20 novembro 2012

324/365
Oléria

Minha mãe me batizou com o nome de minha avó. Quando vim pra São Caetano, me perguntaram se eu havia sofrido com brincadeiras na escola e eu disse que não - na minha cidade, todo mundo tem nome de pobre.

323/365
Sâmia

Mamãe, você me dá a Polly? Eu quero a Polly e My Little Pony de presente de Natal. E pro Papai Noel, eu vou pedir um patinete. Pro meu pai, vou pedir a casa da Polly. A dinda me dá uma Barbie. Não, não, quero aquela família de ratinhos. E de ano novo quero uma sandalinha de salto prata, com bolsa. Mãe, não esqueça que tenho hidratação do cabelo e unhas pra fazer. Tem que encher o pneu da minha bicileta. Ah, já ia esquecendo: quero um tablet, mas não da Barbie, quero um de verdade.

322/365
Jaciara

É chef. Tem diploma. Gostaria muito de pular as etapas que, dizem, existem, mas não consegue e se frustra. Queria acordar e ter um restaurante de renome, que atendesse apenas reservas. Tem ganas de sofisticação. Pé no chão, dona Adelaide diz, é fundamental. Mas para quê? Jaciara quer ser grande. E logo.

321/365
Liliane

Vivo em Londres. Sou profissional da moda. Gosto de misturar tendências, conheço muita gente, já trabalhei com inúmeros bons estilistas. Posso dizer de mim que sou bem sucedida. Homens e mulheres me desejam. O meu real amor, meu macho, entretanto, está longe de ser aceito na atmosfera que respiro: tem 1,60m, chama-se Juvenal. Mora em Parnaíba-PI. Sinto saudades.

16 novembro 2012

320/365
Jaqueline

Pronto, vi o filme do Gonzaga, depois de tanto relutar. E logo vi porque relutei: uma senhora ao meu lado suspirava de cinco em cinco minutos e comentava alguma coisa. Sou nordestina sim, de Forquilha-CE. E odeio ouvir comentários sobre a "coitadice" dos nordestinos. Não nasci no fim do mundo, tudo depende do referencial. Minha cidade é o começo de tudo; minha família e meus amigos são o centro do universo. Não tem coitados na minha terra. Tem gente que sofreu e sofre, sim, mas é igual em São Paulo, em Brasília, em Frankfurt. Não venham, diante de uma cena qualquer, lamentar em suspiros a pobreza nordestina. Antes, vão à puta que o pariu. Tenho orgulho do que sou, como, estou bem certa, cada um dos "cabeça-chata" que dividem a origem comigo.

319/365
Fernanda

Viu Getúlio, viu Juscelino e vários outros. Também viu dona Clotilde e seu Nazareno, juntos. Viu a nega Tereza limpando a casa. Viu os próprios filhos, os filhos de seus irmãos, os amigos dos filhos, todos brincando juntos. Viu bagunça, algazarra, briga de família. Registrou muita coisa. Fotografou casamentos, posses, inaugurações, situações inusitadas. Foi capa de revista. Até ganhou prêmio famoso assinando nome de fotógrafo. É, teve que ser homem. Dona Fernanda se sente feliz e realizada. Mais ainda quando o raciocínio permite saber que viu mais do que fotografou porque é melhor viver do que trabalhar.

14 novembro 2012

318/365
Norma

A missa havia acabado. Júlio estava tenso, olhava para Norma sem conseguir concentrar-se em nada. Ela nem notou quando ele, enfim, se aproximou. Sedento, passou a mão pelas nádegas dela e fez parecer acidente. Chamou para um sorvete ou qualquer coisa e ela sorriu. Imaginava aquela mulher em posições obscenas e dona de gestos devassos, sem preguiça qualquer de conhecer cada pedaço de seu corpo, enquanto ela falava da vida, do curso de manicure, dos bordados que fazia pra completar a renda. Júlio assentia com a cabeça, certo de que os flashs que ouvia seriam suficientes para montar uma história crível, caso ela pedisse alguma opinião. O sorvete e os ouvidos falsamente atentos eram o preço. Pagaria a conta integralmente e feliz e gentil. Mas teria aquela mulher nas mãos hoje.

13 novembro 2012

317/365
Surya

Range os dentes perolados. Nem no sono conecta situações, dados. Discurso e prática isolam-se em pontos bem distintos de seu espaço de raciocínio. Chega a usar um caderno adornado de pedrinhas para enxergar melhor os problemas. Sente-se uma coitada incompreendida, às vezes, sim, e esse deve ser o seu maior pecado. Mas é uma sofrida calejada, dura. Obediente e falsa resignada. Tem história oriental, gosta de ouro e espelhos. Veste-se colorida e bonita. Os olhos, no entanto, por mais pintados, ostentam tristeza e inquietude.

316/365
Gabriela

Já com doze anos, sua diversão é articular estratégias de resgate de senhas. De todos os tipos - cartões de crédito, login de facebook, peixe urbano. Não diz a ninguém. Com boas notas, barganha equipamentos cada vez mais sofisticados ou dinheiro. O pai cede. É discreta, as informações guarda para si, não faz alarde com notícias bombásticas ou segredos. Na relação com os amigos, percebeu ter se tornado mais compreensiva. Sente pena. Não comete crimes. Pesquisa.

11 novembro 2012

315/365
Nura

Era solteira e muito familiar. Doze tias idosas e a mãe, tios muitos, de origem árabe, três irmãos, sete sobrinhos e dois sobrinhos netos. Treze primos homens e seis filhos de primos. Duas famílias próximas a ela, com ao todo onze componentes. Suas relações, aprendizados, fé e discussões políticas eram travadas com essas pessoas, além de um ou outro vizinho ou antigos amigos. Mas foi o filho do primo Leonardo que a fez sentir, mais uma vez, o que ela já julgava ter matado dentro de si: paixão, desejo, tesão. E o menino de dezesseis anos por ela sentia o mesmo. Olhos grandes, corajoso, bonito, vívido e alheio aos estudos. Ela usava saias longas que lhe ressaltavam as curvas volumosas, e deixava os longos cabelos soltos como bordados do rosto onde se destacava um grande nariz. Hoje fez três meses de encontros secretos e ele, homem feito, peludo, barbudo, lhe trouxe bombons. Transaram na área de serviço da fazenda.

10 novembro 2012

314/365
Francisca

Devia ter música de fundo quando servem comida na casa da Francisca. O cheiro, a fumaça, é tudo formidável. E dá gosto vê-la comer. Com as duas mãos, segura a ponta de uma costela assada, que pousa acima do arroz branco, com feijão no alecrim e purê de abóbora. Habilidosa, desprende a carne do osso com talher. Os cantos da boca brilham como os olhos. Entre uma mordida e outra, sorri. E a gente sorri de volta. As guarnições são meticulosamente colocadas no garfo e Chica fecha os olhos para começar a mastigação, que é lenta e compassada. O bolo alimentar dança pelas bochechas. Com o mesmo sorriso, intercala o chupar do osso e dos dedos e deixa escapar o típico "hum". Chica enche a própria barriga e a casa de alegria. A gente mal consegue comer diante dela, encantados com os movimentos e a luz.

09 novembro 2012

313/365
Lílian

Quero a cabeça dela. O quê? Isso mesmo que você ouviu. Não dá, ela é a melhor baterista do Brasil, minha amiga. Mas eu não tolero ela fazendo back vocal quando não é hora de back vocal. Ah, esquece isso. Nem pensar. A Kat é ótima. Ela me atrapalha e ainda quer aparecer mais do que todo mundo. Olha, vamos fazer assim: eu tiro o microfone dela, pronto. Tira então essa porra. Ok, resolvido. Mas se eu me virar e sonhar que ela está acompanhando ventrilocamente a música, eu paro tudo e acabo com ela. Céus.

08 novembro 2012

312/365
Heloísa

Sentiu-se uma personagem cômica atrapalhada de filme ou novela. Lembrou-se disso instantaneamente porque nunca foi atrapalhada, nunca deixou transparecer descontrole de qualquer natureza. Mas, ao ver o Gustavo todo machucado, no corredor do Hospital de Base, tropeçou em outros doentes, derrubou soro e - logo diante dele - apertou o braço recém operado do amigo, ex-marido, tão caloroso e tão crítico. Acidente de moto. Logo diante dele. Conteve-se e esperou a piada do filho da puta. Sentiu-se, enfim, ridícula, em vez de comovida, triste ou solícita. Quase o mandou à merda em resposta às risadinhas.

