10 janeiro 2012
10/365
Wanda
Gostou do primeiro capítulo da novela com a Marília Pera. Era fã. Mas era raro isso acontecer, uma novela ser boa logo no início. O jornal começou e ela foi esquentar o arroz, fritar o ovo – o último – para o Juarez. Achava ele um filho da puta de marca maior, mas acreditava que mãe e mulher sempre ficam em segundo, terceiro, quarto lugar. Se tem um ovo só, é do homem da casa. Se são dois, era um dele e um do menino. O terceiro é que seria o dela. Ontem, o vizinho caminhoneiro entrara num buraco que quase cobriu todo o veículo. A esposa ficara louca, puxando os cabelos, mas ele saiu nadando. Um buraco sem sentido. Ela consolou a vizinha. Também ontem, tentou pela terceira vez confirmar a matrícula do menino, sem sucesso. Só vai ter outro dia útil de folga semana que vem. Hoje fez faxina na casa da dona Liduína, no Guará. Machucara o joelho, de novo. Não sabe como será amanhã, na casa da dona Viviane. O ovo frito, voltou à geladeira. Resto de arroz e cenoura. Aproveitou o óleo do ovo do Juarez. Fez um mexido pra ela e pro menino. Estranho a prioridade ser de um filho da puta desses. Mas não ia reclamar, estava feliz com a novela. Se o primeiro capítulo já foi bom, imagine os próximos.
09 janeiro 2012
9/365
Rosa
Já contabilizava oito anos na profissão. Muitas aulas dadas e especializações com os profissionais mais renomados de todo o mundo. E agora, depois de vender seu curso em um site de compras coletivas, batera todos os recordes: três a quatro aulas diárias, cada uma com três horas de duração. Mas ela nunca havia passado por uma situação assim. Nunca, nunquinha. Nada perto disso. Explicações demais. Enquanto ensinava pacientemente as alunas a delinear os olhos, deixou escapar o pior e mais estarrecedor peido de sua vida. As que estavam próximas notaram, chegaram a contorcer o rosto ou sorrir. Iam borrar a maquiagem, essas ridículas. Sentiu ódio delas e anunciou: vou lavar as mãos, caiu base e sombra líquida aqui, posso manchar o rosto. Explicações demais. Foi ao banheiro e lá ficou por mais de dez minutos. Ao retornar, observou o olhar das alunas. Claro que elas sabiam. Fez outro anúncio: o cano da torneira soltou, está tudo molhado, não vão lá, ok? Explicações demais. Seguiu com o curso, rubra, sem blush.
08 janeiro 2012
8/365
Danila
Deprimida, Danila assistia ao Fabuloso Destino de Amélie Poulain e chorava em bicas. Queria ser inocente. Ao menos na relação com a Natália, que era a mais desencanada das meninas de sua vida. Queria também que a Natália fosse inocente. Danila queria ser pura também no seu empreguinho de bosta – apesar de ser muito capaz e ambiciosa. Queria não ser mais ambiciosa; queria que ninguém mais tivesse ambição. Queria ter uma mobilete e até uma amiga aeromoça pra reavivar a fantasia do seu paizinho, que sofria a morte de sua última esposa há mais de seis anos. Queria morar na europa, que todos conhecessem Paris, e ser garçonete e escrever o cardápio ao contrário no vidro, sem ter medo, raiva, receio ou rancor de nada. Queria armar situações para a alegria dos outros, só pra deixar de ver gente tão deprimida. Mas desejava copiosamente que alguém se ocupasse da alegria dela, inocentemente.
