222/365
Débora
Ligou aos prantos para o namorado. Havia perdido a vaga no grupo de ginástica olímpica. O tórax largo, ainda de colant de treino, tremia e as lágrimas escorriam melando o rosto sem maquiagem. A boca abria e fechava num movimento que não permitia que se vissem os dentes, só a língua, e muita saliva espalhada. O namorado mal conseguia entendê-la. Duas faltas e não relevaram, não tiveram piedade. Ela não pôde argumentar, chorar, implorar. Não tinha atestado, justificativa da mãe a próprio punho, declaração da escola. Nada. Agora, nem vaga no esporte que ela sempre julgou que seria o seu futuro.
10 agosto 2012
09 agosto 2012
221/365
Vilanir
Gostava de saias curtas e rodadas para todas as festas. Telefonava para um e outro e, em minutos, estavam todos no estabelecimento de dona Vilar, a mãe. Vilanir era bonita, negra, iluminada, cheirosa, com muito cabelo, pele brilhante, ressaltada pelas roupas claras, sempre claras. Cantava samba como ninguém e arriscava no tamborim. Torcia, com o seu rebolado natural, o pescoço de tudo que é homem. Entretanto lhe interessavam apenas as mulheres. E, para uma linda cantora de comunidade, feminina, preta e pobre, era inaceitável, inconcebível que não virasse uma - talvez famosa - artista local, boa mãe e esposa. Chorava todas as noites no colo de dona Vilar.
Vilanir
Gostava de saias curtas e rodadas para todas as festas. Telefonava para um e outro e, em minutos, estavam todos no estabelecimento de dona Vilar, a mãe. Vilanir era bonita, negra, iluminada, cheirosa, com muito cabelo, pele brilhante, ressaltada pelas roupas claras, sempre claras. Cantava samba como ninguém e arriscava no tamborim. Torcia, com o seu rebolado natural, o pescoço de tudo que é homem. Entretanto lhe interessavam apenas as mulheres. E, para uma linda cantora de comunidade, feminina, preta e pobre, era inaceitável, inconcebível que não virasse uma - talvez famosa - artista local, boa mãe e esposa. Chorava todas as noites no colo de dona Vilar.
220/365
Antonieta
E a careta Antonieta, alheia às novidades do universo, ganhou na promoção da Band News FM Brasília um iPad 2. Meses lendo o manual, conheceu o Facebook, mas não se encantou. Está apaixonada, isso sim, por um app famoso. Ele resgatou a Antonieta artista, sensível. Não larga o dispositivo. Está pensando em se aposentar do Ministério com urgência.
Antonieta
E a careta Antonieta, alheia às novidades do universo, ganhou na promoção da Band News FM Brasília um iPad 2. Meses lendo o manual, conheceu o Facebook, mas não se encantou. Está apaixonada, isso sim, por um app famoso. Ele resgatou a Antonieta artista, sensível. Não larga o dispositivo. Está pensando em se aposentar do Ministério com urgência.
07 agosto 2012
06 agosto 2012
218/365
Branca
Seu Neném é assim mesmo, casei sabendo. O que faz ele alegre são os rabos de saia . Galanteia, conversa com os amigos, se insinua. Nunca vi, sempre me contam. Ele respeita minha presença. Talvez pense que eu não sei dos pequenos casos e paqueras dele. E pensar que, no início, eu sofria tanto... Amadureci. Cada um com suas vontades. Até a empregada que meus filhos arrumaram ele já anda rondando. Não imagina que vi ele levantando da cama quando dava pra ouvir o chuveiro dela ligado. Deve ter ido espiá-la. Quando voltou, deitou e me abraçou. Dei palmadinhas na barriga dele. São nossos gestos de carinho.
