso de estourar cada uma delas - delírio. Em tempo lembrou-se da dor que já sentiu outras vezes. Retorcia o pescoço: "bora, Romenos, bora", sussurrava. Ele, por sua vez, se deliciava com as luzes misturadas da noite - estrelas, postes, freios, faróis. Atmosfera perfeita. Aline queria voltar pra casa, só isso, só isso. Não comeria nada, não tomaria banho, não leria Rawet, não assistiria Gabriela. Cama, só cama. Só amanhã. "Bora, Romenos".

19 junho 2012

170/365
Fabiane

Querem chamar de barulho
Mané zoada, mané bagulho
O que eu faço é dançar e dizer
Danço e digo
Não serve balé e poesia
Coisa de rico
Só voz e letra ninguém quer
Tem que ter palanque
Levar ao mundo a voz-mulher
Sair do tanque

Porque pra mim dizer o rap
Não tem credo, não tem reza
Quem sabe essa realidade
Se ‘amulhera’, se embeleza

Sou da periferia e sou até
Sou guerreira, sou bandida, eu sou mulher
Sou bonita, sou honesta e tô na pista
Quem me quiser, digo: ‘mano, insista’
E meu amante, meu amigo, não reclame
O meu nome eu já lhe disse: Fabiane
Nesse buraco que eu vivo é só alegria
Pobre ajudando pobre todo dia

Porque pra mim dizer o rap
Não tem credo, não tem reza
Quem sabe essa realidade
Se ‘amulhera’, se embeleza

18 junho 2012

169/365
Valentina

Depois que eu dei o sangue, tirando da mesa dos meus filhos parte do meu salário pra pagar uma faculdade caríssima, e, antes disso, tendo ralado para conseguir uma bolsa parcial, a empresa em que trabalho lança um programa de incentivo ao curso superior. Deus, que ironia! Me formei em março, passei automaticamente de ajudante de limpeza a assistente de recursos humanos. Empresa não é gente, eu sei. Mas, quem diria?, inventaram agora esse incentivo. Justo agora? Tudo bem, investi em mim e já colho os frutos disso, mas me sinto tão preterida, ainda que não haja chance de essa decisão ter sido tomada por minha causa, de propósito. Azar? E assim estou: sem saber o que pensar.
168/365
Dagmar

É das mais antigas pregadoras do Senhor. Pula de igreja em igreja, com a bíbilia debaixo do braço. Ora no ponto de ônibus, na porta do hospital. Mas ontem, justo ontem, chegou espalhafatosa e falastrona ao churrasco de cem anos de seu Abel Batista. Vestido pink - certamente tirado do armário, estilo anos oitenta -, maquiagem brilhante e boca, boca, boca. Falou, comentou sobre o serviço, sobre as obras no Mané Garrincha, sobre o Cachoeira, sobre os maridos da Eudina, da Aparecida e da Cleide. Falou da Eudina, da Aparecida e da Cleide também. Ia trocando de interlocutor. Ficou até a festa acabar, sempre com um copo de cerveja na mão. Foi um domingo em que se esqueceu do Senhor.

16 junho 2012

167/365
Adriana

Lázaro veio salvar a irmã. Nada mais. Foi-se. Ela, sim, talvez tenha algo a aprender neste mundo, como eu. Quanto mais conforto e equilíbrio procuro, mais eu choro. Disseram que vai passar, que ele está bem e vinculado a nós, cuidando de nós. Meu útero nem voltou para o tamanho normal. Dos meus seios mina leite. E dor.

15 junho 2012

166/365
Michele

- Não mora mais aqui não.
- Como não mora? Onde?
- Não mora mais aqui.
- Isso é um celular!
- Ah, então ela morreu, meu filho. Esse celular não é mais dela.
- Eu sei que é você, princesa.
- Me respeita.
- Fala comigo. Onde você está? Que coisa ridícula fazer isso na sua idade.
- Caralho, agora sou velha...
- Você não é velha. É linda, é minha mulher... mas você fugiu, Michele. Cadê você?
- Não te interessa, Robson.
- Querida, vamos conversar?
- (às gargalhadas) Nem a pau.
- Querida...
- Vai se catar.
Desliga. Para sempre.