07 janeiro 2012
7/365
Márcia Carolina
Márcia Carolina Coutinho Lima. Nascimento: 12 de janeiro de 1986. Natural de São José do Ribamar-MA. Solteira, sem filhos. Reside em São Luís. Disponibilidade para viagens. Experiências profissionais: parte administrativa de corretora de seguros – 4 meses; secretária de cirurgião dentista – 2 meses; assistente de limpeza na prefeitura de São Luís – 1 ano e 7 meses; estágio no SENAC – 6 meses. Cursos: Inglês – básico; Informática – básico (word e excel); Curso de brigadista – trancado; Curso de cabeleireira e manicure; Curso de camareira. Comunicativa, escreve bem, lê à noite antes de dormir. Esperta. Pretende ingressar no curso de Gestão Empresarial – noturno ainda em 2012 e tirar carteira de motorista. Não tem medo de trabalho. Boa aparência. Gosta de viajar e conhecer pessoas. Precisa pagar o aluguel.
06 janeiro 2012
6/365
Tânia
“Tudo certo”. Depois de conferir quatro vezes a autenticidade das cédulas, Tânia as enrolou e enfiou no sutiã. Entre o suspiro de alívio pelo ateste e o movimento automático de acesso ao seu cofre orgânico suado, pegou a bic e o boleto. Era muito dinâmica, apesar do alto percentual adiposo. “Vai ser o quê?” O cabra não sabia. Nunca vira homem tão enrolado; os olhos dele corriam pelo entorno dela – a banqueta, os azulejos antigos do comércio fechado, os restos de cartazes na parede, o vira-lata. “Cachorro”. De repente deu pra falar firme. “Cadela”. E Tânia estranhou, mas nem teve tempo de raciocinar e, até antes de ouvir a ordem de pôr as mãos na cabeça, já deixava à mostra os sovacos. Sensação de água gelada pelo corpo, de cérebro raciocinando rápido, trazendo opções e decisões, ao mesmo tempo. Ficaria calada – por direito – até a presença do advogado (que advogado ela conhecia, meu deus?). Mas quando abrisse o bico ia levar até os famosos mais honrados com ela. Os PF tinham algo de inocentes, pensou, pois comemoram feito crianças a prisão de uma pobre coitada. Até ouviu um deles dizer: “o jogo perdeu uma leoa das grandes”. Coitados, e não conteve o riso, ela não passara de hiena.
05 janeiro 2012
5/365
Luísa
Ouvia o seu velho tagarelar por todo o caminho da casa dos tios. Os fones ele já tinha puxado. Os pais perdem tempo demais com bla bla blá, pensava. Antes mesmo que ele se desse conta, ela já tinha aprendido a lição: não é legal bater boca com a avó. O seu nome completo ela ouvira vinte mil vezes até ali. “Você tem que ter consciência, tá ouvindo, mocinha?, que a sua avó não está conosco, nós é que estamos na casa dela; se ela disser que você não vai tomar o suco especial dos infernos que ela comprou, você não vai tomar, entendeu?”. Tudo por causa de uma caixa de suco artificial, com substâncias bioativadoras para fortalecer os ossos. Recomendação médica. Queria responder ao pai que tem achado seus ossos meio moles, ultimamente, o que tem até dificultado a educação física. Mas tinha medo de levar uma chapuletada na boca. Respondona, ele diria. Maleducada, ele diria. Devia elevar seus pensamentos, exercitar a paciência – com o pai e com a avó –, a compreensão, a solicitude, a compaixão, o amor. Lembrou do Gustavo Peixoto. E sorriu – o pai estranhou – ao pensar no seu cenário futuro favorito: os dois velhinhos (mas Gustavo com o mesmo penteado de hoje), com aliança grossa no dedo, provavelmente tomando suco especial para os ossos e repreendendo um ou outro neto.
