31 maio 2012

151/365
Raimunda

Vocês viram? Viram? Na Ana Maria Braga, rapaz. Era eu na Feira do Guará, tirando foto com o Júlio Rocha. Oh, homem lindo, fabuloso. Tava cheio, rapaz. Uma mulherada em volta. Tirei foto com o meu iphone de capa pink. Viram? Sou eu aquela de costa, blusa verde. E foi passar só hoje na TV. Demorou. Faz tempo que ele veio aqui. Primeiro, ouvi os gritos, depois aquele amontoado de gente, bem perto da minha loja, rapaz. Larguei a mercadoria e as freguesas! Foi ótimo. Ele é cheiroso, os dentes branquinhos. E, no abraço que dei, cochichei no ouvido: "arruma um espaço pra mim, que eu sou cantora. Boa cantora". Ele disse: "tá certo, tá certo". Saí feliz e confiante, rapaz. Mas, passados o calor e o vuco vuco do coração, caí na real - duvido que ele vá se lembrar de me dar uma oportunidade.

30 maio 2012

150/365
Nancy

Na queda, perdeu dois dentes e um bocado do juízo. A partir daí, a memória não lhe registrava nada ordenado, racional. Lembrava-se de surtos em que parecia, observadora, estar fora do próprio corpo, que se debatia, reclamador das mãos e dos tapas que o tentavam controlar. Outros tantos dentes foram caindo e os familiares ganharam escamas na época em que começou a chover flores em seu quarto. Sentia picadas seguidas de frescor e sono. Depois de muitos ataques recorrentes em casa, levaram-na. Agora eram só roupas brancas, azulejos psicodélicos, feridas nas pernas, moscas no nariz escorrento. Colegas apáticos. Choque. Falta de mãe e de pai. Falta de maçã, falta de dentes. 

29 maio 2012

149/365
Dandara

Desceu ali fazia doze anos, árida como a terra que pisava. Conheceu Rico, quem explorou como pôde (já que ele tinha um trailer) e largou. Afeiçoou-se a um cachorro e com ele dormiu na varanda de uma pousada por alguns dias. Até sentia fome, mas não lhe enfraquecia não comer. Pediu abrigo e emprego na bodega perto da caixa d'água do ACM. Deixaram-na ficar. Mas é preguiçosa e, sem abrir a boca, atrevida. Os longos cabelos louros, que vivem presos, guardam poeira, fumaça de cigarro e histórias de uma vida abastada e infeliz.

28 maio 2012

148/365
Bibiana

Passei a noite sonhando com casos de abuso sexual, depois de ver o Fantástico. Estou muito chocada e comovida, talvez porque não faça ideia do que eu mesma vivi, quando criança, com pai, tios e primos morando na mesma casa. Não me lembro, não tenho registro disso. Mas por que esses casos mexem tanto comigo? Será que é possível investigar? E pior: o que mais me intriga é a possibilidade de Analu e Amanda terem sofrido essa violência sem que eu tenha notado, já que tiveram ao longo da infância nada menos que três padastros. Uma no Canadá e a outra na Suíça. Preciso perguntar.

27 maio 2012

147/365
Lorena

Ontem, fui à marcha das vadias de shortinho, meia arrastão e corpete. Flor no cabelo, batom vermelho. Gritei, cantei, repeti palavras de ordem. Ouvi discursos, conversei com várias mulheres, troquei ideias. Ao final, como outras, puxei as cordinhas e exibi os seios. Na volta pra casa, ouvi do meu namorado e do meu irmão que esse negócio de luta contra o machismo é besteira; que ser feminista está fora de moda; e que eu só podia mesmo ser uma piranha pra andar na rua daquele jeito.

26 maio 2012

146/365
Henriqueta

Minha mãe sempre dizia que eu podia ser o que quisesse. Alimentava as esperanças mais puras e espontâneas da menina que queria ser bancária, mas não me libertava. Não podia me libertar. Éramos de circo e a nossa casa era um trailer, que dividíamos com outra mãe e filha. Fui educada debaixo da lona, aprendendo a ler e a contar com fantasias, malabares, bichos. Um registro de nascimento eu tinha, mas não um escolar. E foi difícil, quase impossível, aos dezoito anos, seguir o meu caminho: banco. Tinha fascinação, lia revistas, via na TV. É tanto que, durante anos, minha função no circo era a bilheteria - boa pra contar dinheiro, rápida e eficiente. Não sei se o que mais doeu foi me matricular na rede pública e começar do mínimo possível os estudos, pra ter papel que comprovasse, e, então, fazer concurso, passar, construir uma vida rotineira ou deixar minha mãe. Só tenho notícias dela, agora, quando ela resolve telefonar aqui pra minha agência.