Branca
Seu Neném é assim mesmo, casei sabendo. O que faz ele alegre são os rabos de saia . Galanteia, conversa com os amigos, se insinua. Nunca vi, sempre me contam. Ele respeita minha presença. Talvez pense que eu não sei dos pequenos casos e paqueras dele. E pensar que, no início, eu sofria tanto... Amadureci. Cada um com suas vontades. Até a empregada que meus filhos arrumaram ele já anda rondando. Não imagina que vi ele levantando da cama quando dava pra ouvir o chuveiro dela ligado. Deve ter ido espiá-la. Quando voltou, deitou e me abraçou. Dei palmadinhas na barriga dele. São nossos gestos de carinho.
05 agosto 2012
217/365
Lilá
É, eu sou passadeira, mas por que você quer me dar um espaço no jornal pra eu falar de passar roupa? Coisa mais sem graça, não tem nem o que dizer. Pensa comigo: chego nas casas, abro a tábua, esquento o ferro e passo uma pilha de roupa. Na hora de ir embora, recebo meu pagamento e vou. Simples assim. Agora, quer coisa boa e emocionante pra falar? Fala do meu curso de biscuit. Eu nem terminei e minha vida já mudou. Tenho jeito pra coisa. Faço tão direitinho, que estou vendendo bonequinhos pra outros artesãos. Mas a coisa que eu mais faço bem são os noivinhos pra bolo de casamento. Vem gente até de Boa Viagem encomendar. Vai, escreve sobre isso.
Lilá
É, eu sou passadeira, mas por que você quer me dar um espaço no jornal pra eu falar de passar roupa? Coisa mais sem graça, não tem nem o que dizer. Pensa comigo: chego nas casas, abro a tábua, esquento o ferro e passo uma pilha de roupa. Na hora de ir embora, recebo meu pagamento e vou. Simples assim. Agora, quer coisa boa e emocionante pra falar? Fala do meu curso de biscuit. Eu nem terminei e minha vida já mudou. Tenho jeito pra coisa. Faço tão direitinho, que estou vendendo bonequinhos pra outros artesãos. Mas a coisa que eu mais faço bem são os noivinhos pra bolo de casamento. Vem gente até de Boa Viagem encomendar. Vai, escreve sobre isso.
04 agosto 2012
216/365
Mariah
Virou a cabeça indagadora, grata surpresa. Sim, era a mãe, a sisuda dona Adelaide, que estava ali pulando empolgada, dobrando o papelzinho com a prenda para a noiva. Estavam no chá de lingerie de uma amiga da família e o momento era justo aquele para o qual Mariah havia se preparado: estrategicamente, para evitar as recorrentes críticas de dona Adelaide, ficaria quieta, observando o ambiente em vez de participar. Já não era a primeira vez em que se sentia obrigada a se conter. Mas dona Adelaide tomou a frente, coordenou o grupo de amigas, sugeriu brincadeiras, pulou, soltou gritinhos de alegria. Sim, a mãe era uma mulher divertida. Uma menina, como ela. Agradável, engraçada. Mariah arregalou os olhos, admirou-se da descoberta. E, diante da cena tão aconchegante (não existe palavra mais adequada), preferiu permanecer observando o ambiente em vez de participar. Sorriu contemplativa e satisfeita.
215/365
Sonia
Encontrei uma escola de gastronomia aqui em Niterói. Nada mais me interessa: só peixe. Quero cozinhar peixe, quero ter um restaurante, quero ser a melhor peixeira de Lima. O nome do meu estabelecimento: Peixe do Brasil. Assim, em português, simples e lindo. Volto para o Peru em dois meses, cheia de conhecimentos e sonhos. Sim, tudo irá mudar e o meu mundo será perfeito. Só falta o Gustavo, meu (ex?) noivo peruano, me aceitar de volta. Foi ele quem me empurrou pra dentro do avião, me mandou de volta para a minha vida brasileira, mesmo eu querendo tanto ficar. Mas a ideia do restaurante irá cativá-lo, estou certa.