311/365
Janete

Falta quinta ainda. Uma conspiração do tempo esses feriados na sexta, pois cancelam o forró do Floresta. Porque é sagrado: a gente já sai do serviço arrumada. Quando o movimento está fraco, a gente fica lá fora, só tomando uma cervejinha. Meia noite é direto pra Rodoviária. Mas quando tá bom, a gente fica até as seis da manhã. As meninas todas aqui vão. Todo mundo adora.

06 novembro 2012

310/365
Liduína

Tentou disfarçar, virou o rosto, assobiou uma canção do Lulu. Mas as meninas notaram. O que ela estava fazendo ali? Resolveu segui-las mais uma vez? Péssima atriz. As garotas sentiram pena, pois era bem provável que Liduína quisesse ser uma delas. Não só pena. Desprezo também. Piveta chata. Era 1989 e era bacana sair para festas de rock na casa de alguém ou embaixo do bloco de alguém. Ela era a criancinha da turma, irmã de duas meninas integradas e populares. Não lhe davam conversa. Fumavam cigarro e maconha, bebiam e Lidu pedia permissão aos pais pra descer e seguia todo mundo, com um walkman na mão e vontade de aprender.

05 novembro 2012

309/365
Auxiliadora

O trem sacudia e fazia barulhos metalizados e intensos. Assustava. Os bancos eram retos, rígidos. Estava tensa. Minhas costas doíam, o pescoço pedia apoio, talvez cama. Doze horas de ônibus. Agora mais nove de trem. Sacolejos e lágrimas. Preciso ver Juan. É da boca dele que sairá cada motivo, numa justificativa desconsertada e canalha. O Juan é assim. Minhas mãos não pararam de tremer desde ontem.

308/365
Eurídice

Fez o Enem. Achou difícil. Leu e releu questões. Rascunhou, revisou e escreveu uma redação que quase não atingiu o mínimo de linhas. Estudou em escola pública a vida inteira. Boa aluna, representante de sala, referência em Química. Boa articuladora e envolvida com o movimento estudantil. Prova difícil. Não sabe se passa. Não sabe se consegue deixar os pais e professores orgulhosos. Todos torcendo por ela. Resolveu torcer pelo Obama.

03 novembro 2012

307/365
Clair

"Deve ser por causa dos remédios". Foi o que consegui arrumar de desculpas para o comitê de chefes que me cercou após o expediente. Vendi dois pacotes internacionais a preço de dólar, cobrando reais. Assim: os voos custavam mil e sessenta dólares e eu cobrei mil e sessenta reais. Quando informei o equívoco aos clientes, ambos ameaçaram ir ao Procon. Perdi comissão e ainda terei descontos. Isso se não for demitida, pois não bastava errar: nervosa, cutuquei uma espinha na minha testa e, em segundos, me vi sangrando diante da loja lotada. Pedi desculpas. Disse que eram os anticoagulantes. Mas eu não tomo medicamento algum.

02 novembro 2012

306/365
Xênia

Mandou fazer uma faixa e amarrou na porta do cemitério. São  vinte e oito anos sem seus pais, que morreram juntos, quinze anos sem Gildovan, seu amor, quatro sem Venâncio, seu irmão, e três sem Jussara e Ingrid, melhor amiga e filha. Os vivos são poucos agora. E tão desinteressantes. Comprou crisântemos e velas brancas. Chegou às 5h. Fiel, religiosa e carente.

01 novembro 2012

305/365
Soraia

Alheia a toda e qualquer previsão do tempo, quebrou o cofrinho de barro, catou os R$ 63,15, comeu pastel com caldo de cana e gastou tudo no salão. Fez unha com desenhos de zebra, depilação de axilas e buço, sobrancelha, escova para alisar o longo cabelo crespo, chapinha para o acabamento. Choveu muito e forte.

31 outubro 2012

304/365
Lúcia

Fez mais do que delinear os olhos claros com vermelho fogo. Prendeu no cabelo um arranjo de contas e flores. Vestiu-se de guarany kayowá para, numa marcha, ajudar a ecoar a voz de seus irmãos. Vestiu-se de índia guerreira, fazendo com que as madeixas louras se apagassem. Não era mais Lúcia. Era mulher da mata, tinha uma causa por se dedicar e, afinal, como era gostoso irritar executivos atrasados pelo trânsito já confuso. Ayaya.

303/365
Nelma

Olha lá, a mocinha passando, um ódio contido. Pensa que ninguém percebe que aquele sorriso é falso, que ninguém sabe dos rangidos de dentes à noite. E de dia. Nasceu sem notar a indiferença da mãe.
O gosto metalizado que subia do estômago à garganta a fez lembrar do dia que terminava e a fazia intuir que agora era para sempre. Acordou cedo, tomou um banho, demorou para escolher uma das nada elegantes peças de roupa, comeu rápido, já preocupada com o tempo perdido. Poderia perder o ônibus. Terça. O marido a deixara sem carro hoje. Ônibus. Nada de preocupações com as vagas.

302/365
Paloma

Quando a tecnologia, enfim, permitiu o conserto instantâneo de erros da vida, um retrocesso: odeio o fato de que tablets não tenham ctrl+z.

28 outubro 2012

301/365
Donna

Bati o pé. Era a hora do meu almoço e o supermercado estava cheio. Já avisei logo: só vou atender até aquela senhora. Reclamaram. Depois quem se ferra sou eu, sem tempo suficiente pra engolir pastel e suco e pronta pra ouvir a bronca do encarregado ou a piada dos colegas: "almoçando fora do horário, Donna". Dona... nem da minha própria vida.

27 outubro 2012

300/365
Luciana

Luciana tinha sonhos, todos objetivamente alcançáveis. Queria terminar os estudos e ser caixa ou gerente de uma loja. Juntaria dinheiro para ter uma casa com reboco e paredes pintadas de branco, com jardim e um pastor alemão. No Rio de Janeiro. Não precisaria de carro, pois a casa seria próxima a um ponto de ônibus e metrô. Por fim, gostaria muito de se casar com o Fábio Assunção, motivo pelo qual se mudaria para o Rio.
Terminou o segundo grau no ano passado, partiu para Nova Iguaçu e arrumou um trabalho de atendente de serviços ao consumidor de uma grande loja de móveis. Quase plenamente realizada ficou quando conseguiu alugar uma casa de fundos. Rebocada. Pensa em adotar o vira-latas que vive dos restos dos moradores de sua rua, o Gorila. Conheceu Fábio Ferreira, borracheiro, que trepa muito melhor que aquele branquelo da Globo.

26 outubro 2012

299/365
Marinara

Meninas são chatas, falam demais, exigem coisas demais, respeitos, regras, regras e regras. Prefiro meninos. Gostam de soltar pipa, de ser soltos. Filas de carrinhos coloridos e bolinha de gude. Qualquer barco de papel e está resolvida a diversão. Reunem-se para falar bobagens e rir e contar segredos interessantes. Meninas competem pelos melhores papéis de carta, quem é a mais esperta, a que brinca melhor com sua Barbie. Falam umas sobre as outras. Fazem conchavo, fofoca. Saco. Meninas são um pé no saco.

25 outubro 2012

298/365
Fran

Foi bem nas 12 aulas práticas de trânsito, mas o seu grande feito - principalmente para esfregar na cara do irmão - foi permanecer imóvel em controle de embreagem, hoje, no subidão do Colorado. Queria gritar de alegria, mas sabia que deveria devotar toda a sua atenção ao que fazia. Qualquer deslize e o carro se moveria. O instrutor ficou feliz, deu os parabéns, tentou sacudi-la mas Fran permaneceu séria e concentrada. Do topo da cabeça descia uma gota de suor. Ela respirava fundo e lentamente. O antebraço tremia. As panturrilhas nem sentia. Começou a pensar no sufoco que seria sair da posição, minutos depois, quando o tráfego fluísse.

