06 março 2014



Pipoca

No momento de uma entrada dura.
– Tu é burro.
– Tá doido, é? Sou esperto.
– Tu é só arrogância.
– Oxe, eu tenho culpa se tu não joga nada, não aguenta nada?
– Que não aguenta nada o quê, rapaz? Tu que é fraco.
– Imbecil.
– Arrogante! Cabelim de pipoca.
– Tu é um merda.
– Cabelim de pipoca.
Juntaram-se os outros ao coro de Luiz.
– Pipoca! Pipoca! Pipoca!
– Então ninguém joga mais, seus filhos da puta. Pronto, acabou.
Os outros calaram. Cochicharam entre si.
– Peraí, Bibiu. Futebol é assim mesmo, cara. – Luiz lhe dava tapinhas nas costas.
Bibiu só olhava.

– Bora jogar. Tu é brilhante, cara.

#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

28 fevereiro 2014

A mãe do filho de Henrique


Pronto. A dor parou de doer e já lhe puseram um menino nos peitos, melado. Reagiu como se esperava que reagisse, ajeitou a criança, cuidadosa. Era isso? Acabou, afinal? Ali estava o fruto de um amor doentio e incerto? Tão pobre quanto já era, agora tinha um menino – ou menina? nem viu ainda - pra criar. Sem dor física, enfim, e cheia de ordens a seguir: segure assim, pegue por baixo, ofereça o peito. É, podia ter sido uma boa ideia mesmo, ainda que não tivesse sido ideia, ainda que tivesse sido acidente. Um bacuri pra fazê-la rir; pra ela brincar de boneca, lembrando das figuras cabeludas de sabugo de milho que fazia na infância. É, Henrique já tinha três e poderia ensiná-la a dar banho e trocar fraldas. Os olhinhos a olhavam desafiadores. Olhinhos de macho - era um menino, afinal. E ela o cobria de beijos, deixando a meleca branca grudar em seus lábios. Figurinha cabeluda interessante. Cadê o Henrique, hein?


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

25 fevereiro 2014

Minha garota

Ela me escreveu uma longa carta à esferográfica. Certamente cuidadosa com o papel poroso que escolheu, meio amarelado, com flores aquareladas nas bordas. Estava pela Europa e lembrou-se de mim. Isso já teria sido suficiente pra minha alegria idiota de menina apaixonada, mas ela não economizou nos mimos. Escreveu que sentia falta das nossas tardes, narrou visitas a museus, praças, restaurantes e que eu adoraria - adorarei - os cafés que ela tem visitado. Na despedida, antes de assinar com sua letrinha miúda, registrou: "beijos estralados". E eu pude mesmo sentir a doçura dos seus lábios nesse afago imaginado. A minha garota, minha ídola, tão longe, preferia gastar saudades comigo do que simplesmente se esbaldar na Itália. Nada mais surreal que minha garota. Nada mais real que uma carta.

#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

21 fevereiro 2014

Nando

Uma caixa. Nando deteve-se diante dela. A tampa bem conhecida, pintada com o spray usado pra pichar pilares nas super quadras. Abriu esperando um tesouro. Ingresso de um filme com Stallone, uma fita K7 da Xuxa, fotos, papéis de bala, encartes, panfletos, programa de uma peça que vira, um bilhete do avô, recorte de um jornal da época da Guerra do Golfo. Lembrou-se de como fora feliz três décadas atrás, quando seus pais ainda trocavam beijos. Antes do grande terremoto. Fechou a caixa e decidiu queimá-la.

#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

18 fevereiro 2014


João Cesário

Ressabiado. Era o dia dela solteira. Era verão. Ela escolheu uma saia para exibir as pernas de boneca e batom vermelho pro bico. Blusa amarela, rabo de cavalo e pó na cara pra disfarçar o calor. Os óculos escuros refletiam João Cesário à espreita, na rua debaixo, ciumento, que ela fazia questão de não enxergar. A bolsa branca pendurada no braço revezava uma batida no quadril e outra nas pulseiras. Era um desfile, que pedia trilha sonora e plateia, a despeito do sol carioca. Era só o caminho de casa à feira. E João Cesário acompanhava o balanço, com raiva.

#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

14 fevereiro 2014

Primavera

E para a estação das flores, criará uma estampa colorida, com elementos disformes, líquidos e confusos. É assim a moda-arte-conceitual, afinal, e Jonas está disposto a firmar seu nome, a assinar grandes coleções, ver a si cobiçado, escolhido, apontado. Desenha no ar, onírico. Sim, serão primaveras moles, olhos de camaleão, e expressarão esperança, luz e melancolia. Ao menos é o que diz seu horóscopo: criatividade em flor. Mas a primavera anda longe ainda e Jonas é estudante.


