19 maio 2013

Aimée

Sabia ser delicada, se quisesse. Se quisesse. Viu Pierre chegar e achou seu nome comum e impronunciável; tantos erres lhe tiravam o ar. Conseguiu cruzar as pernas esboçar um sorriso. Pierre acenou - talvez para ela, talvez para a janela - antes de começar. Em vez de se concentrar no que ele dizia - a tão esperada revisão para a prova de francês - fixou-se na curvatura incerta do nariz, na eloquência do jovem professor, nas variantes da voz. Sentiu vontade de arrotar. Segurou a ponta de um cacho e desenhou, canhota, linhas que poderiam esboçar qualquer besteira. Treinou a pronúncia: Pier-re, Pr-erre. Certa de que não se esquecera de nenhum erre. Malditos erres. Malditos ditos confusos, que a faziam parecer boba. Suspirou e desejou ter motivo para um comentário pós-aula. Pierre lhe tirara o ar.

18 maio 2013

Dia qualquer

Começava a esfriar. Entraram em casa como se fosse um dia qualquer: as chaves dela na banqueta, celular e carteira dele no vão do armário (milimetricamente centrais), a bolsa pendendo pela alça na mesma banqueta, o casaco dele no antebraço e os passos apressados, sincopados, até o quarto em busca de um cabide. Ela tirou os sapatos no corredor. Ele colocou as roupas no cesto e reparou no movimento que os ombros dela fizeram quando, de braços erguidos, prendeu os cabelos. Os seios pareciam ter obtido um contorno que os fez simétricos como nunca foram em posição normal. Ela procurava alguma coisa. Ele lhe contava cada pinta, cada manchinha, pelinhos nos braços, os ossos dos dedos e cotovelos, sentia o chulé dela. E os olhos dela estavam intrigados: onde diabos podia ter deixado o esfoliante? Ele resolveu esperá-la, sereno, até que ela veio e, afinal, lhe dirigiu o olhar. Simulou movimentos trêmulos, exagerada, pra parecer engraçada. Era engraçada, muito engraçada. Estava frio. Tomaram juntos um banho bobo, com sopro de espuma e palmas para espalhar água na cara do outro. Sorriam, gargalhavam. Até que envolveram-se, os dois, numa toalha só - velha e gostosa. Desejaram a eternidade, tal como esse dia qualquer, sem filhos, cachorros, patos, um gostando dos defeitos do outro, o outro aprendendo com um. Lennon cantava baixinho em algum lugar. Era uma da tarde; foram para a cama.

04 maio 2013

Nadine

O andar não poderia ser tão equilibrado; as pernas quase tortas e brancas. Queria ter saído artista, talvez expert em instrumentos musicais. Achava bonito. Não gastava o precioso tempo que tinha com exercícios físicos, discussões ou fofocas, mas era absoluta a certeza de que morreria cedo. Decorara Faroeste Caboclo. Gostava de shorts, sorvete de morango, biografias. Os cabelos sem corte passavam dos ombros - no enquadramento não havia orelhas. A teologia a encantava, ainda que não fizesse segredo de sua agnosticidade. Sem vocação para o excêntrico, passava despercebida aos outros, comia hot-dogs, via filmes numa sala cult, tomava vinho e sorvia coisas. Era o que Gil tinha a dizer sobre a mulher que considerava a mais interessante de todas.

29 março 2013

Mondo vero

Deitei. Meu estômago doía; o tumor já se mostrava sem pudores, deixava a covardia. Não disse nada. Não fiz exame algum. Meus filhos comentaram minha palidez, sem mais preocupações. Voltei de Nápoli realizada, esquecida do anúncio fisiológico de que o fim de aproxima e acabei por contagiar minha família. Naquele domingo, antes de deitar, vi grandes sorrisos, covinhas nas bochechas denunciadoras tanto de alegria quanto de parentesco. Vi gestos, abraços, beijos, brilhos de cabelos. Senti cheiros intensos, sabores e ouvi gracejos, afagos. Fragile, na cama, pus os dentes a rezar. Grazie.

13 março 2013

Penélope

No banho, você cogita situações, ensaia discursos, diálogos, respostas. Você se imagina em seu próprio leito de morte, pedindo a alguém próximo que chame por ele. Você o vê chegar, tentando bancar o indiferente e dizendo algo como "diga logo o que quer, porque tenho compromisso", olhando para um pulso sem relógio. Você, com a calma dos que estão mais mortos que vivos, o rosto lilás e a voz rouca, lhe despeja na cara verdades engasgadas. Não com crueldade, mas com ar educativo: "vês? percebes?". E ele, afinal, deixa as lágrimas correrem, pede que o perdoe, se diz lamentoso por você estar ali, naquela situação, que queria que tudo tivesse sido diferente e. A merda é que não passa de devaneio. E logo você se enxerga saudável e ensaboada.

17 fevereiro 2013

Janderson Alexander
 
- teus cheques sempre voltam?
- via de regra.
- é?
- é. Quando tem saldo, compensam. Quando não tem, o banco devolve.
- e a loja?
- a loja me chama. Não vou.
- criatura!
- quê?
- teu nome sujo na praça.
- nem ligo. Tenho que comer.
- e o cartão?
- usando o máximo e pagando o mínimo.
- criatura!
- quê?
- isso não se faz. Que vão pensar?
- que tenho que comer.
- comer? Tu come ouro? Ajeite essas contas.
- que contas? Tá tudo certo.
- criatura!
- quê?
- os papéis...
- são só papéis.

04 fevereiro 2013


Uma loja de beleza qualquer

- Volta pro Goiás, porra. - Bradou e deixou o choro chegar. Antes fosse o pobre roda presa o motivo de seu desespero. Vira, desavisada, o seu Jonas aos beijos com outra em frente a uma loja de beleza qualquer. Seria dela, da vagabunda? Às nove da manhã, como ousara o cachorro! Sai, deixa Beatriz na escola e se declara rumo ao trabalho. E ela, desconfiada, deu um giro pela Comercial Norte.Batata! Mas faltou coragem para um escândalo. Voltou pra casa. Soltou a bolsa e o coração em um canto, tirou os brincos pesados e desatou as tiras da sandália.

29 janeiro 2013

Algo sobre Malu de bicicleta

Terminei de ler, pela segunda vez, Malu de bicicleta, do Marcelo Rubens Paiva. Curioso eu não lembrar nada da primeira leitura. Costumo gostar muito dos livros dele. Esse tem um narrador bem babaquinha, um galinha fútil, mas que se apaixona, se casa e se vê, de repente, desconfiado da fidelidade da esposa, a Malu. Se redime. Clichê? É, pode ser. Mas MRP tem um texto gostoso e muito visual. A gente enxerga as cenas. Talvez por isso tenha inevitavelmente inspirado um filme homônimo – que não vi ainda. Nada para revolucionar o mundo, mas é um livro bem divertido. Gosto de textos bem estruturados, fluentes, criativos e sem pudores. Bom começar o ano com ele.

24 janeiro 2013

Desquite
 
Ele me desmentiu. Fiquei com a cara no chão, sem reação. Todo mundo notou - a casa cheia de amigos. Desmentiu a mulher que dobra todos os dias o cuecão de dormir, que barbeia, que invariavelmente escuta, acolhe, perdoa. Que chancela todas as idiotices que ele diz. Que fica dengosa quando ele quer uma dengosa, ou fatal se ele quer uma fatal. Desmentiu o que eu disse, sem pestanejar, me deixou calada, humilhada. Já faz mais de um mês e não consigo esquecer. Vou mandá-lo embora.