24 outubro 2012

297/365
Jane

Não pôde dormir. Provas finais do Colégio Militar e revisões para o vestibular. Na mesa da sala, fazia pesquisas, anotava pontos importantes, tomava café. Em um cochilo de vinte minutos, sobre os cadernos, sonhou que o Marcelo Serrado, trajado de jaleco e touca, lhe oferecia uma massagem nos seios. Ela disse que não, quando viu-se só de calcinha na maca. Ele insistiu e ela gritou pra ninguém. De volta aos livros, viu que havia acordado o pai e o irmão, que, plantados, assistiam Jane gritar com os cabelos desgrenhados e as mãos no busto.

296/365
Leopoldina

Tinha pelos e movimentos elegantes. Olhos mostarda. Lambia-se lentamente, sedutora. Imitava as mais impossíveis posições de yoga. Do pescoço pendia uma corrente de couro e um L metalizado brilhava. Único adorno. Inventava dengos e manhas. Bebidas e fina comida ao seu alcance. Espreguiçava-se, aborrecia-se, sentia-se dona do mundo. Não tinha planos, nem compromissos. Nem mesmo culpa.

22 outubro 2012

295/365
Florência

Ressentia-se por ter nascido justo na cidade do homem mais velho do Brasil. Longeva, cuidava-se paranoicamente todos os dias, bem como rezava com regularidade para que seu Jacinto descansasse. Era a chance - a única - de ter sucesso. Assumiria o posto com honra e responsabilidade. Na primeira entrevista para a rádio local, pareceria lamentosa por ocupar o lugar do velhinho querido e se mostraria doce e madura.
294/365
Nívea

Gosto de sucos. Resolvi aderir à filosofia frutariana. Comprei um juicer potente pela TV e agora me sinto mais leve e saudável. Me mudei para o interior. Na casinha que aluguei, fiz uma horta e um pomar. Sim, estou mais leve e saudável. Minha pele anda esticadinha e reluzente. Pena não ter uma balança pelas redondezas. Até espelho aqui é difícil. Chatos só os mosquitos. Saudades de um McChedar.

293/365
Cintia

Uma tristeza que não sabia de onde vinha. Fez brigadeiro e assistiu a doze filmes argentinos, com um breve intervalo para o xixi.

292/365
Leocácia
 
Aproveitou as férias para fazer um curso de secretária e outro de segurança. Um emendado no outro. Louca pra largar os serviços gerais. Não tinha saco, mas lembrava que já havia sido bem caprichosa, quando a empresa ainda usava detergentes de boa qualidade. Lamentava as unhas sempre mal feitas, esmalte descascando. Não! Formou-se a melhor secretária da turma. E, não fosse a Layde, sua amiga igualmente desestimulada com a limpeza, teria sido a primeira da turma de segurança também. Mas as duas estavam bem, muito bem. Em breve, nada de baixar cabeça pra encarregado ou pra usuário fresco e reclamão de banheiro ou copa.

18 outubro 2012

291/365
Zaira

Quero morar no Espírito Santo, na beira do mar. Quero vento.


290/365
Susie

Entre um músculo saltado e outro do abdomem, havia um piercing com um pendente brilhante ostentando a letra J. O short - repetido ao longo da semana - tinha franjas que ele mesmo coseu e penteava eventualmente. Os pelos do peito largo raspava com gilete. Preferia os aparelhos antigos, daqueles que trocam lâmina, e sabão espumoso. Blusas ou tops, sempre coloridos. Adolescente, já tinha descoberto um orifício do esqueleto onde podia guardar pênis e testículos. Passava por uma mulher grande e sem seios. Respondia por Susie. O J do piercing, que podia ser Joaquim, João, Juvenal, Jonas ou Jefferson, decepcionava alguns e assustava outros: era a representação não pecaminosa de Jesus. Susie era uma bicha evangélica.

289/365
Querubina

E a pedido do filho, respeitado chefe do tráfico de drogas da comunidade do Açaí, ainda sem documentos, simulou um registro de nascimento com ano posterior. E o marmanjo, com seus vinte e poucos anos, passou a portar RG original que lhe atestava quinze. Na delegacia, na hora do registro, o funcionário perguntou: "tão novinho e com barba na cara, rapaz?". Dona Querubina se adiantou: "é um menino precoce".

15 outubro 2012

288/365
Lenice
 
Seguiu, a duras penas, o conselho de seu mentor de que não deveria queimar cartuchos enquanto não estivesse estabelecida no mercado. Sabia-se talentosa, sempre soube. Tentou até, por vezes, não parecer arrogante. E também, por vezes, tocou o foda-se. Que a julgassem arrogante, pretensiosa, cheia de si, não importava. Sabia exatamente o que tinha feito até ali e esperou até o último dia possível para se inscrever no prêmio. Foi selecionada. Já está entre os três melhores publicitários do Brasil. E vai se sagrar vencedora em breve. Sabe disso. Trabalhou pra isso. Merece cada centavo do prêmio, cada afago babaca e até aquele troféuzinho frágil - tanto quanto o sucesso.

14 outubro 2012

287/365
Kelly

Não podia ter mais do que doze anos na aparência - como conseguira aquilo? - e não parava de surpreender seu interlocutor. Na última pergunta, deixou-o esperar gagueira, falta de nexo ou embaraço. Fez uma longa pausa e respondeu impassível e eficiente. Fria, como era preciso. Era jovem e servia para o cargo, mas em pouco tempo aquilo seria pouco para ela. Coerentemente ambiciosa.
286/365
Juliane

Cruzou as pernas bronzeadas. Elas tinham brilho e exalavam um cheiro bom. A orquídea no tornozelo conversava com o esmalte pink das unhas. Obviamente usava shorts ou saias e sandálias muito enfeitadas. Eram pernas jovens, assim como os cabelos, muito negros. Longos, com ondulações naturais e disformes. E só isso: pernas e cabelos. Todo o resto - chegava a ser incrível - era flácido e antigo, velho, enrugado.

12 outubro 2012

285/365
Érica

Minha primeira impressão sobre o Julião foi de que ele era um bobão, largado, meio sujinho, sem noção e sem amigos. Nem quis me aproximar. Mas de tanto olhar, observar - por que ele me chamou tanto a atenção? -, acho que estou com ideia fixa. Vou à aula só para vê-lo. Até o Emanoel, professor de matemática gato, perdeu a graça. Penso no bobo do Julião toda hora. Aqueles cabelos assanhados, a magreza, as espinhas, o aparelho. E ele nem sabe que eu existo.

284/365
Helenira

Quando recebeu o ordenado, entrou numa dúvida. Merecia uma TV de LCD, finalmente, sim. E merecia, também, se ver livre da dívida da financeira (com aquele valor quitaria parte grande do que deve). Pensou, remoeu. Decidiu: deu o dinheiro todo na mão de Antônio, na esperança de terem tudo em dobro, nas cartas, no bicho, nas máquinas.

10 outubro 2012

283/365
Cícera

A colega, casada com uma bicha enrustida, resolveu tirar a hora do cafezinho para lhe contar as loucuras sexuais que passara com o marido na noite anterior. Aproveitou também para narrar com detalhes as grosserias do rapaz, tentando, a todo custo, fazer Cícera acreditar - caso tivesse notado o jeito dele - que o marido era macho, muito macho. Não chorava, deixava meias espalhadas pela casa e não entendia nada de gloss e rímel. Nenhuma paciência com crianças e tinha horror a nadadores que se depilavam. Era inteligente, sim, mas não sensível. Cícera ria por dentro. Cada uma acredita no que quer.

09 outubro 2012

282/365
Arlete

Bastou perder oito quilos pra se ver com a silhueta da Tessália, comprar uma calça da Suelen, fazer um megahair da Olenka, usar um colar da Carminha, os tamancos da Monalisa, a mula manca da Alexia. Passou a rezar pra achar um Jorginho ou um Darkson ou um Iran ou um Leandro. Vive no Divino.

08 outubro 2012

281/365
Morgana

Por menos bruxa que a minha aparência os faça supor que sou, lamento informar: vivo de feitiços, simpatias, magias, ritos secretos e belos.

