18 fevereiro 2014


João Cesário

Ressabiado. Era o dia dela solteira. Era verão. Ela escolheu uma saia para exibir as pernas de boneca e batom vermelho pro bico. Blusa amarela, rabo de cavalo e pó na cara pra disfarçar o calor. Os óculos escuros refletiam João Cesário à espreita, na rua debaixo, ciumento, que ela fazia questão de não enxergar. A bolsa branca pendurada no braço revezava uma batida no quadril e outra nas pulseiras. Era um desfile, que pedia trilha sonora e plateia, a despeito do sol carioca. Era só o caminho de casa à feira. E João Cesário acompanhava o balanço, com raiva.

#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

14 fevereiro 2014

Primavera

E para a estação das flores, criará uma estampa colorida, com elementos disformes, líquidos e confusos. É assim a moda-arte-conceitual, afinal, e Jonas está disposto a firmar seu nome, a assinar grandes coleções, ver a si cobiçado, escolhido, apontado. Desenha no ar, onírico. Sim, serão primaveras moles, olhos de camaleão, e expressarão esperança, luz e melancolia. Ao menos é o que diz seu horóscopo: criatividade em flor. Mas a primavera anda longe ainda e Jonas é estudante.


#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

11 fevereiro 2014

Armando

Fui um dos primeiros bebês de proveta do Brasil. Nasci em 87. A então jovem Margot me desejou tanto que largou o posto disputado de secretária da SUDENE para se dedicar à maternidade. Meu pai, herdeiro de família nobre paulistana, morreu quando eu tinha dois anos. Com ele, foi toda a tradição e as heranças inventadas. Dona Margot foi a mãe mais amorosa e protetora do universo. Me punha casacos até sob os dias de janeiro carioca. Esticava a pensão como podia. Deixava de comer pra me comprar danoninho e meias novas. Foi tragada pelo câncer de boca quando ainda passava minhas camisas e arrumava minha cama. Hoje, sou incapaz de misturar leite e toddy.


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

07 fevereiro 2014



Adeus, Antônio


De tanto dispensar oferendas, dela viam-se as costelas. Lânguida, salamandra pálida num cenário pouco vivo, Elza não queria olhar para trás. Deixou Antônio a observá-la, com uma tristeza que nunca lhe foi apresentada. O corno que construísse a imagem que melhor lhe conviesse. “Me fartei”, concluiu e saiu, tão sexy quanto fosse possível, de vestido de festa roto – após a briga –, invalioso e encorajador. Um adeus eterno.

#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

04 fevereiro 2014

Joaquim


Cantarolava um ponto. Juntava as pedrinhas. Pronto. Oferecia. Frente aos dois discípulos corpulentos, molhou um maço de arruda e sacudiu sobre eles. Tudo era bento naquelas cachoeiras de Xangô, cria. Iniciava uma oração, pisava nas vestes, ajeitava as contas. Os discípulos acompanhavam. Criavam, entre si, uma força que para os céticos se traduzia em confiança. Era pai deles. E suas histórias eram tão eruditas quanto fluídas e maleáveis, conforme o curso mole que as pedras desenhavam. Os discípulos ouviam com atenção. Agradeciam.


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

31 janeiro 2014


Café


Fizera café. É certo que se vira sonolento, mas muito mais consumido do que indisciplinado. Perdera mãe, pai e avó sem sofrer tanto. E agora Luzia lhe perguntava se era sono ou gripe. Mulher idiota. Dispensara pão, manteiga ou bolachas. Na cozinha sem vida, uma janela sem vento, deixara o café esquentar o dia.

