151/365
Raimunda
Vocês viram? Viram? Na Ana Maria Braga, rapaz. Era eu na Feira do Guará, tirando foto com o Júlio Rocha. Oh, homem lindo, fabuloso. Tava cheio, rapaz. Uma mulherada em volta. Tirei foto com o meu iphone de capa pink. Viram? Sou eu aquela de costa, blusa verde. E foi passar só hoje na TV. Demorou. Faz tempo que ele veio aqui. Primeiro, ouvi os gritos, depois aquele amontoado de gente, bem perto da minha loja, rapaz. Larguei a mercadoria e as freguesas! Foi ótimo. Ele é cheiroso, os dentes branquinhos. E, no abraço que dei, cochichei no ouvido: "arruma um espaço pra mim, que eu sou cantora. Boa cantora". Ele disse: "tá certo, tá certo". Saí feliz e confiante, rapaz. Mas, passados o calor e o vuco vuco do coração, caí na real - duvido que ele vá se lembrar de me dar uma oportunidade.
31 maio 2012
30 maio 2012
150/365
Nancy
Na queda, perdeu dois dentes e um
bocado do
juízo. A partir daí, a memória não lhe registrava nada ordenado,
racional.
Lembrava-se de surtos em que parecia, observadora, estar fora do próprio
corpo,
que se debatia, reclamador das mãos e dos tapas que o tentavam
controlar. Outros
tantos dentes foram caindo e os familiares ganharam escamas na época em
que
começou a chover flores em seu quarto. Sentia picadas seguidas de
frescor
e sono. Depois de muitos ataques recorrentes em casa, levaram-na. Agora
eram só
roupas brancas, azulejos psicodélicos, feridas nas pernas, moscas no
nariz escorrento.
Colegas apáticos. Choque. Falta de mãe e de pai. Falta de maçã, falta de
dentes.
(com Rubens Rodrigues)
29 maio 2012
149/365
Dandara
28 maio 2012
148/365
Bibiana
Passei a noite sonhando com casos de abuso sexual, depois de ver o Fantástico. Estou muito chocada e comovida, talvez porque não faça ideia do que eu mesma vivi, quando criança, com pai, tios e primos morando na mesma casa. Não me lembro, não tenho registro disso. Mas por que esses casos mexem tanto comigo? Será que é possível investigar? E pior: o que mais me intriga é a possibilidade de Analu e Amanda terem sofrido essa violência sem que eu tenha notado, já que tiveram ao longo da infância nada menos que três padastros. Uma no Canadá e a outra na Suíça. Preciso perguntar.
Bibiana
Passei a noite sonhando com casos de abuso sexual, depois de ver o Fantástico. Estou muito chocada e comovida, talvez porque não faça ideia do que eu mesma vivi, quando criança, com pai, tios e primos morando na mesma casa. Não me lembro, não tenho registro disso. Mas por que esses casos mexem tanto comigo? Será que é possível investigar? E pior: o que mais me intriga é a possibilidade de Analu e Amanda terem sofrido essa violência sem que eu tenha notado, já que tiveram ao longo da infância nada menos que três padastros. Uma no Canadá e a outra na Suíça. Preciso perguntar.
27 maio 2012
147/365
Lorena
Ontem, fui à marcha das vadias de shortinho, meia arrastão e corpete. Flor no cabelo, batom vermelho. Gritei, cantei, repeti palavras de ordem. Ouvi discursos, conversei com várias mulheres, troquei ideias. Ao final, como outras, puxei as cordinhas e exibi os seios. Na volta pra casa, ouvi do meu namorado e do meu irmão que esse negócio de luta contra o machismo é besteira; que ser feminista está fora de moda; e que eu só podia mesmo ser uma piranha pra andar na rua daquele jeito.
Lorena
Ontem, fui à marcha das vadias de shortinho, meia arrastão e corpete. Flor no cabelo, batom vermelho. Gritei, cantei, repeti palavras de ordem. Ouvi discursos, conversei com várias mulheres, troquei ideias. Ao final, como outras, puxei as cordinhas e exibi os seios. Na volta pra casa, ouvi do meu namorado e do meu irmão que esse negócio de luta contra o machismo é besteira; que ser feminista está fora de moda; e que eu só podia mesmo ser uma piranha pra andar na rua daquele jeito.
26 maio 2012
146/365
Henriqueta
Minha mãe sempre dizia que eu podia ser o que quisesse. Alimentava as esperanças mais puras e espontâneas da menina que queria ser bancária, mas não me libertava. Não podia me libertar. Éramos de circo e a nossa casa era um trailer, que dividíamos com outra mãe e filha. Fui educada debaixo da lona, aprendendo a ler e a contar com fantasias, malabares, bichos. Um registro de nascimento eu tinha, mas não um escolar. E foi difícil, quase impossível, aos dezoito anos, seguir o meu caminho: banco. Tinha fascinação, lia revistas, via na TV. É tanto que, durante anos, minha função no circo era a bilheteria - boa pra contar dinheiro, rápida e eficiente. Não sei se o que mais doeu foi me matricular na rede pública e começar do mínimo possível os estudos, pra ter papel que comprovasse, e, então, fazer concurso, passar, construir uma vida rotineira ou deixar minha mãe. Só tenho notícias dela, agora, quando ela resolve telefonar aqui pra minha agência.