07 outubro 2012

280/365
Ivana

Os cabelos dela crescem mais rápido do que quaisquer outros; são fortes e cheios, apesar da alimentação deficiente e das quedas. Solta-os quando molhados. Prende fios, espontaneidade e desejos fabulosamente. Atrás dos óculos esconde também o agito, o desassossego. Contraste com saias ou shorts curtos. Costura colchas e fronhas, estuda, faz doces pra engordar a família, cuida do amor, da vida, da casa. Gosta, à distância, de chia, agrião, ovo e sementes de girassol. Usa hidratante todos os dias em que não sente preguiça. Trabalha de sol a sol, mal cuida dos cachos.

279/365
Tainá

Adepta que é da cozinha macrobiótica, da yoga, da meditação tailandesa e, igualmente, do desapego ideológico, resolveu ontem experimentar. Escolheu um show de pagode na Barra Funda. Misturou cerveja, vodca e energético (ou seria guaraná?). Acordou com diarréia ocasionada por um hotdog com milho verde, batata palha e cerca de 200g de maionese.

05 outubro 2012

278/365
Gilmara

- O senhor me paga um almoço?
- Pago. Sente-se aqui comigo.
- Não, não. Eu quero só o almoço.
- Então, sente-se aqui comigo. Me faça companhia. Você mora onde?
- O senhor quer fazer caridade ou comprar minha companhia?
- Quero lhe ajudar, ora.
- Então pague meu almoço.
- Certo, mas sente-se aqui comigo, vamos conversar.
- Não. Minha conversa não está à venda.

04 outubro 2012

277/365
Divina

Não posso ter vergonha de dizer o que mais sinto falta da vida com o Alexandre. Vão me chamar de velha depravada. E daí? Se tem uma coisa boa em envelhecer é poder ser o que a gente é. E meu coração dói de saudade quando fecho os olhos e vejo aqueles braços fortes espancando um bife para o nosso jantar - ótimo cozinheiro caseiro -, quase sem tirar os olhos de mim.

03 outubro 2012

276/365
Wanderluce

Me sentindo a própria Frida, desenhei borboletas no molde de gesso da minha barriga de nove meses. Forcei todas as barras para confirmar a teoria de que gravidez é algo lindo e perfeito. Fingida. Arthur tem hoje três anos. E o que eu faço com esse simulacro de escultura que já não serve pra nada?

02 outubro 2012

275/365
Fátima
 
Temo pela minha reputação. Sempre. Peço desculpas, faço saber dos meus arrependimentos e dúvidas e – falsamente – interrogo sociedades sobre possíveis injustiças nas leituras dos meus atos. Puta merda, como me incomoda e tira o sono alguém pensar sobre mim algo ligeiramente diferente do juízo que eu mesma faço sobre mim. Que diria daqueles que me desprezam? Saber da existência deles quase me abre chagas na pele. Todos me olham. Cultivo esses olhares e desprezos. Pra quê? Talvez porque não tenha amores suficientes para cuidar ou vida que me preencha e lime meu tempo vago.
 
 
274/365
Araci
 
É asco o que Araci sente por Ítalo. Mas não pode esquecê-lo. Sonha quase diariamente os sonhos mais sensuais de toda a vida, com ele. Ítalo é um nojentinho contínuo do escritório. Por vezes, lança olhares para ela – olhares que ela não quer decifrar. Pragueja, em silêncio, coisas terríveis ao inseto Ítalo. E ele lhe sorri. Certo dia, a contragosto, recebeu dois pequenos tabletes de doce de bananas, sem qualquer palavra. Forçou um agradecimento entredentes, mas quando Ítalo virou-se jogou as peças no lixo. Por que esses sonhos? – perguntava-se.

30 setembro 2012

273/365
Marina

Ser alegre, para ela, é parecer alegre, é fingir. É, acima de tudo, sentir inveja da alegria real de outrem. Amar ama; viver vive; trabalhar trabalha; rezar reza; sofrer sofre; problemas tem. Tudo dentro da normalidade pequeno burguesa típica e medianamente classe média. Alegria, no entanto, é artificial, como uma fatura apresentada a uma sociedade que a acolhe e despreza. Mulher de tino, talvez, desextraída a apatia. Mas mulher sem timo.

29 setembro 2012

272/365
Hebe

Acabou a missão dela. A luz não.
271/365
Sebastiana

Acácio conheceu Sebastiana em 1977, meio índia, cabeluda. Acompanhou o crescimento físico e talentoso dela. Soube, seis anos atrás, que ela fugiu para Rondônia. Sente falta das noites varadas conversando ou tocando violão. Cigarro, violão, cerveja. Sente falta dos olhos e do amargor de Sebastiana.

27 setembro 2012

270/365
Nathália

André tomou banho e saiu para a padaria. Voltou e tomou banho. Outro banho? Deve ser o calor.

26 setembro 2012

269/365
Leandra

Tenho nome de atriz famosa, vinte anos mais jovem do que eu, mas sou um trapo humano. Minha pele tem cor de poluição; meu hálito e minhas secreções têm mais germes, vírus e bactérias do que qualquer pessoa com higiene duvidosa. Eu não tenho higiene alguma. Morar mora-se em casa, com banheiro, água encanada, esgoto. Ou nem isso, se for uma fazenda, mas se tem família ou um fogão à lenha, pelo menos. Na rua não se mora: se dorme, se come, se perambula, se droga, se rouba, se cansa, se esquece que é gente. Não me lembro do cheiro de um banheiro limpo. Do meu passado, só tenho o nome: Leandra. Não aceito apelido.


268/365
Jandira

Suor. Carlos chegou. Raspei a periquita e fiz feijão gordo. Ele gosta. Botei o Julião, o Carlos Jr, o Frederico e o Riquelme pra dormir na vizinha. Passei o perfume que ele adora. Sintonizei, baixinho, uma rádio romântica. Carlos chegou. Cachaça. Não, isso não vai prestar. Vagabundo, jogou o prato longe - ainda estava quentinho. Ele odeia rádio quando bebe. Ele vai me matar. Onde estão meus meninos? Onde me escondo?

24 setembro 2012

267/365
Fabrícia
 
Coisas que jamais fiz: nunca fui presa; nunca perdi oportunidades de emprego, mesmo que já estivesse empregada - mas isso me fez ter uma carreira irregular; nunca tive filhos; nunca disse eu te amo com sinceridade a ninguém; nunca assisti Lost; nunca consegui comprar um ventilador que desse conta do calor de Palmas; nunca fiz compras de supermercado sozinha; nunca fui traída; nunca aprendi a dançar salsa ou rumba; nunca ganhei honestamente uma partida de sinuca; nunca saí do Brasil; nunca joguei um jogo oficial de vôlei fora do banco de reservas; nunca preparei um jantar romântico pra ninguém; nunca recusei um convite para churrasco na laje; nunca comi jiló; nunca estudei o suficiente; nunca fiz jogo de sedução para um homem que eu achasse que valesse a pena; nunca encontrei um homem que valesse a pena. 

23 setembro 2012

266/365
Carolynne

Coisas que já fiz: papel de idiota total, esperando um namoradinho gringo na porta da casa dele, em Barcelona, para vê-lo sair com uma ruiva; papel de idiota total II, cantando num programa de TV, certa de que minha vocação era essa - e nunca foi; papel de idiota total III, comprando carnês vencidos ou fraudados do Silvio Santos de um falso ambulante na Sé; voei de asa delta; mochilei pela Europa; namorei um japonês pelo tempo exato necessário para aprender seu idioma; bordei toalhas com senhoras do Lar dos Velhinhos, em Brasília; sumi deste mundo por três meses; tive um filho; enterrei minha avó, que me criou; faculdade de Física, História, Matemática e Estatística - sem concluir nenhuma; tive outro filho; comprei uma casa em Madureira; casei; papel de idiota total IV - perdi a casa num jogo de azar; aprendi a dirigir.

22 setembro 2012

265/365
Vitória

E no decorrer da conversa descobriram-se, as três, mães solteiras. E entre as coincidências, dicas, sugestões e experiências trocadas, chegaram ao seguinte resultado sobre os respectivos pais: o da primeira era um crápula mercenário e pão duro, não pagava pensão, mas era presente na vida do menino, carinhoso, atencioso; o da segunda, pagava uma quantia mensal bem gorda, que a permitia trabalhar menos inclusive, mas não lembrava nem do aniversário da princesinha; o de Vitória, nem pensão, nem atenção. E assim a conversa se voltou para ela, um turbilhão de orientações para mudar a situação de modo inteligente e eficaz. Vitória sequer ouviu. Optara, há muitos, pela paz.

