90/365
Karla
Era uma da manhã e acordei sobressaltada, ainda no voo interminável. Desta vez, vi um pôr do sol surreal, laranja, mas não tão iluminador. E focos de fogo espalhados pela terra. Não era fogo - mas luzes de propriedades rurais próximas umas das outras (feudos hoje em dia?), depois percebi. Não era sol. Talvez uma lua cheia ou um disco voador. O avião parou no ar. Planava. Voltei a dormir.
31 março 2012
30 março 2012
89/365
Dona Neide
29 março 2012
88/365
Talita
28 março 2012
87/365
Eulália
Com um quase nada de forças, chega em casa. O trabalho de limpeza continua. Junta restos pela cozinha, afasta a poeira, lava talheres, dá descarga. Moída, porque o culto hoje foi difícil. Ex-viciados, ex-traficantes, ex-baitolas pra ela descarregar, salvar, levar à luz, oferecer o reino dos céus. Rouca de tanto gritar aleluias e cantar com devoção. Depois do banho, agradece por ser viúva e pelos filhos já serem adultos. Estar só como gostaria de estar. Cobre-se com um cobertor xadrez, toma um copo d'água e fecha os olhos. Minutos depois, a lembrança. Mas deixa pra amanhã a oração. Jesus há de perdoar esta falta.
Eulália
Com um quase nada de forças, chega em casa. O trabalho de limpeza continua. Junta restos pela cozinha, afasta a poeira, lava talheres, dá descarga. Moída, porque o culto hoje foi difícil. Ex-viciados, ex-traficantes, ex-baitolas pra ela descarregar, salvar, levar à luz, oferecer o reino dos céus. Rouca de tanto gritar aleluias e cantar com devoção. Depois do banho, agradece por ser viúva e pelos filhos já serem adultos. Estar só como gostaria de estar. Cobre-se com um cobertor xadrez, toma um copo d'água e fecha os olhos. Minutos depois, a lembrança. Mas deixa pra amanhã a oração. Jesus há de perdoar esta falta.
27 março 2012
86/365
Taís
26 março 2012
85/365
Adélia
25 março 2012
24 março 2012
83/365
Eliete
E em Maranguape não se falou em outra coisa. Só assim, com a morte do maior humorista do mundo, Eliete pôde passar despercebida. Juntou em sua valise seus vestidos, lenços, o único sutiã e outras pequenas peças. O esmalte, algodão e acetona. Pegou o primeiro ônibus para qualquer lugar. Deixou seus gêmeos de doze anos dormindo, o aluguel atrasado, dívidas nas bodegas e na farmácia. Mal soube do humorista, de quem chegou a sentir orgulho por ter projetado nacionalmente o nome de sua cidade natal. Mal teve tempo de lamentar qualquer coisa; o coração na boca. Coragem até nos cabelos.
Eliete
E em Maranguape não se falou em outra coisa. Só assim, com a morte do maior humorista do mundo, Eliete pôde passar despercebida. Juntou em sua valise seus vestidos, lenços, o único sutiã e outras pequenas peças. O esmalte, algodão e acetona. Pegou o primeiro ônibus para qualquer lugar. Deixou seus gêmeos de doze anos dormindo, o aluguel atrasado, dívidas nas bodegas e na farmácia. Mal soube do humorista, de quem chegou a sentir orgulho por ter projetado nacionalmente o nome de sua cidade natal. Mal teve tempo de lamentar qualquer coisa; o coração na boca. Coragem até nos cabelos.
23 março 2012
82/365
Madalena
Naquele dia acordei inquieta, lavei as vasilhas e arrastei a estante. Algo estava pra acontecer. Apertei meus seios, como se abraçasse eu mesma, andando dum lado pra outro. Uma angústia aqui, ave. Telefonei pros meus filhos e pra minha irmã; todos bem. Voltei pra lida, porque podia ser simplesmente um objeto na minha casa impedindo o fluxo e eu sentindo isso tudo. Mexi, revirei, reorganizei e a notícia chegou, como sempre chega. Era o Eraldo, pai dos meus filhos e amor da minha vida. Já não estávamos juntos há tantos anos, mas parece que o coração não raciocina. E foi a piranha que veio me contar: olha, Madá, o Eraldo morreu, mulher. E eu me esforcei pra não parecer incomodada e não tinha jeito e não teve jeito: ela viu o desespero saindo pela minha garganta, o choro caindo em litros. Peguei em tudo que é vassoura e rodo, tentando voltar ao trabalho e eliminar esse sofrimento. A dor não passou.