04 janeiro 2012
4/365
Carmem
Voltou ao trabalho. Fazia – por gentileza – o levantamento de alguns dados para o relatório da colega, porque obviamente não tinha nada para fazer. Muito correta, muito séria, muito comprometida, logo arrumou memorandos e avisos a fazer. Milena, você está muito ocupada? Desculpe, é que não posso mais tratar dos seus números para o relatório – com um sorriso entredentes. Não haveria problema. Milena retomaria o trabalho. Mas, antes que ela se esquecesse: Milena, querida, amanhã você poderia revisar meus memorandos e avisos, quando eu acabar? É que o chefe vai querer ver e sabe-se lá, não é? Milena piscou marotamente para Carmem, pegou a bolsa e foi embora. Aquele código todos bem conheciam. Carmem chegou a sentir vergonha, mas depois relaxou. Relatórios, memorandos, avisos. Quem saberá quando e como ficam prontos?
03 janeiro 2012
3/365
Isabel
Como alguém poderia saber? Meu vizinho, seu Júlio da padaria, Márcia do sacolão. Mas hoje todos me olharam diferente. A cada “Bom dia, dona Isabel” pelo caminho eu me sentia denunciada. A roupa era a mesma – da caminhada diária. Quando cheguei à porta do prédio, parei antes de entrar. Olhei em volta. Nenhum conhecido. Cronometrei o tempo. Não poderia demorar mais que o regulamentar da caminhada. Os rapazes muito simpáticos me receberam, preenchi a ficha, conheci as instalações. “A senhora já começa hoje?”. Olhei para o relógio. “Sim, acho que dá tempo. Quinze minutinhos, tá?”. Ele me colocou num aparelho enorme, com luzes piscando, números. Comecei minha caminhada artificial. Hoje, excepcionalmente, mais curta. Blindada do cheiro da rua, do sol e da chuva, dos “Bom dia, dona Isabel”, dos vigias incansáveis. Evitei o espelho, certa de que me sentiria como uma daquelas moças dali: finas, magras, com longos cabelos e roupas de grife. E me senti. Era ali que eu queria ficar todas as minhas manhãs. Sem que ninguém soubesse.
Isabel
Como alguém poderia saber? Meu vizinho, seu Júlio da padaria, Márcia do sacolão. Mas hoje todos me olharam diferente. A cada “Bom dia, dona Isabel” pelo caminho eu me sentia denunciada. A roupa era a mesma – da caminhada diária. Quando cheguei à porta do prédio, parei antes de entrar. Olhei em volta. Nenhum conhecido. Cronometrei o tempo. Não poderia demorar mais que o regulamentar da caminhada. Os rapazes muito simpáticos me receberam, preenchi a ficha, conheci as instalações. “A senhora já começa hoje?”. Olhei para o relógio. “Sim, acho que dá tempo. Quinze minutinhos, tá?”. Ele me colocou num aparelho enorme, com luzes piscando, números. Comecei minha caminhada artificial. Hoje, excepcionalmente, mais curta. Blindada do cheiro da rua, do sol e da chuva, dos “Bom dia, dona Isabel”, dos vigias incansáveis. Evitei o espelho, certa de que me sentiria como uma daquelas moças dali: finas, magras, com longos cabelos e roupas de grife. E me senti. Era ali que eu queria ficar todas as minhas manhãs. Sem que ninguém soubesse.
02 janeiro 2012
2/365
Vinólia
Na avaliação de Joel, Sandro e Inácio, dona Vinólia começou cedo. Em plena segunda-feira, às 11h, ela estava na terceira garrafa e já revirava os olhos e a língua. Na cozinha, frango cru semi temperado, uma cebola cortada ao meio, faca suja, arroz lavado na peneira. Resquícios interminados de um dia que aparentemente se iniciara certo, cotidiano.
Os rapazes aportavam na casa da mãe diariamente para filar o almoço antes do serviço. Mas hoje não haveria o que comer. Dona Vinólia já não respondia pelos quitutes que planejara preparar. Surrupiava a atenção dos três, atônitos, quando tentava pronunciar qualquer coisa ou ensaiava assoviar. Que fossem ao inferno os filhos imbecis. Que a deixassem ali, aposentada deles, desquitada do trabalho e viúva de sua razão. Hoje, Vinólia se escondeu da saudade, com cerveja.