31 dezembro 2012

365/365
Maria

Foi comprar fermento na padaria da QNM 22. Na volta, como que atendida por um pedido de ano novo ainda não feito, ouviu Miguel chamá-la: "vem me dar um abraço de feliz 2013". Desceu da bicicleta, com a sacolinha na mão. O amigo passou os braços fortes por suas costelas e a suspendeu no ar. Trocaram os cumprimentos tradicionais ao pé do ouvido. Ele roçou a barba no pescoço dela. Desceu a mão até o coz do shortinho e, como quem não tem algo melhor pra fazer, colocou os dedos. Ela tentou beijá-lo, mas ele desviou, detendo-se, concentrado, a alegrar o fim de ano da amiga. Virou-a com habilidade, tocou os seios e a fez arfar. Sem avisar, parou. Beijou-a no rosto e disse "vá pra casa". Ela sorriu.

30 dezembro 2012

364/365
Bernardina

Esquecida. Perde dúzias de óculos todos os anos, chinelos, lenços, chaves, canetas, datas. Lembrou-se de comprar um calendário 2013: "sou tão esquecida, preciso de calendário". Em casa, viu que tinha esquecido que já havia ganhado dois. Esquecidos são assim, gastam mais e perdem mais tempo. Ainda em novembro, inseriu no celular o compromisso de fazer uma limpeza de fim de ano até o dia 30. "Graças a deus, senão não ia fazer!". E encontrou o telefone do rapaz que conheceu no caixa do supermercado há meses - nunca ligou... e ele poderia ser o homem de sua vida -, a coleira de Fulô, o guarda-chuva pink que adorava e nada menos que duzentos DVD com seus filmes prediletos. Saldo positivo. Decidiu que vai dar dois calendários de presente e convidar o rapaz do supermercado para passar o reveillon com ela no sofá, chorando e rindo, com pipocas.

29 dezembro 2012

363/365
Josefa

Conheceu um chileno, como um presente de fim de ano. Louro grisalho, magro, bem humorado. Rodou por Belém inteira com ele, ofereceu comidas típicas, botou o sexo em dia (quantos anos!). Adorou voltar a beijar. Apaixonou-se sinceramente por Ricardo e acha que ele por ela. Têm gostos muito parecidos e rotinas calmas; expuseram planos de viverem juntos. Mas faz duas horas que ele levantou da cadeira - assistiam a um filme antigo - e disse que ia comprar cigarros. Já chorou alguns litros, num pré-desespero-auto-comiserativo típico dela.

362/365
Edma

Minha empresa é sucesso. O lucro vem crescendo, os nossos serviços são referência no bairro, minha equipe é integrada, colaborativa, focada. Mas, céus, por que ninguém nunca quer fazer amigo secreto? Quando proponho, um assovia, uma olha pro alto, outra rabisca alguma coisa, outro me olha fixamente e diz, com uma sinceridade polida: não vai dar, já tenho compromisso.

27 dezembro 2012

361/365
Alzira

Começou aos 12, com dois garotos. Ela mandava e eles obedeciam. Em algum tempo, hormonalmente não poderia ser diferente, começaram a desenvolver brincadeiras sexuais na mesma linha: ela, rainha; eles, vassalos. Hoje, Alzira sustenta os mesmos seios enormes, a mesma boca sensual que tantas ordens despejou aos meninos da infância, um corpo ainda muito atraente, mas uma ojeriza a sexo. As amigas só falam em Grey e ela se entedia. Tem 40, é solteira e abstêmia.

26 dezembro 2012

360/365
Zenaide

Enrolada em si, encolhida e suada, entre a caixa d'água e o muro, via a sombra do monstro, que se arrastava devagar. Se não cria em deus, pediria a quem para tirar por milagre de seu corpo qualquer odor que atraísse o bicho? Mas pedia, pedia, pedia - e com fé. Se fosse fã de thrillers, poderia até imaginar uma música terrível de suspense ao fundo. Mas o silêncio só era quebrado por um pagode longe, longe, talvez na rua da baixada. O monstro movia a cabeça lentamente à sua procura e dava passos pesados que davam a ela a localização exata dele. Zenaide tremia. Da boca pingava sangue de toda a família dela, que ele tinha acabado de matar. Faltava uma.

359/365
Ellen

Arrependeu-se de ter tido vontade de resgatar o passado e ir à cidade dos pais. Quando chegou com o menino, já adulto, todos diziam: "nem parece neto do Juvenal. Parece filho". E aquilo fazia eco, como que para torturá-la. Grávida do próprio pai, fora expulsa de casa por ele e pela mãe: "virou vagabunda, foi? Tá dando pra qualquer um na rua?". Na rua? Queria ter respondido à mãe que não engravidara na rua, que havia sido o próprio pai que a estuprara. Até o retorno à cidade, ninguém tinha tido notícias suas ou do menino, que ela criou com muito cuidado. E ele, irmão/filho, cuidava dela também e, como se intuísse desgraça, nunca ousara perguntar pelo pai.

24 dezembro 2012

358/365
Maria Cláudia

Comprou velas, luzes pisca pisca, árvore de plástico, bolas coloridas, ave temperada congelada, fios de ovos, passas e um espumante. Trocou o gás. Chamou o Adalto para fazer as gambiarras. As paredes vão ficar descascadas mesmo, paciência. Mas, logo mais às 18h, quando chegar, enquanto o forno esquenta, vai fazer o faxinão no barraco. Convidou a vizinhança toda, mas poucos virão. Vai esperar chegar perto da meia-noite para telefonar para os pais, os irmãos, os primos, os tios, a família toda em Mossoró.

357/365
Ticiana

Aproveitou as férias. Andou de metrô em Brasília, visitou o Catetinho. Ganhou da prima uma saia jeans, dois tênis e uma blusa roxa. Foram ao shopping comprar calcinhas e um panetone. Estava perto do Natal e ela se sentia realizada. Esquecera sua terra. Na volta para a Ceilândia, passaram na casa de dona Juju pra tomar os passes. Fez perguntas e foi embora sem respostas. Vai esperar a virada do ano e comprar passagem de volta.

22 dezembro 2012

356/365
Diná
Feia, desceu do carro com bolsa, sapatilhas e blusa combinando – amarelas. Um short jeans largo e desengonçado, com uma lavagem de 1980, cuja suposição de sensualidade ignorava as canelas finas. Tinha os ombros arqueados, os olhos fundos dos quais não saía brilho algum e duas bem torneadas bolas de blush nas bochechas. Cabelo sujo. Andava sorrindo, ajeitando a bolsa, sem olhar ninguém. Absoluta.

21 dezembro 2012

355/365
Augusta

Não me respeitam. Desde que estou presa a esta cadeira, não opino, não me ouvem, não decido no que gastar nem mesmo o dinheiro da minha pensão. Fazem procedimentos de higiene quando bem entendem. Passeios com banho de sol quando lembram. Talvez já tenha completado uma semana aqui, trancafiada. Comida nos horários convenientes. Se manifesto fome, dizem que devo esperar um pouco. Fazem conchavo, já os peguei cochichando. Ratos.

354/364
Eva

Me dê um dinheiro? Então algo pra comer? A senhora viu que eu nem tenho chinelo? Não se importa, né? Também nesse carrão, né? É bom ser rica? Isso aí é um ipad? A senhora não deixa eu mexer, né? Nem adianta pedir, né? Não tem nem um biscoito?