14 junho 2012

165/365
Lídia

Sei exatamente o que pensam quando me olham assim: "essa velhinha sozinha?" Eu ando sozinha há muito tempo. Pra qualquer lugar dessa Brasília. O que mais sinto falta é de dirigir. Já faz uns doze anos que me arrancaram do volante. Ok, afinal, em um mês, me envolvi em quatro acidentes. A gente tem que respeitar os próprios limites. Mas continuo lúcida e esperta. Não quero ficar em casa fazendo tricô. E vejo, aqui no shopping, essa mãe e essa filha me olharem com certa pena. Certamente questionam, silenciosas e intrigadas, se tem uma babá comigo escondida em algum lugar. Não tem. Quando terminar o meu almoço delicioso, vou continuar a minha caminhada pelas vitrines. Ainda tenho que comprar o meu elixir da juventude, durex e um presente para a Carolina.

13 junho 2012

164/365
Ana Telma

Não costuma dar o seu melhor sempre. Economiza até nos detalhes mais bobos. Se tem duas latas de leite condensado de marcas diferentes, certamente usará primeiro a mais barata ou a de pior qualidade. Entre uma roupa muito chique e outra mediana para trabalhar, escolhe a segunda. Raciocina assim: vai que amanhã tenho uma reunião importante?

Ontem, convidou o Moacir para um jantar romântico em casa. Terapeuticamente, decidiu: vou dar o meu melhor. O mais caro forro de mesa, a louça mais fina, o vinho chileno guardado, vestido, perfume, maquiagem. Tudo impecável. Os dois, juntos há oito meses, mereciam. Moacir ligou.

- Estou num trânsito infernal.
- Ai, que pena. Vai demorar, então?
- Na verdade, Ana... estou embaraçado, mas...
- (respira) o que foi?
- Eu não vou.
- Poxa, mas... e agora? Guardo pra amanhã?
- Eu não vou hoje, nem nunca. Eu não quero mais ficar com você. Desculpe. Boa sorte.

12 junho 2012

163/365
Ana Karla

Su, deixa eu te contar desde o início: acordei, tomei café e liguei LOGO pra ele. Nada. Ele não atendia. Fiquei preocupada. 11:16’32
Skipe, celular, SMS, telefone fixo, MSN, Facebook... tentei tudo. Temi. Ronaldo sumiu, sumiu, sumiu. 11:17’09
Ui, Su, foi mal, demorei... tentei aqui falar com a Naty, mas ela escreveu “oi” e saiu. Off line. 11:19’15
Mas, hein, Su, resolvi esquecer ele um pouco, tomei banho, fiz escova 11:19’40
E ele mora aqui no prédio, no ap debaixo, mas senti vergonha de ir até lá. Ok, ok, vergonha & preguiça. Eu ando bem preguiçosa. E comendo muito. 11:21’31
Estava agora mesmo comendo um donuts delicioso, que meu pai trouxe. Lembra do meu pai, Su? 11:22’02
Su? 11:23’50
Não terminei a história 11:24’01
Kd tu, Sussu? 11:24’13
Su Su Su 11:24’38
Ei, Sussu! 11:24’44
Tá offffffff? 11:24’50
Suuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu 11:25’01
Respoooonde! 11:25’25
Affff, to saindo. Você some. Deve estar com o Ron e com a Naty. Palhaça. 11:26’10

11 junho 2012

162/365
Ana Pérola

Odeio aquarelas. Colorido morto, floral. Paisagens singelas, apasteladas. Não, não gosto. São tristes demais. Anêmicas demais. Mentem, enganam. Surrupiam traços marcados, limites. Embaçam. Oníricas demais. Aquarelas entram pelos meus olhos invasoras, me desafiam com a sua apatia. Reajam, cores mórbidas dos infernos! Submarinas, transparecem, doentes, janelas enxutas, técnica e expressão de gente molhada e sem sal. São como Nescau na água. Quero cores que, sólidas, me piniquem as vistas, que me provoquem alegria ou dor: não o meio termo, o morno, o lacrimoso. Papéis tortos, chovidos. Aquarelas são aquosas demais. Aguadas demais. Dissimuladas.