01 janeiro 2012
1/365
Nair
Nair prepara o jantar. Pela manhã, levou as meninas para brincar no foguete do Parque. As duas bonitinhas descansavam as pernas grossas no sono vespertino. O cheiro de bisteca invade o apartamento recém-comprado. Nair se pega divagando se cheiros fortes assim entram no taco da sala e ali se instalam para sempre. Passam a fazer parte da história do lugar. Aqui deve haver registro de frangos, carnes, doces de tacho – alguém faria doce de tacho em um apartamento tão pequeno? – e também de produtos de limpeza inadequados. Aqui e ali se vê uma pequena mancha.
As meninas acordam. A mãe tem que banhá-las, banhar-se e vigiar o fogo. São poucas horas até o primeiro jantar do ano. Nair desperta do pensamento sobre os tacos. A caminho do varal, para pegar as toalhas, faz uma resolução que considera genial: preparará um doce de abóbora este ano. No tacho.
31 dezembro 2011
21 dezembro 2011
14 dezembro 2010
Princesa
O que há de beleza em uma princesa com o fiofó tomado por hemorróidas? Os longos cabelos louros, esvoaçando numa ventania ritmada pelo vai-e-vem do ventilador, são o contraste com o rosto triste e contrariado pela fisgada interna. Quase prazerosa de tão dolorida.
Revista Alfa
Interessante a recém lançada revista Alfa, da editora Abril. Segundo uma amiga, uma "Marie Claire para homens", mas eu acho até menos que isso. Interessante e só, sem grandes novidades. Mas terríveis foram duas colunas que li na edição de novembro, em 'Confissões': "Não seja uma vítima da mulher-vítima", de Tati Bernardi, e "Sinfonia no colchão", de Kika Salvi. A primeira é uma ridícula tentativa de ser solidária aos homens, na sua tortuosa relação com esses seres tão difíceis, as mulheres. Oh! A segunda é fantástica: um NÃO aos gritos na hora do gozo. A (pudica) autora chega a confessar: "eu não sou do tipo barulhenta". E, especialista em sexo/corpo/tesão/etc., diagnostica: "não há relação entre prazer e sonoridade. Muita gritaria indica justamente o contrário". E não conseguiu sustentar esse "contrário" no texto. Fiquei de cara. Aí eu pergunto pra minha amiga lá de cima: "Marie Claire ou Nova???".
O que há de beleza em uma princesa com o fiofó tomado por hemorróidas? Os longos cabelos louros, esvoaçando numa ventania ritmada pelo vai-e-vem do ventilador, são o contraste com o rosto triste e contrariado pela fisgada interna. Quase prazerosa de tão dolorida.
Revista Alfa
Interessante a recém lançada revista Alfa, da editora Abril. Segundo uma amiga, uma "Marie Claire para homens", mas eu acho até menos que isso. Interessante e só, sem grandes novidades. Mas terríveis foram duas colunas que li na edição de novembro, em 'Confissões': "Não seja uma vítima da mulher-vítima", de Tati Bernardi, e "Sinfonia no colchão", de Kika Salvi. A primeira é uma ridícula tentativa de ser solidária aos homens, na sua tortuosa relação com esses seres tão difíceis, as mulheres. Oh! A segunda é fantástica: um NÃO aos gritos na hora do gozo. A (pudica) autora chega a confessar: "eu não sou do tipo barulhenta". E, especialista em sexo/corpo/tesão/etc., diagnostica: "não há relação entre prazer e sonoridade. Muita gritaria indica justamente o contrário". E não conseguiu sustentar esse "contrário" no texto. Fiquei de cara. Aí eu pergunto pra minha amiga lá de cima: "Marie Claire ou Nova???".
20 agosto 2010
Um oi lerdo, lento, de ré
Nenhum elogio à preguiça, já mais que homenageada pela minha ausência. Apenas algumas boas notícias:
Li Comer rezar amar, de Elizabeth Gilbert. E não me interessam as opiniões daqueles que usam loção anti-best seller: adorei.