81/365
Zaynah
Não quero meu corpo à mostra, não vendo minha imagem a revistas ou simplesmente ofereço aos olhares cobiçadores dos homens. Sem lenço não saio. Não interessa onde estamos. Assim, minha mãe me ensinou, como a mãe dela a ensinou e a mãe de sua mãe. O véu não tem a ver com os costumes de um país ou povo, mas com proteção, devoção, compromisso, amor. Já passamos por Paris, Cuba, Buenos Aires e, agora, Brasília. Em cada um desses lugares, o olhar ocidental se repetiu. Isso não tem importância, pois, também na nossa crença, não precisamos nos misturar com outras pessoas. Basta conhecer e respeitar. Meu hijab é protetor e vai cobrir a minha filha e a filha de minha filha e assim por diante. Sem que nenhuma de nós tenha que se confundir com bobagens como a exibição provocadora.
21 março 2012
80/365
Daniela
Certa vez, ainda na cama, Rogério me disse que o que lhe atraía em mim era a juventude. Retruquei, incrédula e ofendida, que aquilo parecia coisa de garotão, de menino sem nada na cabeça. O que lhe interessava, afinal, uma beleza desenrugada? Ele me esclareceu: eu era livre de rancores e mágoas. Era dessa juventude, dessa inocência de sentimentos, que ele falava. Sorri, me envaideci. Agora, todavia, pouco mais de cinco anos passados, vejo como envelheci. Talvez por isso Rogério não tenha apostado em mim; cansou, desistiu, ou simplesmente não quis apostar contra o líquido e certo: eis-me aqui, bonita, robusta, saudável e tal e qual mal humorada e amarga. Se tanto, salgada pelo tempo, seca e indigesta.
Daniela
Certa vez, ainda na cama, Rogério me disse que o que lhe atraía em mim era a juventude. Retruquei, incrédula e ofendida, que aquilo parecia coisa de garotão, de menino sem nada na cabeça. O que lhe interessava, afinal, uma beleza desenrugada? Ele me esclareceu: eu era livre de rancores e mágoas. Era dessa juventude, dessa inocência de sentimentos, que ele falava. Sorri, me envaideci. Agora, todavia, pouco mais de cinco anos passados, vejo como envelheci. Talvez por isso Rogério não tenha apostado em mim; cansou, desistiu, ou simplesmente não quis apostar contra o líquido e certo: eis-me aqui, bonita, robusta, saudável e tal e qual mal humorada e amarga. Se tanto, salgada pelo tempo, seca e indigesta.
20 março 2012
79/365
Vivian
19 março 2012
78/365
François
18 março 2012
77/365
Bárbara
Criou mais personagens de alcova. Difícil falar de cotidianos que não estejam cercados por paredes; soa tedioso e até falso. Real, verossímil é falar de grandes melancolias ou de brigas íntimas. Assim criou Rose e William, que não conseguiam se enteder. Ao menos cuidou para inverter papéis, a fim de dar graça à narrativa. Contou a história de um William doce, sensível e uma Rose bruta. Ele falava, falava, falava e ela não compreendia - apenas enxergava uma boca se mexendo. Ela, por sua vez, maquinava automaticamente o modo de sair da discussão inteira e superior. Magova. O bate boca se findava e William permanecia na cama, inerte e incrédulo. Chegava a rezar: "deus, eu não consigo mais, me dê forças!" E ela saia do quarto resmungando, com uma voz mais grossa que o seu timbre costumeiro. Mas voltava, sempre voltava, para o golpe final: "a sua sorte, William, é que eu não fui treinada pra bater. Porque a minha vontade agora era te encher de porrada, seu merda". Eram personagens iguais a qualquer coisa, porque, afinal, a esta altura, já se escreveu sobre tudo. Que fazer? Profissão ingrata - Rose e William eram fórmula. E venderiam bem, tal como Cauby e Lavínia, Charles e Emma, Santomé e Avellaneda, Camille e Auguste.