264/365
Aparecida

Casou-se virgem. Nos primeiros meses mentia para todos, contando, sem detalhes, as alegrias da vida a dois. Não sustentou a versão - a mãe e as primas já desconfiavam -, pois viu-se diante do inusitado diagóstico proferido por sua médica de confiança: alergia aguda a esperma. Ou ao menos ao esperma do amado, que nem se sabia mais amado, que nem sabia sentir vontade de ter relações com Cida. Os exames não puderam detectar outra coisa. Mas a médica a confortou: é apenas uma alergia. Não vai matar ninguém. Vida normal? Filhos? Talvez, se ela conseguir superar o medo da coceira. E se ele conseguir superar o medo da cara dela durante o ataque.

20 setembro 2012

263/365
Tatiana

Os seios cheios ficaram para antes da chegada do menino, quanto tudo mudou. O corpo voltou. A alegria, idem. O coração não - foi ajeitado, ajustado, arrumado. Vida que segue. Com os seios pequenos, é ainda guerreira e esperta. Cheia de vida, cheia de cor.

19 setembro 2012

262/365
Nathaly

O equinócio estava próximo e algo no corpo dela dizia isso. Dor? Incômodo? Suspeitou de TPM, gravidez, climatério, o escambau, mas nunca do instante em que o Sol cruza o plano do equador celeste no ponto em que a eclípica cruza o equador celeste. Intuitivamente, procurou um astrólogo - que quis chamar de astrônomo por sua conta - e ele explicou: Nathaly era primaveril - em todo e qualquer sentido que a palavra possa receber. Não à toa, nasceu em um equinócio de setembro; não à toa, tinha um signo que variava de acordo com a vontade do horóscopo: virgem ou libra. Devia sentir-se bem entre os dois, misturando características e destino. Mas, apesar das descobertas, o algo estranho no corpo, motivador da visita, o astrólogo informou: eram gases, nada mais.

18 setembro 2012

261/365
Raquel

A moça perguntou quanto era o aluguel da mesa da Galinha Pintadinha. Eu disse R$ 150. Ela respondeu: "ótimo, quero alugar". Aí preenchemos os papéis e, aos poucos ela foi se irritando. Primeiro, quando informei que as toalhas e o cavalete não estavam inclusos e custavam R$ 40. Depois, o frete, R$ 30. Ela gritou que mora a menos de cem metros da loja. Então eu disse que era melhor ela vir buscar. Ela respirou fundo. Achei que ia ficar tudo bem, então informei que, caso o material voltasse sujo, a taxa de limpeza seria cobrada: R$ 30. Mas ela só começou a me agredir mesmo quando eu disse que, por conta da data da festa cair no fim de semana, o aluguel sairia R$ 20 mais caro.

17 setembro 2012

260/365
Marília

Sonhei com o crápula do Dirceu. Não adiantou acordar no meio da noite, respirar, fazer xixi e tomar água; o sonho continuou até as 7h, em sequência absurdamente clara. Conteúdo real, mas que nunca existiu. Estávamos juntos ainda, mas o sentimento da separação era óbvio. Ele me tratava como uma cachorra. Passava por mim, dentro da casa, com o único cuidado de não esbarrar. Eu o chamava, perguntava coisas, inclusive quis esclarecimentos sobre aquela situação - afinal, não tínhamos nos separado? Ele me ignorava. Parecia apenas tolerar a minha presença. Pouco depois, não estávamos sozinhos. Havia uma moça com quem ele conversava e falava sobre o trabalho e a casa. Com ela, consegui conversar, mas se recusou a me explicar qualquer coisa relacionada ao meu casamento com Dirceu. Comecei a ser tratada por ela como uma clandestina, às vezes efetivamente escondida. Ela me respondia tudo sobre a casa, o trabalho dos dois, os filhos (filhos?). Acordei justo quando presenciava um beijo deles. Apaixonado. É, caiu a ficha. Morri para Dirceu.

16 setembro 2012

259/365
Palmira

Me chamam de camela, pois sou a única a gostar da seca brasiliense. Nunca tomo muita água mesmo, meu corpo está adaptado. As roupas e as unhas secam logo, os cabelos ficam menos oleosos e até o porco do meu enteado, o Ismael, usa hidratante após o banho. Tenho disposição para lavar meu alpendre todos os domingos, durmo mais cedo e o silêncio é permanente em casa - as crianças economizam saliva. E o melhor: a minha sorveteria vira o sucesso do Gama.

15 setembro 2012

258/365
Noemia

Deitou-se no colo da vovó Noemia - aconchego garantido. Estava brava com a mãe, que a impedira de ver televisão. Ela não fez o dever. À avó não cabia sequer comentar a decisão da mãe. Bastava o silêncio habitual, o cafuné, o copão de café com leite. Noemia era avó das antigas. Apesar da cara esticada por botox e do corpo bem arrumado pela malhação diária, cheirava a flor, rezava toda noite e ensinara a neta a fazer biscoitos de povilho.

257/365
Aluísia

Entendeu que era hora de gritar, urrar. No entanto, comedida que é, optou por uma pergunta direcionada: quantas vezes mais vou ter que repetir que quero ser fútil às vezes? Do outro lado, a incompreensão de Hudson aumentava. Não entendia porque uma mulher inteligente e profissionalmente promissora - a sua futura esposa, afinal - se encantava com novela, programas de auditório, design kitsch, rap e bingo.

13 setembro 2012

256/365
Marcelle

Não aprendeu a ouvir "não". Não é exatamente uma lutadora, motivada por adversidades. Os "nãos" a fazem fazer birra, sapatear. E a coerência lhe é certa: também não aprendeu a dizer "não". Faz com sorriso, feliz ou triste, sem pensar no que realmente quer, o que lhe pedem.

12 setembro 2012

255/365
Lázara

Já estou malhando mais efetivamente. Notam-se músculos saltados nas minhas coxas, os braços mais definidos, barriga travada, bunda empinada. Sim, eu poderia ser uma mulher fruta. Os cabelos vou descolorir amanhã e, na terça, pego a roupa na costureira - a roupa do vídeo. Comprei vários shorts pequeninos. Exibo diariamente uma silhueta invejável, bronzeada e saudável. Simpatia? Na maioria dos dias, sim. Tranquei a faculdade de fisioterapia, que faço só para passar o tempo porque gosto de corpos. Sou oftalmologista (gosto de olhos também) e já pedi licença do hospital em que trabalho. Porque agora tenho apenas dois objetivos: passar na cara do César o que ele perdeu e entrar no Big Brother Brasil 13.

254/365
Janaína

Devia ser algo mágico, impossível de compreender com as partes do cérebro que resolvemos - humanos - desenvolver. Para lidar com qualquer um neste mundo, tudo normal. Para lidar com a professora, não. Ela entendia Janaína sem que esta precisasse ser muito específica ou detalhista ou objetiva. Uma falava e a outra completava, com raciocínio processado, solução e precisão. Haviam sido mãe e filha ou pai e filho ou pai e filha ou mãe e filho em uma vida passada. Ligação forte, fisiológica até. Nesta vida, encontraram-se pelo acaso da busca profissional de Janaína e pelo ofício de Jerusa. E se admiravam do que quiseram chamar de coincidências. Estão, neste instante, quase apaixonadas.

10 setembro 2012

253/365
Hélida

Portuguesa gélida. Mandou Amaral ao inferno logo no início da conversa. Não tem tempo a perder. Se algo dá sinais de problemas, lima. Amaral, doce, cometeu o pecado de pedir que ela telefonasse logo que chegasse em casa, para ele saber se tinha chegado bem. Hélida não enxerga boas intenções. Para ela, é tudo prático, reto, sem sonhos ou devaneios. Decidida.