Na próxima terça, 24/8, às 19h, Marcelo Sahea lança Nada a dizer, com direito a performance. Será na galeria Objeto Encontrado (102 Norte).
Estão abertas as inscrições para o 1° Concurso Literário de Crônicas, Cartas e Trovas, da editora Guemanisse. Informações em http://www.guemanisse.com.br/.
Neste momento (21h do dia 20/8), está sendo lançado no Carpe Diem (104 Sul) o livro Gênero e feminismos: convergências (in)disciplinares, organizado por Valeska Zanello, Cristina Stevens, Tânia Almeida e Kátia Brasil. Nele, texto da amiga e ídola Gislene Barral, além de outras pesquisadoras phodas.
Um conto meu foi selecinado num concurso interno da Caixa Econômica, para ser publicado em livro. Chama-se "Tempo".
Li Alameda Santos, da Ivana Arruda Leite. Ela continua phoda e eu continuo adorando o que ela escreve.
Estou lendo dois livros do psicanalista Flávio Gikovate.
Nenhum elogio à preguiça, já mais que homenageada pela minha ausência. Apenas algumas boas notícias:
Li Comer rezar amar, de Elizabeth Gilbert. E não me interessam as opiniões daqueles que usam loção anti-best seller: adorei.
Na próxima terça, 24/8, às 19h, Marcelo Sahea lança Nada a dizer, com direito a performance. Será na galeria Objeto Encontrado (102 Norte).
Estão abertas as inscrições para o 1° Concurso Literário de Crônicas, Cartas e Trovas, da editora Guemanisse. Informações em http://www.guemanisse.com.br/.
Neste momento (21h do dia 20/8), está sendo lançado no Carpe Diem (104 Sul) o livro Gênero e feminismos: convergências (in)disciplinares, organizado por Valeska Zanello, Cristina Stevens, Tânia Almeida e Kátia Brasil. Nele, texto da amiga e ídola Gislene Barral, além de outras pesquisadoras phodas.
Um conto meu foi selecinado num concurso interno da Caixa Econômica, para ser publicado em livro. Chama-se "Tempo".
Li Alameda Santos, da Ivana Arruda Leite. Ela continua phoda e eu continuo adorando o que ela escreve.
Estou lendo dois livros do psicanalista Flávio Gikovate.
05 abril 2010
Invictus - humilde comentário
Semana passada, assisti à quase derradeira sessão de Invictus, uma da tarde numa das salas menos badaladas da cidade. É um lindo extrato da biografia de um dos maiores homens que a humanidade já conheceu. Um exemplo de compaixão, de perdão, de amor incondicional. O cara é um iluminado. Não à toa recebeu o Nobel da Paz em 1993 (mas depois de Obama também ter ganho eu já não sei se o prêmio é referência). A atuação de Morgan Freeman é impecável e Matt Damon não está nada mal. Lindo filme. Pra finalizar, a parte final do poema Invictus, de William Henley, inspirador de Mandela na prisão: "Eu sou dono e senhor de meu destino. Eu sou o comandante de minha alma".
Semana passada, assisti à quase derradeira sessão de Invictus, uma da tarde numa das salas menos badaladas da cidade. É um lindo extrato da biografia de um dos maiores homens que a humanidade já conheceu. Um exemplo de compaixão, de perdão, de amor incondicional. O cara é um iluminado. Não à toa recebeu o Nobel da Paz em 1993 (mas depois de Obama também ter ganho eu já não sei se o prêmio é referência). A atuação de Morgan Freeman é impecável e Matt Damon não está nada mal. Lindo filme. Pra finalizar, a parte final do poema Invictus, de William Henley, inspirador de Mandela na prisão: "Eu sou dono e senhor de meu destino. Eu sou o comandante de minha alma".