#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

11 fevereiro 2014

Armando

Fui um dos primeiros bebês de proveta do Brasil. Nasci em 87. A então jovem Margot me desejou tanto que largou o posto disputado de secretária da SUDENE para se dedicar à maternidade. Meu pai, herdeiro de família nobre paulistana, morreu quando eu tinha dois anos. Com ele, foi toda a tradição e as heranças inventadas. Dona Margot foi a mãe mais amorosa e protetora do universo. Me punha casacos até sob os dias de janeiro carioca. Esticava a pensão como podia. Deixava de comer pra me comprar danoninho e meias novas. Foi tragada pelo câncer de boca quando ainda passava minhas camisas e arrumava minha cama. Hoje, sou incapaz de misturar leite e toddy.


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

07 fevereiro 2014



Adeus, Antônio


De tanto dispensar oferendas, dela viam-se as costelas. Lânguida, salamandra pálida num cenário pouco vivo, Elza não queria olhar para trás. Deixou Antônio a observá-la, com uma tristeza que nunca lhe foi apresentada. O corno que construísse a imagem que melhor lhe conviesse. “Me fartei”, concluiu e saiu, tão sexy quanto fosse possível, de vestido de festa roto – após a briga –, invalioso e encorajador. Um adeus eterno.

#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

04 fevereiro 2014

Joaquim


Cantarolava um ponto. Juntava as pedrinhas. Pronto. Oferecia. Frente aos dois discípulos corpulentos, molhou um maço de arruda e sacudiu sobre eles. Tudo era bento naquelas cachoeiras de Xangô, cria. Iniciava uma oração, pisava nas vestes, ajeitava as contas. Os discípulos acompanhavam. Criavam, entre si, uma força que para os céticos se traduzia em confiança. Era pai deles. E suas histórias eram tão eruditas quanto fluídas e maleáveis, conforme o curso mole que as pedras desenhavam. Os discípulos ouviam com atenção. Agradeciam.


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

31 janeiro 2014


Café


Fizera café. É certo que se vira sonolento, mas muito mais consumido do que indisciplinado. Perdera mãe, pai e avó sem sofrer tanto. E agora Luzia lhe perguntava se era sono ou gripe. Mulher idiota. Dispensara pão, manteiga ou bolachas. Na cozinha sem vida, uma janela sem vento, deixara o café esquentar o dia.

#reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

28 janeiro 2014

Molho de chaves

Deitou o violino nas coxas e batucou. Taça de vinho. Roeu mais de doze unhas, coçou a cabeça, riscou fósforos e cadernos. Acendeu um cigarro e quis ouvir a voz dela. Delirava no travesseiro de bolinhas e não tinha forças pra uma punheta. Calçou e descalçou as sandálias muitas vezes, balançou o molho de chaves, prestes a sair. Escreveu uma canção idiota, fez rosquinhas de fumaça no ar. Sentiu pena de si, abriu as cortinas, viu o colorido insuportável, doente. No espelho, viu as próprias costelas. Juntou numa caixa o que lhe trazia dor - até um papelzinho "Júlia". Passou fita gomada. Despacharia pra quem? E como? Não podia sair. Onde estão as minhas chaves? Voltou ao violino, ao vinho e ao cigarro.



#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

24 janeiro 2014



Esteves

Num barco, olha-se para trás. Viram-se as costas para o horizonte porque é inevitavelmente sabido que aquilo é apenas um horizonte: nada mais se mostra. E o que se vê? Esteves, o meu amor. Delira-se. Vejo-o ora em minhas mãos, ora liberto. Tal como agora, hora em que não há Esteves atrás de mim, me querendo e me desejando. Só no meu passado. E agora? Haveria alguém? Estaria bronzeado ainda? Disposto e sorridente? Cheirando a alfazema, suor ou bolor? Olha-se para si. Só se tem um barco, um horizonte. E é vazio.

 #reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

21 janeiro 2014

Gentileza

Pra ele bastou. Prostrou-se diante do papel de parede nude do quarto.
- E daí que não vi graça na história, Ron?
- Hm.
- (risos pouco confiantes) Hein, amor? Vem cá, pára de briga, dá um beijinho.
- Chega, Carol.
- Não tô acreditando, Ron.
- Você não se enxerga não? Não vê o tanto que é ridícula? Te falo de uma gentileza... o cara segurou a porta do elevador pra três pessoas que estavam longe... coisa rara hoje em dia... (transtornado) e você não dá a mínima?
- Ah, ridículo é você. Eu ouvi, sorri e pronto. Não tenho comentário a fazer. Nem sei por que enfatiza tanto essa (com voz debochada) “falta de gentileza da humanidade e blá blá blá”.
- Insensível.
- Doente.
- Chata, egoísta.
- Patético. Filhinho da mamãe.
- Filhinho da mamãe não, Carol. Pô, a gentileza hoje em dia...
- (exaltada) Ah, foda-se.