10 junho 2012

161/365
Ana Amélia

São três aninhos, não é qualquer coisa, a gente se vira. Difícil vai ser fechar a lista nos cem. Mas não tem como passar disso. E vamos pensar bem, tem uma gordurinha aí, nem todo mundo vai poder ir. A casa de festas já está 'ok': R$ 4.200. Dividi em dez vezes e já pagamos duas. Tathiane vai se divertir, amor. Tem joguinhos, roda gigante pequena, piscina de bolinhas, pula pula, casinha de boneca. A decoração é do Mickey e já está inclusa. Falta fechar os doces: bolo de R$ 400 e R$ 720 de bombons; quase R$ 1.500 de lembrancinhas. Entenda: são orelhinhas, chicletes e chocolates embalados com os motivos da festa, quebra cabeças Disney, potinho de vidro com brigadeiro de colher. E o vestido de Minnie. Vai dar, vai dar, Hélio. Pede pro Igor uns R$ 2.000 emprestados e a gente atrasa o condomínio só este mês e também a C&A e a Riachuelo. Nossa princesa merece.

09 junho 2012

160/365
Ana Paula

Faz mais ou menos 2.555 dias que estou neste mundo. Sei escrever, fazer contas, cantar de cor algumas músicas e até decorei as falas de cenas de filmes. Sei também ajudar a cuidar da minha irmã Natália, que tem uns 90 dias de vida. Bem menos que eu. Meu pai quer que eu seja médica e minha mãe quer que eu seja estudiosa, ande bem arrumada e arranje um bom homem. Quero estudar o suficiente pra ser bombeira ou pintora. Não pintora de paredes, mas de artes mesmo. E não quero ter filhos ou maridos.

08 junho 2012

159/365
Ana Diva

- Me beija, Rafael.
- Ai, que ódio. Já pedi: me chama de Ana Diva.
- Desculpe, mas beija. Vem cá. Tô num tesão, amor.
- Estou assim, amor, tristonha, sei lá.
- Ana linda, vem cá... gostosa.
- Ai, tô tão triste, amuada. Acho que é TPM.
- Não seja ridículo, Rafael.


158/365
Ana Flávia

Feriadão. Isopor, baianinha, biquinis e sungas. Chevete rumo ao Zoo. No churrascão, enquanto todos comem e bebem de se esbaldar, descoloro meus pelinhos e faço alisamento capilar. Depois, um grau no bronzeado. Um franguinho e um refri light. Tenho que manter a beleza.

06 junho 2012

157/365
Ana Cristina

Terminei com o filho da puta do Gustavo. A partir de hoje sou lésbica.

05 junho 2012

156/365
Ana Maria

Mais um crime passional, dizem. No entanto, a motivação não foi ciúme, posse: foi dinheiro. Por que chamam de passional, então? O cara era dono de uma multinacional, tinha um seguro gordo e só a mulher como herdeira. Nenhum filho. Claro que foi a Ana Maria. Crime comum, assassinato, homicídio, latrocínio, como quiserem classificar. Menos passional. Não havia paixão nenhuma entre os dois. E, mesmo se houvesse, crime por paixão sequer existe, a não ser que seja uma overdose de sexo fulminante. Foi o caso? Não. Ana matou. Pronto.

04 junho 2012

155/365
Ana Claudia

Vai se casar em agosto. Não fechou buffet, não experimentou um vestido sequer. Escolheu as cores das flores e do buquê, o espaço já está pago e os convites envelopados e selados. Não tem lista de presentes ainda, muito menos apartamento em vista para alugar. Comprou um sapato pink, que combina com as gérberas, e agendou cabeleireiro e maquiagem. Champanhe, uísque e vinho encomendados. Bolo? Docinhos? Toma nota. O noivo trabalha 24 horas por dia; mal se falam. Se nesses dois meses restantes ele desistir, ela nem vai ficar sabendo. Ri. Gargalha.

03 junho 2012

154/365
Pauline

Minhas filhas já me chamaram a atenção para os meus cabelos que me demandam muito tempo todas as manhãs até ficarem razoáveis. Meu namorado me largou porque eu sou muito crítica, segundo ele, mas o real motivo - tenho certeza -: celulites. Não estou acima do peso, sou saudável, tenho um emprego mediano, suficiente, nada de grande dívidas. Porém, porra!, não tenho a cintura da Paula Fernandes e, que merda!, tenho costelas e pulmão (ela não). Minha pele tem manchinhas e meus cílios são espaçados. Sou normal e, por isso mesmo, imperfeita, longe-longe do ideal. Indesejável?