Henriqueta
Minha mãe sempre dizia que eu podia ser o que quisesse. Alimentava as esperanças mais puras e espontâneas da menina que queria ser bancária, mas não me libertava. Não podia me libertar. Éramos de circo e a nossa casa era um trailer, que dividíamos com outra mãe e filha. Fui educada debaixo da lona, aprendendo a ler e a contar com fantasias, malabares, bichos. Um registro de nascimento eu tinha, mas não um escolar. E foi difícil, quase impossível, aos dezoito anos, seguir o meu caminho: banco. Tinha fascinação, lia revistas, via na TV. É tanto que, durante anos, minha função no circo era a bilheteria - boa pra contar dinheiro, rápida e eficiente. Não sei se o que mais doeu foi me matricular na rede pública e começar do mínimo possível os estudos, pra ter papel que comprovasse, e, então, fazer concurso, passar, construir uma vida rotineira ou deixar minha mãe. Só tenho notícias dela, agora, quando ela resolve telefonar aqui pra minha agência.
25 maio 2012
145/365
Geralda
24 maio 2012
23 maio 2012
143/365
Blanca
22 maio 2012
142/365
Mila
Ignorou o frio intenso das 6h e foi jogar vôlei de areia no Pithon. Na volta, antes do inevitável banho, iogurte, granola, banana e pão integral. Não precisava resolver os problemas com licitação na telefônica que trabalhava - acordar assim, nesse ritmo, já fazia com que se sentisse uma heroína. Ligou para o Otto, ouviu coisas bonitas e foi feliz pegar o metrô.
21 maio 2012
141/365
Pâmela
Namorei por uns anos um cara que me sacaneou e eu nunca esqueci. Não posso deixar de amá-lo e não encontro ninguém que me ajude a esquecê-lo. Em vez de cuidar da minha vida, cada vez mais mergulho no horror da solidão. Perturbo ele e a família dele e julgo que sou bem psicopata e esperta, a ponto de fazer qualquer besteira. Mas não conheço as forças que me cercam. Serei presa ou pior, mais cedo ou mais tarde.
20 maio 2012
140/365
Joana II
Meu batizado foi muito bonito. Meus padrinhos disseram que deus me abençoasse e me deram um álbum para fotos e cinquenta reais. Mamãe fez coxinhas e risoles, alguns levaram refrigerantes, papai colocou o som lá fora. Estava frio, mas todo mundo ficou lá em casa até a madrugada. A família inteira - veio até gente de Teresina - me felicitou: avós, tios, tias, primos, primas, primos dos primos, cunhados dos tios, meio irmãos de primos dos primos. Gente que eu gosto e que eu não gosto. Gente que me traz boas lembranças e gente que, descobrirei mais tarde, já me abusou sexualmente.
Joana II
Meu batizado foi muito bonito. Meus padrinhos disseram que deus me abençoasse e me deram um álbum para fotos e cinquenta reais. Mamãe fez coxinhas e risoles, alguns levaram refrigerantes, papai colocou o som lá fora. Estava frio, mas todo mundo ficou lá em casa até a madrugada. A família inteira - veio até gente de Teresina - me felicitou: avós, tios, tias, primos, primas, primos dos primos, cunhados dos tios, meio irmãos de primos dos primos. Gente que eu gosto e que eu não gosto. Gente que me traz boas lembranças e gente que, descobrirei mais tarde, já me abusou sexualmente.
19 maio 2012
139/365
Samantha
Carência - foi afinal o diagnóstico revelado pela terapeuta na sessão de ontem. Queria evitar qualquer relação com depressão e conseguiu. A depressão em si e a vontade de ter depressão se retroalimentam. Mas carência estava de bom tamanho para Samantha e foi nela que conseguiu conectar as tristezas, as raivas, as dores, os problemas de relação e a fala atrapalhada e ansiosa. Sairá esta noite para tentar se curar.
Samantha
Carência - foi afinal o diagnóstico revelado pela terapeuta na sessão de ontem. Queria evitar qualquer relação com depressão e conseguiu. A depressão em si e a vontade de ter depressão se retroalimentam. Mas carência estava de bom tamanho para Samantha e foi nela que conseguiu conectar as tristezas, as raivas, as dores, os problemas de relação e a fala atrapalhada e ansiosa. Sairá esta noite para tentar se curar.