Mariah
Virou a cabeça indagadora, grata surpresa. Sim, era a mãe, a sisuda dona Adelaide, que estava ali pulando empolgada, dobrando o papelzinho com a prenda para a noiva. Estavam no chá de lingerie de uma amiga da família e o momento era justo aquele para o qual Mariah havia se preparado: estrategicamente, para evitar as recorrentes críticas de dona Adelaide, ficaria quieta, observando o ambiente em vez de participar. Já não era a primeira vez em que se sentia obrigada a se conter. Mas dona Adelaide tomou a frente, coordenou o grupo de amigas, sugeriu brincadeiras, pulou, soltou gritinhos de alegria. Sim, a mãe era uma mulher divertida. Uma menina, como ela. Agradável, engraçada. Mariah arregalou os olhos, admirou-se da descoberta. E, diante da cena tão aconchegante (não existe palavra mais adequada), preferiu permanecer observando o ambiente em vez de participar. Sorriu contemplativa e satisfeita.
215/365
Sonia
Encontrei uma escola de gastronomia aqui em Niterói. Nada mais me interessa: só peixe. Quero cozinhar peixe, quero ter um restaurante, quero ser a melhor peixeira de Lima. O nome do meu estabelecimento: Peixe do Brasil. Assim, em português, simples e lindo. Volto para o Peru em dois meses, cheia de conhecimentos e sonhos. Sim, tudo irá mudar e o meu mundo será perfeito. Só falta o Gustavo, meu (ex?) noivo peruano, me aceitar de volta. Foi ele quem me empurrou pra dentro do avião, me mandou de volta para a minha vida brasileira, mesmo eu querendo tanto ficar. Mas a ideia do restaurante irá cativá-lo, estou certa.
02 agosto 2012
01 agosto 2012
213/365
Zaida
Não entende letra de música brasileira. Não gosta de encostar em outras pessoas, nem mesmo na feira. É gorda, mas se vê vistosa e elegante. Gosta de estar com outras mulheres de sua origem, conversar, aconselhar. Tem medo dos homens e, apesar de bem instruída e inteligente, detesta discutir assuntos que classifica como masculinos. Seu maior luxo é acordar tarde. E, de fato, desde criança permanece na cama até ouvir - longe, longe - seu nome gritado.
Zaida
Não entende letra de música brasileira. Não gosta de encostar em outras pessoas, nem mesmo na feira. É gorda, mas se vê vistosa e elegante. Gosta de estar com outras mulheres de sua origem, conversar, aconselhar. Tem medo dos homens e, apesar de bem instruída e inteligente, detesta discutir assuntos que classifica como masculinos. Seu maior luxo é acordar tarde. E, de fato, desde criança permanece na cama até ouvir - longe, longe - seu nome gritado.
31 julho 2012
212/365
Patrícia
Sou empática. Tenho amigos que compreendo como ninguém. Se têm
algum problema, sou a primeira ouvidora que vem às suas cabeças. Escuto,
aconselho com cuidado, sem invasão, ou disfarço o conselho com
especulações: “será
que desse jeito não é melhor?”. Sou boa amiga. Talvez por isso mesmo,
estranham se eu tenho um problema. Franzem o cenho, sacodem a cabeça. E,
quando
gratos e solícitos, fingem que me escutam e lançam de volta uma solução
rápida
e teoricamente adequada, mas de difícil aplicação; quando ingratos ou
indiferentes, murmuram interjeições, olham para a mesa ao lado ou para o
cardápio
e sugerem outro petisco ou mais bebida. “O frango a passarinho daqui é
muito bom”, recomendo.
30 julho 2012
211/365
Rosane
Você é um amontoado de culpa. Se se permite comer algo além de sua rotineira dieta, se pune. Se se destempera, sai da sua calma habitual, reúne contra si provas irrefutáveis de sua incompetência. Sim, é tudo culpa sua. Ao menos na sua leitura, na sua interpretação. Seu nome florido e seus olhos botânicos de nada servem, além de lhe imprimir um sentimento de não merecimento: justo eu fui nascer assim tão naturalmente bonita? Mas nada que dure muito. Também a culpa lhe impõe a certeza contraditória: ninguém me admira, você pensa.