02 junho 2012

153/365
Laurea

Morena? Loura? Não, agora ataco de ruiva. E é ruiva vermelha - não laranjada. Cabelo novo; vestido reciclado: o mesmo pretinho de paetês. Chiquérrimo, mas usadíssimo. Ninguém vai notar. Se a minha postura for outra, eles pouco vão olhar pra minha roupa. Calcinha esconde-gorduras; sandália básica.
- Cássia? Oi, linda. E aí, descobriu?
- Ele vai, Laurea.
- (aos gritos) Maravilha! Vou estar linda, amiga.
Angelo que me aguarde. É hoje.

01 junho 2012

152/365
Viviane


Ontem, no dia mundial contra o tabaco, Aldo me ligou querendo voltar, dispensei, almocei com Juliana, falei com minha irmã duas vezes, lavei o cabelo, me depilei, comprei detergente, bombril, pimentão e leite, trabalhei até tarde, fui a um happy hour com o pessoal da loja e, juro, só fumei maconha.

31 maio 2012

151/365
Raimunda

Vocês viram? Viram? Na Ana Maria Braga, rapaz. Era eu na Feira do Guará, tirando foto com o Júlio Rocha. Oh, homem lindo, fabuloso. Tava cheio, rapaz. Uma mulherada em volta. Tirei foto com o meu iphone de capa pink. Viram? Sou eu aquela de costa, blusa verde. E foi passar só hoje na TV. Demorou. Faz tempo que ele veio aqui. Primeiro, ouvi os gritos, depois aquele amontoado de gente, bem perto da minha loja, rapaz. Larguei a mercadoria e as freguesas! Foi ótimo. Ele é cheiroso, os dentes branquinhos. E, no abraço que dei, cochichei no ouvido: "arruma um espaço pra mim, que eu sou cantora. Boa cantora". Ele disse: "tá certo, tá certo". Saí feliz e confiante, rapaz. Mas, passados o calor e o vuco vuco do coração, caí na real - duvido que ele vá se lembrar de me dar uma oportunidade.

30 maio 2012

150/365
Nancy

Na queda, perdeu dois dentes e um bocado do juízo. A partir daí, a memória não lhe registrava nada ordenado, racional. Lembrava-se de surtos em que parecia, observadora, estar fora do próprio corpo, que se debatia, reclamador das mãos e dos tapas que o tentavam controlar. Outros tantos dentes foram caindo e os familiares ganharam escamas na época em que começou a chover flores em seu quarto. Sentia picadas seguidas de frescor e sono. Depois de muitos ataques recorrentes em casa, levaram-na. Agora eram só roupas brancas, azulejos psicodélicos, feridas nas pernas, moscas no nariz escorrento. Colegas apáticos. Choque. Falta de mãe e de pai. Falta de maçã, falta de dentes. 

29 maio 2012

149/365
Dandara

Desceu ali fazia doze anos, árida como a terra que pisava. Conheceu Rico, quem explorou como pôde (já que ele tinha um trailer) e largou. Afeiçoou-se a um cachorro e com ele dormiu na varanda de uma pousada por alguns dias. Até sentia fome, mas não lhe enfraquecia não comer. Pediu abrigo e emprego na bodega perto da caixa d'água do ACM. Deixaram-na ficar. Mas é preguiçosa e, sem abrir a boca, atrevida. Os longos cabelos louros, que vivem presos, guardam poeira, fumaça de cigarro e histórias de uma vida abastada e infeliz.

28 maio 2012

148/365
Bibiana

Passei a noite sonhando com casos de abuso sexual, depois de ver o Fantástico. Estou muito chocada e comovida, talvez porque não faça ideia do que eu mesma vivi, quando criança, com pai, tios e primos morando na mesma casa. Não me lembro, não tenho registro disso. Mas por que esses casos mexem tanto comigo? Será que é possível investigar? E pior: o que mais me intriga é a possibilidade de Analu e Amanda terem sofrido essa violência sem que eu tenha notado, já que tiveram ao longo da infância nada menos que três padastros. Uma no Canadá e a outra na Suíça. Preciso perguntar.

27 maio 2012

147/365
Lorena

Ontem, fui à marcha das vadias de shortinho, meia arrastão e corpete. Flor no cabelo, batom vermelho. Gritei, cantei, repeti palavras de ordem. Ouvi discursos, conversei com várias mulheres, troquei ideias. Ao final, como outras, puxei as cordinhas e exibi os seios. Na volta pra casa, ouvi do meu namorado e do meu irmão que esse negócio de luta contra o machismo é besteira; que ser feminista está fora de moda; e que eu só podia mesmo ser uma piranha pra andar na rua daquele jeito.