25 maio 2012

145/365
Geralda

Deixei o serviço público depois que vi uma menina de doze anos grávida do próprio irmão. Foi o meu último atendimento. Não que eu tenha precisado escolher. Já vi outras várias atrocidades e talvez o acúmulo delas tenha me deixado assim, arrasada e impotente. Decidi, anunciei a data, assinei papéis e pronto. Saturada. E não bastava os casos serem extremos; o atendimento que pude prestar foi ridículo. Eu mal tinha materiais para um curativo. Deixei essa vida. Agora dou aulas até conseguir montar um consultório. Me afastei do pior que o ser humano já pôde construir. Mas ele ainda existe.

24 maio 2012

144/365
Dita

Todos os dias acordo, olho minhas celulites e baixo uma determinação: nada de refrigerantes ou doces. Sustento com firmeza a decisão. Só até o pós almoço. O resto do dia é um desastre. À noite como uma torrada e uma maçã. Durmo morta de fome e culpa.

23 maio 2012

143/365
Blanca

Vou doar para a minha empregada meu Ipod Nano, um sapato Arezzo, dois Schutz, uma bolsa Louis Vuitton. Algumas peças Dudalina. Uma calça Ellus. Na sacola, incluí uma pólo Lacoste para o marido dela. Acho que minha boa ação do ano está mais do que cumprida, não? Bom é ser rica, feliz e desprendida.

22 maio 2012

142/365
Mila

Ignorou o frio intenso das 6h e foi jogar vôlei de areia no Pithon. Na volta, antes do inevitável banho, iogurte, granola, banana e pão integral. Não precisava resolver os problemas com licitação na telefônica que trabalhava - acordar assim, nesse ritmo, já fazia com que se sentisse uma heroína. Ligou para o Otto, ouviu coisas bonitas e foi feliz pegar o metrô.

21 maio 2012


141/365
Pâmela

Namorei por uns anos um cara que me sacaneou e eu nunca esqueci. Não posso deixar de amá-lo e não encontro ninguém que me ajude a esquecê-lo. Em vez de cuidar da minha vida, cada vez mais mergulho no horror da solidão. Perturbo ele e a família dele e julgo que sou bem psicopata e esperta, a ponto de fazer qualquer besteira. Mas não conheço as forças que me cercam. Serei presa ou pior, mais cedo ou mais tarde.

20 maio 2012

140/365
Joana II

Meu batizado foi muito bonito. Meus padrinhos disseram que deus me abençoasse e me deram um álbum para fotos e cinquenta reais. Mamãe fez coxinhas e risoles, alguns levaram refrigerantes, papai colocou o som lá fora. Estava frio, mas todo mundo ficou lá em casa até a madrugada. A família inteira - veio até gente de Teresina - me felicitou: avós, tios, tias, primos, primas, primos dos primos, cunhados dos tios, meio irmãos de primos dos primos. Gente que eu gosto e que eu não gosto. Gente que me traz boas lembranças e gente que, descobrirei mais tarde, já me abusou sexualmente.

19 maio 2012

139/365
Samantha

Carência - foi afinal o diagnóstico revelado pela terapeuta na sessão de ontem. Queria evitar qualquer relação com depressão e conseguiu. A depressão em si e a vontade de ter depressão se retroalimentam. Mas carência estava de bom tamanho para Samantha e foi nela que conseguiu conectar as tristezas, as raivas, as dores, os problemas de relação e a fala atrapalhada e ansiosa. Sairá esta noite para tentar se curar.