Rosane
Você é um amontoado de culpa. Se se permite comer algo além de sua rotineira dieta, se pune. Se se destempera, sai da sua calma habitual, reúne contra si provas irrefutáveis de sua incompetência. Sim, é tudo culpa sua. Ao menos na sua leitura, na sua interpretação. Seu nome florido e seus olhos botânicos de nada servem, além de lhe imprimir um sentimento de não merecimento: justo eu fui nascer assim tão naturalmente bonita? Mas nada que dure muito. Também a culpa lhe impõe a certeza contraditória: ninguém me admira, você pensa.
29 julho 2012
210/365
Bubba
Tem algo errado aqui. Não sei contar, mas tenho certeza que pari mais filhinhos do que estes aqui. Cadê o marrom? Ah, está ali. Mas tem algo errado, sinto falta de bebês. Minha prole não está completa. Terá sido aquele casal que veio ontem? Ou aquela garota? Estão levando meus filhinhos.
Bubba
Tem algo errado aqui. Não sei contar, mas tenho certeza que pari mais filhinhos do que estes aqui. Cadê o marrom? Ah, está ali. Mas tem algo errado, sinto falta de bebês. Minha prole não está completa. Terá sido aquele casal que veio ontem? Ou aquela garota? Estão levando meus filhinhos.
28 julho 2012
209/365
Letícia
Minha mãe trabalha na peixaria. Ela limpa peixes para as pessoas comprar. Ela tem olhos grandes e um sinal perto da bochecha. Não, não é perto, é na bochecha mesmo. Tem um cabelo misturado preto com marrom. É muito linda e iluminada. É bem brava quando está em casa, mas quando telefona é boazinha. Quer saber se está tudo bem, se cheguei da escola e se esquentei meu almoço no micro-ondas. Ela comprou um micro-ondas novo e branquinho. À noitinha ela chega, lê os meus deveres e apaga alguns pra eu fazer de novo. Vemos a novela das empreguetes juntas. E ela vai ralhando de vez em quando porque eu sou um pouco esquecida e bagunceira. Quando ela não traz uns peixes ou camarões, comemos sanduíche, às vezes com refri, às vezes com tang. Tomamos banho e escovamos os dentes. Ela tranca a casa. Ela me diz pra rezar e às vezes eu até esqueço.
Letícia
Minha mãe trabalha na peixaria. Ela limpa peixes para as pessoas comprar. Ela tem olhos grandes e um sinal perto da bochecha. Não, não é perto, é na bochecha mesmo. Tem um cabelo misturado preto com marrom. É muito linda e iluminada. É bem brava quando está em casa, mas quando telefona é boazinha. Quer saber se está tudo bem, se cheguei da escola e se esquentei meu almoço no micro-ondas. Ela comprou um micro-ondas novo e branquinho. À noitinha ela chega, lê os meus deveres e apaga alguns pra eu fazer de novo. Vemos a novela das empreguetes juntas. E ela vai ralhando de vez em quando porque eu sou um pouco esquecida e bagunceira. Quando ela não traz uns peixes ou camarões, comemos sanduíche, às vezes com refri, às vezes com tang. Tomamos banho e escovamos os dentes. Ela tranca a casa. Ela me diz pra rezar e às vezes eu até esqueço.
27 julho 2012
208/365
Maria Eunice
Hoje completa nove anos. No meio dos lamentos confusos que inundam sua cabeça, igualmente pela nona vez, ela se pergunta onde teria errado. E a única certeza é que, sim, ela o havia ensinado a pedir socorro, a gritar e chamar por ela diante de qualquer situação de perigo. Naquele dia, todavia, ele não chamou. E ela perdeu o filho de dois anos para a água. Ainda vivo, afogando-se, Júlio a olhava nos olhos, tão calado quanto podia. Desafiava o perigo com um silêncio corajoso e doente. Morreu.