#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

28 janeiro 2014

Molho de chaves

Deitou o violino nas coxas e batucou. Taça de vinho. Roeu mais de doze unhas, coçou a cabeça, riscou fósforos e cadernos. Acendeu um cigarro e quis ouvir a voz dela. Delirava no travesseiro de bolinhas e não tinha forças pra uma punheta. Calçou e descalçou as sandálias muitas vezes, balançou o molho de chaves, prestes a sair. Escreveu uma canção idiota, fez rosquinhas de fumaça no ar. Sentiu pena de si, abriu as cortinas, viu o colorido insuportável, doente. No espelho, viu as próprias costelas. Juntou numa caixa o que lhe trazia dor - até um papelzinho "Júlia". Passou fita gomada. Despacharia pra quem? E como? Não podia sair. Onde estão as minhas chaves? Voltou ao violino, ao vinho e ao cigarro.



#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

24 janeiro 2014



Esteves

Num barco, olha-se para trás. Viram-se as costas para o horizonte porque é inevitavelmente sabido que aquilo é apenas um horizonte: nada mais se mostra. E o que se vê? Esteves, o meu amor. Delira-se. Vejo-o ora em minhas mãos, ora liberto. Tal como agora, hora em que não há Esteves atrás de mim, me querendo e me desejando. Só no meu passado. E agora? Haveria alguém? Estaria bronzeado ainda? Disposto e sorridente? Cheirando a alfazema, suor ou bolor? Olha-se para si. Só se tem um barco, um horizonte. E é vazio.

 #reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

21 janeiro 2014

Gentileza

Pra ele bastou. Prostrou-se diante do papel de parede nude do quarto.
- E daí que não vi graça na história, Ron?
- Hm.
- (risos pouco confiantes) Hein, amor? Vem cá, pára de briga, dá um beijinho.
- Chega, Carol.
- Não tô acreditando, Ron.
- Você não se enxerga não? Não vê o tanto que é ridícula? Te falo de uma gentileza... o cara segurou a porta do elevador pra três pessoas que estavam longe... coisa rara hoje em dia... (transtornado) e você não dá a mínima?
- Ah, ridículo é você. Eu ouvi, sorri e pronto. Não tenho comentário a fazer. Nem sei por que enfatiza tanto essa (com voz debochada) “falta de gentileza da humanidade e blá blá blá”.
- Insensível.
- Doente.
- Chata, egoísta.
- Patético. Filhinho da mamãe.
- Filhinho da mamãe não, Carol. Pô, a gentileza hoje em dia...
- (exaltada) Ah, foda-se.




#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

17 janeiro 2014

Lisbela



A voz era grave demais para pronunciar o próprio nome. Dezessete anos, magra, gigolete pink, blusa de listrinhas cor de rosa, melissa. Os pêlos do rosto, do peito, das pernas arrancava com ódio. Os seios eram um sutiã de enchimento, até quando tivesse dinheiro pra silicone de clínica. Cuidadosa, metódica. Os cabelos lisos eram milimetricamente organizados. Nos lábios, um batom quase imperceptível. Delicado, não queria chamar atenção. Soletrou Lisbela à atendente, que a olhava atenta, sem brilho ou compaixão. Curiosidade, talvez. E a jovem foi altiva, o nariz empinado sobre o bigode raspado: falou o endereço, o telefone, o nome da mãe, do pai, o RG e o signo. Virgem.


                                                    #reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

14 janeiro 2014


Damião

“A gente não sabe mesmo, nunca, com o que vai se deparar”, filosofava Damião ao limpar a bancada. Até aquela hora – e não havia dormido – não sabia bem o que fazer com as pedras que encontrara. Na internet procurou notícia de algum roubo a banco ou casa de gente muito rica. Não eram joias roubadas, concluíra. O primo do vizinho de seu cunhado certa vez dissera que a gente é responsável pelo que cativa. Frase que soava tão óbvia quanto confusa. Agora sentia-se assim, simplesmente, responsável pelas pedras que encontrara num matagal da Maraponga e nada mais. Seguiria paulistano, 37 anos, negro, gordo e porteiro noturno do Edifício Cidade, o maior de Fortaleza. 