18 maio 2012

138/365
Linda

Nem mesmo numa reunião de comitê para discussão de equidade de gênero da empresa Linda conseguia falar. Tentou interromper, levantou o indicador piscando ao presidente do grupo, mas não lhe deram a palavra. Era um avanço, sim, sem dúvida, mas o comitê fora instituído para cumprir convênio - contrapartida em acordo com uma ONG. Parecia não caber na empresa. Linda era a única mulher e foi massacrada sem sequer abrir a boca. No fim das contas, como resultado, o comitê serviu para angariar brindes para distribuição no dia das mães e das mulheres e proporcionar, nas duas datas, café da manhã a todos os funcionários.

17 maio 2012

137/365
Pilar

- Lola disse que não te quer mais aqui.
- ¿Cómo?
- Não me deu explicações. Pegue suas coisas e...
- ¿Estás de broma?
- No. Digo, não. E...
- ¿Qué hago yo?
- Não sei e não me interessa. Cuide-se.

16 maio 2012

136/365
Jéssica

Minha irmã é ridícula. Foi dizer à mamãe que o que quer da vida é ser uma mulher de atitude. Ai, que brega. No meu conceito, mulher de atitude apenas é, não anuncia. Mas a Naty tem o destino dela: fazer comida pra marido e lavar roupa, porque ainda por cima a bicha é burra. Digo isso por dois motivos: ela já largou um cara lindo e rico e, dada a largar que é, largou também os estudos. E já estava no segundo grau. É escandalosa, chora quando a mamãe briga. Eu, longe de ser a filha exemplar, ainda me esforço, mesmo reprovando ano sim ano não. Corro atrás, trabalho desde os 14. E quero ser aeromoça e não depender de ninguém. Mas, como mulher de atitude, não vou anunciar. Vou fazer.

15 maio 2012

135/365
Christty Anny

Em 2006, fui contemplada com um dia de princesa para minha filha no programa do Gugu. Foi tão maravilhoso. Além do lindo momento que a Micaela viveu, ganhamos coisas para a casa, pintaram o quarto dela e me deram a oportunidade de ter um negócio próprio: uma máquina moderna de fazer fraldas descartáveis. Em 2008, minha Micaela morreu atropelada. Um ano depois, eu tive uma gangrena na perna e, quando saí do hospital, fiz muitas dívidas por causa dos remédios. Desde então, faço bicos como posso, inclusive vendendo prumas poucas mães desavisadas as fraldas de péssima qualidade. Não consigo pagar as minhas contas, mas vou vivendo. Minha irmã e meus vizinhos me auxiliam e recebo uma ajuda do Governo. Mas não consigo me livrar da porra da máquina. O ferro velho não se interessou; dei para minha prima e ela devolveu; deixei na porta e ninguém levou. No canto da cozinha, feito um hóspede indesejado, aquele entulho de máquina de fazer fraldas descansa há anos.

14 maio 2012

134/365
Paula

Meu nome é Paula Castanhola, sou médica dermatologista, com título de especialização pela Sociedade Brasileira de Dermatologia. Tenho 29 anos, um consultório muito bem equipado, elegante e conceituado. Não me casei e não pretendo. Namorava até o ano passado o Felipe, que até então não passava de um concurseiro. Muito carinho, mas pouca objetividade. Chega de falar de mim (e desde já manifesto que não vejo utilidade neste campo em que devemos escrever sobre características pessoais. No que isso interfere? Em todo caso, fui sincera). Escrevo para obter mais informações sobre a produção assistida, por exemplo: como funciona a escolha do pai? Sei que não conhecerei a identidade dele, mas posso escolher tipo físico? A clínica checa antecedentes criminais? Também preciso dos valores de cada etapa e dos dados da clínica com relação a resultados. Aguardo retorno. Obrigada.

13 maio 2012

133/365
Elcia

E o recado estava dado: por mais filhos que eu tenha e venha a ter não poderei nunca falar pelo grupo de mães, só por mim mesma. E aproveitei o espaço: não, ser mãe não é assim tão gratificante.

12 maio 2012

132/365
Lucinalva

Auxiliar de professora de educação infantil de uma escolinha do Cruzeiro, Lucinalva é um poço de desespero. Não pode exercer em seu novo emprego o que é a manisfestação mais genuína de sua própria personalidade: impáfia, crítica e agressividade. Não tem papas na língua, não tem medo de ninguém, mas, infelizmente, deve tanto a tanta gente e loja e banco que tem que aprender a ficar quieta. Mansa.