Maria Eunice
Hoje completa nove anos. No meio dos lamentos confusos que inundam sua cabeça, igualmente pela nona vez, ela se pergunta onde teria errado. E a única certeza é que, sim, ela o havia ensinado a pedir socorro, a gritar e chamar por ela diante de qualquer situação de perigo. Naquele dia, todavia, ele não chamou. E ela perdeu o filho de dois anos para a água. Ainda vivo, afogando-se, Júlio a olhava nos olhos, tão calado quanto podia. Desafiava o perigo com um silêncio corajoso e doente. Morreu.
26 julho 2012
207/365
Elma
Larguei o cartório, o Danilo e os meus sogros. Por uns meses, morei na casa dos meus pais com Daniel, mas também não foi fácil. Saí da cidade. Em Brasília, montei um buffet, treinei funcionários e consegui fazer dinheiro. Hoje, esses que se julgam minha família mal sabem os números da minha caixa postal e de um celular exclusivo. Daniel sequer pergunta. Somos iguais: puros e livres.
Elma
Larguei o cartório, o Danilo e os meus sogros. Por uns meses, morei na casa dos meus pais com Daniel, mas também não foi fácil. Saí da cidade. Em Brasília, montei um buffet, treinei funcionários e consegui fazer dinheiro. Hoje, esses que se julgam minha família mal sabem os números da minha caixa postal e de um celular exclusivo. Daniel sequer pergunta. Somos iguais: puros e livres.
25 julho 2012
206/365
Tâmara
7h15 - apito inconfundível da secretária eletrônica. Mal consegue distinguir uma voz da outra, mas sabe que é a galera da facul. Entre alguns "urrruuu" e "bá bá bá" (de basculante, que é seu apelido) e músicas que ela não foi capaz de identificar: "o nosso Recife é lindo, sua doida. Acorda pra cuspir". Julgou que era melhor levantar, embora continuasse de férias.
Tâmara
7h15 - apito inconfundível da secretária eletrônica. Mal consegue distinguir uma voz da outra, mas sabe que é a galera da facul. Entre alguns "urrruuu" e "bá bá bá" (de basculante, que é seu apelido) e músicas que ela não foi capaz de identificar: "o nosso Recife é lindo, sua doida. Acorda pra cuspir". Julgou que era melhor levantar, embora continuasse de férias.
24 julho 2012
205/365
Francine
Encontrei um dos filhos dele e expliquei o caso. Ele entendeu como cheguei à conclusão. Meu pai me disse, com todas as letras, um dia: "você não é minha filha". Saiu na TV que o humorista era pai de tanta gente e minha mãe disse, com todas as letras: "minha história com o Chico Anysio é antiga". Juntei as informações. O Bruno me recebeu bem. Disse, com todas as letras, que eu não me preocupasse, pois faríamos um exame e, se o Chico fosse mesmo meu pai, tudo seria providenciado. Fizemos o tal exame, nós dois, num laboratório. Negativo. E o Bruno disse com todas as letras: "que pena". Acho que ele queria que eu fosse irmã dele.
Francine
Encontrei um dos filhos dele e expliquei o caso. Ele entendeu como cheguei à conclusão. Meu pai me disse, com todas as letras, um dia: "você não é minha filha". Saiu na TV que o humorista era pai de tanta gente e minha mãe disse, com todas as letras: "minha história com o Chico Anysio é antiga". Juntei as informações. O Bruno me recebeu bem. Disse, com todas as letras, que eu não me preocupasse, pois faríamos um exame e, se o Chico fosse mesmo meu pai, tudo seria providenciado. Fizemos o tal exame, nós dois, num laboratório. Negativo. E o Bruno disse com todas as letras: "que pena". Acho que ele queria que eu fosse irmã dele.