09 setembro 2012

252/365
Fabiana

Mainha disse que fui insolente. Mas acabou que meu pequeno ato revolucionário não invalidou a benção do pastor. Revolucionário até que ponto? Eu não estava armada com o meu silêncio não. Até quis responder, mas não consegui. Foi anatomicamente impossível. Emudeci e meus lábios grudaram, ao mesmo tempo, sem premeditação. A repercussão, no entanto, foi terrível. Na minha amada igreja, fiquei conhecida como aquela que não disse amém quando convidada a confirmar que a mulher deve ser submissa, ajudadora do homem na sua missão na terra. O pastor nos casou, mesmo assim. Com Wanderson não falei a respeito, mas pude ver em seus olhos que ele aprovou minha afonez.

08 setembro 2012

251/365
Damiana

O cansaço, a semana cheia, a incompreensão me fizeram sentir dor de cabeça. A dor de cabeça me fez acordar impossibilitada de faxinar a casa da dona Yuki. A falta ao trabalho me fez não receber qualquer dinheiro para o fim de semana. Sem dinheiro, como comprar o presente e preparar uma festinha de aniversário para o Rico, meu amor? Sem presente e sem festinha, Rico se irrita e volta a especular se tenho um amante, pois não ligo pra ele e... o que eu fiz com o dinheiro? Com Rico irritado, sem amante, sem dinheiro. Que cansaço! A semana vai ser cheia de incompreensão e dor de cabeça.

07 setembro 2012

250/365
Bianca

Não entendo porque, nesta cidade, o nosso parece ser o salão menos frequentado. Nosso preço é bom, está na média. Tudo bem que não somos um poço de simpatia - e lá no Maranhão ninguém é -, mas eu e a Dionízia fazemos unha bem, minha cunhada depila bem e minhas irmãs são ótimas com penteados, escovas, hidratações, alisamentos, tinturas. Minha prima é a responsável pela maquiagem. Até concurso já ganhou. O que falta, então? Sorriso?

06 setembro 2012

249/365
Ana

- Isso é mais comum do que tu imagina, filha.
- (com lágrimas nos olhos) Pode ser comum, mãe, mas dói tanto. Assim que eu me firmar em São Paulo mando buscar os meninos. Escreva o que tô lhe dizendo.

05 setembro 2012

248/365
Yane

Então, por culpa, liguei para o Wilson e disse que estava com muita saudade. Ele foi afetuoso. O meu sentimento era sincero: naquele momento, eu era plena de saudades. Mas não de Wilson. Pela manhã, tive que vasculhar mensagens antigas para provar que havia entrado em contato com a minha operadora de celular dois anos antes informando um problema crônico. Evitavelmente – mas um impulso qualquer me fez querer –, comecei a reler e-mails do Jorge. Namoramos serenamente por oito meses e ele se mudou para outro país. Espirituoso, em uma das conversas que encontrei, ralhava comigo por eu ter lhe contado que conhecera Wilson: “como assim namorando? Nós nem terminamos”. Escolhia cada palavra, certo de que me faria rir e rir e rir. E, sim, eu ria e ria e ria. Jorge lia, pacientemente, meus contos e poemas e comentava com uma mistura de carinho, admiração e seriedade. Era um crítico literário consagrado no Brasil e eu me sentia envaidecida. Até hoje não tenho certeza se ele gostava mesmo do que eu lhe mostrava ou se apenas gostava de mim. Aos poucos, deixamos de trocar correspondências. E essa relação, que com a distância se converteu em amena amizade, perdeu-se. Não sei mais dele. E é evidente que não encontrei o e-mail sobre problemas com o celular.

04 setembro 2012

247/365
Waldirene

Veio de baixo, do Baixo Xingu. Tecnologizou-se, urbana reprimida que sempre foi. Gosta de notebooks, celulares, tablets, redes sociais, blogs, emails. Gosta de dar ordens. No princípio, encantava-se com tudo, deslumbrada e alegre. Agora, entedia-se. Quando recebe mensagens com a palavra "novidade" no assunto, escolhe entre deletar e deixar para ler muitos dias depois. Dos jornais on line vê as manchetes, especial demais que é para perder tempo com isso. Gestora, impositiva e esperta, antenada. Está à frente e acima. Passado? Que passado?

03 setembro 2012

246/365
Hilda

Nome, apelido, time, tudo misturado. Parece piada. Hilda Furacão, batizada com um destino estabelecido: é a beldade preferida dos frequentadores, dos garçons e do dono do Prajá. A única com cartãozinho vip de fidelidade. Mas o bar está em reforma. A Arena está em reforma. O Atlético está em reforma. Na segundona, depois de 15 anos consecutivos na série A. Hilda Furacão lamenta: não funciona ser beldade sem público. Não tem mais onde exibir a coxa. Branca.

02 setembro 2012

245/365
Ully

Uma vez Fl... não é fácil completar essa máxima no estado em que o meu mengão se encontra. Hoje, perdeu de novo. Sinto raiva. Dá vontade de torcer pra qualquer outra porcaria. Porra, sou vítima de chacota, bullying. Mas torcer pelo rubronegro não é decisão. Não é nem mesmo paixão. É compromisso. Sempre Flamengo. Sempre Flamengo. Sempre Flamengo.
244/365
Sandra

Era bem possível que, vivendo no Parque São José, sofresse com o calor e a seca, atípicos da capital. Eram dois ônibus até a casa da patroa, Marilu, de segunda a sábado. Era uma vida dura. Os domingos reservava para duas devoções: a igreja e o futebol. Perdeu o último jogo, sexta passada, contra o Guaratinguetá. Empate. Neste 2012, reservava os domingos para louvar Jesus e chorar pelo Ceará. Na casinha pequena, no quarto que dividia com a irmã, na cama de solteiro, com colchão fino e madeira escura, amassava o recorte de jornal com os resultados da série B. Lhe agoniava o estado estanque e pouco empolgante em que o vozão se encontrava.

31 agosto 2012

243/365
Nilmara

É enrolada. Pula de subemprego em subemprego. Tem dívidas em pelo menos duas sociedades de crédito, não sabe falar em público e é craque em pegar ônibus errado e perder horários marcados. Porém, sugere-se arriscar a invistir e confiar na articulada Nilmara torcedora do Náutico. A paulistana que se pernambucou há dezenove anos dá palestras, acerta datas, canta hinos, recita versos e tem de cor as alcunhas, os títulos, as escalações do seu alvirrubro, desde 1901.

30 agosto 2012

242/365
Rachel

Daí começou o segundo turno. É a nossa chance. Bora, Figueira. Já fiz promessa. Enquanto a gente não sair da zona, não como marreco. Bora, Figueira.

29 agosto 2012

241/365
Mara

E essa agora? Tenho que ter um time? Difícil escolher. Pelo pouco que acompanho, nem as grandes equipes têm andado muito bem das pernas. As pernas do Fred são bem bonitas e o Fluminense é uma boa promessa no Brasileirão. É pode ser que eu escolha o Fluminense, então. Mas vai que o Fred é vendido amanhã? Como é que eu vou ficar? Hmm. Anuncio, então: Divino Futebol Clube. Tem um monte de homem bonito. É mais garantido. Mas a novela vai acabar... droga. Ok, fica o Fluminense mesmo.

28 agosto 2012

240/365
Laís
 
Começou com o irmão a frequentar a embaixada são-paulina no Acre. Apaixonou-se pelo time e os marmanjos de Rio Branco se apaixonaram por ela. No próximo dia 31, concorre ao título de Musa da Torcida Independente, no Excalibur Night Club, às 23h. Tricolor esperta, tem queda por homens maduros: sonha com Rogério Ceni e Luís Fabiano constantemente. O irmão tem ciúme, protege, mas sente orgulho. Sua maior realização, se for sagrada musa da noite, será conhecer o Morumbi em São Paulo. Nunca viajou de avião.

27 agosto 2012

239/365
Ilma

Fui criada como menino, com os meninos. Brincando na rua, soltando pipa, fazendo carrinho de rolimã. Não sei fazer galinha caipira, pão de queijo, doce de tacho. Aprendi, a duras penas, a lavar minhas calcinhas e a desembaraçar meus cabelos - que minha mãe sempre preservou longos. Confesso que eventualmente me pego sentindo vontade de me maquiar, de pôr um salto nos pés, um vestido. Mas não consigo nem tentar. Meus dias são com jeans e tênis. Namorado de verdade nunca tive. Só me envolvi com uns cruzeirenses, como eu, amigos dos meus primos. Eles se interessaram por mim provavelmente porque, com eles, eu não implicaria pelo controle da TV para ver novela, não reclamaria de toalha molhada e nem de meias espalhadas. Nunca. 

