26 junho 2013

Até os dentes

Uma pistola de prata era a extensão braço. Figura reluzente, sobretudo vermelho e antigo. Mancava, herança de uma paralisia. Inexpressiva, os olhos finos sob sobrancelhas negras, o cabelo da cor do vestido e botas. Os poucos dentes muito brancos. Quisera ser implacável, bandoleira, justiceira. E era tão justa que a pistola de prata era jóia inútil, bibelô, um pouco menor que uma original. Não tinha casa, não tinha livros, filhos, caixinha de costura ou bolsa de remédio. Um travesseiro exclusivo, com alguns fios marrons, um perfume de cheiro seu. Apenas um sobretudo vermelho sobre vestido desbotado; olhinhos horizontais e grossos pelos pelo rosto. Feminina tanto quanto permite um andar desigual e um sorriso intercalado.

19 maio 2013

Aimée

Sabia ser delicada, se quisesse. Se quisesse. Viu Pierre chegar e achou seu nome comum e impronunciável; tantos erres lhe tiravam o ar. Conseguiu cruzar as pernas esboçar um sorriso. Pierre acenou - talvez para ela, talvez para a janela - antes de começar. Em vez de se concentrar no que ele dizia - a tão esperada revisão para a prova de francês - fixou-se na curvatura incerta do nariz, na eloquência do jovem professor, nas variantes da voz. Sentiu vontade de arrotar. Segurou a ponta de um cacho e desenhou, canhota, linhas que poderiam esboçar qualquer besteira. Treinou a pronúncia: Pier-re, Pr-erre. Certa de que não se esquecera de nenhum erre. Malditos erres. Malditos ditos confusos, que a faziam parecer boba. Suspirou e desejou ter motivo para um comentário pós-aula. Pierre lhe tirara o ar.

18 maio 2013

Dia qualquer

Começava a esfriar. Entraram em casa como se fosse um dia qualquer: as chaves dela na banqueta, celular e carteira dele no vão do armário (milimetricamente centrais), a bolsa pendendo pela alça na mesma banqueta, o casaco dele no antebraço e os passos apressados, sincopados, até o quarto em busca de um cabide. Ela tirou os sapatos no corredor. Ele colocou as roupas no cesto e reparou no movimento que os ombros dela fizeram quando, de braços erguidos, prendeu os cabelos. Os seios pareciam ter obtido um contorno que os fez simétricos como nunca foram em posição normal. Ela procurava alguma coisa. Ele lhe contava cada pinta, cada manchinha, pelinhos nos braços, os ossos dos dedos e cotovelos, sentia o chulé dela. E os olhos dela estavam intrigados: onde diabos podia ter deixado o esfoliante? Ele resolveu esperá-la, sereno, até que ela veio e, afinal, lhe dirigiu o olhar. Simulou movimentos trêmulos, exagerada, pra parecer engraçada. Era engraçada, muito engraçada. Estava frio. Tomaram juntos um banho bobo, com sopro de espuma e palmas para espalhar água na cara do outro. Sorriam, gargalhavam. Até que envolveram-se, os dois, numa toalha só - velha e gostosa. Desejaram a eternidade, tal como esse dia qualquer, sem filhos, cachorros, patos, um gostando dos defeitos do outro, o outro aprendendo com um. Lennon cantava baixinho em algum lugar. Era uma da tarde; foram para a cama.

04 maio 2013

Nadine

O andar não poderia ser tão equilibrado; as pernas quase tortas e brancas. Queria ter saído artista, talvez expert em instrumentos musicais. Achava bonito. Não gastava o precioso tempo que tinha com exercícios físicos, discussões ou fofocas, mas era absoluta a certeza de que morreria cedo. Decorara Faroeste Caboclo. Gostava de shorts, sorvete de morango, biografias. Os cabelos sem corte passavam dos ombros - no enquadramento não havia orelhas. A teologia a encantava, ainda que não fizesse segredo de sua agnosticidade. Sem vocação para o excêntrico, passava despercebida aos outros, comia hot-dogs, via filmes numa sala cult, tomava vinho e sorvia coisas. Era o que Gil tinha a dizer sobre a mulher que considerava a mais interessante de todas.

