03 fevereiro 2012
02 fevereiro 2012
01 fevereiro 2012
31 janeiro 2012
30 janeiro 2012
Melancólica. Acordava às 5h para tomar antidepressivos, sem nunca acreditar que teria um dia bom. Voltava para a cama e assistia a um programa aborrecido de TV – doenças incuráveis, problemas incríveis, paranormalidade. Entediava-se. Desligava. Em um horário aprazível, telefonava a uma amiga (trabalhando, Úrsula, depois ligo); tentava a mãe (de novo, filha? Olha só, você deve fazer assim), entediava-se, desligava. Não tinha mais o César para ligar, para chutar o pé, sentir o cheiro, combinar de ir ao supermercado à noite. Mas já fazia tanto tempo. Por que ainda lembrava-se dele? Não tinha mais o escritório, cheio de clientes, cheio de funcionários incompetentes, cheio de problemas. Convidou o Marcelo, ex-sócio, para almoçar (claro, que horas?). O receio de que o babaca esperasse que ela pagasse – já que o convidou – a fez desistir. Ligou de novo (mas por que mudou de ideia, Úrsula? Eu hein...). Almoçou sozinha no restaurante mais caro que pôde encontrar. Fez planos para a viagem de março – Belém do Pará. Quem convidaria? Entediou-se de todos. Voltou para casa. Desligou-se.
Livros, apostilas. Cursinho. Domingo. Sol. Nuvens. Sol. Notebook, cabos, caneta, caderno. Internet. Inscrição. Banco, conta, dinheiro, saldo. Livro. Caderno. Sala de aula, professor, pincel, quadro. Colegas. Concorrência. Bolsa, barra de cereal, água. Apostila. Espirro. Óculos. Saudade. Foco – quadro. Matemática financeira. Direito Penal. Inglês. Alarme, pílulas. Notebook, apostila. Intervalo, água, café, banheiro. Sol, tédio, raiva. Resignação. Sala de aula, professor, pincel, quadro. Colegas. Concorrência. Apostila, livros. Caderno, caneta. Repetição. Exercícios. Interpretação. Erros, acertos. Pontos. Calculadora. Decepção. Otimismo, perseverança. Almoço. Descanso. Livros. Sol. Nuvens. Sol. Notebook. Celular. Rapidez, pressa. Sala de aula, caderno, caneta. Direito Administrativo. Óculos. Água. Exercícios. Rabisco – saudade. Renan. Pôr do sol. Alarme. Carro. Casa. Banho. Livro. Cama. Foco.
É fim de janeiro. Aniversário do Joseph, capricorniano. Acordei cedo, ajudei minha mãe com a louça de ontem, tomei café com ela. Fui à feira, comprei cheiro verde e pimentão. Fiz as unhas, depilei pernas, axila e virilha, alisei os cabelos, peguei uma blusa na costureira. Peguei com a Luciana os ingressos pro pagode hoje. Banho de lua na laje de casa. Desliguei o celular pro Joseph nem sonhar em me telefonar. Sem explicações. Tudo surpresa. Sete da noite. Comecei a me arrumar – banho, desodorante, perfume. Ensaiei uns passinhos na frente do espelho. Liguei o celular para ver quantos recados tinha recebido do Joseph. Nenhum. Procurei o número dele, liguei, fora da área de cobertura. Surpresa?
27 janeiro 2012
Chegou do futebol. Tomou banho, comeu miojo com requeijão e ouviu as perguntas do pai sobre o jogo, respondendo "ã-hã" e variações com a cabeça. Diante do espelho, arrumou mais uma vez as trancinhas. Sorriu para si. Computador. Hora marcada com um garoto, o Daniel. Não o conhecia pessoalmente, ainda, mas ele fora uma espécie de indicação da Ana, super amigo do ficante da super amiga. Nunca se interessou por garotos daquele jeito. Sempre jogou bola com eles, brincou de esconde-esconde na rua, brigou. O Daniel era tão lindo. "Filha, vem ver o jornal com o papai". Não, não queria saber de jornal, de prédio que caiu, de ministro que vai cair. Daniel. Daniel. Daniel. Tinha que chamar de alguma coisa aquilo que sentia e que não tinha nome. Daniel. Daniel. Daniel.
26 janeiro 2012
Elisângela
Cumbuca e produto pra relaxar cachos na mão. Mistura com o pincel macio e passa com cuidado na raiz do cabelo da cliente.
- Eu adoro ela. Foi assim: ela era minha cliente e, com o tempo, fomos ficando amigas. Ela me chama pra sair, visita minha casa, me conta as coisas dela...