Bárbara
Criou mais personagens de alcova. Difícil falar de cotidianos que não estejam cercados por paredes; soa tedioso e até falso. Real, verossímil é falar de grandes melancolias ou de brigas íntimas. Assim criou Rose e William, que não conseguiam se enteder. Ao menos cuidou para inverter papéis, a fim de dar graça à narrativa. Contou a história de um William doce, sensível e uma Rose bruta. Ele falava, falava, falava e ela não compreendia - apenas enxergava uma boca se mexendo. Ela, por sua vez, maquinava automaticamente o modo de sair da discussão inteira e superior. Magova. O bate boca se findava e William permanecia na cama, inerte e incrédulo. Chegava a rezar: "deus, eu não consigo mais, me dê forças!" E ela saia do quarto resmungando, com uma voz mais grossa que o seu timbre costumeiro. Mas voltava, sempre voltava, para o golpe final: "a sua sorte, William, é que eu não fui treinada pra bater. Porque a minha vontade agora era te encher de porrada, seu merda". Eram personagens iguais a qualquer coisa, porque, afinal, a esta altura, já se escreveu sobre tudo. Que fazer? Profissão ingrata - Rose e William eram fórmula. E venderiam bem, tal como Cauby e Lavínia, Charles e Emma, Santomé e Avellaneda, Camille e Auguste.
17 março 2012
76/365
Wilma
No meu quarto, há dias, a leitura de cabeceira é o Guia Quatro Rodas. Traço percursos, calculo distâncias, contabilizo despesas. Já não é janeiro. Nem fevereiro mais é. Gosto do contra fluxo. Isso me excita, me motiva. Arrumei o meu jipe, minha mochila. Biquini, toalha, roupas leves. Barraca, cantil, caixa de isopor. Repelente, bota, calça com bolsos. No cabelo, trança. ou rabo de cavalo Bloqueador solar. Olhos pintados. Todo mundo trabalhando, retomando a rotina pós verão. Saio agora mesmo de Brasília e só paro em São Luís, dia 2 de abril, talvez.
Wilma
No meu quarto, há dias, a leitura de cabeceira é o Guia Quatro Rodas. Traço percursos, calculo distâncias, contabilizo despesas. Já não é janeiro. Nem fevereiro mais é. Gosto do contra fluxo. Isso me excita, me motiva. Arrumei o meu jipe, minha mochila. Biquini, toalha, roupas leves. Barraca, cantil, caixa de isopor. Repelente, bota, calça com bolsos. No cabelo, trança. ou rabo de cavalo Bloqueador solar. Olhos pintados. Todo mundo trabalhando, retomando a rotina pós verão. Saio agora mesmo de Brasília e só paro em São Luís, dia 2 de abril, talvez.
16 março 2012
75/365
Paola
Meu sono é tipicamente depressivo. Se me chateio, se me magoo, logo sinto sono. Pra não chorar, durmo. Para não encarar o mundo, não me relacionar com pessoas que possam me magoar, para evitar fazer algo errado e que me cobrem por isso, durmo. Não tem café, coca cola, guaraná em pó, cocaína que me mantenha acesa. É um sono infeliz, sem sonho. Durmo para não discutir com o Bruno, para não ter que cuidar da Ana Carolina e do Gustavo, para não ouvir a d. Mirtes, para não ir trabalhar. Adoeço, durmo. Desperto cansada, bebo água, ligo o rádio, desligo, faço xixi e volto para a cama. Dias, dias, dias... Não tenho ânimo pra pedir ajuda. Bruno não me ajuda. Choro. Não me mantenho alerta para rezar. Desisto. Durmo.