18 maio 2012
138/365
Linda
Nem mesmo numa reunião de comitê para discussão de equidade de gênero da empresa Linda conseguia falar. Tentou interromper, levantou o indicador piscando ao presidente do grupo, mas não lhe deram a palavra. Era um avanço, sim, sem dúvida, mas o comitê fora instituído para cumprir convênio - contrapartida em acordo com uma ONG. Parecia não caber na empresa. Linda era a única mulher e foi massacrada sem sequer abrir a boca. No fim das contas, como resultado, o comitê serviu para angariar brindes para distribuição no dia das mães e das mulheres e proporcionar, nas duas datas, café da manhã a todos os funcionários.
Linda
Nem mesmo numa reunião de comitê para discussão de equidade de gênero da empresa Linda conseguia falar. Tentou interromper, levantou o indicador piscando ao presidente do grupo, mas não lhe deram a palavra. Era um avanço, sim, sem dúvida, mas o comitê fora instituído para cumprir convênio - contrapartida em acordo com uma ONG. Parecia não caber na empresa. Linda era a única mulher e foi massacrada sem sequer abrir a boca. No fim das contas, como resultado, o comitê serviu para angariar brindes para distribuição no dia das mães e das mulheres e proporcionar, nas duas datas, café da manhã a todos os funcionários.
17 maio 2012
16 maio 2012
136/365
Jéssica
Minha irmã é ridícula. Foi dizer à mamãe que o que quer da vida é ser uma mulher de atitude. Ai, que brega. No meu conceito, mulher de atitude apenas é, não anuncia. Mas a Naty tem o destino dela: fazer comida pra marido e lavar roupa, porque ainda por cima a bicha é burra. Digo isso por dois motivos: ela já largou um cara lindo e rico e, dada a largar que é, largou também os estudos. E já estava no segundo grau. É escandalosa, chora quando a mamãe briga. Eu, longe de ser a filha exemplar, ainda me esforço, mesmo reprovando ano sim ano não. Corro atrás, trabalho desde os 14. E quero ser aeromoça e não depender de ninguém. Mas, como mulher de atitude, não vou anunciar. Vou fazer.
Jéssica
Minha irmã é ridícula. Foi dizer à mamãe que o que quer da vida é ser uma mulher de atitude. Ai, que brega. No meu conceito, mulher de atitude apenas é, não anuncia. Mas a Naty tem o destino dela: fazer comida pra marido e lavar roupa, porque ainda por cima a bicha é burra. Digo isso por dois motivos: ela já largou um cara lindo e rico e, dada a largar que é, largou também os estudos. E já estava no segundo grau. É escandalosa, chora quando a mamãe briga. Eu, longe de ser a filha exemplar, ainda me esforço, mesmo reprovando ano sim ano não. Corro atrás, trabalho desde os 14. E quero ser aeromoça e não depender de ninguém. Mas, como mulher de atitude, não vou anunciar. Vou fazer.
15 maio 2012
135/365
Christty Anny
14 maio 2012
134/365
Paula
Meu nome é Paula Castanhola, sou médica dermatologista, com título de especialização pela Sociedade Brasileira de Dermatologia. Tenho 29 anos, um consultório muito bem equipado, elegante e conceituado. Não me casei e não pretendo. Namorava até o ano passado o Felipe, que até então não passava de um concurseiro. Muito carinho, mas pouca objetividade. Chega de falar de mim (e desde já manifesto que não vejo utilidade neste campo em que devemos escrever sobre características pessoais. No que isso interfere? Em todo caso, fui sincera). Escrevo para obter mais informações sobre a produção assistida, por exemplo: como funciona a escolha do pai? Sei que não conhecerei a identidade dele, mas posso escolher tipo físico? A clínica checa antecedentes criminais? Também preciso dos valores de cada etapa e dos dados da clínica com relação a resultados. Aguardo retorno. Obrigada.
13 maio 2012
12 maio 2012
132/365
Lucinalva
Auxiliar de professora de educação infantil de uma escolinha do Cruzeiro, Lucinalva é um poço de desespero. Não pode exercer em seu novo emprego o que é a manisfestação mais genuína de sua própria personalidade: impáfia, crítica e agressividade. Não tem papas na língua, não tem medo de ninguém, mas, infelizmente, deve tanto a tanta gente e loja e banco que tem que aprender a ficar quieta. Mansa.
Lucinalva
Auxiliar de professora de educação infantil de uma escolinha do Cruzeiro, Lucinalva é um poço de desespero. Não pode exercer em seu novo emprego o que é a manisfestação mais genuína de sua própria personalidade: impáfia, crítica e agressividade. Não tem papas na língua, não tem medo de ninguém, mas, infelizmente, deve tanto a tanta gente e loja e banco que tem que aprender a ficar quieta. Mansa.
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