26 maio 2012

146/365
Henriqueta

Minha mãe sempre dizia que eu podia ser o que quisesse. Alimentava as esperanças mais puras e espontâneas da menina que queria ser bancária, mas não me libertava. Não podia me libertar. Éramos de circo e a nossa casa era um trailer, que dividíamos com outra mãe e filha. Fui educada debaixo da lona, aprendendo a ler e a contar com fantasias, malabares, bichos. Um registro de nascimento eu tinha, mas não um escolar. E foi difícil, quase impossível, aos dezoito anos, seguir o meu caminho: banco. Tinha fascinação, lia revistas, via na TV. É tanto que, durante anos, minha função no circo era a bilheteria - boa pra contar dinheiro, rápida e eficiente. Não sei se o que mais doeu foi me matricular na rede pública e começar do mínimo possível os estudos, pra ter papel que comprovasse, e, então, fazer concurso, passar, construir uma vida rotineira ou deixar minha mãe. Só tenho notícias dela, agora, quando ela resolve telefonar aqui pra minha agência.

25 maio 2012

145/365
Geralda

Deixei o serviço público depois que vi uma menina de doze anos grávida do próprio irmão. Foi o meu último atendimento. Não que eu tenha precisado escolher. Já vi outras várias atrocidades e talvez o acúmulo delas tenha me deixado assim, arrasada e impotente. Decidi, anunciei a data, assinei papéis e pronto. Saturada. E não bastava os casos serem extremos; o atendimento que pude prestar foi ridículo. Eu mal tinha materiais para um curativo. Deixei essa vida. Agora dou aulas até conseguir montar um consultório. Me afastei do pior que o ser humano já pôde construir. Mas ele ainda existe.

24 maio 2012

144/365
Dita

Todos os dias acordo, olho minhas celulites e baixo uma determinação: nada de refrigerantes ou doces. Sustento com firmeza a decisão. Só até o pós almoço. O resto do dia é um desastre. À noite como uma torrada e uma maçã. Durmo morta de fome e culpa.

23 maio 2012

143/365
Blanca

Vou doar para a minha empregada meu Ipod Nano, um sapato Arezzo, dois Schutz, uma bolsa Louis Vuitton. Algumas peças Dudalina. Uma calça Ellus. Na sacola, incluí uma pólo Lacoste para o marido dela. Acho que minha boa ação do ano está mais do que cumprida, não? Bom é ser rica, feliz e desprendida.

22 maio 2012

142/365
Mila

Ignorou o frio intenso das 6h e foi jogar vôlei de areia no Pithon. Na volta, antes do inevitável banho, iogurte, granola, banana e pão integral. Não precisava resolver os problemas com licitação na telefônica que trabalhava - acordar assim, nesse ritmo, já fazia com que se sentisse uma heroína. Ligou para o Otto, ouviu coisas bonitas e foi feliz pegar o metrô.

21 maio 2012


141/365
Pâmela

Namorei por uns anos um cara que me sacaneou e eu nunca esqueci. Não posso deixar de amá-lo e não encontro ninguém que me ajude a esquecê-lo. Em vez de cuidar da minha vida, cada vez mais mergulho no horror da solidão. Perturbo ele e a família dele e julgo que sou bem psicopata e esperta, a ponto de fazer qualquer besteira. Mas não conheço as forças que me cercam. Serei presa ou pior, mais cedo ou mais tarde.

20 maio 2012

140/365
Joana II

Meu batizado foi muito bonito. Meus padrinhos disseram que deus me abençoasse e me deram um álbum para fotos e cinquenta reais. Mamãe fez coxinhas e risoles, alguns levaram refrigerantes, papai colocou o som lá fora. Estava frio, mas todo mundo ficou lá em casa até a madrugada. A família inteira - veio até gente de Teresina - me felicitou: avós, tios, tias, primos, primas, primos dos primos, cunhados dos tios, meio irmãos de primos dos primos. Gente que eu gosto e que eu não gosto. Gente que me traz boas lembranças e gente que, descobrirei mais tarde, já me abusou sexualmente.