353/365
Valda

Deu queixa e entrou no programa de proteção da Maria da Penha. Trocou de telefone, largou apartamento, pai e mãe. O nome está em processo de mudança: talvez Kátia, talvez Narilu, talvez Telma. Pediu sigilo na transferência na CAIXA e foi trabalhar na agência Chico Mendes, um barco-banco, no Amazonas. A situação crítica provocava nela uma sensação que ela conceituou como adrenalínica, que misturava medo e excitação. Sim, era estudiosa, teórica. E, sim, estava, enfim, no centro das atenções de muita gente, apesar de clandestina.

18 dezembro 2012

352/365
Socorro

Nasceu sem as mãos. Não sente falta. De vez em quando se pega pensando o que faria se, em vez das mãos, lhe faltassem as pernas. Agradece aos seus orixás e pede veementemente que a mantenham inteirinha tal como nasceu, que a protejam de eventuais acidades. Ui, nem quer cogitar. Adora correr e dançar.
351/365
Alessandra
Tudo na mala e mamãe tem coragem de me perguntar o que quero de Natal. Nada, minha linda, só que você venha comigo. Aluguei uma casa em Alto Paraíso.são doze comigo e a senhora não? Por favor. Disse pra eu esquecer, que essa coisa de fim do mundo é a maior baboseira que já ouviu. E eu tive que aprender, assim na marra, que cada um segue o seu caminho. E o de mamãe, parece, é esse: morrer junto com grande parte dos humanos da Terra, ainda que avisada. Pobre, mamãe.

16 dezembro 2012

350/365
Olga

- O que é isso?
- Não pude deixar de te notar, desculpe.
- Mas por que você está vestido assim?
- Ué, eu tô fazendo um bico de papai noel ali na galeria.
- Ah, ufa. Achei que era louco.
- Acho que sou mesmo. Porque, mesmo sem ter um centavo, comprei um presente pra você.
- É... um anel... que lindo.
- Olha, não é de ouro. Mas eu juro que vou te dar um anel de ouro um dia. Basta que você me aguente por uns doze ou treze anos.
- Você é engraçado.

349/365
Lilly

- Você vem sempre aqui?
- Há três anos, querido. Trabalho aqui.
- Ah, eu não sou bom com essa coisa de cantada.
- Nenhum homem é.
- Acha?
- Acho. Já vi você rondando a loja. Me achou bonita?
- Achei.
- Qual o seu nome?
- Alex. E o seu?
- Lilly. Quer me chamar pra um café?

348/365
Maíra

- Somos amigos, Acácio. Não dá.
- Por favor, me dê uma chance.
- Não.
- Eu sou o cara perfeito pra você.
- Não.
- Sai comigo hoje?
- Não.
- Tenho ingressos pro Katinguelê.
- Ah... ninguém tem ingressos pro Katinguelê.
- Eu tenho.
- Droga. Está bem. Só hoje.

13 dezembro 2012

347/365
Gláucia

- Daniel Euzébio, por favor?
- Pois não. Daniel.
- Bom dia, Daniel. Aconteceu algo estranho. Estive numa reunião aí na prefeitura e, quando voltei para o carro, tinha um cartão do senhor lá. Departamento de Tecnologia da Informação. É algo que posso ajudá-lo ou o cartão foi parar lá por engano?
- A senhora estava com uma blusa muito colorida? E tem cabelos negros?
- Sim.
- Ainda bem que ligou. Eu preciso lhe dizer uma coisa.
- Pois não.
- Com todo respeito, a senhora é linda demais.
Engasguei.
- Como?
- É isso. Reparei que usa aliança, mas não pude deixar de manifestar meu interesse. Achei a senhora, com todo respeito, deliciosa.
- Rapaz, quantos anos você tem?
- 29.
Desliguei.

12 dezembro 2012

346/365
lia

- quer almoçar?
- desculpe?
- você aceita almoçar comigo?
- eu não conheço você.
- Valério Nazar. Acabei de dar essa palestra e tô com fome - sorriu.
- ah, não assisti... quer dizer, cheguei no finalzinho e...
- você tem compromisso?
- eu estava indo nadar e...
- estava? Ótimo - me pegou pela mão. - almoce comigo.
- ah, tá legal. Vamos.

345/365
Júlia

Observou que discursos inclusivistas são aqueles em que os proferidores chamam constantemente o espectador a compartilhar da sua realidade: "entende?", "não é?", "nossos tempos", "nossos filhos". Só que Júlia não é uma deles. A duras penas, ingressou numa universidade por cotas. É negra, pobre, parcialmente surda, solteira, sem filhos, sem casa própria, nem mesmo um bom emprego. Irrita-se se um professor diz "quando contratamos um técnico para consertar o nosso notebook" ou "a mensalidade da escola dos nossos filhos". Não, ela não é uma "nossa".

344/365
Gerarda

Resolveu puxar assunto pelo calor. Posso sentar com você? Pode. Tá quente, né? É. Comeram em silêncio. Ela ensaiava se poderia abordá-lo e como. Enchia a boca, mastigava e, quando achava que sentia coragem, enchia a boca de novo. Em um momento ele lhe sorriu, de boca cheia, e só. Era lindo, pele alva, olhos pretos e redondos, gorducho corado. Acabou. Obrigado pela companhia. E ela, de boca cheia, nem pôde responder.

09 dezembro 2012

343/365
Suelen

Foi sábado da semana passada. Costurou as encomendas até as 14h. Almoçou feijoada de feijão mulatinho. Lavou a louça da casa coletiva e disse que ia voltar ao trabalho, mas só até as 18h. Foi vista na praça, a caminho da casa de Aína - grande amiga - ou da cachoeira. A queixa foi registrada, mas a polícia de Monte Verde só começou a se movimentar agora. Suelen vestia blusa e saia estampadas de flores, chinelos de couro, usava o cabelo preso no seu típico rabo amansador, tem cinquenta e dois anos, mas aparenta mais, é muito branca e tem uma tatuagem no braço - a letra J e um coração -, usa óculos de grau e não tem motivo nenhum para nos deixar.

08 dezembro 2012

342/365
Preta

É retraída. Caminha com os ombros erguidos, sovacos travados. Os braços balançam como se ela estivesse sem ar. Balançam em decorrência do movimento, que é apressado, mas sem graciosidade. Os cabelos seguem o mesmo modelo de resposta à gravidade. Os óculos disfarçam o que há de pior - um olhar sem brilho, a pele sem cor. Preta não tem cor. É magra, não rebola. Ninguém sabe se é inteligente, esperta, boa de papo. Mas, ao caminhar, o corpo esquece tudo que é bom. Caminha com fome, pressa e incômodo. Envergonha-se.

07 dezembro 2012

341/365
Nicole

Estou quase terminando meu curso de esteticista. Quero deixar de ser manicure, devolver o Bolsa Família, ter conta em banco e direito a licença saúde. Aprendi que essas coisas são coisas de cidadania. Coisa importante para fazer um país melhor. Dá vontade de rir. Progredir eu até quero, sim, mas quero ajudar meus vizinhos, que sempre me ajudaram. Não vou sair do bairro, vou limpar a pele dos meus amigos fiado e vou emprestar meu cartão de crédito para os mais próximos. E vou fazer de tudo para o Jonys voltar pra casa. Nem que eu tenha que sustentar as farras dele. Por que eu devo seguir conselho de banco, de feminista ou de economista do Fantástico? Confiança parece não ter a ver com cidadania.