                                                   #reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

10 janeiro 2014



Rua

E tudo o que pouco fazia sentido pra mim, no Ocidente surgiu agressivo, ameaçador e inegociável. Tudo era aparência e aparência era valor. Um desfile constante de sentimentos de grife e arroubos de distinção. Era uma Maria de pantalonas ou uma Luíza de botas de couro ou um André com bolsa a tiracolo. E eu era pequeno e engolido pelo urbano desconexo dos modelos que flutuavam. Eu era saudade de Hea, falta de ar na rua de paralelepípedos não paralelos. Asma de Hea. Sufoco fashion.
                                                       #reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

07 janeiro 2014

Maldonado Silva, descansado

Fora estagiário de almoxarifado numa fábrica de remédio em Anápolis, mas nunca se interessou por saber nada além do que lhe cabia: prateleira dos papéis de uso, caixa dos copos descartáveis, gaveta de extensões, plugues e tomadas. Seu sonho era ser segurança, mas não sabia onde arrumar tempo e dinheiro pra um curso no SENAC. Era certo que o achavam grande e brigão. Mas se sabia amável e preguiçoso. Mal acordava, a vontade era almoçar e ver desenho. Meninão da mamãe, mas a velha já tinha morrido. A casa quitada acumulava os IPTUs e outras contas. Escolhia o que pagar, às vezes. Durava três meses de zelador no prédio do bairro mais chique, dois de empacotador no mercadinho, quase cinco como atendente de loja de pneu: boa tarde, pneus novos à direita, recauchutados à esquerda, banheiros ali atrás, caixas logo após aquele armário, peças não, só na loja do seu Teodoro, ali em frente, obrigado pela preferência, volte sempre. Voltava pra casa, pras contas, pra preguiça. Economizava as altas calorias ingeridas com coca cola e sorvete. Via propaganda do SENAC na TV. Mudava o canal.


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

03 janeiro 2014

Bandeira


Fosse o que fosse, o vento que fizesse, não havia vista melhor, visita melhor. Seu Dioclécio achava que era o dono: acordava e olhava pela janela; cuidava. Há quem diga que foi ele mesmo que a plantou ali, mas ele negava: foram eles, foram eles! – apontava pra cima. Era coisa de E.T., de disco voador, de UFO. Território. Visita ilustre que não havia. Só a bandeira flanava, acalmava o coração de seu Dioclécio na vertigem que cada dia trazia. Era o seu respirar, antes do primeiro copo d’água.


                              #reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

01 janeiro 2014


Isaias de Araxá

Mandaram buscar o araponga em Betim e diz que é formado em Viçosa. Doutor em construção civil. Mas, oh Jorge, – as mãos viradas, não entendia – precisava, hein, Jorge? Ontem o Ciro veio me perguntar se eu tava pensando em aposentar. Vê se tem cabimento o negão aqui parar o serviço, hein, Jorge? – Jorge ri – E eu ri do Ciro também, Jorge. Tá doido, Ciro? Tenho força pra anos e anos ainda, Ciro. Cê é besta, parece que não me conhece. E o araponga arrumadinho vai fazer o quê em obra? Diz que usa até perfume, hein? – Jorge ri – É coisa demais pra minha cabeça. Eu ando é a pé daqui pra Betim. Olha – e bate no bíceps que é forte ainda, mas já denuncia os setenta e poucos –, sou um touro, Jorge, um touro. Nem gripe eu pego. – Funga. Jorge se contém. Do rosto de Isaias vê uma lágrima pingar o ombro. Vira pro outro lado. Amarra a vasilha vazia e suja, com a colher dentro.