19 maio 2012

139/365
Samantha

Carência - foi afinal o diagnóstico revelado pela terapeuta na sessão de ontem. Queria evitar qualquer relação com depressão e conseguiu. A depressão em si e a vontade de ter depressão se retroalimentam. Mas carência estava de bom tamanho para Samantha e foi nela que conseguiu conectar as tristezas, as raivas, as dores, os problemas de relação e a fala atrapalhada e ansiosa. Sairá esta noite para tentar se curar.

18 maio 2012

138/365
Linda

Nem mesmo numa reunião de comitê para discussão de equidade de gênero da empresa Linda conseguia falar. Tentou interromper, levantou o indicador piscando ao presidente do grupo, mas não lhe deram a palavra. Era um avanço, sim, sem dúvida, mas o comitê fora instituído para cumprir convênio - contrapartida em acordo com uma ONG. Parecia não caber na empresa. Linda era a única mulher e foi massacrada sem sequer abrir a boca. No fim das contas, como resultado, o comitê serviu para angariar brindes para distribuição no dia das mães e das mulheres e proporcionar, nas duas datas, café da manhã a todos os funcionários.

17 maio 2012

137/365
Pilar

- Lola disse que não te quer mais aqui.
- ¿Cómo?
- Não me deu explicações. Pegue suas coisas e...
- ¿Estás de broma?
- No. Digo, não. E...
- ¿Qué hago yo?
- Não sei e não me interessa. Cuide-se.

16 maio 2012

136/365
Jéssica

Minha irmã é ridícula. Foi dizer à mamãe que o que quer da vida é ser uma mulher de atitude. Ai, que brega. No meu conceito, mulher de atitude apenas é, não anuncia. Mas a Naty tem o destino dela: fazer comida pra marido e lavar roupa, porque ainda por cima a bicha é burra. Digo isso por dois motivos: ela já largou um cara lindo e rico e, dada a largar que é, largou também os estudos. E já estava no segundo grau. É escandalosa, chora quando a mamãe briga. Eu, longe de ser a filha exemplar, ainda me esforço, mesmo reprovando ano sim ano não. Corro atrás, trabalho desde os 14. E quero ser aeromoça e não depender de ninguém. Mas, como mulher de atitude, não vou anunciar. Vou fazer.

15 maio 2012

135/365
Christty Anny

Em 2006, fui contemplada com um dia de princesa para minha filha no programa do Gugu. Foi tão maravilhoso. Além do lindo momento que a Micaela viveu, ganhamos coisas para a casa, pintaram o quarto dela e me deram a oportunidade de ter um negócio próprio: uma máquina moderna de fazer fraldas descartáveis. Em 2008, minha Micaela morreu atropelada. Um ano depois, eu tive uma gangrena na perna e, quando saí do hospital, fiz muitas dívidas por causa dos remédios. Desde então, faço bicos como posso, inclusive vendendo prumas poucas mães desavisadas as fraldas de péssima qualidade. Não consigo pagar as minhas contas, mas vou vivendo. Minha irmã e meus vizinhos me auxiliam e recebo uma ajuda do Governo. Mas não consigo me livrar da porra da máquina. O ferro velho não se interessou; dei para minha prima e ela devolveu; deixei na porta e ninguém levou. No canto da cozinha, feito um hóspede indesejado, aquele entulho de máquina de fazer fraldas descansa há anos.

14 maio 2012

134/365
Paula

Meu nome é Paula Castanhola, sou médica dermatologista, com título de especialização pela Sociedade Brasileira de Dermatologia. Tenho 29 anos, um consultório muito bem equipado, elegante e conceituado. Não me casei e não pretendo. Namorava até o ano passado o Felipe, que até então não passava de um concurseiro. Muito carinho, mas pouca objetividade. Chega de falar de mim (e desde já manifesto que não vejo utilidade neste campo em que devemos escrever sobre características pessoais. No que isso interfere? Em todo caso, fui sincera). Escrevo para obter mais informações sobre a produção assistida, por exemplo: como funciona a escolha do pai? Sei que não conhecerei a identidade dele, mas posso escolher tipo físico? A clínica checa antecedentes criminais? Também preciso dos valores de cada etapa e dos dados da clínica com relação a resultados. Aguardo retorno. Obrigada.