06 dezembro 2012

340/365
Lígia

Amanhece na cidade luz. Lígia faz o cabelo. Recolhe uma roupa meio limpa do chão do quarto, acende o cigarro. Liga o tablet e se comove com a morte de seu conterrâneo, exaltada pelo Le Monde. Não chora. Telefona para o pai. Ocupado. Veste as meias, calça a botina. Sai. Vai viver mais uns oitenta e quatro anos.


339/365
Ivonete

Tem pernas cansadas, doídas. Impaciência. Quer se comover com palavras, ensinamentos de uma vida que se mostrou prática e rica. Sabe ser caridosa, doce, cuidadora, simpática e inteligente. Mas, caralho, como as pernas doem.

04 dezembro 2012

338/365
Áurea

Sozinha, arrumou um peixe que logo morreu. Recomendaram-lhe um cachorro. Soou uma boa ideia. Achou um pequeno, bonitinho, "impossível não se apaixonar", repetia a moça da pet. Áurea acreditou e arrasta, por três meses, o convívio com o animal. Odeia-o a cada instante, a cada rosnar ou latido. Detesta comprar ração. Olha nos olhos do bicho e se controla para não lhe dizer poucas e boas. Contem-se. Ele, por sua vez, a ama inteira. E, diferente do que uma companheira de apartamento ou um namorado, não pode simplesmente romper e mandá-lo embora.

337/365
Fúlvia

Foram poucas as vezes em que estive perto de ter uma relação sexual. Juventude longa e enfadonha, em meio a bordados e cursos de economia doméstica. Agora, velha, me viciei em filmes pornográficos. E, ah, confesso para mim: queria putaria na vida. Chupar, me deixar chupar, oferecer orifícios, me sentir livre e atriz. Queria sobretudo ter feito sexo anal.

02 dezembro 2012

336/365
Ulda

Dezembro chegou. Estou cansada, com tristezas e frustrações acumuladas. Deixei de trabalhar com o que mais gostava, estou devendo dinheiro a muita gente, meus gêmeos reprovaram, meus pais faleceram, perdi uma grande amiga. E o Haroldo, de quem eu realmente precisava me livrar, não me solta, apesar das brigas, das ofensas, dos tapas trocados. Haroldo é um merda, me levou pro buraco, não me ajuda, não me escuta. E segue ao meu lado, companheiro. Desgraçado.

01 dezembro 2012

335/365
Waldiana

Câmera fotográfica, celular e ipad em uma das mãos. Na outra, filmadora, bolsa e sacola de bebê. Dois filhos numa das melhores escolas de São Paulo, duas maratonas para conseguir o melhor lugar para registrar as apresentações de fim de ano. O mais velho de palhaço já consegue fazer toda a coreografia e a mais nova de boneca Emília arrisca-se em passinhos descompassados. Entre cotoveladas e um sapato temporariamente perdido, consegue. Ainda hoje, posta para os amigos e familiares. Cumpriu seu papel de boa mãe. Na volta para casa, Waldiana sua, aperta os cintos de todo mundo, oferece água e limpa o nariz da pequena.

30 novembro 2012

334/365
Morena

Gosta de vender sapatos, principalmente os mais fechados e escuros. Sandálias não caem bem em moças como ela. Usa invariavelmente saias que colam um joelho ao outro e blusas que tampam os ombros. Ao fim do dia, tem as coxas assadas e axilas mal cheirosas. Preparou-se para o fim de semana do louvor, sondou sobre o ônibus até a Esplanada, perguntou quem da igreja estaria lá. Mas ontem à noite o gerente avisou: "não vai ter feriado pra gente não. O Natal está chegando e temos que vender mais". Triste de ter que trabalhar no seu dia, tudo lhe parecia ruim. Com ironia, até o número de mulheres desvirtuosas procurando saltos coloridos aumentou.

333/365
Ignês

É gari há doze anos na linda Curitiba. Cuida da mãe Guilhermina e da tia Felícia. As senhorinhas vivem brigando entre si e lhe torrando a paciência: vai arrumar um marido bom, Ignês. E ela queria mesmo era voltar a estudar para ver se passa no concurso da prefeitura. Dessa vez, para trabalhar em escritório; a rua lhe cansa. Vlado, corretor de imóveis, anda lhe rondando. Já pagou um café a ela só para dizer o quanto têm em comum. Coisa que ela não enxerga e não quer.

28 novembro 2012

332/365
Teca

Foi assustador, mas, enfim, via-se diante de si, tal como era. A culpa foi embora, apesar de ainda se sentir surpreendida com a mulher que a psicanálise lhe apresentou. Mesquinha, impaciente e, sim, bastante racista. Não gostava de discursos politicamente corretos, não tolerava que pessoas nitidamente inferiores lhe dirigissem o que quer que fosse - palavras, conselhos. Saber disso não lhe redimia, principalmente quando fazia o batimento (necessário) entre o que é e o que aprendeu ser bom. Ao menos agora parara de mentir para si.

331/365
Uyara

Quando criança, pedia permissão para a mãe. Na juventude, um padre fez as vezes, quando a mãe faltava. Aos dezoito, a mãe lhe permitiu ir morar com o pai nos EUA. O pai morreu. Casou logo e passou a pedir permissão ao marido, que morreu doze anos depois. Naturalizada, casou-se de novo, afinal precisava de alguém a quem pedir permissão. Adalto, latino como ela, não se sentia confortável em ser tão ostensivamente consultado. Largou dona Uyara. E agora, aos sessenta, ela não consegue ir ao banco pagar contas ou decidir que marca de sabão deve comprar.

26 novembro 2012

330/365
Lourdes

Então resolveu que estava assim por amor. Mas como justificar aos outros? Procurou um nome qualquer – Marcos. Nunca existiu um Marcos, mas ela fez existir. Criou um e-mail para ele; escreveu para si mensagens assinadas por ele; comprou um chip para Marcos, da Oi, do qual recebeu muitas ligações. Depois, tempos depois, Marcos sumiu. E ela pôde chorar as pitangas para os amigos e a família. Pobre Lourdes.

25 novembro 2012

329/365
Minerva

Resolveu que o Natal em família seria no seu apartamento no Cruzeiro. Dois quartos, sessenta metros quadrados. Calculou a disposição de cadeiras (terá que pedir duas emprestadas. Festeja o fato de os ausentes não precisarem de espaço físico), mediu a mesa, simulou cenários, árvore, presépio, cantinho de presentes para amigo secreto. Vai caber todo mundo. No cardápio, peru, arroz de nozes, lentilha, farofa com passas e pêssego, vinho, champanhe, doce de mamão verde, panetone, saudade.

328/365
Clarice

Acordou sem preguiça, com um olhar altivo, empinado. Resolveu correr, atleta de fim de semana que é. Fez um bom tempo, tomou suco de clorofila, tomou banho gelado. Fez uma longa lista de compras e foi ao supermercado. Comprou produtos orgânicos. Já em casa, organizou a agenda, limpou a caixa de areia dos gatos, lavou a louça acumulada, passou cera no piso de taco. Um dia produtivo, ativo e, por que não dizer?, alegre. Até Ricardo-pica-grossa ligar.

327/365
Eunice

Quis comprar dois rodos eletrônicos, num site estadunidense. O frete e os impostos o fizeram sair mais caro sete reais do que se comprasse aqui. Pensou. Voltou para uma loja brasileira, em português. Procurou pelos rodos. Nada. Na busca, nada. Ligou para a central de atendimento telefônico: "os últimos em promoção foram vendidos, senhora. Tenho autorização para vender com dez por cento de desconto". Voltou para o site americano, sem contar com o fuso horário. Os rodos já valiam o triplo. Droga. Natal sem rodos novos.