23 julho 2012
204/365
Jocasta
O cansaço é típico e recorrente e, dependendo do caso, intenso e irreversível. A gente cansa o corpo depois de exercícios ou um dia de trabalho. A gente cansa a cabeça. A gente cansa de um perfume, de uma roupa, da moda, da vida, de dogmas, de discursos políticos, de guerra, de livros. Cansa de comer comida com o mesmo tempeiro. Cansa de não ter comida, de ter fome. Cansa de conversa hipócrita, de blablablá, de vozes, de cobranças, de cansar e de viver todo dia. A gente cansa de um barulho, de um filho, de uma criança chata, de bêbados, de bagunça, de doença, de serviço mal feito. A gente cansa de programas de TV. A gente cansa de gente.
Jocasta
O cansaço é típico e recorrente e, dependendo do caso, intenso e irreversível. A gente cansa o corpo depois de exercícios ou um dia de trabalho. A gente cansa a cabeça. A gente cansa de um perfume, de uma roupa, da moda, da vida, de dogmas, de discursos políticos, de guerra, de livros. Cansa de comer comida com o mesmo tempeiro. Cansa de não ter comida, de ter fome. Cansa de conversa hipócrita, de blablablá, de vozes, de cobranças, de cansar e de viver todo dia. A gente cansa de um barulho, de um filho, de uma criança chata, de bêbados, de bagunça, de doença, de serviço mal feito. A gente cansa de programas de TV. A gente cansa de gente.
22 julho 2012
203/365
Natércia
Um homem idiota me surpreende. Um bom número de circo me deixa de boca aberta. Um jantar maravilhoso, piadas ruins, notícias de desastres terríveis, doentes na família, insistência em erros, amores duradouros. Mas não posso negar: estas férias em Belém foram marcantes por um detalhe: um banheiro químico de rua ultra limpo e cheiroso.
Natércia
Um homem idiota me surpreende. Um bom número de circo me deixa de boca aberta. Um jantar maravilhoso, piadas ruins, notícias de desastres terríveis, doentes na família, insistência em erros, amores duradouros. Mas não posso negar: estas férias em Belém foram marcantes por um detalhe: um banheiro químico de rua ultra limpo e cheiroso.
21 julho 2012
202/365
Cleo
Quem chegar à minha idade e disser que não se arrependeu de nada do que fez estará fazendo papel de herói. Querendo aparecer ou coisa do tipo. Eu me arrependo de muita coisa. Uma delas foi de ter surrado a minha filha mais velha por ela ter comido mais da metade do cuscuz sozinha, esquecida dos irmãos. Alguns dias depois ela pegou malária e faleceu. Me arrependi também de ter deixado de conversar com a minha irmã Claudia, que se mudou para Salvador e nunca mais tive notícias dela nem dos da família dela. Me arrependo de ter contado aos policiais onde o Nego Cristiano tinha se escondido, na Ribeira. Nego Cristiano nunca me fizera qualquer mal. A gente se arrepende das coisas grandes, de pequenas coisas, mas se arrepende muitas vezes ao longo da vida. Dias mais tarde, comida pela vergonha, vou me arrepender de ter dado esse depoimento.
Cleo
Quem chegar à minha idade e disser que não se arrependeu de nada do que fez estará fazendo papel de herói. Querendo aparecer ou coisa do tipo. Eu me arrependo de muita coisa. Uma delas foi de ter surrado a minha filha mais velha por ela ter comido mais da metade do cuscuz sozinha, esquecida dos irmãos. Alguns dias depois ela pegou malária e faleceu. Me arrependi também de ter deixado de conversar com a minha irmã Claudia, que se mudou para Salvador e nunca mais tive notícias dela nem dos da família dela. Me arrependo de ter contado aos policiais onde o Nego Cristiano tinha se escondido, na Ribeira. Nego Cristiano nunca me fizera qualquer mal. A gente se arrepende das coisas grandes, de pequenas coisas, mas se arrepende muitas vezes ao longo da vida. Dias mais tarde, comida pela vergonha, vou me arrepender de ter dado esse depoimento.
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