- Então tá tudo ótimo.
- Não, mulher, escuta. Ela me enche o saco. No dia que eu me embucetar aí vocês vão ver.
(risos de todo o salão)
- O que ela te fez?
- Ela vive emburrada comigo. Se me liga e me chama pra sair e eu não vou, pronto, emburra. Se vem aqui no salão e eu não atendo ela na frente de todo mundo, emburra.
- Mas ela teria que entender, né? Você está trabalhando, tem outras clientes.
- Mulher, ela nem marca. Ela quer ser atendida na hora.
- Isso é amiga?
- Já tá quase pronta, viu? Mais dois minutos. Vamos já lavar.
- Tá.
- Outro dia me chamou pro cinema e eu disse que não tinha dinheiro. E ela fechou a cara. Ave Maria, só se eu der minha periquita (risos).
A cliente olha o cabelo cheio de química pelo espelho. O cheiro é forte.
- E quando ela chega eu tenho que sorrir, nem que eu tenha brigado com o Anderson ou qualquer outra pessoa. Eu tenho que tratar ela bem.
Chega a fulana.
- Amiga linda, eu tava te esperando! Vai querer depilar, né?
O couro cabeludo da cliente ardendo com a progressiva.
25 janeiro 2012
Meu muro e meu portão são baixos. Minha fachada é meio velha, descascada. Vejo a rua, vejo o povo passeando, dou bom dia. Me trazem leite, pão e jornal na porta de casa. Vou à bodega. Conheço todo mundo. Estou na Lapa há mais de 40 anos. Só nesta rua, mais de 25. Hoje é um dia especial - o aniversário da cidade que me oprime e me acolhe. Tem corrida de rua, show, festa na Paulista. Eu não vou. Mas fiz um bolo especial. E comprei velas. À noite, depois de ver tudo pela televisão, e depois de passar as pomadas nas pernas, e tomar o remédio da pressão, e ver se o Pingo, meu vira-lata, já dormiu, eu vou cantar parabéns pra minha cidade. Sozinha.
24 janeiro 2012
24/365
Katrinna
Em plena terça-feira de janeiro e ela em casa, sem dinheiro, sem trabalho. Por orientação de seu advogado, aguarda o fim do seguro desemprego. Talvez espere até o fim do processo; poderá receber alguma indenização. Assistiu a dois filmes ontem. Acordou às 9h. Escolheu a conta de luz para pagar. Sem internet, o passeio do dia foi até a lotérica da esquina. Comprou dois pães. Evitou gastar com cuscuz. Pouca margarina. Está magra - não tem academia, gelatina diet, leite desnatado. Anteontem ligou para a mãe. Velha insensível. Se vire, pague suas contas e me deixe em paz. Do pai e do irmão não tinha notícias. O namorado? Nos fins de semana em que os dois conseguem juntar algum dinheiro, saem, dançam, trepam num motelzinho. Mas é só o dinheiro acabar e cada um volta para a sua rotina. Desde a semana passada não tinha notícias dele. Cachorro. Ana Maria Braga. Eu quero trabalhar. Vai lavar roupa, arrumar a cama, limpar a casa. De novo. À tarde, ligará para o advogado.
23 janeiro 2012
Fui vencida. O meu desfio de 2012 não foi cumprido. Mas não quero mais essa culpa para a minha coleção. Não foi por preguiça, falta de inspiração ou bloqueio criativo. Não publiquei nos dias 21 e 22 porque o meu acesso à internet está limitado ao trabalho. Mas escrevi, apesar da trabalheira com mudança de endereço.
E, para provar, eis os contos de hoje, ontem e anteontem.
23/365
Graça
Meu ano está maravilhoso. Me botaram pra servir este andar agora, com menos pessoas e todas educadas. Chamaram a Camilinha no Extra. Ela vai ser caixa. E a Duda começou em dezembro como adolescente aprendiz na Caixa Econômica do Gama. Eu passei no Enem. Agora vou ter que procurar em qual faculdade eu consigo entrar com bolsa do Prouni. Você vê aí pra mim na internet? Não precisa ser agora não, mais tarde, quando eu trouxer o seu café. Mas, menina, você não vai acreditar, meu coração está uma bagunça. Cansei do açougueiro. Mas foi porque eu me apaixonei. Nunca acreditei nesse negócio de amor à primeira vista, mas existe. Fui numa festa com minhas amigas e me apaixonei. Fiquei com o rapaz. Traí meu namorado. Ele estava viajando. Mas agora voltou e já percebeu que eu estou fria com ele. Vou ficar assim até ele se tocar e cair fora. Não tenho coragem de dizer que eu tenho outro. Ele não ia fazer nada, não ia matar ninguém, mas é chato, né? São três anos de namoro. Ele me ligou ontem e disse que ia lá pra casa. Eu falei que estava passando mal, pra ele não ir. E saí com o outro. Minhas meninas não sabem. Anselmo o nome dele. Não, não é muito bonito não. Mas os olhos dele são lindos, cor de mel. Não vou reclamar não, meu ano começou bem. Graças a deus. Deixa eu servir a outra menina ali.