22 novembro 2012

326/365
Joelma

Por 41 semanas, sustentei um menino no ventre e um blog de gravidez e parto humanizados. Quase diariamente, falei de alimentação saudável, homeopatia, peso ideal, doencinhas de grávida, enxoval do bebê, casas de parto, doulas, participação do pai, parto na água, parto em casa, perigos do ultrassom, fraldas de pano, amamentação, yoga, exercícios para a vulva, licença maternidade e tantas outras coisas. Meu blog bombou. Tive dias com mais de mil acessos. Muitos comentários, mães aflitas, pais confusos, futuras grávidas, avós, jornalistas de revistas especializadas, enfim. Agora cansei. Meu filho já tem dois anos e ainda recebo emails com perguntas e crises. Mudei. Depois da cesárea de emergência, virei adepta da alopatia, da fralda descartável e do sono profundo proporcionado pela mamadeira de Nan.

21 novembro 2012

325/365
Yamara

É obesa. Detesta ouvir das pessoas que é “gordinha”. Não, é obesa. Sabe disso e não faz dieta, não malha, não toma remédios e não cogita qualquer cirurgia. Não admite para si que não gosta da própria aparência, também não se dá ao trabalho de pensar muito a respeito. E entende que pior do que o olhar penoso ou pilhérico dos outros, as dificuldades de locomoção, a culpa diante de um prato de macarrão – que adora –, a escassês de homens interessados, são as assaduras no meio das coxas, nas axilas e pescoço. Gasta bastante dinheiro com hipogloss. Empatado talvez esteja o calor mortal e constante do Piauí. Planeja morar na Finlândia.

20 novembro 2012

324/365
Oléria

Minha mãe me batizou com o nome de minha avó. Quando vim pra São Caetano, me perguntaram se eu havia sofrido com brincadeiras na escola e eu disse que não - na minha cidade, todo mundo tem nome de pobre.

323/365
Sâmia

Mamãe, você me dá a Polly? Eu quero a Polly e My Little Pony de presente de Natal. E pro Papai Noel, eu vou pedir um patinete. Pro meu pai, vou pedir a casa da Polly. A dinda me dá uma Barbie. Não, não, quero aquela família de ratinhos. E de ano novo quero uma sandalinha de salto prata, com bolsa. Mãe, não esqueça que tenho hidratação do cabelo e unhas pra fazer. Tem que encher o pneu da minha bicileta. Ah, já ia esquecendo: quero um tablet, mas não da Barbie, quero um de verdade.

322/365
Jaciara

É chef. Tem diploma. Gostaria muito de pular as etapas que, dizem, existem, mas não consegue e se frustra. Queria acordar e ter um restaurante de renome, que atendesse apenas reservas. Tem ganas de sofisticação. Pé no chão, dona Adelaide diz, é fundamental. Mas para quê? Jaciara quer ser grande. E logo.

321/365
Liliane

Vivo em Londres. Sou profissional da moda. Gosto de misturar tendências, conheço muita gente, já trabalhei com inúmeros bons estilistas. Posso dizer de mim que sou bem sucedida. Homens e mulheres me desejam. O meu real amor, meu macho, entretanto, está longe de ser aceito na atmosfera que respiro: tem 1,60m, chama-se Juvenal. Mora em Parnaíba-PI. Sinto saudades.

16 novembro 2012

320/365
Jaqueline

Pronto, vi o filme do Gonzaga, depois de tanto relutar. E logo vi porque relutei: uma senhora ao meu lado suspirava de cinco em cinco minutos e comentava alguma coisa. Sou nordestina sim, de Forquilha-CE. E odeio ouvir comentários sobre a "coitadice" dos nordestinos. Não nasci no fim do mundo, tudo depende do referencial. Minha cidade é o começo de tudo; minha família e meus amigos são o centro do universo. Não tem coitados na minha terra. Tem gente que sofreu e sofre, sim, mas é igual em São Paulo, em Brasília, em Frankfurt. Não venham, diante de uma cena qualquer, lamentar em suspiros a pobreza nordestina. Antes, vão à puta que o pariu. Tenho orgulho do que sou, como, estou bem certa, cada um dos "cabeça-chata" que dividem a origem comigo.

319/365
Fernanda

Viu Getúlio, viu Juscelino e vários outros. Também viu dona Clotilde e seu Nazareno, juntos. Viu a nega Tereza limpando a casa. Viu os próprios filhos, os filhos de seus irmãos, os amigos dos filhos, todos brincando juntos. Viu bagunça, algazarra, briga de família. Registrou muita coisa. Fotografou casamentos, posses, inaugurações, situações inusitadas. Foi capa de revista. Até ganhou prêmio famoso assinando nome de fotógrafo. É, teve que ser homem. Dona Fernanda se sente feliz e realizada. Mais ainda quando o raciocínio permite saber que viu mais do que fotografou porque é melhor viver do que trabalhar.

14 novembro 2012

318/365
Norma

A missa havia acabado. Júlio estava tenso, olhava para Norma sem conseguir concentrar-se em nada. Ela nem notou quando ele, enfim, se aproximou. Sedento, passou a mão pelas nádegas dela e fez parecer acidente. Chamou para um sorvete ou qualquer coisa e ela sorriu. Imaginava aquela mulher em posições obscenas e dona de gestos devassos, sem preguiça qualquer de conhecer cada pedaço de seu corpo, enquanto ela falava da vida, do curso de manicure, dos bordados que fazia pra completar a renda. Júlio assentia com a cabeça, certo de que os flashs que ouvia seriam suficientes para montar uma história crível, caso ela pedisse alguma opinião. O sorvete e os ouvidos falsamente atentos eram o preço. Pagaria a conta integralmente e feliz e gentil. Mas teria aquela mulher nas mãos hoje.

13 novembro 2012

317/365
Surya

Range os dentes perolados. Nem no sono conecta situações, dados. Discurso e prática isolam-se em pontos bem distintos de seu espaço de raciocínio. Chega a usar um caderno adornado de pedrinhas para enxergar melhor os problemas. Sente-se uma coitada incompreendida, às vezes, sim, e esse deve ser o seu maior pecado. Mas é uma sofrida calejada, dura. Obediente e falsa resignada. Tem história oriental, gosta de ouro e espelhos. Veste-se colorida e bonita. Os olhos, no entanto, por mais pintados, ostentam tristeza e inquietude.

316/365
Gabriela

Já com doze anos, sua diversão é articular estratégias de resgate de senhas. De todos os tipos - cartões de crédito, login de facebook, peixe urbano. Não diz a ninguém. Com boas notas, barganha equipamentos cada vez mais sofisticados ou dinheiro. O pai cede. É discreta, as informações guarda para si, não faz alarde com notícias bombásticas ou segredos. Na relação com os amigos, percebeu ter se tornado mais compreensiva. Sente pena. Não comete crimes. Pesquisa.