29 março 2013

Mondo vero

Deitei. Meu estômago doía; o tumor já se mostrava sem pudores, deixava a covardia. Não disse nada. Não fiz exame algum. Meus filhos comentaram minha palidez, sem mais preocupações. Voltei de Nápoli realizada, esquecida do anúncio fisiológico de que o fim de aproxima e acabei por contagiar minha família. Naquele domingo, antes de deitar, vi grandes sorrisos, covinhas nas bochechas denunciadoras tanto de alegria quanto de parentesco. Vi gestos, abraços, beijos, brilhos de cabelos. Senti cheiros intensos, sabores e ouvi gracejos, afagos. Fragile, na cama, pus os dentes a rezar. Grazie.

13 março 2013

Penélope

No banho, você cogita situações, ensaia discursos, diálogos, respostas. Você se imagina em seu próprio leito de morte, pedindo a alguém próximo que chame por ele. Você o vê chegar, tentando bancar o indiferente e dizendo algo como "diga logo o que quer, porque tenho compromisso", olhando para um pulso sem relógio. Você, com a calma dos que estão mais mortos que vivos, o rosto lilás e a voz rouca, lhe despeja na cara verdades engasgadas. Não com crueldade, mas com ar educativo: "vês? percebes?". E ele, afinal, deixa as lágrimas correrem, pede que o perdoe, se diz lamentoso por você estar ali, naquela situação, que queria que tudo tivesse sido diferente e. A merda é que não passa de devaneio. E logo você se enxerga saudável e ensaboada.

17 fevereiro 2013

Janderson Alexander
 
- teus cheques sempre voltam?
- via de regra.
- é?
- é. Quando tem saldo, compensam. Quando não tem, o banco devolve.
- e a loja?
- a loja me chama. Não vou.
- criatura!
- quê?
- teu nome sujo na praça.
- nem ligo. Tenho que comer.
- e o cartão?
- usando o máximo e pagando o mínimo.
- criatura!
- quê?
- isso não se faz. Que vão pensar?
- que tenho que comer.
- comer? Tu come ouro? Ajeite essas contas.
- que contas? Tá tudo certo.
- criatura!
- quê?
- os papéis...
- são só papéis.

04 fevereiro 2013


Uma loja de beleza qualquer

- Volta pro Goiás, porra. - Bradou e deixou o choro chegar. Antes fosse o pobre roda presa o motivo de seu desespero. Vira, desavisada, o seu Jonas aos beijos com outra em frente a uma loja de beleza qualquer. Seria dela, da vagabunda? Às nove da manhã, como ousara o cachorro! Sai, deixa Beatriz na escola e se declara rumo ao trabalho. E ela, desconfiada, deu um giro pela Comercial Norte.Batata! Mas faltou coragem para um escândalo. Voltou pra casa. Soltou a bolsa e o coração em um canto, tirou os brincos pesados e desatou as tiras da sandália.

29 janeiro 2013

Algo sobre Malu de bicicleta

Terminei de ler, pela segunda vez, Malu de bicicleta, do Marcelo Rubens Paiva. Curioso eu não lembrar nada da primeira leitura. Costumo gostar muito dos livros dele. Esse tem um narrador bem babaquinha, um galinha fútil, mas que se apaixona, se casa e se vê, de repente, desconfiado da fidelidade da esposa, a Malu. Se redime. Clichê? É, pode ser. Mas MRP tem um texto gostoso e muito visual. A gente enxerga as cenas. Talvez por isso tenha inevitavelmente inspirado um filme homônimo – que não vi ainda. Nada para revolucionar o mundo, mas é um livro bem divertido. Gosto de textos bem estruturados, fluentes, criativos e sem pudores. Bom começar o ano com ele.

24 janeiro 2013

Desquite
 
Ele me desmentiu. Fiquei com a cara no chão, sem reação. Todo mundo notou - a casa cheia de amigos. Desmentiu a mulher que dobra todos os dias o cuecão de dormir, que barbeia, que invariavelmente escuta, acolhe, perdoa. Que chancela todas as idiotices que ele diz. Que fica dengosa quando ele quer uma dengosa, ou fatal se ele quer uma fatal. Desmentiu o que eu disse, sem pestanejar, me deixou calada, humilhada. Já faz mais de um mês e não consigo esquecer. Vou mandá-lo embora.