21 março 2010
Bah, o mundo da literatura ainda existe
De 24 a 26 de março, acontece em Brasília o 1º Colóquio Internacional sobre Poéticas da Oralidade Cordel: uma tradição que se refaz. A abertura será dia 24, às 15h, no auditório da Reitoria da UnB. As inscrições podem ser feitas por e-mail: coloquiocordel@gmail.com. E outras informações, você encontra aqui.
E ainda na UnB, o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea e a Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília organizaram o curso de extensão Desconstruir nacionalismos – resgatar identidades regionais, com a professora Ria Lemaire, da Universidade de Poitiers. O curso, ministrado em português, acontece entre os dias 22 e 24 de março. Informações aqui.
E Ivana Arruda Leite lançou há poucos dias seu segundo romance, Alameda Santos. Costumo gostar muito dos textos dela, cujo humor oscila entre o ácido e o inocente, sempre com uma perspectiva desesperançosa e inevitável: feminina até a raiz dos cabelos. Veja o blog dela aqui.
Na telona
Me diverti com Simplesmente complicado semana passada. Majestosos Meryl Streep e Alec Baldwin. Interessante ver como as coisas acontecem sob uma perspectiva, digamos, 'madura' do amor, da vida, do sexo. Balela: tudo igual, tudo confuso, tudo complicado. Mas divertido, no entanto. Há algo de leveza ali, que é raro nas relações 'descomplicadas'.
Saudades de Tereza?
Ela é nova, melhor, mas não inteira. Lê um best de Marian Keyes, vê comédias românticas aos pedaços, enquanto o sono permite, se exercita, trabalha, cuida de três crianças. E briga muito com uma delas.
De 24 a 26 de março, acontece em Brasília o 1º Colóquio Internacional sobre Poéticas da Oralidade Cordel: uma tradição que se refaz. A abertura será dia 24, às 15h, no auditório da Reitoria da UnB. As inscrições podem ser feitas por e-mail: coloquiocordel@gmail.com. E outras informações, você encontra aqui.
E ainda na UnB, o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea e a Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília organizaram o curso de extensão Desconstruir nacionalismos – resgatar identidades regionais, com a professora Ria Lemaire, da Universidade de Poitiers. O curso, ministrado em português, acontece entre os dias 22 e 24 de março. Informações aqui.
E Ivana Arruda Leite lançou há poucos dias seu segundo romance, Alameda Santos. Costumo gostar muito dos textos dela, cujo humor oscila entre o ácido e o inocente, sempre com uma perspectiva desesperançosa e inevitável: feminina até a raiz dos cabelos. Veja o blog dela aqui.
Na telona
Me diverti com Simplesmente complicado semana passada. Majestosos Meryl Streep e Alec Baldwin. Interessante ver como as coisas acontecem sob uma perspectiva, digamos, 'madura' do amor, da vida, do sexo. Balela: tudo igual, tudo confuso, tudo complicado. Mas divertido, no entanto. Há algo de leveza ali, que é raro nas relações 'descomplicadas'.
Saudades de Tereza?
Ela é nova, melhor, mas não inteira. Lê um best de Marian Keyes, vê comédias românticas aos pedaços, enquanto o sono permite, se exercita, trabalha, cuida de três crianças. E briga muito com uma delas.
21 fevereiro 2010
09 novembro 2009
Breve histórico de um caminho
1979 - eu nem sabia se estava mesmo viva; via vultos; berrava; pedia braço, abraço, colo e leite quente. Peito. Era dona de uma situação tão minha quanto as minhas certezas de agora. Urrava sem mesmo entender qualquer coisa, sem mesmo lamentar.
1984 - a melhor coisa do mundo havia de ser uma tv a cores, a praia mansa - ao menos a que tinha a meu alcance - de vento mole e coca-cola. Meus cabelos dominavam todo o litoral do meu rosto, extensos e informes. Sorriso de filho que não sabe o que existe, além de uma boneca negra que imitava bebê. Comia lápis de cera, numa espécie de insubordinação inocente.