11 novembro 2012

315/365
Nura

Era solteira e muito familiar. Doze tias idosas e a mãe, tios muitos, de origem árabe, três irmãos, sete sobrinhos e dois sobrinhos netos. Treze primos homens e seis filhos de primos. Duas famílias próximas a ela, com ao todo onze componentes. Suas relações, aprendizados, fé e discussões políticas eram travadas com essas pessoas, além de um ou outro vizinho ou antigos amigos. Mas foi o filho do primo Leonardo que a fez sentir, mais uma vez, o que ela já julgava ter matado dentro de si: paixão, desejo, tesão. E o menino de dezesseis anos por ela sentia o mesmo. Olhos grandes, corajoso, bonito, vívido e alheio aos estudos. Ela usava saias longas que lhe ressaltavam as curvas volumosas, e deixava os longos cabelos soltos como bordados do rosto onde se destacava um grande nariz. Hoje fez três meses de encontros secretos e ele, homem feito, peludo, barbudo, lhe trouxe bombons. Transaram na área de serviço da fazenda.

10 novembro 2012

314/365
Francisca

Devia ter música de fundo quando servem comida na casa da Francisca. O cheiro, a fumaça, é tudo formidável. E dá gosto vê-la comer. Com as duas mãos, segura a ponta de uma costela assada, que pousa acima do arroz branco, com feijão no alecrim e purê de abóbora. Habilidosa, desprende a carne do osso com talher. Os cantos da boca brilham como os olhos. Entre uma mordida e outra, sorri. E a gente sorri de volta. As guarnições são meticulosamente colocadas no garfo e Chica fecha os olhos para começar a mastigação, que é lenta e compassada. O bolo alimentar dança pelas bochechas. Com o mesmo sorriso, intercala o chupar do osso e dos dedos e deixa escapar o típico "hum". Chica enche a própria barriga e a casa de alegria. A gente mal consegue comer diante dela, encantados com os movimentos e a luz.

09 novembro 2012

313/365
Lílian

Quero a cabeça dela. O quê? Isso mesmo que você ouviu. Não dá, ela é a melhor baterista do Brasil, minha amiga. Mas eu não tolero ela fazendo back vocal quando não é hora de back vocal. Ah, esquece isso. Nem pensar. A Kat é ótima. Ela me atrapalha e ainda quer aparecer mais do que todo mundo. Olha, vamos fazer assim: eu tiro o microfone dela, pronto. Tira então essa porra. Ok, resolvido. Mas se eu me virar e sonhar que ela está acompanhando ventrilocamente a música, eu paro tudo e acabo com ela. Céus.

08 novembro 2012

312/365
Heloísa

Sentiu-se uma personagem cômica atrapalhada de filme ou novela. Lembrou-se disso instantaneamente porque nunca foi atrapalhada, nunca deixou transparecer descontrole de qualquer natureza. Mas, ao ver o Gustavo todo machucado, no corredor do Hospital de Base, tropeçou em outros doentes, derrubou soro e - logo diante dele - apertou o braço recém operado do amigo, ex-marido, tão caloroso e tão crítico. Acidente de moto. Logo diante dele. Conteve-se e esperou a piada do filho da puta. Sentiu-se, enfim, ridícula, em vez de comovida, triste ou solícita. Quase o mandou à merda em resposta às risadinhas.

311/365
Janete

Falta quinta ainda. Uma conspiração do tempo esses feriados na sexta, pois cancelam o forró do Floresta. Porque é sagrado: a gente já sai do serviço arrumada. Quando o movimento está fraco, a gente fica lá fora, só tomando uma cervejinha. Meia noite é direto pra Rodoviária. Mas quando tá bom, a gente fica até as seis da manhã. As meninas todas aqui vão. Todo mundo adora.

06 novembro 2012

310/365
Liduína

Tentou disfarçar, virou o rosto, assobiou uma canção do Lulu. Mas as meninas notaram. O que ela estava fazendo ali? Resolveu segui-las mais uma vez? Péssima atriz. As garotas sentiram pena, pois era bem provável que Liduína quisesse ser uma delas. Não só pena. Desprezo também. Piveta chata. Era 1989 e era bacana sair para festas de rock na casa de alguém ou embaixo do bloco de alguém. Ela era a criancinha da turma, irmã de duas meninas integradas e populares. Não lhe davam conversa. Fumavam cigarro e maconha, bebiam e Lidu pedia permissão aos pais pra descer e seguia todo mundo, com um walkman na mão e vontade de aprender.

05 novembro 2012

309/365
Auxiliadora

O trem sacudia e fazia barulhos metalizados e intensos. Assustava. Os bancos eram retos, rígidos. Estava tensa. Minhas costas doíam, o pescoço pedia apoio, talvez cama. Doze horas de ônibus. Agora mais nove de trem. Sacolejos e lágrimas. Preciso ver Juan. É da boca dele que sairá cada motivo, numa justificativa desconsertada e canalha. O Juan é assim. Minhas mãos não pararam de tremer desde ontem.

308/365
Eurídice

Fez o Enem. Achou difícil. Leu e releu questões. Rascunhou, revisou e escreveu uma redação que quase não atingiu o mínimo de linhas. Estudou em escola pública a vida inteira. Boa aluna, representante de sala, referência em Química. Boa articuladora e envolvida com o movimento estudantil. Prova difícil. Não sabe se passa. Não sabe se consegue deixar os pais e professores orgulhosos. Todos torcendo por ela. Resolveu torcer pelo Obama.

03 novembro 2012

307/365
Clair

"Deve ser por causa dos remédios". Foi o que consegui arrumar de desculpas para o comitê de chefes que me cercou após o expediente. Vendi dois pacotes internacionais a preço de dólar, cobrando reais. Assim: os voos custavam mil e sessenta dólares e eu cobrei mil e sessenta reais. Quando informei o equívoco aos clientes, ambos ameaçaram ir ao Procon. Perdi comissão e ainda terei descontos. Isso se não for demitida, pois não bastava errar: nervosa, cutuquei uma espinha na minha testa e, em segundos, me vi sangrando diante da loja lotada. Pedi desculpas. Disse que eram os anticoagulantes. Mas eu não tomo medicamento algum.

02 novembro 2012

306/365
Xênia

Mandou fazer uma faixa e amarrou na porta do cemitério. São  vinte e oito anos sem seus pais, que morreram juntos, quinze anos sem Gildovan, seu amor, quatro sem Venâncio, seu irmão, e três sem Jussara e Ingrid, melhor amiga e filha. Os vivos são poucos agora. E tão desinteressantes. Comprou crisântemos e velas brancas. Chegou às 5h. Fiel, religiosa e carente.

01 novembro 2012

305/365
Soraia

Alheia a toda e qualquer previsão do tempo, quebrou o cofrinho de barro, catou os R$ 63,15, comeu pastel com caldo de cana e gastou tudo no salão. Fez unha com desenhos de zebra, depilação de axilas e buço, sobrancelha, escova para alisar o longo cabelo crespo, chapinha para o acabamento. Choveu muito e forte.

31 outubro 2012

304/365
Lúcia

Fez mais do que delinear os olhos claros com vermelho fogo. Prendeu no cabelo um arranjo de contas e flores. Vestiu-se de guarany kayowá para, numa marcha, ajudar a ecoar a voz de seus irmãos. Vestiu-se de índia guerreira, fazendo com que as madeixas louras se apagassem. Não era mais Lúcia. Era mulher da mata, tinha uma causa por se dedicar e, afinal, como era gostoso irritar executivos atrasados pelo trânsito já confuso. Ayaya.

303/365
Nelma

Olha lá, a mocinha passando, um ódio contido. Pensa que ninguém percebe que aquele sorriso é falso, que ninguém sabe dos rangidos de dentes à noite. E de dia. Nasceu sem notar a indiferença da mãe.
O gosto metalizado que subia do estômago à garganta a fez lembrar do dia que terminava e a fazia intuir que agora era para sempre. Acordou cedo, tomou um banho, demorou para escolher uma das nada elegantes peças de roupa, comeu rápido, já preocupada com o tempo perdido. Poderia perder o ônibus. Terça. O marido a deixara sem carro hoje. Ônibus. Nada de preocupações com as vagas.