31 dezembro 2012

365/365
Maria

Foi comprar fermento na padaria da QNM 22. Na volta, como que atendida por um pedido de ano novo ainda não feito, ouviu Miguel chamá-la: "vem me dar um abraço de feliz 2013". Desceu da bicicleta, com a sacolinha na mão. O amigo passou os braços fortes por suas costelas e a suspendeu no ar. Trocaram os cumprimentos tradicionais ao pé do ouvido. Ele roçou a barba no pescoço dela. Desceu a mão até o coz do shortinho e, como quem não tem algo melhor pra fazer, colocou os dedos. Ela tentou beijá-lo, mas ele desviou, detendo-se, concentrado, a alegrar o fim de ano da amiga. Virou-a com habilidade, tocou os seios e a fez arfar. Sem avisar, parou. Beijou-a no rosto e disse "vá pra casa". Ela sorriu.

30 dezembro 2012

364/365
Bernardina

Esquecida. Perde dúzias de óculos todos os anos, chinelos, lenços, chaves, canetas, datas. Lembrou-se de comprar um calendário 2013: "sou tão esquecida, preciso de calendário". Em casa, viu que tinha esquecido que já havia ganhado dois. Esquecidos são assim, gastam mais e perdem mais tempo. Ainda em novembro, inseriu no celular o compromisso de fazer uma limpeza de fim de ano até o dia 30. "Graças a deus, senão não ia fazer!". E encontrou o telefone do rapaz que conheceu no caixa do supermercado há meses - nunca ligou... e ele poderia ser o homem de sua vida -, a coleira de Fulô, o guarda-chuva pink que adorava e nada menos que duzentos DVD com seus filmes prediletos. Saldo positivo. Decidiu que vai dar dois calendários de presente e convidar o rapaz do supermercado para passar o reveillon com ela no sofá, chorando e rindo, com pipocas.

29 dezembro 2012

363/365
Josefa

Conheceu um chileno, como um presente de fim de ano. Louro grisalho, magro, bem humorado. Rodou por Belém inteira com ele, ofereceu comidas típicas, botou o sexo em dia (quantos anos!). Adorou voltar a beijar. Apaixonou-se sinceramente por Ricardo e acha que ele por ela. Têm gostos muito parecidos e rotinas calmas; expuseram planos de viverem juntos. Mas faz duas horas que ele levantou da cadeira - assistiam a um filme antigo - e disse que ia comprar cigarros. Já chorou alguns litros, num pré-desespero-auto-comiserativo típico dela.

362/365
Edma

Minha empresa é sucesso. O lucro vem crescendo, os nossos serviços são referência no bairro, minha equipe é integrada, colaborativa, focada. Mas, céus, por que ninguém nunca quer fazer amigo secreto? Quando proponho, um assovia, uma olha pro alto, outra rabisca alguma coisa, outro me olha fixamente e diz, com uma sinceridade polida: não vai dar, já tenho compromisso.

27 dezembro 2012

361/365
Alzira

Começou aos 12, com dois garotos. Ela mandava e eles obedeciam. Em algum tempo, hormonalmente não poderia ser diferente, começaram a desenvolver brincadeiras sexuais na mesma linha: ela, rainha; eles, vassalos. Hoje, Alzira sustenta os mesmos seios enormes, a mesma boca sensual que tantas ordens despejou aos meninos da infância, um corpo ainda muito atraente, mas uma ojeriza a sexo. As amigas só falam em Grey e ela se entedia. Tem 40, é solteira e abstêmia.

26 dezembro 2012

360/365
Zenaide

Enrolada em si, encolhida e suada, entre a caixa d'água e o muro, via a sombra do monstro, que se arrastava devagar. Se não cria em deus, pediria a quem para tirar por milagre de seu corpo qualquer odor que atraísse o bicho? Mas pedia, pedia, pedia - e com fé. Se fosse fã de thrillers, poderia até imaginar uma música terrível de suspense ao fundo. Mas o silêncio só era quebrado por um pagode longe, longe, talvez na rua da baixada. O monstro movia a cabeça lentamente à sua procura e dava passos pesados que davam a ela a localização exata dele. Zenaide tremia. Da boca pingava sangue de toda a família dela, que ele tinha acabado de matar. Faltava uma.

359/365
Ellen

Arrependeu-se de ter tido vontade de resgatar o passado e ir à cidade dos pais. Quando chegou com o menino, já adulto, todos diziam: "nem parece neto do Juvenal. Parece filho". E aquilo fazia eco, como que para torturá-la. Grávida do próprio pai, fora expulsa de casa por ele e pela mãe: "virou vagabunda, foi? Tá dando pra qualquer um na rua?". Na rua? Queria ter respondido à mãe que não engravidara na rua, que havia sido o próprio pai que a estuprara. Até o retorno à cidade, ninguém tinha tido notícias suas ou do menino, que ela criou com muito cuidado. E ele, irmão/filho, cuidava dela também e, como se intuísse desgraça, nunca ousara perguntar pelo pai.