13 maio 2012

133/365
Elcia

E o recado estava dado: por mais filhos que eu tenha e venha a ter não poderei nunca falar pelo grupo de mães, só por mim mesma. E aproveitei o espaço: não, ser mãe não é assim tão gratificante.

12 maio 2012

132/365
Lucinalva

Auxiliar de professora de educação infantil de uma escolinha do Cruzeiro, Lucinalva é um poço de desespero. Não pode exercer em seu novo emprego o que é a manisfestação mais genuína de sua própria personalidade: impáfia, crítica e agressividade. Não tem papas na língua, não tem medo de ninguém, mas, infelizmente, deve tanto a tanta gente e loja e banco que tem que aprender a ficar quieta. Mansa.

11 maio 2012

131/365
Shenta

- Não, não. Não é o que diz Shenta Valença. Conhece? Já leu?
- Nunca li. O que ela diz?
- Você devia ler.
- Não, pra quê?
- Pra ver se fica mais esperta e para de falar bobagem. A mulher é expert, isso é assunto sério.
- O que ela diz?
- Leia.
- Não vou ler.
- Por quê?
- Porque Shenta Valença sou eu, idiota.

10 maio 2012

130/365
Jacira

De vez em quando, precisava sentir-se viva. E isso já significou cometer pequenos furtos em padarias ou supermercados, estacionar em local proibido e fugir de blitz, sair de um restaurante sem pagar ou trair o namorado. Hoje, bastou baixar músicas das Chicas e ouvir, ouvir, ouvir. Sem chorar ou lamentar, reviveu a sensação que foi, num show dois anos atrás, sentir o ápice da dor de um amor rompido.

09 maio 2012

129/365
Claudiane

Em toda a Nobres não há de ter mulher mais jeitosa. Tem os quadris largos, tão contrários à cintura e aos ombros que lembram uma pêra. Trabalha no Balneário Dona Máxima, mas já me confessou que fará o concurso da prefeitura. Passa o dia de roupa bege, limpa o lugar, recolhe folhas secas e até fornece informações aos visitantes. Em casa é a caçula de doze mulheres, das quais sete vivem com a mãe. Cada uma tem sua especialidade doméstica. Como já é faxineira de profissão, em casa é boa no caldo de piranha, na mojica de pintado e no doce de caju. Gosta de roupas coloridas e unhas vermelhas. É estudiosa e sempre quis ser bombeira. Hoje sonha em conhecer os países que fazem fronteira com o Brasil. Todos eles.

08 maio 2012

128/365
Sulla

Ela me avisou. Se eu continuasse com perguntas, sumiria. E foi o que aconteceu. Conheci a Sulla há alguns meses e ainda não consegui tirá-la da cabeça. Bonita, sensual, louca por sexo, mas odiava beijar. Não era puta, não tinha como ser. Seus dentes eram bonitos, tinha um bom hálito, mas nada de beijo. Consegui, uma única vez, desajeitadamente um beijo estranho, raro. Meti minha língua naquela boca semicerrada, dura, cheia de dentes. Confusa. Perguntei se algo em mim a incomodava. Nada. Confessou que não gostava de beijo com homem nenhum. E não havia conforto com a Sulla, a não ser quando ela rebolava frenética no meu pau. Mas que eu não falasse em beijo. E eu não resisti. Minha curiosidade infantil falou mais alto do que a tácita postura do macho desinteressado. Ela me deixou e estou louco à sua procura. Principalmente para saber porque não curte beijar.

07 maio 2012

127/365
Ailina

- Local de nascimento.
- Igarapé-Miri, Pará.
- Ah, terra do Pin...
- É, do Pinduca. Nem pra eu nascer num lugar com artistas mais elegantes.
- Que é isso, moça? O Pinduca é o rei...
- Ah, você não sabe de nada, moço. Vem aqui no meu estado me dizer o que é bom ou ruim. Que carimbó é bom, que a gente tem que preservar as raízes, evitar gostar de música clássica, por exemplo. Quero saber o que ia achar se eu me formasse antropóloga e fosse lá no seu apartamento de Brasília dizer que o Nicolas Behr é um grande poeta e...
- (rindo) Certo, certo.
- Não sei por que ri.
- Desculpe, mas é engraçado. Eu me surpreendo cada vez que você mostra conhecer algo de Brasília.
- (irônica) É, por que a gente parece atrasado, né?
- Não exatamente, mas, sim, eu fui educado com muita distância dos seus costumes e tenho meus preconceitos. Podemos continuar?
- Sim.
- Idade.
- 29.
- Raça/cor?
- O que o senhor acha?
- Indígena.
- Não. Não tenho nada com índio. Sou católica. E, logo que descobrir como, vou mudar o meu nome para Virgínia. Tem mais a ver comigo.