Paola
Meu sono é tipicamente depressivo. Se me chateio, se me magoo, logo sinto sono. Pra não chorar, durmo. Para não encarar o mundo, não me relacionar com pessoas que possam me magoar, para evitar fazer algo errado e que me cobrem por isso, durmo. Não tem café, coca cola, guaraná em pó, cocaína que me mantenha acesa. É um sono infeliz, sem sonho. Durmo para não discutir com o Bruno, para não ter que cuidar da Ana Carolina e do Gustavo, para não ouvir a d. Mirtes, para não ir trabalhar. Adoeço, durmo. Desperto cansada, bebo água, ligo o rádio, desligo, faço xixi e volto para a cama. Dias, dias, dias... Não tenho ânimo pra pedir ajuda. Bruno não me ajuda. Choro. Não me mantenho alerta para rezar. Desisto. Durmo.
15 março 2012
74/365
Naiara
Passou os dedos pelos meus cabelos. Prometeu amor eterno, ali, em segundos. Fechei a cara, chorei. Depois da transa a contragosto, voltei a chorar. Levantei e comi 12 chocolates. Ele não disse nada, mas eu vi quando arregalou os olhos. Toda mulher nota isso. Murmurei, nervosa, "o que é?". Ele insistiu na discrição. Sorriu amavelmente. Ofereceu o aconchego de sua asa e me enfiei ali, com vontade de ser pra sempre. Na TV, BBB. E eu chorei muito. A prova do líder foi cruel.
Naiara
Passou os dedos pelos meus cabelos. Prometeu amor eterno, ali, em segundos. Fechei a cara, chorei. Depois da transa a contragosto, voltei a chorar. Levantei e comi 12 chocolates. Ele não disse nada, mas eu vi quando arregalou os olhos. Toda mulher nota isso. Murmurei, nervosa, "o que é?". Ele insistiu na discrição. Sorriu amavelmente. Ofereceu o aconchego de sua asa e me enfiei ali, com vontade de ser pra sempre. Na TV, BBB. E eu chorei muito. A prova do líder foi cruel.
14 março 2012
73/365
Andréia
13 março 2012
72/365
Emília
13 de abril de 2012 - Pronto. Marquei uma data. Daqui a um mês, vou largar para sempre o cigarro. Motivo: saúde. Exclusivamente, pois tenho um tumor nas cordas vocais em pleno (e célere) desenvolvimento por conta desse conceito/objeto, que já foi minha comida, meu charme, minha muleta. Mas não estou feliz e vou registrar, neste meu diário fiel, a minha profunda indignação: dezoito anos atrás, quando pus o meu primeiro cigarro na boca, fui uma jovem ousadinha, inteligente, boêmia e extremamente sensual. Nos bares, à espera de um amigo ou amante, cruzava as pernas e acendia um free. Um movimento de cabeça fazia com que os cabelos ganhassem volume, o olhar focava desfocado o horizonte. Eu era um desenho vivo do objeto de desejo de homens e de admiração das mulheres. “Tem fogo?”, pediam. “Fogo?”, ofereciam.
O cigarro era o começo de uma amizade ou de uma bela trepada.
12 março 2012
71/365
Cibely Spíndola
11 março 2012
70/365
Oyá
São nove os filhos que eu pari. Mas meus protegidos são muitos mais. Me evocam quando o céu quer escurecer, se um vento cerra portas com violência, um raio cai ou caso uma tempestade comece a se formar. É quase um pedido de piedade. No entanto, nem tudo está ao meu alcance - por que cessar o óbvio? o certo? o inevitável? Lanço à Terra o que a Terra precisa/provoca. Serviço feito, danço, balanço cabelos, vermelheio vestiário, boca e faces. Tão humana quanto pareço. Tão entidade quanto me respeitam. E sigo ajudando, tão justa quanto mereçam.
Oyá
São nove os filhos que eu pari. Mas meus protegidos são muitos mais. Me evocam quando o céu quer escurecer, se um vento cerra portas com violência, um raio cai ou caso uma tempestade comece a se formar. É quase um pedido de piedade. No entanto, nem tudo está ao meu alcance - por que cessar o óbvio? o certo? o inevitável? Lanço à Terra o que a Terra precisa/provoca. Serviço feito, danço, balanço cabelos, vermelheio vestiário, boca e faces. Tão humana quanto pareço. Tão entidade quanto me respeitam. E sigo ajudando, tão justa quanto mereçam.
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