1989 - diretas, constituição, presidente eleito. A Xuxa era a referência de beleza, inteligência e competência. Barbies já tinham seu lugar. Nova escola, novos amigos. Primeira paixão, talvez. Tão irrealizada quanto as que vieram em seguida. O meu mundo era expresso em desenhos. Alguns muito bons até.
1994 - beijos, beijos, beijos. Conquistadores motorizados ou livres para beber e fumar. Tórridas e ardentes paixões utópicas. Vida para a dança, a rua, os beijos. Rodopios, fugas, juras de amor. Noites viradas, suadas e imaculáveis. Amizades fiéis para sempre. Chorava agora entendendo algo muito mais dolorido. Braço, abraço e colo serviam. Pouco.
1999 - sexo e mais. Amigos e mais. Estudos e mais. Tudo o que eu pudesse, quisesse... Realidade mesquinha: eu não podia, não podia. Autoregramento intenso, firme, reto. Ressentimento, dor, câncer de alma e máscaras, e máscaras, e máscaras. E desenhos.
2004 - alguma fuga, alguma ousadia. O choro era denso, mas disfarçado. Sabia que estava viva, mesmo parcialmente morta. Planos à prova, ideais à prova. Regra, trabalho, casamento. Poesia; coração atado. Doído.
2009 - maternidade plena e confusa. Vira-volta: rumo ao passado, à liberdade adolescente, aos beijos, beijos, beijos. Ao sexo. A crença, calejada e desconfiada, entregue e insegura, no amor de novo. No mais errado dos caminhos; na mais incerta aposta. Eu: mulher intensa e amiga decepcionante.
1979 - eu nem sabia se estava mesmo viva; via vultos; berrava; pedia braço, abraço, colo e leite quente. Peito. Era dona de uma situação tão minha quanto as minhas certezas de agora. Urrava sem mesmo entender qualquer coisa, sem mesmo lamentar.
1984 - a melhor coisa do mundo havia de ser uma tv a cores, a praia mansa - ao menos a que tinha a meu alcance - de vento mole e coca-cola. Meus cabelos dominavam todo o litoral do meu rosto, extensos e informes. Sorriso de filho que não sabe o que existe, além de uma boneca negra que imitava bebê. Comia lápis de cera, numa espécie de insubordinação inocente.
1989 - diretas, constituição, presidente eleito. A Xuxa era a referência de beleza, inteligência e competência. Barbies já tinham seu lugar. Nova escola, novos amigos. Primeira paixão, talvez. Tão irrealizada quanto as que vieram em seguida. O meu mundo era expresso em desenhos. Alguns muito bons até.
1994 - beijos, beijos, beijos. Conquistadores motorizados ou livres para beber e fumar. Tórridas e ardentes paixões utópicas. Vida para a dança, a rua, os beijos. Rodopios, fugas, juras de amor. Noites viradas, suadas e imaculáveis. Amizades fiéis para sempre. Chorava agora entendendo algo muito mais dolorido. Braço, abraço e colo serviam. Pouco.
1999 - sexo e mais. Amigos e mais. Estudos e mais. Tudo o que eu pudesse, quisesse... Realidade mesquinha: eu não podia, não podia. Autoregramento intenso, firme, reto. Ressentimento, dor, câncer de alma e máscaras, e máscaras, e máscaras. E desenhos.
2004 - alguma fuga, alguma ousadia. O choro era denso, mas disfarçado. Sabia que estava viva, mesmo parcialmente morta. Planos à prova, ideais à prova. Regra, trabalho, casamento. Poesia; coração atado. Doído.
2009 - maternidade plena e confusa. Vira-volta: rumo ao passado, à liberdade adolescente, aos beijos, beijos, beijos. Ao sexo. A crença, calejada e desconfiada, entregue e insegura, no amor de novo. No mais errado dos caminhos; na mais incerta aposta. Eu: mulher intensa e amiga decepcionante.
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