22/365
Renata
Contou e recontou os dólares. Não batia. Era a primeira vez em Miami. Conferiu cada compra, forçou a memória para visualizar cada lanchinho, sorvetinho, chicletinho. Gastou com algo que não lembrava ou foi roubada. Mas quem roubaria vinte dólares? Droga. Devia ter reservado a bosta do dinheiro. Agora, por causa de vinte dólares, estava prestes a perder o voo. Seria possível ir até o aeroporto correndo? Pegou o mapa. Muito muito muito muito longe. E ainda teria que carregar malas, sacolas, bolsas. Droga. Pensou em pegar emprestado com alguém, mas quem? E com esse inglês péssimo? What you... Do you... Vinte. Two, zero. Money?, ensaiava. E como ia devolver? Sedex? Quem ia confiar nela assim? Era outro país, sei lá. Ou podia vender o tênis, as garrafinhas? Droga. 6h da manhã. Incomodaria algum hóspede? Haveria brasileiros alí? Droga. Batia a cabeça na mala, desejando que alguma ideia lhe escapasse por um buraco qualquer.
Maria do Rosário
- Não trabalhamos com intuição, senhora.
- E como é que a gente faz, moço? Meu filho ainda não voltou pra casa e eu sei que aconteceu algo ruim.
- Qual a idade do rapaz?
- 17. Não, 18. Acabou de completar... Hoje é o aniversário dele, já passa da uma da manhã.
- Aí é que eu não posso fazer nada, senhora.
- Que porra é essa, seu delegado?
- Eu não sou delegado, senhora. Sou agente. E, infelizmente, não posso fazer nada. A senhora pode apresentar queixa de desaparecimento 48 horas depois do sumiço do rapaz. Então, vai ter que esperar.
- Eu estou lhe dizendo, seu agente, que algo ruim aconteceu. Eu sinto isso. A informação está aqui, ó (batia com a mão fechada no peito), mas eu não consigo decifrar. Sei que foi sério. Talvez uma tragédia.
- Já disse que não há o que fazer, senhora.
- Eu estou desesperada, meu filho precisa de ajuda.
- Se ele precisasse mesmo de ajuda, ele ligaria.
- O senhor não está entendendo.
- Senhora, eu devo cumprir a lei.
- (Exaltada) o senhor enfia essa lei no seu cu. Porra, já faz meia hora que eu estou lhe dizendo que...
- (Para outro agente) algema a velha. Desacato.
Rosário calou-se.
20 janeiro 2012
20/365
Ava Eugênia
Deixara de comer carne, inclusive frango. Tudo para agradar o namorado estrangeiro, que considerava a prática de devorar animais deplorável. A data do casamento marcada: 21 próximo. Falta muito pouco. E ela tem dúvidas, medos, receios. Não seria simples desistir, fugir, simular um chilique. Afinal, o casamento vai legalizar a situação do noivo excêntrico no Brasil. Será o mesmo que atestar que o ama para sempre e que, de um modo ou de outro, ela estará ligada a ele a perder de vista. Se sentia antecipadamente culpada, responsável por proporcionar a ele uma nova vida: possibilidade de ter uma carreira, de ganhar dinheiro, de prosperar. Largar hábitos ruins é fácil; organizar uma festa simples mas com detalhes de muito bom gosto é fácil. E aguentar um desconhecido para o resto da vida? Respira, acessa o iphone e tuíta, fingidamente entusiasmada: “Amanhã a festa mais animada do ano, meu casamento com o Philip. Espero todo mundo lá. Até a Luiza que voltou do Canadá. hahaha”.
19 janeiro 2012
19/365
Tereza
Ainda choro se algo me surpreende. Acredito em algumas instituições-conceitos, como amizade, família, mas com alguma desconfiança. Não sigo com rigor os meus ritos. Não respeito meu corpo. Os limites se impõem, mas contra a minha vontade. Ponho à prova a minha intuição. Não aprendi a perdoar, sou rancorosa. Cumpro minhas obrigações, às vezes com um entusiasmo genuíno, às vezes com apatia e até desprezo. Sinto raiva quase todos os dias. Não sorrio a nenhuma criança que não seja filha minha. E o sorriso de ninguém me comove. Retraio minha espontaneidade. Tento regularmente manter o desvínculo com alguns familiares e amigos. Até rezo. Planejo – e executo – meu lazer quase mecanicamente, para cumprir uma receita de vida boa. O tempo passa e eu cresço. E me torno, cada vez mais, uma pessoa pior.