26 agosto 2012

238/365
Grazielle

Nessas férias forçadas, sem dinheiro suficiente pra sair da cidade, só quero badalação - de preferência de graça. Se tive essa folga forçada, um sinal há de ser. Estou sentindo o cheiro do fim da solteirice. Mãe Isolina já tinha me anunciado. E hoje é dia de Brasileirão. Bahia na série A. No estádio, tanto homem meia boca. Mas alguns dão até um caldo. Será um desses? Venho bonita, no salto, com bandeirão servindo de saia.

25 agosto 2012

237/365
Ednanci

É discreta, elegante. Jeans só em casual day, e escuro, sem firulas. É executiva de agência internacional. Poucos são os eleitos que conhecem os cabelos longos e despojados: vivem presos, burocraticamente comportados. E menos ainda são os que sabem de sua paixão - parece até vida dupla: tem tatuado nas costas nada menos que um gavião de 22,5cm. E na altura da marquinha do biquíni (só toma sol em praias distantes), o escudo do timão. Os dois dentes centrais superiores são fruto de implante. Os originais foram cuspidos fora em brigas da Pavilhão 9. No escritório, acessa os resultados pela internet e, se for o caso, espia jogos. Mas não perde o foco. Diante de diretores e gerentes, exibe planilhas alvinegras e equilíbrio.
236/365
Camile

Sou bonita e promissora atriz de talento. Tenho longos cabelos, independência financeira, carro e não me importo em dividir contas. Meu trabalho demanda viagens constantes, mas sou boa em compensar ausências. Gosto de balada sertaneja, tomar café da manhã nas milhares de padarias de Porto Alegre e de cinema, teatro. Promissora atriz de talento. Agora o mais importante: meu coração é colorado. Se for gremista, por favor, nem escreva.

23 agosto 2012


235/365
Adriene

Nasci na Vila e lá em casa todo mundo é peixe. Pra ser santista não se escolhe. Sabemos os hinos de cor; os títulos, de salteado. Tem foto do Pelé na entrada da minha casa – que serve até de carranca. Ir à Vila em domingo de jogo é fato indiscutível: até a velórios já faltei. Meu alvinegro praiano é glorioso; é motivo de orgulho. Mas hoje é um daqueles dias em que dá vontade de nem sair de casa, de tanta vergonha. A foto do Pelé eu já virei pros porco-filho-da-puta não me zoarem. Aquela bosta daquele Neymar perdeu um pênalti. Sobra dinheiro e falta juízo na cabeça de piabinha – desonrar assim o meu Santos.

22 agosto 2012

234/365
Solange

Sempre fomos pobres. Ele não poderia me deixar mais do que uma paixão pra dar razão à minha vida. Morto há vinte anos, com sessenta, atropelado com a camisa do time do coração. Era verdureiro e atravessava a rua com o tabuleiro suportado pelo carrinho de mão, com alguns poucos restos do dia. Hoje, vivo de Ferroviário. Já recebi homenagens, inclusive em nome dele, torcedor ilustre. Faço quitutes para a diretoria do clube e para os rapazes que cuidam do site. Saudade do meu amor, da nossa vida sem dinheiro, sem filhos. Vivo das glórias passadas, antigas. Vivo coral.

21 agosto 2012

233/365
Florence

Essa tia Ivete é uma idiota. Minha mãe disse que ela é a melhor professora de piano do Brasil, que sabe olhar pras pessoas e dizer se têm talento ou não. Que bobona ela é: não conseguiu perceber que eu toco piano desde que nasci. Primeiro, aprendi a tocar. Depois, a falar, andar etc. Que hilário! Ela me olha como se eu fosse deficiente mental, chega a ser ridículo. Tudo o que ela tenta me ensinar eu já sei há séculos e, por isso mesmo, retribuo com um olhar autista. E a minha mãe pagando... pra quê? Só pra eu escrever em algum lugar que fiz aulas formais de música? Sem querer parecer presunçosa, ela é que devia pagar pra eu ensiná-la. Mulherzinha besta. Pra mim, basta.

20 agosto 2012

232/365
Ivete

A menina não aprende. As informações iniciais da mãe estavam equivocadas, certamente. E eu sei enxergar um talento quando estou diante de um. E, não, definitivamente, essa menina não tem vocação para a sofisticada arte de dedilhar o piano. Não tem desenvoltura, elegância e ouvido. Vou ter que me desfazer da aluna. Está tomando um horário precioso. A mãe paga bem e direitinho, mas a menina é empacada, lerda e ineficiente. Para mim, basta.

19 agosto 2012

231/365
Naitê

Bonito ver a noiva, tão plena. De branco, véu e rendas. Católica igreja de rosas brancas. Clichê que aqui se desesvazia: sólido que é. A noiva de que falo é completamente noiva. É, talvez, a pessoa mais bondoza do mundo inteiro. Pura como o branco supõe. E que erra, sim, mas está sempre em busca de ser compreensiva, paciente, tolerante, boa. Na ficção e na realidade, é ela: bela pura noiva plena.
230/365
Dayane

Receita para ser eu: faça uma base grossa de frustração, intercalada por algumas conquistas; a partir delas, um pouco de arrogância. Da camada de amor, firme mas de espessura mediana, deixe crescer algumas dores, amarguras e alegrias, nessa proporção. Acrescente uma camada rala de preguiça, gosto por cinema e açúcar e, para cobrir, use a raiva e os rancores, que vão dar o aspecto de crocância justamente por sua característica de superficialidade e transparência. Resista à tentação de acrescentar religiosidade. A mistura certamente vai desandar. Deixe cozinhar devagar, por 27 anos. E aproveite o resultado.

17 agosto 2012

229/365
Valesca

Sou feia. Tenho uma boca grande e disforme, que realço com batom vermelho. Bochechas caídas, sulcos acentuados. Meu cabelo é louro, pintado há meses, com raiz preta e escova progressiva. Uma franja dura cobre minha grande testa, mas não balança nem mesmo com tufões. Tenho seios grandes que parecem se misturar à também grande barriga. Pernas finas. Meço 1,50m. Uso invariavelmente legging, tamancos macios beges, uma blusa multicolorida e, nos dias mais frios, casaco de lã, que, com a bolsa e os seios me dão um visual ainda mais atarracado, compactado e risível.

16 agosto 2012

228/365
Vera

Em Volta Redonda, Vasco da Gama. Virou-se, verteu-se. Vazou: Verona, verão. Vinho. Valença, Viena, de volta Verona. Vício. Voo. Valparaíso. Voou. Vietnã. Valhai-me. Vera, vagabunda, vaca, vampira. Verdade: veneno, vingança. Vestiu-se. Vitória? Virtude? Viu. Vera voltou, virginiana: Vila Velha-ES.

15 agosto 2012

227/365
Zélia

Tem quase cinquenta. Não consegue respeitar seus colegas de trabalho. É professora. Novos ou antigos, eles formavam, para ela, um bando de reacionários ao contrário - ou disfarçados. A greve de todos os anos, para eles, havia se convertido nas férias merecidas e tão relegadas. A greve de todos os anos, para ela, era trabalho normal e contrariedade dos alunos. Não interessava, repetia o discurso: "estamos aqui, apesar da greve, para fazer a diferença. Quero contribuir com o futuro de vocês". E recebia, em resposta, interjeições desapontadas. Zélia, para os alunos, era uma heroína antiquada e, para esse fim, ineficiente. Gostavam dela, mas sentiam pena e não viam resultado prático. Zélia, para os colegas, era uma desertora safada. Não gostavam dela e não viam resultado prático.

14 agosto 2012

226/365
Gilda

Ensaiou cruzar os braços. Não cruzou. Catou a caneta, bateu na mesa, girou, bateu de novo. Enxugou um suor inexistente na testa, mexeu nos óculos coloridos. Era corriqueiro estar agitada, mas, naquele dia, estava especialmente ansiosa. Esperava Wilson Rondon, cliente potencial da agência e seu namoradinho de infância. Sabia que não era sensato deixar emoções interferirem. Entretanto, ali, pela primeira vez, se via sem controle.