#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

17 janeiro 2014

Lisbela



A voz era grave demais para pronunciar o próprio nome. Dezessete anos, magra, gigolete pink, blusa de listrinhas cor de rosa, melissa. Os pêlos do rosto, do peito, das pernas arrancava com ódio. Os seios eram um sutiã de enchimento, até quando tivesse dinheiro pra silicone de clínica. Cuidadosa, metódica. Os cabelos lisos eram milimetricamente organizados. Nos lábios, um batom quase imperceptível. Delicado, não queria chamar atenção. Soletrou Lisbela à atendente, que a olhava atenta, sem brilho ou compaixão. Curiosidade, talvez. E a jovem foi altiva, o nariz empinado sobre o bigode raspado: falou o endereço, o telefone, o nome da mãe, do pai, o RG e o signo. Virgem.


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14 janeiro 2014


Damião

“A gente não sabe mesmo, nunca, com o que vai se deparar”, filosofava Damião ao limpar a bancada. Até aquela hora – e não havia dormido – não sabia bem o que fazer com as pedras que encontrara. Na internet procurou notícia de algum roubo a banco ou casa de gente muito rica. Não eram joias roubadas, concluíra. O primo do vizinho de seu cunhado certa vez dissera que a gente é responsável pelo que cativa. Frase que soava tão óbvia quanto confusa. Agora sentia-se assim, simplesmente, responsável pelas pedras que encontrara num matagal da Maraponga e nada mais. Seguiria paulistano, 37 anos, negro, gordo e porteiro noturno do Edifício Cidade, o maior de Fortaleza. 

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10 janeiro 2014



Rua

E tudo o que pouco fazia sentido pra mim, no Ocidente surgiu agressivo, ameaçador e inegociável. Tudo era aparência e aparência era valor. Um desfile constante de sentimentos de grife e arroubos de distinção. Era uma Maria de pantalonas ou uma Luíza de botas de couro ou um André com bolsa a tiracolo. E eu era pequeno e engolido pelo urbano desconexo dos modelos que flutuavam. Eu era saudade de Hea, falta de ar na rua de paralelepípedos não paralelos. Asma de Hea. Sufoco fashion.
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07 janeiro 2014

Maldonado Silva, descansado

Fora estagiário de almoxarifado numa fábrica de remédio em Anápolis, mas nunca se interessou por saber nada além do que lhe cabia: prateleira dos papéis de uso, caixa dos copos descartáveis, gaveta de extensões, plugues e tomadas. Seu sonho era ser segurança, mas não sabia onde arrumar tempo e dinheiro pra um curso no SENAC. Era certo que o achavam grande e brigão. Mas se sabia amável e preguiçoso. Mal acordava, a vontade era almoçar e ver desenho. Meninão da mamãe, mas a velha já tinha morrido. A casa quitada acumulava os IPTUs e outras contas. Escolhia o que pagar, às vezes. Durava três meses de zelador no prédio do bairro mais chique, dois de empacotador no mercadinho, quase cinco como atendente de loja de pneu: boa tarde, pneus novos à direita, recauchutados à esquerda, banheiros ali atrás, caixas logo após aquele armário, peças não, só na loja do seu Teodoro, ali em frente, obrigado pela preferência, volte sempre. Voltava pra casa, pras contas, pra preguiça. Economizava as altas calorias ingeridas com coca cola e sorvete. Via propaganda do SENAC na TV. Mudava o canal.


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto

03 janeiro 2014

Bandeira


Fosse o que fosse, o vento que fizesse, não havia vista melhor, visita melhor. Seu Dioclécio achava que era o dono: acordava e olhava pela janela; cuidava. Há quem diga que foi ele mesmo que a plantou ali, mas ele negava: foram eles, foram eles! – apontava pra cima. Era coisa de E.T., de disco voador, de UFO. Território. Visita ilustre que não havia. Só a bandeira flanava, acalmava o coração de seu Dioclécio na vertigem que cada dia trazia. Era o seu respirar, antes do primeiro copo d’água.


                              #reveza2x2 - ilustração de Solange Pereira Pinto - conto de Liana Aragão

01 janeiro 2014


Isaias de Araxá

Mandaram buscar o araponga em Betim e diz que é formado em Viçosa. Doutor em construção civil. Mas, oh Jorge, – as mãos viradas, não entendia – precisava, hein, Jorge? Ontem o Ciro veio me perguntar se eu tava pensando em aposentar. Vê se tem cabimento o negão aqui parar o serviço, hein, Jorge? – Jorge ri – E eu ri do Ciro também, Jorge. Tá doido, Ciro? Tenho força pra anos e anos ainda, Ciro. Cê é besta, parece que não me conhece. E o araponga arrumadinho vai fazer o quê em obra? Diz que usa até perfume, hein? – Jorge ri – É coisa demais pra minha cabeça. Eu ando é a pé daqui pra Betim. Olha – e bate no bíceps que é forte ainda, mas já denuncia os setenta e poucos –, sou um touro, Jorge, um touro. Nem gripe eu pego. – Funga. Jorge se contém. Do rosto de Isaias vê uma lágrima pingar o ombro. Vira pro outro lado. Amarra a vasilha vazia e suja, com a colher dentro.


#reveza2x2 - conto de Liana Aragão - ilustração de Solange Pereira Pinto