18 janeiro 2012
18/365
Claudia
Não tinha papas na língua. E queria parecer não ter. Queria ser respeitada, temida. Desafiava. Apostava seu cargo de confiança, seu status. Falava mal da empresa e de seus superiores. “Você viu, Lu, que o chefe conversou por horas com a Vick ontem, na confraternização?” – alfinetava. “Vi, Claudia, mas não enxergo mal nenhum nisso”. Balançava a cabeça: “ai, Lu, como você é ingênua. A prova é cabal, querida: hoje ele chegou sério, sisudo. E sabe o que é isso?”. Lu esperava a resposta maliciosa, quase incrédula. “Ressaca moral” – e aguardava os olhos arregalados de Lu –. “É um filho da puta como outro qualquer”. Sabia que a Lu se mordia de ódio. Não pelos impropérios lançados a um homem aparentemente honesto, mas porque ela, Claudia, pra arrematar, agia como se fosse a dona do setor. “E, Lu, antes que eu esqueça, querida, estou esperando o relatório”.
17 janeiro 2012
17/365
Selma
Aprendi que a gente tem que agradecer até o que é ruim. Que o ruim é sempre supostamente ruim. Apenas. Estou diante do ponto dos exus de minha casa. Já conversei com meus guias, já chorei minhas pitangas, me descabelei – fiquei com os olhos inchados e o corpo dolorido. Agora acendo velas, bato cabeça. Não é fácil a gente se concentrar de verdade quando está magoada. As feridas não cicatrizam por magia. Difícil rezar. O Jonas é um bandido, pilantrinha, covarde. E não me quer mais. As pombas giras riem porque compreendem a bobagem que é lamentar amor perdido. Isso passa, garantem. Até passar, peço que prendam minhas pernas. Pra eu não correr atrás dele.
16 janeiro 2012
16/365
Iolanda
Meu filho, eu estava saindo do Comper e o rapaz gentilmente se prontificou a me ajudar. Porque eu comprei muita, muita coisa e tinha muitas sacolas. Eu vejo esse rapaz quase todo dia, ele olha os carros. Ele deve saber onde eu moro, pois fomos andando enganchados até perto do meu prédio. Ele tentou tirar as sacolas pra me ajudar, mas elas se emaranharam nos meus braços. Bastou isso. Seu Pereira, porteiro do meu prédio, veio correndo. E mais uns dois ou três que eu não conheço se amontoaram à nossa volta. E bateram no rapaz. Bateram na cabeça dele, chutaram a barriga, as costas. Ele não disse nada. Nem todo mundo é marginal, meu filho. E foi tudo tão rápido, que eu tentava explicar pra eles e não conseguia. Fiquei assustada. Se o rapaz não morreu, deve estar bem machucado, porque a última vez que o vi – me arrastaram pro outro lado e, aí sim, perdi algumas sacolas – ele estava ensanguentado no chão. Eu mesma subi pelo elevador e chamei a polícia.
15 janeiro 2012
15/365
Rita
No Pier 21.
- Pronto, perguntei se a gente podia pagar depois de comer.
- Imbecil. Idiota. Por que foi perguntar?
Não entendia a reação grosseira. A mãe era tudo pra ela. Mesmo sendo adolescente, não dava trabalho. Ajudava a cuidar da irmã temporã. Há pouco, a menina tentava tirar a fralda, na frente de todo mundo, e a mãe se servia.
- Hein, imbecil, responde. Burra!
(Rita calada)
- Idiota... não sei por que ainda saio com vocês duas. Perguntar coisas pra uma mulher. Uma mulher desconhecida. Eu mandei você perguntar? Mandei, hein?
(Rita calada)
- Trouxa, babaca. Eu perdi a fome. Vou pro carro.
(Rita olha assustada)
- Imbecil.
Não chora. Termina o prato calada. Não sabe como vai pagar a conta. Ou como vai levantar e ir embora sem ser percebida. Come toda a salada.