24 dezembro 2012

358/365
Maria Cláudia

Comprou velas, luzes pisca pisca, árvore de plástico, bolas coloridas, ave temperada congelada, fios de ovos, passas e um espumante. Trocou o gás. Chamou o Adalto para fazer as gambiarras. As paredes vão ficar descascadas mesmo, paciência. Mas, logo mais às 18h, quando chegar, enquanto o forno esquenta, vai fazer o faxinão no barraco. Convidou a vizinhança toda, mas poucos virão. Vai esperar chegar perto da meia-noite para telefonar para os pais, os irmãos, os primos, os tios, a família toda em Mossoró.

357/365
Ticiana

Aproveitou as férias. Andou de metrô em Brasília, visitou o Catetinho. Ganhou da prima uma saia jeans, dois tênis e uma blusa roxa. Foram ao shopping comprar calcinhas e um panetone. Estava perto do Natal e ela se sentia realizada. Esquecera sua terra. Na volta para a Ceilândia, passaram na casa de dona Juju pra tomar os passes. Fez perguntas e foi embora sem respostas. Vai esperar a virada do ano e comprar passagem de volta.

22 dezembro 2012

356/365
Diná
Feia, desceu do carro com bolsa, sapatilhas e blusa combinando – amarelas. Um short jeans largo e desengonçado, com uma lavagem de 1980, cuja suposição de sensualidade ignorava as canelas finas. Tinha os ombros arqueados, os olhos fundos dos quais não saía brilho algum e duas bem torneadas bolas de blush nas bochechas. Cabelo sujo. Andava sorrindo, ajeitando a bolsa, sem olhar ninguém. Absoluta.

21 dezembro 2012

355/365
Augusta

Não me respeitam. Desde que estou presa a esta cadeira, não opino, não me ouvem, não decido no que gastar nem mesmo o dinheiro da minha pensão. Fazem procedimentos de higiene quando bem entendem. Passeios com banho de sol quando lembram. Talvez já tenha completado uma semana aqui, trancafiada. Comida nos horários convenientes. Se manifesto fome, dizem que devo esperar um pouco. Fazem conchavo, já os peguei cochichando. Ratos.

354/364
Eva

Me dê um dinheiro? Então algo pra comer? A senhora viu que eu nem tenho chinelo? Não se importa, né? Também nesse carrão, né? É bom ser rica? Isso aí é um ipad? A senhora não deixa eu mexer, né? Nem adianta pedir, né? Não tem nem um biscoito?

353/365
Valda

Deu queixa e entrou no programa de proteção da Maria da Penha. Trocou de telefone, largou apartamento, pai e mãe. O nome está em processo de mudança: talvez Kátia, talvez Narilu, talvez Telma. Pediu sigilo na transferência na CAIXA e foi trabalhar na agência Chico Mendes, um barco-banco, no Amazonas. A situação crítica provocava nela uma sensação que ela conceituou como adrenalínica, que misturava medo e excitação. Sim, era estudiosa, teórica. E, sim, estava, enfim, no centro das atenções de muita gente, apesar de clandestina.

18 dezembro 2012

352/365
Socorro

Nasceu sem as mãos. Não sente falta. De vez em quando se pega pensando o que faria se, em vez das mãos, lhe faltassem as pernas. Agradece aos seus orixás e pede veementemente que a mantenham inteirinha tal como nasceu, que a protejam de eventuais acidades. Ui, nem quer cogitar. Adora correr e dançar.
351/365
Alessandra
Tudo na mala e mamãe tem coragem de me perguntar o que quero de Natal. Nada, minha linda, só que você venha comigo. Aluguei uma casa em Alto Paraíso.são doze comigo e a senhora não? Por favor. Disse pra eu esquecer, que essa coisa de fim do mundo é a maior baboseira que já ouviu. E eu tive que aprender, assim na marra, que cada um segue o seu caminho. E o de mamãe, parece, é esse: morrer junto com grande parte dos humanos da Terra, ainda que avisada. Pobre, mamãe.