302/365
Paloma

Quando a tecnologia, enfim, permitiu o conserto instantâneo de erros da vida, um retrocesso: odeio o fato de que tablets não tenham ctrl+z.

28 outubro 2012

301/365
Donna

Bati o pé. Era a hora do meu almoço e o supermercado estava cheio. Já avisei logo: só vou atender até aquela senhora. Reclamaram. Depois quem se ferra sou eu, sem tempo suficiente pra engolir pastel e suco e pronta pra ouvir a bronca do encarregado ou a piada dos colegas: "almoçando fora do horário, Donna". Dona... nem da minha própria vida.

27 outubro 2012

300/365
Luciana

Luciana tinha sonhos, todos objetivamente alcançáveis. Queria terminar os estudos e ser caixa ou gerente de uma loja. Juntaria dinheiro para ter uma casa com reboco e paredes pintadas de branco, com jardim e um pastor alemão. No Rio de Janeiro. Não precisaria de carro, pois a casa seria próxima a um ponto de ônibus e metrô. Por fim, gostaria muito de se casar com o Fábio Assunção, motivo pelo qual se mudaria para o Rio.
Terminou o segundo grau no ano passado, partiu para Nova Iguaçu e arrumou um trabalho de atendente de serviços ao consumidor de uma grande loja de móveis. Quase plenamente realizada ficou quando conseguiu alugar uma casa de fundos. Rebocada. Pensa em adotar o vira-latas que vive dos restos dos moradores de sua rua, o Gorila. Conheceu Fábio Ferreira, borracheiro, que trepa muito melhor que aquele branquelo da Globo.

26 outubro 2012

299/365
Marinara

Meninas são chatas, falam demais, exigem coisas demais, respeitos, regras, regras e regras. Prefiro meninos. Gostam de soltar pipa, de ser soltos. Filas de carrinhos coloridos e bolinha de gude. Qualquer barco de papel e está resolvida a diversão. Reunem-se para falar bobagens e rir e contar segredos interessantes. Meninas competem pelos melhores papéis de carta, quem é a mais esperta, a que brinca melhor com sua Barbie. Falam umas sobre as outras. Fazem conchavo, fofoca. Saco. Meninas são um pé no saco.

25 outubro 2012

298/365
Fran

Foi bem nas 12 aulas práticas de trânsito, mas o seu grande feito - principalmente para esfregar na cara do irmão - foi permanecer imóvel em controle de embreagem, hoje, no subidão do Colorado. Queria gritar de alegria, mas sabia que deveria devotar toda a sua atenção ao que fazia. Qualquer deslize e o carro se moveria. O instrutor ficou feliz, deu os parabéns, tentou sacudi-la mas Fran permaneceu séria e concentrada. Do topo da cabeça descia uma gota de suor. Ela respirava fundo e lentamente. O antebraço tremia. As panturrilhas nem sentia. Começou a pensar no sufoco que seria sair da posição, minutos depois, quando o tráfego fluísse.

24 outubro 2012

297/365
Jane

Não pôde dormir. Provas finais do Colégio Militar e revisões para o vestibular. Na mesa da sala, fazia pesquisas, anotava pontos importantes, tomava café. Em um cochilo de vinte minutos, sobre os cadernos, sonhou que o Marcelo Serrado, trajado de jaleco e touca, lhe oferecia uma massagem nos seios. Ela disse que não, quando viu-se só de calcinha na maca. Ele insistiu e ela gritou pra ninguém. De volta aos livros, viu que havia acordado o pai e o irmão, que, plantados, assistiam Jane gritar com os cabelos desgrenhados e as mãos no busto.

296/365
Leopoldina

Tinha pelos e movimentos elegantes. Olhos mostarda. Lambia-se lentamente, sedutora. Imitava as mais impossíveis posições de yoga. Do pescoço pendia uma corrente de couro e um L metalizado brilhava. Único adorno. Inventava dengos e manhas. Bebidas e fina comida ao seu alcance. Espreguiçava-se, aborrecia-se, sentia-se dona do mundo. Não tinha planos, nem compromissos. Nem mesmo culpa.

22 outubro 2012

295/365
Florência

Ressentia-se por ter nascido justo na cidade do homem mais velho do Brasil. Longeva, cuidava-se paranoicamente todos os dias, bem como rezava com regularidade para que seu Jacinto descansasse. Era a chance - a única - de ter sucesso. Assumiria o posto com honra e responsabilidade. Na primeira entrevista para a rádio local, pareceria lamentosa por ocupar o lugar do velhinho querido e se mostraria doce e madura.
294/365
Nívea

Gosto de sucos. Resolvi aderir à filosofia frutariana. Comprei um juicer potente pela TV e agora me sinto mais leve e saudável. Me mudei para o interior. Na casinha que aluguei, fiz uma horta e um pomar. Sim, estou mais leve e saudável. Minha pele anda esticadinha e reluzente. Pena não ter uma balança pelas redondezas. Até espelho aqui é difícil. Chatos só os mosquitos. Saudades de um McChedar.

293/365
Cintia

Uma tristeza que não sabia de onde vinha. Fez brigadeiro e assistiu a doze filmes argentinos, com um breve intervalo para o xixi.

292/365
Leocácia
 
Aproveitou as férias para fazer um curso de secretária e outro de segurança. Um emendado no outro. Louca pra largar os serviços gerais. Não tinha saco, mas lembrava que já havia sido bem caprichosa, quando a empresa ainda usava detergentes de boa qualidade. Lamentava as unhas sempre mal feitas, esmalte descascando. Não! Formou-se a melhor secretária da turma. E, não fosse a Layde, sua amiga igualmente desestimulada com a limpeza, teria sido a primeira da turma de segurança também. Mas as duas estavam bem, muito bem. Em breve, nada de baixar cabeça pra encarregado ou pra usuário fresco e reclamão de banheiro ou copa.

18 outubro 2012

291/365
Zaira

Quero morar no Espírito Santo, na beira do mar. Quero vento.


290/365
Susie

Entre um músculo saltado e outro do abdomem, havia um piercing com um pendente brilhante ostentando a letra J. O short - repetido ao longo da semana - tinha franjas que ele mesmo coseu e penteava eventualmente. Os pelos do peito largo raspava com gilete. Preferia os aparelhos antigos, daqueles que trocam lâmina, e sabão espumoso. Blusas ou tops, sempre coloridos. Adolescente, já tinha descoberto um orifício do esqueleto onde podia guardar pênis e testículos. Passava por uma mulher grande e sem seios. Respondia por Susie. O J do piercing, que podia ser Joaquim, João, Juvenal, Jonas ou Jefferson, decepcionava alguns e assustava outros: era a representação não pecaminosa de Jesus. Susie era uma bicha evangélica.

289/365
Querubina

E a pedido do filho, respeitado chefe do tráfico de drogas da comunidade do Açaí, ainda sem documentos, simulou um registro de nascimento com ano posterior. E o marmanjo, com seus vinte e poucos anos, passou a portar RG original que lhe atestava quinze. Na delegacia, na hora do registro, o funcionário perguntou: "tão novinho e com barba na cara, rapaz?". Dona Querubina se adiantou: "é um menino precoce".