14 janeiro 2012
14/365
Elisabeth
Acorda. Escova os dentes. Banho rápido; café com toalha. A roupa foi escolhida na noite anterior. Creme, maquiagem, desodorante. Tudo cronometrado. Ao entrar no carro, as ligações começam: secretária, banco, filha, mãe, namorado. O amor não é prioridade. Chega ao banco, lê todos os jornais, analisa as taxas do Bacen, especula, sugere, opina. A secretária lembra que tem dentista às 11h. Manda cancelar, adiar. Café. A secretária telefona na hora do lanche. Na hora do almoço. Na hora do outro lanche. Jantarão juntas. O namorado telefona. Não atende. Taxas, investimentos, câmbio. Retorna a ligação e – sem ouvi-lo – pede que ele escolha o destino das férias. Tem que desligar. Entrevista um candidato à sua equipe. Café. Não tem tempo de imaginar praia. Delega. Filha, não posso falar agora, amor. Continue amamentando, sempre que ele chorar. Ouve o neto ao fundo. Desliga. Volta para casa. Jantar com a secretária, passar a agenda de amanhã. A mãe telefona, aconselha: diminua o ritmo. A roupa do outro dia já está escolhida. Demaquilante, banho, dentes. Duas pílulas milagrosas. Dorme.
13 janeiro 2012
Dorinha Landir
Por um rápido instante, se permitiu imaginar-se no lugar de Sheila, que lhe arrancava as cutículas. Atenderia mais duas ou três clientes. Na volta para casa, saltaria do ônibus sujo e lotado, passaria na padaria e compraria – fiado – um pacote de pão. O marido seria um desempregado barrigudo e nojento, os filhos catarrentos? Chega. Melhor voltar ao pensamento das joias que pretendia comprar, do novo carro, dos vestidos. O marido cheiroso, os filhos educados e brilhantes. Pediu champanhe à gerente do lugar – o nome lhe fugiu – e foi prontamente atendida. Melhor levantar o queixo, evitar olhar os olhos de Sheila, imaginar um pagode de laje. Isso nem deve existir, apostava. Já com os cabelos no lavatório, telefonou para Araci e, ao instruí-la sobre o jantar, ouviu um verbo mal conjugado. De onde vinha essa pobreza de espírito? Essa falta de noção? Nunca deve ter estudado, coitada. Ainda hoje, com seu salário irrisório, deve ter dificuldades para fechar o mês com as contas em dia. Era viúva e sustentava dois filhos e um neto. Pegava quatro ônibus todo dia. Chega. Saiu do salão. Só restava se certificar de que deveria reservar-se calada, desde o entrar no carro até chegar aos jardins da mansão. E subir o vidro rapidamente para evitar qualquer conversinha sem propósito do Jair, que começaria com um “boa tarde, madame”.
12 janeiro 2012
12/365
Flaviane
A analista queria inovar. Queria ir além de Freud e seus sucessores. Botou duas pacientes, desconhecidas entre si, para conversar. “Coisa estranha, o que ela quer com isso?”, e a outra respondia “e eu que sei? Essa mulher é louca”. Ela observava primeiro sem ser vista. Depois, passou a ficar na sala, postada atrás dos dois divãs paralelos. Era interessante, mas ela ainda não conseguia concluir nada – um experimento sem objetivo e sem hipóteses. E as duas passaram a sair de si, deixaram de falar dos seus próprios problemas ao léu, para ouvir e aconselhar a outra. Mais adiante, perderam o interesse por essa conversa solidária. E foi surpreendente para Flaviane ouvir especulações/suposições/verdades sobre si. “Hum, não te contei. Ela tem um namorado lindo, mas nem liga pra ele. Esnoba, sabe?” e a outra comentava “não consigo entender como alguém poderia tratar uma pessoa próxima com descaso. E nem bonita ela é. Deve ser doente”. E as sessões duravam mais, muito mais do que um bom filme.
11 janeiro 2012
11/365
Laura
Tinha pezinhos de anjo, menores que os da maioria das crianças da mesma idade. Mas era geniosa. Cada birra resultava em valiosos olhares permissivos e, às vezes, doces (além do pedido objeto do show). Não se tratava de falta de educação, diziam os pais e atestava a psicopedagoga, mas de personalidade. Um grito no supermercado, um escândalo na casa dos parentes, um choro desnecessário por uma boneca nova – tudo seria pouco, quase nada, diante do dinheiro que a pequena renderia. Os sonhos do casal – primeiro era casar, ter dinheiro para alugar um apartamento na Asa Sul, comprar um carro semi novo e planejar a chegada da princesa – agora se resumiam em quitar dívidas, equilibrar os gastos, sair do vermelho. Com um comercial de TV feito e já matriculada em teatro e sapateado, mal sabia a ordem do alfabeto. Investimento. Os olhos dos pais brilhavam de orgulho.