06 maio 2012

126/365
Virna

O bom de dividir o minúsculo apartamento com mais duas é que os meus domingos ora depressivos são hoje pura diversão. Uma traz o namorado, outra uns amigos e a briga pelo controle remoto e pela última pipoca de micro-ondas começa. Casa cheia. Talvez isso me remeta a uma lembrança qualquer de infância, que conscientemente não acesso; talvez seja só uma cura para as solidões dos fins de semana que não acabavam nunca. Um levanta repentinamente pra matar uma muriçoca; uma solta um pum estrondoso; outro traz cerveja pra todo mundo... e o sol vai se pondo. Um de cada vez recolhendo a sujeira, pegando a carteira, o celular. As despedidas. Num esforço me mantenho firme para não trancar a porta ou chorar implorando que fiquem até eu dormir. Estufo o peito, ergo o braço num tchauzinho de miss: "obrigada, gente. Boa semana".

05 maio 2012

125/365
Antônia

Receita de amor III - Planos para o dia do resultado do vestibular: comparecer à divulgação e abraçar o primeiro aprovado gostosinho que esbarrar, com cuidado para decorar o nome completo, o curso, a colocação. Googlear e facebookear o jovenzinho, fazer o cerco de modo que soe tudo casual. Sair com o jovenzinho, ensinar tudo o que sei sobre sexo, apoiá-lo na nova fase de sua vida, oferecer o ouvido atento, enquanto presto carinhos sugadores. Deixá-lo cheio de amor e gratidão. Nunca mais dormir sozinha.

04 maio 2012

124/365
Regina

Receita de amor II - Pra ser feita sexta, sábado e domingo. Na sexta à tarde, duas velas brancas e uma vermelha. Pétalas de rosa espalhadas. Banho de champanhe. Pedir à própria pomba gira força e luz. À noite, roupa curta, perfume, batom e salto alto - Roda do Chopp. No sábado, água morna na bacia e ervas para as partes doloridinhas. Nove copos d'água ao longo do dia, mentalização e ensaio de passos de samba. Fim da tarde, sainha, plataforma - Calaf. Domingo, o resto do ovo de páscoa pra curar a ressaca e missa. Fé em Santo Antônio, todas as orações e ofertas dirigidas a ele, pedindo um marido perfeito. No confessionário, arrepender-se da farra dos dois dias anteriores, com toda a sinceridade possível. Inclusive deixando claro ao padre e ao santo que se comportará até quinta.

03 maio 2012

123/365
Yone

Receita de amor I - Vou fabricar meu próprio homem, com requintes de chef e/ou cirurgiã: pernas de leopardo, sede de leão, olhos de águia, pau de cavalo, peito de orangotango (depilado), disposição de camelo, coração de cachorro. É só juntar as partes, colar com super bonder, esperar secar, pintar da cor preferida, ensinar a ganhar dinheiro e a gostar de artes, de novela e de me comer. (obs: a verificar se a falta de futebol pode estragá-lo)

02 maio 2012

122/365
Melissa

Ando cheia de metas. Até o fim deste ano, Paris e silicone. Mas o que eu queria mesmo não depende de dinheiro, férias e planejamento. Depende de mim e, suspeito, de conjecturas astrais. Desejo ter uma vida saudável, em que se movimentem amor e respeito. E paz.

01 maio 2012

121/365
Monique

- Não, mãe, não é feriado aqui. Estou trabalhando normal. São três casas pra faxinar, fora a minha. Frio nada, aqui tá quente pra caramba, mãe. A América é assim, mãe. E aí, como estão as coisas? É isso aí mesmo, aproveita. E os exames, a senhora fez? Hmm. Certo. Luís deu notícia? É mesmo? Pois é. Já vou, tenho que trabalhar. Em julho eu vou aí, tá? Mas amanhã a gente conversa de novo aqui, tá? Um beijo, mãe, te amo. Dá um beijo em todo mundo aí. Tá, tá, certo. Tchau.