15 outubro 2012

288/365
Lenice
 
Seguiu, a duras penas, o conselho de seu mentor de que não deveria queimar cartuchos enquanto não estivesse estabelecida no mercado. Sabia-se talentosa, sempre soube. Tentou até, por vezes, não parecer arrogante. E também, por vezes, tocou o foda-se. Que a julgassem arrogante, pretensiosa, cheia de si, não importava. Sabia exatamente o que tinha feito até ali e esperou até o último dia possível para se inscrever no prêmio. Foi selecionada. Já está entre os três melhores publicitários do Brasil. E vai se sagrar vencedora em breve. Sabe disso. Trabalhou pra isso. Merece cada centavo do prêmio, cada afago babaca e até aquele troféuzinho frágil - tanto quanto o sucesso.

14 outubro 2012

287/365
Kelly

Não podia ter mais do que doze anos na aparência - como conseguira aquilo? - e não parava de surpreender seu interlocutor. Na última pergunta, deixou-o esperar gagueira, falta de nexo ou embaraço. Fez uma longa pausa e respondeu impassível e eficiente. Fria, como era preciso. Era jovem e servia para o cargo, mas em pouco tempo aquilo seria pouco para ela. Coerentemente ambiciosa.
286/365
Juliane

Cruzou as pernas bronzeadas. Elas tinham brilho e exalavam um cheiro bom. A orquídea no tornozelo conversava com o esmalte pink das unhas. Obviamente usava shorts ou saias e sandálias muito enfeitadas. Eram pernas jovens, assim como os cabelos, muito negros. Longos, com ondulações naturais e disformes. E só isso: pernas e cabelos. Todo o resto - chegava a ser incrível - era flácido e antigo, velho, enrugado.

12 outubro 2012

285/365
Érica

Minha primeira impressão sobre o Julião foi de que ele era um bobão, largado, meio sujinho, sem noção e sem amigos. Nem quis me aproximar. Mas de tanto olhar, observar - por que ele me chamou tanto a atenção? -, acho que estou com ideia fixa. Vou à aula só para vê-lo. Até o Emanoel, professor de matemática gato, perdeu a graça. Penso no bobo do Julião toda hora. Aqueles cabelos assanhados, a magreza, as espinhas, o aparelho. E ele nem sabe que eu existo.

284/365
Helenira

Quando recebeu o ordenado, entrou numa dúvida. Merecia uma TV de LCD, finalmente, sim. E merecia, também, se ver livre da dívida da financeira (com aquele valor quitaria parte grande do que deve). Pensou, remoeu. Decidiu: deu o dinheiro todo na mão de Antônio, na esperança de terem tudo em dobro, nas cartas, no bicho, nas máquinas.

10 outubro 2012

283/365
Cícera

A colega, casada com uma bicha enrustida, resolveu tirar a hora do cafezinho para lhe contar as loucuras sexuais que passara com o marido na noite anterior. Aproveitou também para narrar com detalhes as grosserias do rapaz, tentando, a todo custo, fazer Cícera acreditar - caso tivesse notado o jeito dele - que o marido era macho, muito macho. Não chorava, deixava meias espalhadas pela casa e não entendia nada de gloss e rímel. Nenhuma paciência com crianças e tinha horror a nadadores que se depilavam. Era inteligente, sim, mas não sensível. Cícera ria por dentro. Cada uma acredita no que quer.

09 outubro 2012

282/365
Arlete

Bastou perder oito quilos pra se ver com a silhueta da Tessália, comprar uma calça da Suelen, fazer um megahair da Olenka, usar um colar da Carminha, os tamancos da Monalisa, a mula manca da Alexia. Passou a rezar pra achar um Jorginho ou um Darkson ou um Iran ou um Leandro. Vive no Divino.

08 outubro 2012

281/365
Morgana

Por menos bruxa que a minha aparência os faça supor que sou, lamento informar: vivo de feitiços, simpatias, magias, ritos secretos e belos.

07 outubro 2012

280/365
Ivana

Os cabelos dela crescem mais rápido do que quaisquer outros; são fortes e cheios, apesar da alimentação deficiente e das quedas. Solta-os quando molhados. Prende fios, espontaneidade e desejos fabulosamente. Atrás dos óculos esconde também o agito, o desassossego. Contraste com saias ou shorts curtos. Costura colchas e fronhas, estuda, faz doces pra engordar a família, cuida do amor, da vida, da casa. Gosta, à distância, de chia, agrião, ovo e sementes de girassol. Usa hidratante todos os dias em que não sente preguiça. Trabalha de sol a sol, mal cuida dos cachos.

279/365
Tainá

Adepta que é da cozinha macrobiótica, da yoga, da meditação tailandesa e, igualmente, do desapego ideológico, resolveu ontem experimentar. Escolheu um show de pagode na Barra Funda. Misturou cerveja, vodca e energético (ou seria guaraná?). Acordou com diarréia ocasionada por um hotdog com milho verde, batata palha e cerca de 200g de maionese.

05 outubro 2012

278/365
Gilmara

- O senhor me paga um almoço?
- Pago. Sente-se aqui comigo.
- Não, não. Eu quero só o almoço.
- Então, sente-se aqui comigo. Me faça companhia. Você mora onde?
- O senhor quer fazer caridade ou comprar minha companhia?
- Quero lhe ajudar, ora.
- Então pague meu almoço.
- Certo, mas sente-se aqui comigo, vamos conversar.
- Não. Minha conversa não está à venda.

04 outubro 2012

277/365
Divina

Não posso ter vergonha de dizer o que mais sinto falta da vida com o Alexandre. Vão me chamar de velha depravada. E daí? Se tem uma coisa boa em envelhecer é poder ser o que a gente é. E meu coração dói de saudade quando fecho os olhos e vejo aqueles braços fortes espancando um bife para o nosso jantar - ótimo cozinheiro caseiro -, quase sem tirar os olhos de mim.

03 outubro 2012

276/365
Wanderluce

Me sentindo a própria Frida, desenhei borboletas no molde de gesso da minha barriga de nove meses. Forcei todas as barras para confirmar a teoria de que gravidez é algo lindo e perfeito. Fingida. Arthur tem hoje três anos. E o que eu faço com esse simulacro de escultura que já não serve pra nada?

02 outubro 2012

275/365
Fátima
 
Temo pela minha reputação. Sempre. Peço desculpas, faço saber dos meus arrependimentos e dúvidas e – falsamente – interrogo sociedades sobre possíveis injustiças nas leituras dos meus atos. Puta merda, como me incomoda e tira o sono alguém pensar sobre mim algo ligeiramente diferente do juízo que eu mesma faço sobre mim. Que diria daqueles que me desprezam? Saber da existência deles quase me abre chagas na pele. Todos me olham. Cultivo esses olhares e desprezos. Pra quê? Talvez porque não tenha amores suficientes para cuidar ou vida que me preencha e lime meu tempo vago.
 
 
274/365
Araci
 
É asco o que Araci sente por Ítalo. Mas não pode esquecê-lo. Sonha quase diariamente os sonhos mais sensuais de toda a vida, com ele. Ítalo é um nojentinho contínuo do escritório. Por vezes, lança olhares para ela – olhares que ela não quer decifrar. Pragueja, em silêncio, coisas terríveis ao inseto Ítalo. E ele lhe sorri. Certo dia, a contragosto, recebeu dois pequenos tabletes de doce de bananas, sem qualquer palavra. Forçou um agradecimento entredentes, mas quando Ítalo virou-se jogou as peças no lixo. Por que esses sonhos? – perguntava-se.