13 agosto 2012

225/365
Martina

Resolveu cavucar o passado. Reservou o domingo para tirar a poeira de velhas caixas, reler antigas cartas, ver fotos amareladas. Sim, esse movimento lhe era especial e ela permitiu, falsa concessora que é, que lágrimas caíssem dos olhos ainda com poucas rugas para a idade. Manchas nas mãos ainda não havia, mas tinha a alma marcada, um passado com dias bons e anos ruins, doídos. Amados mortos, desilusões, caminhos profissionais não finalizados, tudo disfarçadamente refletido em roupas escuras e face amarrada, sem riso. Mesmo assim, cavucar coisas velhas lhe proporcionava o prazer que já não acessava pela cidade, com amigos ou supostas diversões.

12 agosto 2012

224/365
Ieda

E qual não será a surpresa de Ieda quando se souber, por vias terapêuticas, invejosa e mal humorada? Quando entender, diante de si mesma, que é a maior lançadora de olhares maldosos e péssimas energias aos seus interlocutores - aqueles que ela tanto diz que ama? Quando for capaz de enxergar que nem o seu passado justifica tanta sujeira?

11 agosto 2012

223/365
Margareth

Já não chovia há dias. As peles sem creme se esfarelavam. A família Alencar disputava as espreguiçadeiras a tapas. Mas Leopoldo e Margareth saíram da briga. Os filhos interpretavam como maturidade senil, mas os dois, oficialmente divorciados há uma década, sabiam bem que tipo de disputa lhes interessava. Os netos, fazendo guerra de mangueira, nem reparavam no fato dos avós se absterem de qualquer confusão. Quando a poeira baixava - e já podiam-se ouvir roncos e pensamentos -, se olhavam. Numa piscada respondida por um meio sorriso, levantavam-se discretamente rumo a um canto pouco visitado da casa. Longe dos olhares dos atuais cônjuges, dos filhos, netos, enteados, sobrinhos, cachorros, periquitos, trocavam beijos, juras, promessas. Enquanto não se revelarem, contra a própria vontade, permanecerão assim: a clandestinidade era mais um entre os muitos temperos.

10 agosto 2012

222/365
Débora

Ligou aos prantos para o namorado. Havia perdido a vaga no grupo de ginástica olímpica. O tórax largo, ainda de colant de treino, tremia e as lágrimas escorriam melando o rosto sem maquiagem. A boca abria e fechava num movimento que não permitia que se vissem os dentes, só a língua, e muita saliva espalhada. O namorado mal conseguia entendê-la. Duas faltas e não relevaram, não tiveram piedade. Ela não pôde argumentar, chorar, implorar. Não tinha atestado, justificativa da mãe a próprio punho, declaração da escola. Nada. Agora, nem vaga no esporte que ela sempre julgou que seria o seu futuro.

09 agosto 2012

221/365
Vilanir

Gostava de saias curtas e rodadas para todas as festas. Telefonava para um e outro e, em minutos, estavam todos no estabelecimento de dona Vilar, a mãe. Vilanir era bonita, negra, iluminada, cheirosa, com muito cabelo, pele brilhante, ressaltada pelas roupas claras, sempre claras. Cantava samba como ninguém e arriscava no tamborim. Torcia, com o seu rebolado natural, o pescoço de tudo que é homem. Entretanto lhe interessavam apenas as mulheres. E, para uma linda cantora de comunidade, feminina, preta e pobre, era inaceitável, inconcebível que não virasse uma - talvez famosa - artista local, boa mãe e esposa. Chorava todas as noites no colo de dona Vilar.
220/365
Antonieta

E a careta Antonieta, alheia às novidades do universo, ganhou na promoção da Band News FM Brasília um iPad 2. Meses lendo o manual, conheceu o Facebook, mas não se encantou. Está apaixonada, isso sim, por um app famoso. Ele resgatou a Antonieta artista, sensível. Não larga o dispositivo. Está pensando em se aposentar do Ministério com urgência.

07 agosto 2012

219/365
Graziela

Já disse que não, não insista. Nem que o Felipe José em pessoa me convide. Não subo em barco algum, sob cachaça alguma, pra participar de festa nenhuma, nesse lago Paranoá até me certificar que essa zica passou.

06 agosto 2012

218/365
Branca

Seu Neném é assim mesmo, casei sabendo. O que faz ele alegre são os rabos de saia . Galanteia, conversa com os amigos, se insinua. Nunca vi, sempre me contam. Ele respeita minha presença. Talvez pense que eu não sei dos pequenos casos e paqueras dele. E pensar que, no início, eu sofria tanto... Amadureci. Cada um com suas vontades. Até a empregada que meus filhos arrumaram ele já anda rondando. Não imagina que vi ele levantando da cama quando dava pra ouvir o chuveiro dela ligado. Deve ter ido espiá-la. Quando voltou, deitou e me abraçou. Dei palmadinhas na barriga dele. São nossos gestos de carinho.

05 agosto 2012

217/365
Lilá

É, eu sou passadeira, mas por que você quer me dar um espaço no jornal pra eu falar de passar roupa? Coisa mais sem graça, não tem nem o que dizer. Pensa comigo: chego nas casas, abro a tábua, esquento o ferro e passo uma pilha de roupa. Na hora de ir embora, recebo meu pagamento e vou. Simples assim. Agora, quer coisa boa e emocionante pra falar? Fala do meu curso de biscuit. Eu nem terminei e minha vida já mudou. Tenho jeito pra coisa. Faço tão direitinho, que estou vendendo bonequinhos pra outros artesãos. Mas a coisa que eu mais faço bem são os noivinhos pra bolo de casamento. Vem gente até de Boa Viagem encomendar. Vai, escreve sobre isso.

04 agosto 2012

216/365
Mariah

Virou a cabeça indagadora, grata surpresa. Sim, era a mãe, a sisuda dona Adelaide, que estava ali pulando empolgada, dobrando o papelzinho com a prenda para a noiva. Estavam no chá de lingerie de uma amiga da família e o momento era justo aquele para o qual Mariah havia se preparado: estrategicamente, para evitar as recorrentes críticas de dona Adelaide, ficaria quieta, observando o ambiente em vez de participar. Já não era a primeira vez em que se sentia obrigada a se conter. Mas dona Adelaide tomou a frente, coordenou o grupo de amigas, sugeriu brincadeiras, pulou, soltou gritinhos de alegria. Sim, a mãe era uma mulher divertida. Uma menina, como ela. Agradável, engraçada. Mariah arregalou os olhos, admirou-se da descoberta. E, diante da cena tão aconchegante (não existe palavra mais adequada), preferiu permanecer observando o ambiente em vez de participar. Sorriu contemplativa e satisfeita.

215/365
Sonia

Encontrei uma escola de gastronomia aqui em Niterói. Nada mais me interessa: só peixe. Quero cozinhar peixe, quero ter um restaurante, quero ser a melhor peixeira de Lima. O nome do meu estabelecimento: Peixe do Brasil. Assim, em português, simples e lindo. Volto para o Peru em dois meses, cheia de conhecimentos e sonhos. Sim, tudo irá mudar e o meu mundo será perfeito. Só falta o Gustavo, meu (ex?) noivo peruano, me aceitar de volta. Foi ele quem me empurrou pra dentro do avião, me mandou de volta para a minha vida brasileira, mesmo eu querendo tanto ficar. Mas a ideia do restaurante irá cativá-lo, estou certa.

02 agosto 2012

214/365
Helena

Ainda de pijamas e pantufas, estabeleço o meu desejo de aniversário: dormir até ser amanhã.

01 agosto 2012

213/365
Zaida

Não entende letra de música brasileira. Não gosta de encostar em outras pessoas, nem mesmo na feira. É gorda, mas se vê vistosa e elegante. Gosta de estar com outras mulheres de sua origem, conversar, aconselhar. Tem medo dos homens e, apesar de bem instruída e inteligente, detesta discutir assuntos que classifica como masculinos. Seu maior luxo é acordar tarde. E, de fato, desde criança permanece na cama até ouvir - longe, longe - seu nome gritado.