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

28 outubro 2013

Tarde em Teresina

Ofereceu o que tinha - um corpo seminu, com estrias, sob o barulho e vapor do ventilador. As muriçocas planavam perto do teto, esperando que o vento quente desse uma trégua. Tadeuzinho, à espreita, pensou se desejava ou não a mulher. Rosa fingia um sono pesado. Num delírio teatral - porque quem finge que dorme finge que sonha -, pensava num futuro não muito distante: Tadeuzinho, prestes a comê-la com afinco, seria mais tarde o corno vingativo e perseguidor que a vidente de Patos de Minas lhe alertara. E Rosa nada poderia fazer, dali a pouco o carma teria-se lançado. Despertou, dissimulada, pelo bafo quente e pelos cotovelos inconvenientes de Tadeuzinho sobre ela, sorrindo. Ela retribuiu o sorriso. Muitas muriçocas morreram de esperar.

08 outubro 2013

Palavras sobre É assim que você a perde, de Junot Díaz


Decepcionada. Não com o Junot Díaz nem com ninguém, mas comigo. Por que diabos eu fui acreditar que podia ser diferente e surpreendente? Não podia. Começando pelo fim, desfecho de É assim que você a perde é um clichêzão: o velho recurso da metalinguagem, o conteúdo do próprio livro sendo entregue ao autor no final. Faz tempo que já não vejo graça em "oh, então o livro que acabei de ler é o resultado da própria história". Que saco! 

Mas o que eu esperava? A micro resenha da Vogue - espero não ter que voltar a ela e descobrir que não era bem assim - me estendeu um produto de ponta, inovador e fabricado por um dominicano (quem conhece a literatura da República Dominicana levante a mão) cheio de prêmios e elogios. Arregalei os olhos, meu feeling disse que ali tinha coisa - e das boas. Me permiti mais que empolgação: dei pulinhos de alegria, era aquilo que eu estava precisando. 

Fresquíssimo, em agosto o livro sequer havia chegado fisicamente às grandes Fnac, Saraiva, Cultura - comprei online. Delicioso, histórias soltas de um mesmo personagem, Yunior (obviamente alterego de Díaz), um dominicano que vive desde criança nos Estados Unidos. São narrativas de amor, vacilos, cotidianos bem contadas, fluídas, engraçadas e reconfortantes (o mocinho é bem castigado quando não age como tal). Mas - que droga! - é só mais um livro contemporâneo, tal como os outros. Há tanto de dominicano nele quanto há de amazonense em Milton Hatoum ou de mineiro em Luiz Ruffato. Filetes, códigos, fotografias embaçadas. E o resto é a receita de crochê da contemporaneidade. 

Pra completar, Díaz não se furta ao papel de difundidor do estereótipo do homem latino: Yunior é machista, tosco/sensível, bom amante e racista. Um bom livro, sem dúvidas, mas tão bom quanto igual; tão bom quanto a minha inocência alcança.

09 setembro 2013

Cassiano e café doce

Um abraço, sorriso e tchau. Estaria em casa quando eu voltasse? Virei a cabeça, disfarçando: buscava o cheiro dele no ombro e a lembrança. Ao fechar os olhos, senti a aflição vertical dos músculos da vulva. A inconfundível saudade sexual. O sabonete, o tapete da sala, a TV na Globo. Lembrava os olhos, os cabelos molhados, o formato dos dentes. A esta hora da tarde, segunda-feira de muitos cheques devolvidos e notas fiscais a revalidar, já não tenho certeza se ele dormiu comigo ou se fantasiei tudo - até o cheiro do café hoje cedo, tudo é incerto. Hoje? Doce. Toalhas felpudas de flor, pano de prato bordado, crisântemos e vidro de biscoito. As mãos de estivador. O cheiro, os pelos, o pau.

26 agosto 2013

Elga de Córdoba

Sambava. As pernas alvas ora encruzilhavam-se com calças engomadas ora embaralhavam as vistas de quem olhava, sozinhas. Não sabia sorrir, mesmo que lhe desse vontade. Era devota: em delírio agachava-se ao entrar no barracão, licença aos deuses do samba. E amava tanto aquilo e respirava tanto aquele suor e era vista sempre e vinha, visitava, dançava, chorava. Mas convite qualquer negava. O respeito era tanto - não queria macular o samba, que era mágico porque não lhe pertencia.